Sinking Ship
4 Capítulo 2
- Você é patética.
- Sou, desde quando se importa? – ri debochada, era só o que me faltava – Quer saber? Chega, tá legal.
- Achei que já tivéssemos...
- Então sou eu que pergunto porque diabos veio me procurar! – gritei, meus olhos já estavam ardendo – Achei...
- Me importo com você. Nós somos uma família! E Joanna? – perguntou intrigado.
- Agora que se lembra que temos uma família, uma filha? Não me faça r...
- Pois você fala como se fosse uma mãe exemplar – cortou-me -. Não me venha com essa, ela não sabe nem sequer seu nome inteiro!
- E você preferiu deixá-la com seus pais! Cala a boca, Moss.
- Não seja tão rude. Sabe que não tenho tempo para cuidá-la, nunca a deixaria atirada pelos cantos daquela casa enorme, sozinha...
- VOCÊ é patético. Não entende que poderia deixar essas babaquices e ficar com a garota? Seus pais não tem paciência alguma.
- Você se acha autoritária de mais, pra que não faz nada...
- Autoritária? – ralhei, o mataria naquela instante se pudesse.
- É. Eu tenho meus negócios, sempre soube que tive! E vejo Jo todos os dias.
- Nossa, criou intimidade agora? E negócios? – franzi o cenho – Sinceramente. Você nos prometeu que não se envolveria mais nessas porcarias.
- Não é fácil como imagina.
- Sei como é. Sabe como nos conhecemos. Talvez tenha sido um grande erro.
- Ótimo, Jo adorará saber que sua mãe trocou-a pelos livros.
O fitei incrédula, com um sorriso enviesado ao canto da boca.
- Se você interferir na minha vida... e na de Jo, você vai se arrepender de ter nascido.
- Ela é minha filha.
- Ela é nossa filha – sorri, puxando a bolsa de cima da mesa de centro e saindo pela porta descascada do apartamento.
- Ro-- — foi o último que ouvi. Doía, não é mesmo?
Eu estava transtornada. Talvez tenha esquecido de até mesmo citar que tínhamos uma filha. Mas olhar nos seus olhos novamente doeu, e aquilo ainda palpitava meu coração.
Ele tinha sentimentos, eu os contemplava, mas não os suportaria por muito mais tempo.
Talvez tenha esquecido, também, de dizer que agora estou escrevendo a história do meu próprio romance.
O telefone tocou enquanto tomava banho. Minha pele estava ardida, não sei o porquê, apenas sentia uma dorzinha lá no fundo. E a cabeça estava estourando.
Estendi o braço pela borda da banheira e apanhei o celular encima da tampa do vaso.
- Hum – resmunguei em protesto.
- Conhece-me ainda? — a voz cantada perguntou, tirando-me um sorriso fraco do rosto.
- Tem como não conhecer? – ri fraquinho. Ele era estúpido e adorável.
- Quer sair?
- Na verdade não. Estou meditando.
- Yoga?
- Banho.
- Compreensível.
- Exato – sorri internamente -. Vai fazer o que hoje?
- Tocar. Temos um show à noite, naquele PUB do centro, o Cheddar’s, conhece?
- Receio que sim. Isso seria um convite?
- Se levas como um, posso dizer que sim. Aceita?
- Pensarei. Se não se importar...
- Tudo bem. Romancistas devem pensar – riu fraco, sorri do outro lado da linha.
- Até mais.
Eu não queria me enganar. Não estava me enganado, mas estava caminhando em direção ao engano. E isso doía. Doía porque eu precisava dele, só o abraço dele me fazia feliz, só o beijo dele me levava a loucura, só os olhos dele faziam-me perder no azul da imensidão. E confesso, acho que só ele pudesse causar isso em mim.
Bem, empatar minha vida não seria uma boa escolha, já que eu acabaria derrotada, como de costume.
Eu pergunto-me a cada momento porque as coisas acontecem comigo. Não que eu seja santa, ou que não mereço... Só que às vezes acho que para uma romancista, eu sou muito fraca.
E digo fraca. Fraca, não por chorar... ser fraco é o oposto de ser sensível, ao menos pra mim. Sou fraca, não sou romântica e sou uma romancista? Sou uma romancista não-romântica problemática. Acho que isso me definiria melhor.
Não sei o porquê de tanta desavença entre eu e minha própria vida. Eu odiava o amor da minha vida pelas drogas, odiava as drogas — mas elas faziam parte da minha vida — odiava bebida e era ela que me animava e estava – de certa forma – ao meu lado quando precisava.
E bem, eu tinha uma filha. Eu tinha uma filha que nunca quisera ter, admito. Por mais incrível que pareça foi Moss que cuidou dela sempre. Foi Moss que deu amor a ela, que esteve ao lado dela. O resto do tempo passara com os avós, eu a via muito pouco, ela nem sequer sentia minha falta...
Talvez sentisse. Mas eu não conseguia olhá-la. Ela era igual a Moss! Seus olhos eram tão azuis – se não mais – intensos quanto os de Moss. E até a gargalhada dela me lembrava Moss – mesmo que fosse difícil ouvi-la gargalhar.
Talvez Moss me odeie por não gostar da menina. Aliás, eu própria me odeio por isso, mas eu não conseguia olhá-la, e sabe, lá no fundo doía. Não faço idéia do que sentia por mim, eu nem sequer sabia sobre seus gostos, nem sequer sabia o que gostava de comer. E... Eu me sentia culpada por isso.
Eu sempre dei a ela presentes de Natal, às vezes telefonei, mas sempre lhe desejei um “Durma com os anjos”, por mais que já tivesse lá seus 14 anos.
Faziam exatos quatorze – ou quase – que eu a ganhara. Faziam quatorze anos que eu me lamentara pela besteira que fiz.
Eu a tive com quatorze anos. Quatorze estúpidos anos! E digo que minha vida sempre foi uma merda. Talvez eu tenha achado aos poemas um refúgio, talvez eu nunca tenha tido algum sentido... Mas eu me sentia mal. Me sentia mal por mim, por ele... e por ela. Conhecer Moss fora um erro, amá-lo ainda era um, e depender do sorriso dele sempre seria.
Naquela noite aceitei o convite, porque não aceitaria? Precisava me divertir, talvez até repensar a vida... Mas não era o momento. E a bebida descia pela garganta mais uma vez...
- Sim, então ela se virou pra mim e falou \\\'Oh meu Deus, você não tem sentimentos? Eu estou quebrada e você nem ao menos se importa!\\\' e saiu correndo e chorando – explicava gesticulando e rindo, levando o liquído a boca e sentindo uma alegria momentânea tomar-lhe espaço.
- Mas ela é sua filha!
- Sei que é. Mas já tive a idade dela. Trabalhei muito, me apaixonei, sim, mas passei por coisas piores. Enquanto não quebrar a cara, não aprenderá a viver – explicou novamente, rabugenta.
Vez ou outra coçava os olhos, bebida lhe fazia mal.
- Rose, querida, acho melhor irmos pra casa...
- Não, eu estou bem. Aliás, nem casa tenho.
- Rose, você não pode b—
- Você vai me impedir? Deixe-me SOZINHA.
- Mas...
Lançou-lhe um olhar mortífero e voltou a atenção ao rapaz entediado à sua frente.
- E aí, o que achou do show?
- Er, foi legal.
- Gostei mais da festa – sorriu, levando o copo a boca mais uma vez.”
Não ficava bem. Sempre soube que me fazia mal. E fiquei pior ainda quando acordei.
Estava num quarto mal iluminado – ou eram meus olhos, porque não queria abri-los rapidamente -, haviam sussurros fortes banhando o ambiente, e um peso junto a cama. Alguém estava sentado.
- Eu cansei, papai. Eu a odeio! ODEIO! Ela não me ama, nunca fez nada por mim. E se ela acha que eu a amo por conta de presentes de Natal, por favor, papai... diga a ela que prefiro não ganhá-los...
- Jo, controle-se...
Uma porta bateu, ouvi um suspiro e senti um calafrio pelo corpo. Nunca me amara...
Minha mão estava quente. Mas porque diabos só uma delas estava?
- Rose... não posso te ver assim.
- Não posso te ver fingindo – sussurrei baixinho, desvencilhando-me de suas mãos.
- Você precisa descansar...
- Não me importa. Deixe-me sozinha, certo? – lembrei-me da noite anterior, com dificuldade – Aliás, que diabos eu estou fazendo aqui?
- Você passou mal, ligaram lá pra casa e...
- SUA casa, não é mesmo? Depois daquilo—
- Deixe de ser orgulhosa! Não tem onde morar.
Bufei baixinho, era verdade, tinha razão. Encarei-o nos olhos e o mundo sumiu, o chão se abriu, só havia eu e ele, os olhos dele, a expressão triste dele... e havia uma aliança pendurada em seu pescoço, e uma em minha mão... E então ele sorriu fraquinho, e eu senti os joelhos vacilarem – porque eles só vacilavam por ele -, e senti o coração bater mais forte, o cérebro latejar. Algo flutuava no meu estômago, mas o friozinho não estava mais lá. A determinação levou-me a dar um passo, dois, a olhá-lo nos olhos mais uma vez e sorrir.
Senti um braço passar por meu ombro, segurar-me as costas, levando-me mais pra perto. E a respiração descompassada agora estava no meu pescoço, e os lábios chocavam-se com a pouca pele exposta na altura dos ombros. Os seus cabelos roçavam-se na ponta do meu nariz, e o cheiro de shampoo percorria minhas narinas, atingindo-me em cheio.
A outra mão firmava-se a minha cintura, nós poderíamos dançar ali, talvez flutuar, não existia mais nada... não haviam mais problemas. A dor de cabeça passara, o sorriso... também. Não tinha mais forças, não movia mais nenhum músculo. Não mais tinha seus olhos nos meus. Os olhos cerrados, tudo escuro – e então branco, e ele... então eu. E uma luz no fim do túnel, o cheiro dele voltava as minhas narinas, a boca dele já podia ser vista, e os cabelos sentidos...
Levou as duas mãos as laterais de meu rosto, sorriu, e então me beijou. Ambos os pares de olhos se fecharam instantaneamente, e o sorriso antes do beijo surgiu. Colou os lábios no meu – mas o sorriso interno continuava lá -, então senti a pele queimar, o coração parar. Tudo parou. Parou novamente. Não se ouvia nada. Silêncio... A língua buscou a companheira, meus lábios foram abertos, o gosto doce de amor envolveu-me novamente. Três meses. Não havia mais nada com que me preocupar. A respiração parara, as pernas estavam fracas, os olhos fechados para qualquer coisa, a alma estava feliz...
Estava com ele.
Se eu morresse naquele instante, seria melhor do que viver eternamente ao seu lado. Não haveriam outras pessoas, não haveriam brigas, as recordações ruins haviam se apagado, e eu morreria feliz. Não haveriam mais problemas, não haveria mais nada. Só haveria a sensação estupenda, a luz dos seus olhos... mesmo que fossem em memória fresca.
Não sei exatamente em que instante o beijo partiu-se. Não sei se falou algo, estava fora de mim. Estava sendo puxada de volta para a realidade, para os problemas... para as recordações ruins.
E a lágrima quente escorreu o rosto, o sorriso sumiu, o coração voltou a bater, tão fraco... E a dor de cabeça voltou pior do que nunca, as vozes ecoavam pelos ouvidos, as vozes tumultuadas...
E a gêmea lágrima escorreu novamente. E então veio outra – eram trigêmeas agora – e mais uma, e outra... E eu já tinha perdido a conta de quantas rolaram.
E a pontada foi forte, foi tão forte... Mas ainda não me derrubara. Tentei me virar, não sentia os pés, mas me virei. E vi o rosto triste, pálido encarando-me. Como havia crescido! E era tão bonita... e era tão bonita. E não tinha brilho nos olhos, não tinha cor alguma na pele... e não tinha luz na alma, como podia?
Estava apagada, esfumaçada, mas diferente dos objetos que me rodeavam. Estava apagada naturalmente, o coração não batia por naturalidade, devia ter congelado, virado pedra... não devia nem ao menos senti-lo.
E doeu! E as lágrimas cessaram. E eu queria dar meia dúzia de passos e abraçá-la, reconfortá-la, dizer que tinha alguém com quem contar...
O fiz. O fiz e doeu ainda mais. Doeu insuportavelmente. As lágrimas voltaram, o rosto dela ficara ainda mais triste, tão doloroso... aperto. Os olhos agora estavam tão claros e... só existiam eles! Os olhos, ali, pairando, o azul me encarando... com um misto de confusão. E a dor estampada, pregada, cravada... a dor sangrava, doía, e era sentida. E mais insuportável a cada momento, a cada fração de segundo...
A nuca enrijeceu, os olhos arderam, o ar cessou. Novamente. As pupilas estavam dilatadas, tomadas de ódio, pareciam haver fendas escorrendo por seus olhos.
Girei. E mais um par de olhos me fitava. Dois pares de olhos iguais me fitavam! E tudo parou. A dor, menos a dor. Tudo menos a dor, a sensação de medo... eu estava desprotegida, queria ser acolhida, mas ao mesmo tempo não ser.
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