Sinking Ship
10 Capítulo 8
Capítulo 8
A brisa suave e fresca tomava-me o corpo, e chocava-se com minha respiração, que por mais que fosse impossível deduzir, estava calma e leve. A cabeça flutuava em algum lugar distante, e apesar de me sentir bem, alguma coisinha me intrigava, lá no fundo do peito.
Quando abri os olhos e vi-me fugir do lugar distante, deparei-me com a sombra árvore florida cobrindo-me, ainda. O céu estava azul piscina, puxando para um leve tom de verde, e isso me fez querer ganhar asas e voar para longe dali. Longe dos problemas, das angústias...
Um pássaro azul escuro cruzou o céu, e vi a nuvem escura e inchada aproximar-se da pequena cidade, ao longe. Ouvi o barulho do trem, passando pela ferrovia próxima, e pude sentir-me com meus quinze anos novamente.
Lembrei-me de que apesar de não conseguir gostar de Jo, levava-a sempre ao parque, e era lá onde minhas mágoas costumavam serem guardadas.
Senti o celular vibrar no bolso e o apanhei. ‘Nunca atender’. Era a definição de nome para o que eu sabia ser Jo ligando. Mas, a filha?
Atendi receosa, levando o celular com a mão trêmula ao ouvido.
- Mãe? – a voz fraca e chorosa do outro lado ponderou, soluçando.
Mordi os lábios. Minha filha... Estava me procurando? Seria um sinal de que me perdoaria? Mas chorava... Sentiu o nó de culpa formar-se novamente à garganta. Engoli, e sussurrei fraco:
- Jo... Anna?
- Mãe! – soluçou alto e ficou por segundos fungando baixinho – Mãe...
- Você está bem? – ‘Ora essa! Era óbvio que não’ Perguntei incerta xingando-me baixinho depois.
- Nós poderíamos nos ver amanhã? – passou a língua pelos lábios secos, ainda nervosa – Se você puder... Eu... Preciso conversar.
- Não quer me contar...? – Senti o peito contrair-se, fechei os olhos e passei a mão por um deles, em sinônimo de cansaço.
- Eu preferia conversar com você amanhã... Pode ser, não pode?
- Mas é claro... Aonde? – respondi perplexa por sua mudança repentina.
- Podemos... Deixe-me ver – Jo teria que sair dali, deixar pra trás, fora tudo culpa do pai... – Um... Café às onze?
- Da manhã? – mordi o lábio, teria que ver Chris ainda hoje, pra minha infelicidade – ou felicidade.
- Isso. Tudo bem?
- Receio que sim. Cheddar’s? – sugeri, sempre me foi conveniente.
- Certo. Er... – mediu as palavras, com medo – Obrigada.
Sorri do outro lado da linha, escutando o irritável som do ‘Tututu’ tomar o espaço da voz anterior.
Puxei a bolsa — que estava apoiada na grama fofa, em pé a um caminho de pedras, que cercavam a árvore na qual eu sentara — puxando de dentro dela as chaves do carro, abrindo a porta do Citroen C-5 Break azul marinho.
Entrei no carro, soltando o ar e jogando os cabelos, juntamente com a cabeça contra o volante. Levei as mãos à testa. Suspirei. Eu estava mais confusa do que podia estar. Mas decidida de que daria a volta por cima, e o topo de meus objetivos era reconquistar Jo. Não me pergunte o porquê de ter mudado de idéia abruptamente, ou de personalidade, apenas... Apenas mudei. Não me diga que pessoas nunca mudam, eu conheço o macete, concordo, mas sabe... Eu não havia mudado, eu sempre fora a mesma. Leve como um fato duvidoso, eu só queria reparar meus erros.
Olhei o retrovisor, meus olhos estavam mais brilhantes que o normal. O azul estava mais forte e intenso que o normal. Senti-me bela, senti-me bem, feliz... Mas eu ainda queria ser amada. Queria que Jo, quando me visse, corresse para meus braços, queria senti-la de forma que não pude quando era pequena. Queria que fosse minha pequena, queria apagar as lembranças, retomar a vida... Levar minha profissão adiante, mas não de forma obsessiva. Há como compreender?
Eu já quis tanta coisa. Apagara-as, esquecera-as, mudara de idéia tantas vezes... Mas agora pela intensidade dos meus olhos eu via que era isso mesmo que queria. Não só o que queria, mas também o que devia fazer. Eu não deixaria isso pra trás...
Parei o carro na frente do prédio de Chris, saindo e logo em seguida batendo a porta e acionando o alarme de barulho irritante. Não me preocupei em pedir autorização alguma de porteiro algum, já que nem sequer estava ali. Poupei-me do elevador e subi as escadas calmamente, sem a mínima vontade de deparar-me com ele estirado no sofá, bebendo cerveja e vendo algum filme inútil.
Após umas doze levas de escadas, cheguei ao sexto andar, deparando-me com um corredor bonito e bem conservado. Suas paredes eram de cor vinho, com gesso branco impecável contornando o teto, já as extremidades eram trabalhadas com texturas. Em algumas portas haviam folhagens bonitas e tapetes enfeitados. Na de Chris, uma samambaia ao lado, caindo os pedaços. Tapete? Servia pra quê mesmo?
Girei a maçaneta, mas a porta não estava aberta. Um milagre. Pareceu que tudo tinha mudado desde então.
Toquei a campanhinha e aproximadamente um minuto depois vi Chris abri-la com uma cerveja nas mãos. Um sorriso formou-se no seu rosto, cobrindo o tom de tédio anterior.
- É bom revê-la – puxou-me para um abraço, e eu senti meu queixo chocar-se com seu ombro descoberto e ligeiramente morno. Era gostoso abraçar alguém.
- Digo o mesmo – fingi um sorriso, ele estava estranhamente feliz, com ares estranhamente apaixonados, e eu com certo nojo de sua inseparável cerveja. Mas algo queria que eu sorrisse.
Lembrei de Jo. Eu precisava ficar bem, eu precisava passar algo bom pra ela. Se minha vida fossem lágrimas e sexo, o que eu faria de bom pra ela? Mas é claro que eu não ia me apaixonar!
- Você está bem Chris? – disse, enfim deixando-me de seu abraço quentinho, e caminhando para sentar-me à bancada da cozinha.
Puxei um pote de biscoitos que tinha ali e peguei um, mordendo-o voraz. O gosto doce me satisfez e me fez sorrir. Senti algo – ou melhor – alguém me envolver os braços pela cintura. Aquilo era bom. O calor dele era bom. Vamos deixar a cerveja pra lá.
- Não faz isso – eu ri embolada com os farelos na boca, ele sorriu e depositou um beijo em minha nuca. Céus, eu estava sonhando?
- Você tá estranha... – ele disse sorrindo, sentando-se a minha frente.
Eu sorri e baixei os olhos, fitando a meia bolacha apertada em minha mão direita. Porque tudo pareceu mais claro de repente? Fora... Jo?
Eu levei á mão aos cabelos e os baguncei, com certa felicidade incomum. Ele riu.
- Acho que foi Jo...
- Vocês se acertaram? – ele perguntou, levando a cerveja logo em seguida à boca.
- Ainda não – sorri.
Ele ficou me fitando por momentos, sorrindo e bebendo a maldita cerveja, enquanto eu batia o pé no chão e fitava o All Star encardido nos pés. Eu parecia uma adolescente idiota.
Levantei os olhos e nossos olhares se chocaram.
- Que foi? – perguntei, pegando mais um biscoito.
- Você fica linda assim.
- Assim como? – ri debochada.
Ele balançou a cabeça, e gargalhou em seguida.
- Esquece. Acho que bebi demais – chacoalhou a cabeça, apontando a Heineken.
Passamos minutos em silêncio. Ele bebia aquela cerveja asquerosa, enquanto eu ficava brincando com os dedos e cogitando a idéia de enfim ver Jo.
Levantei a cabeça e vi pelo vão da cortina que já estava escuro lá fora.
- Que horas são? – perguntei, minha voz saiu fraca.
Ele virou a cabeça e olhou acima do fogão.
- Nove e meia – informou, bebendo o último gole da cerveja, levantando-se para pô-la no lixo.
Veio em minha direção e abraçou-me por trás, novamente. Sussurrou no meu ouvido, baixinho:
- Quer sair pra jantar?
- Não sei – torci o nariz e o olhei – Pizza?
- Você que manda – ele riu, me soltando e indo até a sala, desligando a televisão – Vou pôr uma camisa.
- Okay! – concordei.
Chris estava estranhamente animado aquele dia. Eu me diverti como nunca havia me divertido aquela noite. Ele induziu-me a cerveja, mas eu não aceitei. Se ele queria me embebedar, o único que conseguia era fazer com que eu risse da cara dele.
Sabe quando homem se dá de machista e fica falando merda na sua frente? Então. E sabe quando você tem vontade de chutar alguém, mas beijá-la ardentemente logo em seguida? É, eu estava assim. O sorriso dele me provocava. E muito.
Ele insistiu para que eu dormisse lá. Ele nunca me pedira aquilo. Nós transávamos, ríamos, bebíamos vinho ou conhaque (já que eu odiava cerveja), e cada um ia para seu canto.
Chegamos à porta do apartamento aos beijos. Admito, ele me levava a loucura. Se ele era bonito? Realmente? Não. Mas e eu me importava? Se era carência eu não sei, apenas o queria mais que tudo, quando sorria maroto e envolvia-me a cintura.
A boca dele era macia, mas ardente e carnuda ao mesmo tempo. Seus lábios em contato com os meus eram o êxtase puro. Ele me abraçava pela cintura, e beijava-me, quando uma senhora surgiu de uma porta ornamentada com diversas folhagens e nos olhou. Eu ri e abri a porta. Praticamente caímos pra trás.
Chris voltou a segurar minha cintura. Suas mãos massageavam-me levemente, de forma gostosa e delicada. Seus lábios estavam vermelhos e marcados, e os olhos cerrados. Tombamos no sofá e ele me olhou e sorriu.
Eu perdi-me em seu sorriso. O único que lembro depois daquele labirinto levemente esverdeado, foi de ter tirado-lhe a camisa brutalmente, e de sentir as suas mãos no fecho de meu sutiã, por baixo da camiseta.
Céus.
Fale com o autor