Sinking Ship
18 Capítulo 16
Eu estava sentada no sofá tranquilamente, bebendo café e comendo torta de maçã, assistindo Children Of Men quando a porta abriu-se em um solavanco e Jo apareceu por ela toda molhada, chorando, tremendo de frio – ou sabe-se lá do que.
Levantei em um salto do sofá, assustada, pensando no pior, sempre no pior, e ela nem sequer me olhou.
- JO, O QUE ACONTECEU? – a fitei apavorada, andando em sua direção.
Ela me olhou triste e saiu correndo em direção ao quarto. Bateu a porta na minha cara, enquanto meu estômago embrulhava aos poucos.
- Jo, abre a porta... – falei – O que aconteceu, amor?
Só podia-se ouvir soluços e travesseiros e almofadas voando pelo quarto.
- JO!
- Mãe, me deixa... – ouvi sua voz fraca.
- Jo, deixe-me cuidar de você.
- MÃE, ME DEIXA – ela gritou com a voz burlada.
Escorreguei pela porta e joguei a cabeça pra trás, abraçando as pernas e deixando as lágrimas que eu não queria nunca mais presenciar escorrerem por minha face.
E toda vez que isso acontecia, um flashback passava por minha mente. Eu revivia todos os momentos difíceis, todas as lágrimas, todas as trevas que existiam dentro de mim. Ou a vida era muito injusta, ou eu era fraca. Mas na verdade eu achava que os dois me perseguiam.
Era duro pensar no que a vida realmente me guardava lá fora. Apesar de sofrer, e de ter me acostumado, de certa forma, com isso, toda vez que eu via o sol nascer eu sabia, tinha certeza de que a vida era melhor. Eu via pessoas sorrindo na rua, eu lembrava-me dos sorrisos verdadeiros que já haviam sido dados à mim, e eu tinha certeza de que na vida havia algo maior para lutar, havia esperança, e nada era em vão.
Mas quando eu caía nos pensamentos isso me esvazia, deixava-me, largava-me... Como um barco de papel afundado na água. A vida me levava e eu não percebia. E isso doía mais do que qualquer coisa, sempre, malditas lembranças...
A porta abriu-se em minhas costas e eu senti os braços macios e pequenos me envolverem pelo pescoço. Encostou sua cabeça em meu ombro e chorou ali, fungando baixinho. Choramos juntas, abraçadas, compartilhamos dor a qual eu não tinha mais certeza ao que pertencia.
- Não chora mãe – ela falou baixinho.
- O que aconteceu com você?
- Você não tem culpa, esquece, não é nada...
- O que aconteceu com você, Jo?
- Eu não quero falar.
Eu senti mais lágrimas escorrerem por minha face, malditas lágrimas, malditas!
- Eu não suportaria tanta dor. Eu acho que não.
- Não fale assim, a dor ainda não lhe encontrou.
- Como? – ela falou horrorizada.
- As coisas são sempre piores do que imaginamos. O que aconteceu?
- Eu não quero falar, eu não vou falar...
Silêncio, lágrimas, pensamentos flutuando. Eu podia sentir o ar comprimido ao longo do corredor.
- Porque a vida é assim, tão dura pra alguns?
Eu me virei pra ela e a fitei, tão nova...
- A vida é como um rio. Exatamente como um rio. Você tem de seguir seu caminho, em busca de algo maior, em busca de um oceano. Você enfrenta ladeiras, montanhas, obstáculos, você não desiste, você segue correndo atrás, segue mesmo que haja uma pedra no caminho. Você faz curvas e se perde entre elas. Você faz curvas e deixa coisas perderem-se de você nelas. Você faz curvas, e em algumas se enrosca, se descuida, mas as curvas não estão a todo longo do caminho. Mas pra alguns, simplesmente as curvas não terminam, pelo simples fato de não saberem as enfrentar.
- Você acha, que no fim, tudo dá certo? Nós encontramos algo maior?
- Talvez o bem maior devesse ser encontrado antes do fim. Mas alguns só o encontram no final, e outros sequer o encontram... Nunca se sabe. É duro dizer, mas as coisas só dependem de nós.
- Eu queria saber tomar decisões, eu queria saber o porquê de tudo que me envolve, nos envolve... Eu acho que a vida se distorceu sem nos avisar.
- A vida nunca avisa, Jo.
— A dor é como a neve, talvez...
- A dor não é tão bonita assim, não...
Ri fraquinho.
- A dor vai e vem, e quem a tem, tem também, a certeza de que ela sempre volta. Nos períodos confusos, nos incertos e tristes, ela sempre vai voltar. Mas quando coisas boas acontecem, quando o sol brilha, ela se esvai, ela derrete, e então tudo se torna luz novamente. Mas você segue com a certeza de que ela voltará. É inevitável.
- E por quê?
- Tem coisas que filósofo nenhum, romancista algum explica Jo. E eu acho que eu já nasci com essa certeza. Dura certeza.
Ela desabou sobre meus ombros novamente e chorou, chorou, chorou, até eu começar a chorar de novo, sem conseguir reconciliá-la, de forma alguma.
Ficamos ali, derrotadas, no chão, destruídas... Mas juntas, chorando até toda a dor se esconder, ou até o sol nos cobrir, por inteiro. Em vão.
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