Sinking Ship
3 Capítulo 1
Cocei a nuca. Bebida me doía a cabeça, sempre doeu, seria sempre assim. Boates sempre acabavam nisso. Torrava meu dinheiro e de nada recebia. Só a dor, só o misto de confusão. Os olhares, sempre sobre mim. E não era paranóia, era estranho mesmo.
A rua estava movimentada, os carros passavam apressados. E eu ali, sentada no muro do pub, com um cigarro entre os dentes e o cheiro da bebida impregnado às roupas.
Saiu dali com os amigos, mexendo no cabelo, rindo fraco, com o corpo mole, os olhos intensos...
- Hey aí – falou, me olhando. Movi a cabeça pra cima, o fitando, confusa. Sorri fraco, de canto, fitando seu corpo –. Você tá bem?
- Yep – afirmei com a cabeça, me levantando –, obrigada.
- Você parece cansada... – disse, me olhando de canto – e com frio.
Ri. Não parecia, era fato.
- Realmente.
- Você tem um belo sorriso – disse, e saiu caminhando.
- Legal – sempre fui irônica, saí caminhando logo atrás dele.
- Faz o que da vida?
- E isso importa? – apertei os cabelos contra o rosto, correndo para alcançá-lo e rindo debochada.
- Sinceramente não – me olhou o sorriu de canto -, achei que gostasse de atenção.
- Não sou do seu tipo... então – dei meu melhor sorriso, com as mãos na cintura, o cigarro entre os dedos e o olhar frio e malicioso.
- Só vendo pra se saber – sorriu, desacionando o alarme do conversível de luxo, entrando no mesmo e me olhando – Aceita carona? – perguntou fazendo um gesto estranho com a cabeça como se me convidasse a entrar.
Caminhei até a porta e me escorei sobre ela.
- Não sou o que acha que sou... Qual seu nome mesmo? – levantei o cenho.
- Uma prostituta? – estreitei os lábios – Ou profissional do sexo, seja lá como prefere? – o fitei desdenhosa – Sei que não és o que parece. Meu nome não lhe interessa, não no momento...
Sorri de canto e levei o cigarro a boca novamente, abrindo a porta descuidada.
- Quer conversar?
- Eu tenho cara de psicopata? Pode ser, obrigada.
Ele sorriu e fitou meus lábios mais uma vez. Entrei no carro, puxei a porta e o olhei.
- Olá, estranho. Eu não sei o seu nome, mas você tem um ar de... alguma coisa poética. Seriam as drogas?
- Acha que uso?
- Do mesmo jeito que acha que sou uma psicopata.
- Sei que não és. Parece.
- Tens idéia do que sou? – entrei na brincadeira.
- Arriscaria o fato de ser romancista, teus olhos refletem belas cores.
- E o que isso tem há ver?
- Não sei, assim como não sabes. Aceita uma dose de prazer?
- Prefiro refletir.
- Aceitamos troca, no caso.
- De idéias?
- Negócio feito – sorri.
Tudo bem, não estava no meu eu na noite, mas foi bom conhecê-lo. Sabia quem era, não preciso citar nomes. Seu olhos eram estreitos e frios, eu? Uma diversão.
Mas gostava daquilo, meu lado egocêntrico costumava se manifestar em choque com a bebida, e suas palavras eram bonitas e convidativas.
A obsessão pela boca carnuda nascia a cada olhar, e os joelhos – ao invés de falharem, como em meus poemas -, estavam rígidos e firmes.
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