Sinking Ship
24 Capítulo 22
Matt, caído morto. No chão. Sangrando.
Outro grito, agora Jo estava com uma mão na mesa de centro, e o corpo jogado em direção a TV, chorando, gritando. Eu podia ouvir seus órgãos pulsarem e seu coração bater a ponto de saltar pela boca, ao ponto de arrebentar-lhe o peito e matá-la de vez.
Olhei pra Billy, assustada, parado ao batente da porta do corredor, olhando pra nós duas perplexo, sem saber o que fazer, como eu. Outro grito.
Atirei-me no chão, levando minhas mãos as costas de Jo, segurando-a, tentando-a levantar, sentindo seus cabelos claros e cacheados grudarem em seu rosto, sentindo seu olhar esverdeado tornar-se impassível, esgotado, sem motivos, escuros e estreitos de ressentimento. E ela gritava.
Quanto mais se dava conta de que ele havia se ido, pra sempre, e que não mais o veria, só teria as lembranças (malditas lembranças!), ia gritando, ficando fraca, tremendo mais e mais e não tendo forças pra se segurar a mais nada.
- Jo – sussurrei, sentindo os olhos se perderem e a dor de cabeça me invadir de surpresa, deixando-me fraca e com ainda mais vontade de cair ali, ao lado dela... E chorar junto, sentir a dor passar lentamente, sacrificando-nos, aos poucos, até não termos mais forças e levantar, olhando pra vida perguntando “Por quê?”.
Mas não. Essa não era minha posição. Não chorar junto com ela, deixar-me derrotar junto com ela, cair e esperar ela se levantar para fazer o mesmo comigo. Eu devia estar ao seu lado, mas a ajudando, apoiando-a, dizendo o que é certo e não é, e, fazendo-a enfrentar cada desafio.
E então xinguei-me em silêncio. Ela estava ali, caída, chorando, e eu pensando e decidindo comigo mesma o que fazer. Idiota. Segurei-a e a levantei, fazendo-a ficar de joelhos. Passei minhas mãos por baixo de seus braços, a abraçando forte, tentando passar força e alguma estúpida certeza, fazendo-a ver que não estava sozinha ali.
- Por que, mãe, por quê? – perguntou-me, chorosa, com a cabeça encostada em meu ombro, derramando lágrimas por meu pescoço.
- Não há porque agora, Jo. Eu estou aqui.
- Mãe... – ela disse, despejando-se em lágrimas e me segurando forte, depositando todas as suas esperanças – porque senti – sobre mim, fazendo-me ficar pensativa mais uma vez, mas certa de que devia abraçá-la naquele momento, e fazê-la sentir-se bem. Por mais que fosse impossível, e por mais que tudo estivesse caindo ao nosso redor.
Billy veio até mim e mexeu os lábios dizendo que ia nos deixar sozinhas, e qualquer coisa eu deveria ligar para ele. E então, quando ele pousou a mão sobre a maçaneta, a campainha tocou. Jo não despertou de suas lágrimas e eu me assustei, fiquei olhando pra Billy, enquanto ele retribuía novamente. E tocou de novo.
E mais uma vez. Então Jo levantou a cabeça e me encarou, com medo, e eu sussurrei um “Shhh” para ela se acalmar. Pedi pra Billy colocá-la deitada no sofá, e puxei a manta do mesmo sobre ela. A campainha tornou a soar.
- Obrigada, Billy – disse, sorrindo fraco demais, triste demais.
Abri a porta e Billy passou sem olhar para o inútil que tinha tocado a campainha. Voltei a fitar Jo e ela estava encolhida, agarrada a uma almofada, despejando toda sua dor. Doeu em mim.
Fitei a porta, por fim, e foi aí que tudo sumiu. E a dor foi insuportável, eu senti o chão sumir e senti meus olhos arderem, e tive a dura certeza de que não éramos só eu e ele, Jo também estava ali, ainda chorando e derrotada. E doeu em dobro.
Ele me olhava piedoso, com aquela face de olhos azuis e cabelos loiros caindo-lhe o rosto, prestes a também chorar. E doeu novamente.
- Moss – falei, pressionando os lábios, sentindo toda minha garganta queimar ao dizer seu nome.
Ele entrou e eu bati a porta, Jo sequer deu-se conta do nome que falei. Continuava lá.
- Rose – ele disse balançando a cabeça, inconformado –, Rose...
Eu queria gritar, eu queria gritar o mais alto que eu pudesse, queria segurar os cabelos e cair no chão, chorar, chorar. E queria que ele me levantasse, olhasse nos meus olhos, dissesse que ainda me amasse e fugisse de tudo, queria que fossemos nós três, de volta à um passado muito distante, queria tudo aquilo, e as lembranças e dores me consumiam.
- O que você ‘tá fazendo aqui? – perguntei, tentando estar brava, mas não conseguindo. Meu tom de voz saiu suplico e passível.
- A polícia... – ele disse, mantendo a boca aberta, e fechando-a novamente – Você, Jo... Eu não posso mais! – ele disse, me olhando no fundo dos olhos, deu um passo pra frente. Não recuei.
- Matt morreu – eu disse, fitando-o. Ele também tinha dor nos olhos.
— Como? – ele disse perplexo.
- MATT MORREU, SEU IDIOTA! – eu poderia ter falado aquilo, mas foi Jo quem levantou e berrou. — MATT MORREU! – gritou – Ele morreu – sussurrou baixinho.
- Jo... – ele falou, horrorizado, olhando-me de uma forma que eu não podia agüentar. Doía tanto, tanto.
- Jo, eu sinto muito... – disse, me abaixando para abraçá-la.
- O que eu faço agora, mãe? – ela me perguntou, olhando-me em fim, agarrando-se em meu pescoço. Tremia, e eu senti medo, e não somente dor.
- Jo, a vida não acabou...
- POR ISSO ESTOU COM MEDO! Porque a vida acabou pra ele, pra mim não. E se a minha tivesse acabado... Seria muito mais fácil.
- Não, Jo. Como ficaríamos? – eu perguntei, bondosa.
- Não importa – disse, tentando conter as lágrimas.
- Tudo está bem. Tudo ficará bem, Jo, você verá – disse, incerta.
- Mãe – ela falou calmamente e se levantou. Fitei Moss e ele estava tão assustado quanto eu. Eu não sabia o que fazer – Mãe – continuou – “E tudo está bem” – ela repetiu – foi a última coisa que Matt me falou. Foram as últimas lembranças que tive dele, mãe. AS ÚLTIMAS. Uma briga, um beijo, promessas de que tudo estava bem – ela disse irônica – O que está bem? ‘Tá tudo bem, não ‘tá? Olha só – ela forçou um sorriso, em meio as lágrimas, levantando os braços.
- Você falou com Matt depois que fugiu? – Moss se manifestou, pela primeira vez, em direção a Jo.
- Eu esperaria que quando você me encontrasse dissesse “Filha, eu sinto muito por tudo isso, me desculpe” ou então, ao menos, dissesse que me amava. E você me pergunta se eu falei com Matt?
- Jo, me—
- FAÇA-ME O FAVOR. Matt era o único em estado perfeito naquela casa, fora Kath. Kath foi embora, e ela estava certa, eu devia ter feito o mesmo à muito tempo. E Matt foi-se logo depois de mim. Vendo o que estava acontecendo. Ele era o único que eu tinha, exceto mamãe, quando fugi de lá.
Silêncio. Aquilo me incomodava.
- Agora quem eu tenho? – ela disse, mordendo os lábios e sorrindo falsamente pra nós dois. Aquilo doeu. Em mim, e em Moss. E consequentemente duas vezes em mim.
- Jo, eu... – falei, me aproximando.
- Você? Eu tinha. Mas não tenho mais certeza se tenho. Você me fez esquecer de tudo, me fez odiar meu pai—
- NÃO É VERDADE! – gritei com ela, pela primeira vez na minha vida.
- Me fez esquecer de tudo que eu tive – continuou, sem se importar com o que eu disse, virando-se e olhando a rua e o mar distante através das janelas – Me fez viver algo novo. E foi bom. Mas as lembranças não acabam. E VOCÊS – ela disse, virando-se para nós dois – Sabem disso mais do que ninguém. Quem eu tenho agora? – ela disse, gargalhando sádica.
Senti medo, e abri minha boca para implorar mais uma vez, quando Moss falou em alto e bom tom, inesperadamente:
- Nós. Nós dois – e olhou pra mim, daquela forma que tanto me incomodava, no fundo dos meus olhos, obstruindo-me toda a verdade – Seu pai e sua mãe cuidarão e estarão ao seu lado.
— Faça-me rir – ela disse, virando-se novamente para janela.
Olhei no fundo dos olhos de Moss, e tive certeza, de que o que ele falara não fora, pela primeira vez, em vão. Ele estava tão destruído quanto eu, quanto Jo. Nós éramos uma família, e, por mais que fosse doloroso afirmar, uma bomba havia caído sobre todos nós. Desde que Jo nascera.
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