Sinking Ship
32 Capítulo 30
- Moss.Foi o que disse baixinho ao vê-lo por detrás do vidro, deitado com uma camiseta cinza do The Verve – que Jo tinha arrancado do guarda-roupa dele – e calças largas de hospital, verdes claras.Ao contrário das minhas visões, ele não estava entubado ou dopado, como costumavam fazer com as pessoas que se internavam. Ao menos essa era minha visão de hospital.Bati levemente no vidro com os nós dos dedos e sorri ao vê-lo levantar um pouco a cabeça e soltar um bufo de tédio. Abri a porta lentamente e entrei em passos leves no quarto.- Você nunca foi muito delicada – ele falou baixinho, coçando a nuca.Sentei em um banco alto, giratório, que tinha ao lado da cama dele e fiquei olhando-o. Eu não notara quando entrei no apartamento dele, mas ele estava abatido. Muito abatido. E aquilo não era de hoje.
- O que você tem, Moss? – disse, enfim segurando sua mão, que continuava cerrada. Vi marcas fortes de unhas sobre sua palma.- Overdose – ele disse calmamente, brincando com a gola da camiseta. Eu arregalei os olhos – Brincadeira – ele falou gargalhando. Seu riso se dissolveu aos poucos.- É sério, Moss – disse triste. Ele segurou minha mão com mais força. Piscou os olhos algumas vezes, tornando a fechá-los.- É um tumor – seu ar cessou por algum tempo – No cérebro, faz tempo que eu tenho mais... Desculpe. Eu não podia contar, e seria muita petulância minha. Digo – sua voz foi diminuindo-se aos poucos -, ficar longe de Jo e você e chegar com um problemão. Às vezes o silêncio é nosso maior aliado, sabe. Abri a boca para falar e tornei a fechá-la. Respirei fundo e prossegui:- Não quando uma vida está em jogo.- Não seja boba, Rose. Três vidas estiveram em jogo o tempo todo. Seis, talvez. Katherine, Matt e Robert sofreram com tudo isso também. Eram vidas.Eu fechei os olhos e mordi os lábios. Era o fim. Eu sentia. Mas sinceramente parecia menos doloroso do que as lembranças, e os medos. Porque o fim era certo, e o resto, não.- Matt. Eu sei – ele fechou os olhos e cerrou a mão com mais força, quase quebrando a minha própria. Mas eu realmente não me importava.- Eu sei que não é o momento, Moss, mas... A Jo tem que saber. Você não imagina como eu me sinto por ela, ela—- Eu imagino, Rose. Eu sinto parcialmente também, acredite.- Tudo bem, mas... – disse, franzindo o cenho – Moss, ela chegou doente por causa daquela Kath. Você não faz idéia, porque não teve que cuidar dela, e entretê-la com falsos sorrisos e falsas promessas. E quando ela a esqueceu, bem... Eu sempre achei que foi mais que amizade. Quando ela esqueceu da Kath, veio o Matt, e você sabe, é tão complicado pra nós quanto ela gostar da menina com quem cresceu!- É pior, Rose. E pior ainda é ela não fazer idéia.- Droga – soltei, me soltando de sua mão e levantando, passando as mãos nervosamente pelos cabelos.- Rose, eu sei que os erros são pra sempre...- Não, Moss, não são. O pior... – eu já nem sabia qual era o pior – É que, bom. Nós tínhamos chance de consertar, e... Não está sendo feito.- É melhor não fazer. Vamos esquecer isso, Rose. Pelo amor de Deus.- Esquecer? – eu falei, sentindo meu queixo tremer e minha garganta arder. As lágrimas rolaram sem interrupção. Por um longo momento eu chorei. Chorei abertamente a frente de Moss. Ele cerrara os olhos para não ter de me ver. Era insuportável vê-lo ali, relembrar, a vida era insuportável.- Esquecer como, Moss? – enfim, falei – As lembranças são mais dolorosas do que qualquer coisa. O passado, Moss. As lembranças – repeti.Ele abriu os olhos e levantou-se com dificuldade da maca.- Você vai conseguir – disse, vindo em minha direção em passos lentos, encostando-se sobre uma cômoda que havia ali – Você tem que conseguir, compreende? – ele falou rápido e cansado.- Moss, não me faça...- Rose, você não entende? Você tem que esquecer de tudo. Esqueça de mim. Do passado. Dos seus pais. Esqueça de como Jo foi pra você. Foi para nós. Esqueça o Matt, o tal do Chris... O Robert, a pequena Kath. Esqueça. Apague. Faça o que quiser da vida. Mas não remoa-se pelos mesmos motivos que eu. Por favor.- Moss, eu... – eu sacudia a cabeça, chorando.- Você adquiriu um amigo – ele falou, segurando em minhas mãos – E eu aposto que ele estará ao seu lado. Eu admito, Rose, nós sempre nos amamos, mas uma coisa que sempre faltou entre nós foi amizade. Eu nunca fui seu amigo, e nem você minha. Talvez, quando brincávamos na areia, em Riverside – sorriu fraco – Mas desde aquela noite, não, Rose, não. Ele suspirou e virou-se, voltando a deitar-se na cama.- Não quero falar com Jo. Desculpe-me, mas eu não posso. Não quero me debater sobre o caixão, nem sobre a terra. Sem ressentimentos – sorriu.- Moss, não diga isso – falei, voltando a sentar-me no banco – Não diga uma coisa dessas...- A verdade dói, não dói? – ele continuava a sorrir. Puxou as cobertas pra cima e cobriu-se até o nariz. Ri fraquinho, em meio às lágrimas.- Se um dia você precisar cuidar de osteoporose ou menopausa...
- Moss, as mulheres não se internam por isso.- Ah, então finja se internar. O colchão é confortável e os travesseiros são de silicone. Os cobertores são bem fofinhos, também. E tem um cheiro bom.- Não fala uma coisa assim – falei, estendendo a mão para dar um tapa em sua cabeça, mas lembrando-me de suas palavras, voltei a recolhê-las no bolso.Ele encolheu-se e fechou os olhos.- O que você sente, Moss? – eu disse, afagando-lhe o cabelo levemente.- Sua falta. Falta dos velhos tempos – disse, ainda de olhos fechados, sorrindo.- Eu to falando sério! – o repreendi.- Lembra de quando fomos ao parque? Você tava com um barrigão, e nós comemos um sorvete azul. Era azul? – ele riu olhando-me. Eu já estava às lágrimas novamente – Aí te deu uma dor de barriga e você ficou apavorada com o bebê. Bom, no fim, era uma contração qualquer... Quinze horas depois Jo nasceu – ele gargalhou.- E você ficava sacudindo Jo toda hora. Por isso que ela tem uns miolos a menos.- Que mãe você, hein – ele disse, estendendo a mão e tocando-me a bochecha esquerda.- Pra você ver – eu disse, suspirando e abaixando a cabeça.- Você está se saindo bem. Nós estamos. Eu quero que fique bem. Eu estarei aqui – sua mão desceu sobre meu peito e pousou-se em meu coração. Eu podia senti-lo bater – Ambos nós sabemos que sim – ele sorriu. Engoliu em seco. O médico entrou pela porta, apreensivo, e fitou Moss com atenção, depois virou-se para mim e disse-me gentil:- Sra. Moss, me desculpe, mas precisamos examiná-lo novamente. A enfermeira de rosto angelical apareceu na porta, com os braços estendidos. Olhei Moss e ele assentiu com a cabeça.- Você poderá retornar depois – o médico concluiu. É claro que eu retornaria.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
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