­   O mar pedia briga e eu estava derrotada. Estava dando minha cara à tapa, eu precisava de soluções, talvez descansar. Mas a cabeça latejava, ainda, e o coração doía, e eu tinha sumido...
  Tinha abandonado minha suposta casa, e também tinha abandonado à mim mesma. Certa vez Sócrates disse que éramos a alma. E então nem alma mais eu tinha.
  Estava perdida no meu próprio eu, estava quebrada, a dor era pra sempre, não sairia, não sumiria.
  E me lamento por ser fraca. Por tudo que fiz. Se pudesse voltar, consertar, mas nem forças pra pensar nisso eu tinha...!
  Era uma guerra onde não podia me proteger. Uma guerra onde a única saída – se não sofrer – era morrer. E eu nunca fora forte. Não sabia sofrer.
  Dizem que as pessoas aprendem certas coisas com o tempo. Dizem que melhora, e eu acredito. Mas quando as pessoas querem. Agora, força pra isso, eu não tinha. E doía.
  Eu queria desistir. Acabar-me em algo. Então eu até mesmo entendia o lado de Moss, por mais que continuasse sendo difícil. E eu me tocara que tinha uma filha! Que tinha alguém que tinha o sangue correndo nas veias igual ao meu. E eu lembrei de seu olhar, e doía tanto, tanto. Eu tornara-a algo igual a mim, e eu sabia o quanto doía, e só de pensar que tinha mais alguém assim, doía – doía em dobro.
  E agora o sol se fora. Pelo ao menos ele me aquecia. A areia estava gelada, o coração queimava, as mãos formigavam e os olhos ardiam... mas a dor, a dor permanecia.

­   Fui dormir na casa do tal famoso. É, ele era legal, e eu conseguia esquecer de chorar algumas vezes.
  Doía sim, doía.
  Porque eu estava sendo dele, enquanto minha alma era só, somente de Moss. Mas agora nem alma mais eu tinha, não tinha ele. Francamente, de que adiantaria?
  E tudo foi em vão. Os dias, os sorrisos, eu não os tinha. E eu os queria. Eu queria minha família de volta, mas já era tarde... e as coisas pareciam só piorar.
  Moss descobrira que eu estava me envolvendo com outro cara, e ficara furioso. Ele me amava. E o cara devia uns papelotes pra ele, ou não se cruzavam, na verdade não me importava em saber.
  Na verdade o cara me perseguia. Ele me queria, ele me desejava. E eu aceitava, porque eu não conseguia mais ceder, ele provocava, eu queria esquecer...
  O cara me perseguia e Moss o perseguia. E isso se tornou algo sério. Talvez até sério de mais.

  Eu me tranquei por uns dias na mansão que havíamos comprado em busca de construir uma família feliz. Mas nunca dera certo. Talvez as lembranças que o lugar me trazia pudessem me reconfortar. E foi o que fiz.
  Eu passei meus dias lá, estirada no chão, vezes escrevendo. Eu pude depositar tudo que sentia nas palavras, podia me sentir mais leve... e isso era reconfortante. Mas ainda doía. Porque eu estava triste por Joanna. Eu estava realmente perturbada por vê-la daquela forma, se acabando na vida, perdendo tudo. Eu queria poder voltar atrás.
  Mas ainda tinha solução. Eu devia dar a volta por cima, me sentir viva, amada, fosse da forma como fosse. A dor estaria sempre ali, mas eu podia tapá-la. E agora eu queria isso. Queria isso mais do que esquecer tudo, mais do que... sumir.

­   O gemido soou mais alto, dessa vez a investida fora mais objetiva, e ambos sentiram o prazer, o alto prazer...
  Nossos beijos eram quentes, cheios de desejo, e apesar deles não me levarem aos céus, me traziam um calor confortável. Um doce calor confortável.
  Uma porta bateu, outra, e uma chave foi girada...
- QUE MERDA É ESSA, ROSE? – perguntou, furioso, os olhos estavam tão dolorosos, o cigarro entre os dedos, equilibrado, caiu no chão e queimou o carpete, formando uma rodinha – QUE...
  Chris rolou para o lado. É, acabei descobrindo que o nome dele era Chris. E era problemático. Mas não era o momento de eu falar nele, definitivamente.
- ...Merda é essa... – sussurrou.
  Mais uma pontada. Senti o estômago embrulhar e virei-me pro lado, enrolando-me nos lençóis amarelados.
- Moss... – sussurrei, aproximando-me, fechando os olhos.
  Quando os abri novamente, Chris estava ao meu lado, de boxers, com um cigarro entre os dentes, e o quase ralo cabelo bagunçado...
- Cara, cala a boca. Isso é hora de dar showzinho? Acabamos de sair de um orgasmo – riu e virou-se.
  Os lábios abriram-se em protesto, mas tornaram-se a fechar. E os olhos voltaram-se para mim, em piedade... E doeu.
- Moss...
  Deu alguns passos e estacou-se antes de colidir com a porta.
- E rir meu riso, e derramar meu pranto – falou baixinho, e virou o pescoço e me fitou. Sorriu fraquinho. Então eu o acompanhei no sorriso.
  E lançou-me mais um olhar intrigante, saiu dali, bateu a porta, bateu outra, mais uma... E o único que ainda ouvia é o sinal do trago leve e dançante do cigarro, equilibrado entre os lábios quentes e carnudos... e provocantes.