Sinking Ship

31 Capítulo 29


Olhei ao redor e meu olhar recaiu sobre Jo, encostada na porta, descabelada, cansada e triste, com lágrimas escorrendo pelo rosto.

Entrou correndo ao ver que eu a fitava e pegou o telefone, solicitando uma ambulância.

Ela agachou-se ao meu lado e me abraçou.

- Desculpe – falou baixinho, acariciando meus cabelos.

A maca era empurrada brutalmente corredor à dentro. Jo estava agarrada a minha cintura, enquanto eu corria atrás de Moss, deitado com os olhos entreabertos e os punhos cerrados. Seus lábios se mexiam em palavras que eu não conseguia entender.

- Vai ficar tudo bem, não vai? – Jo perguntou baixinho, sua voz saiu rouca e embargada.

Eu observei os lábios de Moss moverem-se num “Agora vai”, e eu apenas repeti fraquinho pra Jo um “Vai”.

Sentei-me sobre uma das cadeiras dispostas em fileiras, à frente de um balcão largo e comprido, onde lia-se INFORMAÇÕES.

Observei a maca sumir por uma cortina branca ao longe, e o punho de Moss cerrado, fortemente, caindo ao lado de seu corpo. Imaginei se não estaria sangrando com a força de suas unhas.

Puxei a bolsa para meu colo e a abri. Mexi num compartimento menor e tirei de lá uma caixinha. Abri-a. Um anel de ouro muito fino estava intacto ali, com as seguintes palavras gravadas...

- Ronald Moss – uma voz grave e forte chamou. Levantei os olhos e Jo estava de pé a minha frente. Levantei rapidamente, guardando o pequeno estojo na bolsa e dirigindo-me a enfermeira de meia-idade, parada ao lado do grande balcão — Família?

- Esposa e filha – Jo falou friamente.

A enfermeira franziu o cenho e recolheu alguns papéis postados ao seu lado, e folheou-os. Estendeu duas folhas para mim.

- O que ele tem? – perguntei, ignorando os papéis.

- Acredito que nada grave – ela falou, me fitando dos pés a cabeça – Você poderá conversar com ele em alguns minutos – disse, indiferente -, agora, assine – sua última palavra saiu fria e perigosa, e ela fincou-me os papéis no peito.

Clínica Médica Lisie Stein

DOCUMENTO DE INTERNAÇÃO

Nome: Ronald Luigi Farzoni Moss

Idade: 30 anos ...

Assinei sem ler, com as mãos trêmulas.

Rose

Escrevi com força.

Morgan

O papel poderia rasgar.

Lamounier

Ressentimento...

Moss

Dor.

O outro era uma cópia idêntica, mas ressaltava o fato da clínica ser particular. Assinei. Novamente. Dinheiro era sujo e não importava.

Jo se agarrara em mim e soluçava baixinho, segurando suas lágrimas.

Arrastei-me em direção as cadeiras onde estávamos anteriormente e pus a cabeça de Jo sobre meu ombro, afagando-lhe os cabelos, nervosa.

Minutos.

- Desculpe-me, mãe – Jo falou, após deixar cair-lhe uma lágrima – Eu fui tão... Eu sou tão idiota. Desculpe-me.

- Não é sua culpa, Jo – falei distante.

- Mas me desculpe por você! Por tudo isso, pelas palavras...

- Tudo bem. Shhh... – falei, não suportando sua voz.

Respirei fundo e fechei os olhos. Eu não podia acreditar. Chegava a ser irônico. Chegava a ser doentio. Ou melhor, era. Era cansativo, era doloroso, era irônico. Quedas, quedas, quedas. Eu nunca teria um momento alegre, feliz? E se tivesse, o que era pior que tudo... Ele se dissolveria da forma mais trágica, da forma mais dolorosa. Eu me odiava por isso. Eu sentia dor e vontade de desistir por isso. Era complexo. E doía. Doía demais.

Caí num sono lento e leve. Com certeza era um sonho. Porque suavidade e doçura já estavam extintas da minha vida há muito tempo.

Havia um lago muito negro contornando a pequena ilhota, cheia de neve. Os frutos na árvore postado ali ao meio estavam secos e mortos, escuros. Não havia vida na ilha. Ou melhor, havia. Uma carta.

- Sra. Moss? – ouvi, ao longe. Logo fui sacudida e fitei as paredes verde-coalhada e as dezenas de cadeiras escuras, postadas a frente do balcão largo.

- Han, sim? – disse, vendo que fora Jo que me sacudira. Olhei pra Jo, perguntando-me que horas eram e ela franziu o cenho. Mexi os lábios. “Horas?”

- São quinze pras três, mãe – ela falou baixinho, ao pé do meu ouvido.

Levantei e me dirigi a uma outra enfermeira. Essa era jovem e tinha um contorno angelical sobre o rosto. Seus cabelos eram muito pretos e curtos, pelas orelhas. Fitei seus olhos escuros e ela sorriu.

- Ronald quer falar com você – ela disse, e eu franzi o cenho.

- Desculpe?

- Ronald, seu marido, querida. Quer falar com você. Ronald Moss – ela concluiu, dando um tapinha em minhas costas e se retirando pela porta branca, na qual eu vira Moss sumir pela última vez.

Chacoalhei a cabeça. Ela falara Ronald. Sorri. Pra mim ele sempre fora o Ron – aos meus cinco anos, até meados dos nove -, ou então o velho problemático Moss. Ronald. Ora essa. Ri.

Moss, isso. Eu iria vê-lo. Senti-lo. Amá-lo. Nem que fosse pela última vez.

Afastei os pensamentos pessimistas e fui ao longo corredor, sumindo pelas cortinas brancas.