Sinking Ship

19 Capítulo 17


Notas iniciais
Música do Capítulo Never Let This Go - Paramore
[http://www.4shared.com/file/32777008/74c3c89c/Paramore_-_Never_Let_This_Go.html]

O espelho refletia meus olhos aprofundados e minha pele pálida. Meus cabelos espessos e ondulados estavam intactos e caiam sobre os ombros formando pequenas ondas. Minha boca era seca e sem cor, meus olhos impassíveis e cheios de dor. Palavras e sentimentos boiavam em meio ao azul acinzentado de meus olhos, e não havia brilho algum, mas era possível ver os dentes brancos expostos num sorriso infantil, sem significado nenhum.

Vesti minha velha camiseta do The Police e minha jeans surrada, rasgada nos joelhos. O All Star preto encaixou-se perfeitamente aos meus pés, e eu prendi a franja em um grampo preto.

Suspirei. A vida não tinha parado, e agora eu me via ali, uma mulher, de 28 anos, com dúvidas e coisas a fazer, com uma filha a zelar, uma vida a viver. Eu não era nada, eu era muito, talvez.

Mas os talvezes me enroscavam na exatidão, e eu estava cansada deles. Guerras sempre tiveram conquistas, eu também podia lutar, e deveria, por ela.

Dirigi-me a porta e saí, encostando-a de leve. Deparei-me com Jo sentada no chão, e com mais alguém ao lado dela. Um garoto.

Matt.

Senti meu coração pulsar e o sangue correr pras pontas dos dedos, senti o mundo se esvaziar, ele estava ali, tão triste, tão derrotado, segurando a mão de minha Jo, dizendo palavras bonitas. Não era só uma vida a qual eu tinha acabado.

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A campainha tocava. Levantei e abri a porta. Justo quem eu não esperava ver, sempre assim, como diz minha mãe, inevitável.

- Jo, podemos conversar?
- Não – senti os olhos embaçarem.

Ele calçou o pé na porta, impedindo-me de a fechar.

- Eu preciso – disse, entrando e sentando-se no chão, ao pé da mesa de centro.

Sentei-me ao lado dele e fitei seus lábios. Meu coração pulsava mais do que o normal.

Ele virou-se e me fitou. Nossos olhos se encontraram e entraram numa só sintonia, eu podia sentir o azul escuro chocar-se com o verde-esmeralda, aquelas benditas borboletas no estômago...

Senti seus lábios pressionarem-se contra os meus, pude sentir a carne macia, leve, gostosa, massagear-se a encosta da minha, e sentir sua língua pedindo passagem, a qual entreguei. Suas mãos pousaram-se sobre meu pescoço, e seus dedos percorriam de leve minha nuca, acariciando-a, enquanto eu segurava seus cabelos com certa força, sentido-o deixar cair lágrimas quase secas, que chocavam-se com minhas bochechas e meu nariz.

Separou o beijo e encostou sua testa na minha, ainda segurando-me o pescoço, enquanto eu estava de olhos fechados.

Abri-os e observei as lágrimas caírem novamente, e escorrerem sobre minhas bochechas.

- Me diga que nada mais importa, me diga que há vida lá fora e que você está disposta a seguir comigo, me diga que as coisas não vão acabar em cada degrau, que sempre haverão mais pra se subir, que... – agora minhas lágrimas chocavam-se com as suas – Me diga que nada pode parar isso. Você nos meus braços, a dor esquecida, me diga que nada pode impedir.

Desviei o olhar e mordi os lábios, sentindo as lágrimas queimarem-se ao encontrarem minhas bochechas.

- Foge comigo. Pra longe daqui, pra onde nada possa nos impedir de ser feliz, me diz que... Aceita, que vai comigo, me diz que tudo isso pode ter sentido.

Separei-me dele e o fitei.

- Eu não quero mais fugir, de mim, do meu mundo, das coisas que eu aprendi a conquistar, e que em qualquer lugar vão me seguir. Não me obrigue a voltar ao fim, Matt...

Maybe if my heart stops beating
(Talvez se o meu coração parar de bater)
It wont hurt this much
(Isso não vá doer tanto)
And never will i have to
(E eu nunca mais vou ter que)
Answer again to anyone
(Responder de novo qualquer um)

- Você não me ama, não é? POIS EU TE AMO, eu te amo como nunca, nunca, amei ninguém. Eu nunca, Jo, me entreguei a tanto. Você sabe como eu era, nós crescemos juntos. Eu era apenas um adolescente tarado e inconseqüente, mas você apareceu na minha vida pra me mostrar mais...
- Não me leve a mal, eu nunca irei esquecer disso, mas você sabe, eu não preciso falar, as coisas não se resumem somente em palavras...

Please don\'t get me wrong
(Por favor não me entenda mal)
Because i’ll never let this go
(Porque eu nunca vou esquecer disso)
But i can\'t find the words to tell you
(Mas eu não acho as palavras pra te dizer)
I don\'t want to be alone
(Eu não quero ficar sozinha)
But now i feel like i don\'t know you oh
(Mas agora eu sinto como se não te conhecesse)

- Matt, me desculpe por isso. Eu gosto tanto de você – passei minhas mãos sobre seu rosto, sentindo-o estremecer, afastei-a rápido – Mas, não dá, eu não posso deixar tudo isso agora. Olha, minha mãe, eu perdi 14 anos com ela, e agora, em semanas, eu estou finalmente conseguindo sorrir, apesar de tudo, apesar das dores que nos seguem constantemente. Deixe-me aqui, me deixe decidir o que fazer sozinha, não me prenda em ilusões...
- Eu só quero ser feliz, ao seu lado, porque só com você conseguirei...
- Não, Matt. Não. Você fará mais do que isso. Você ficará bem.
- Você me faz ficar bem. Agora, tudo, tudo, está bem. Você consegue ouvir os pássaros cantarem na dor? – o fitei – Eu também não, Jo.

One day you\'ll get sick of
(Um dia você vai ficar cansado)
Saying that everything’s alright
(De dizer que está tudo bem)
And by then i’m sure ill be
(E então eu tenho certeza que vou estar)
Pretending just like i am tonight
(Fingindo como estou esta noite)

- Dês de quando eu cheguei aqui, eu senti que as pessoas podem mudar querendo, se arrependendo. Isso é difícil, minha mãe sofre todo dia por isso, e se esforça pra me ver bem. Ela mudou. Ela está sendo mais do que alguns foram em 14 anos pra mim.

And i’ll never let this go
(Eu nunca vou esquecer disso)
But i can\'t find the words to tell you
(Mas eu não acho as palavras pra te dizer)
That now i feel like i don\'t know you
(Que agora eu sinto como se não te conhecesse)

- Só espero que algum dia, no futuro, se ele chegar, você se lembre de mim, das minhas palavras, e que ao menos nos sonhos sinta o quanto tudo isso doeu por tanto pouco tempo em mim. E agora eu carregarei incerteza pro resto da vida, Jo, mas eu não me importo. Eu tenho você aqui – ele pousou a mão ao lado esquerdo do peito – E tudo está bem.

Ele levantou e bateu a porta, deixando-me ali, segurando lágrimas, com a mão pousada sobre os lábios, incerta, mas mais madura do que antes, tomando uma decisão a qual não sabia se tinha de ter tomado.