Cocei a nuca. Bebida me doía a cabeça, sempre doeu, seria sempre assim. Boates sempre acabavam nisso. Torrava meu dinheiro e de nada recebia. Só a dor, só o misto de confusão. Os olhares, sempre sobre mim. E não era paranóia, era estranho mesmo.

A rua estava movimentada, os carros passavam apressados. E eu ali, sentada no muro do pub, com um cigarro entre os dentes e o cheiro da bebida impregnado às roupas.

Saiu dali com os amigos, mexendo no cabelo, rindo fraco, com o corpo mole, os olhos intensos...

- Hey aí – falou, me olhando. Movi a cabeça pra cima, o fitando, confusa. Sorri fraco, de canto, fitando seu corpo –. Você tá bem?

- Yep – afirmei com a cabeça, me levantando –, obrigada.

- Você parece cansada... – disse, me olhando de canto – e com frio.

Ri. Não parecia, era fato.

- Realmente.

- Você tem um belo sorriso – disse, e saiu caminhando.

- Legal – sempre fui irônica, saí caminhando logo atrás dele.

- Faz o que da vida?

- E isso importa? – apertei os cabelos contra o rosto, correndo para alcançá-lo e rindo debochada.

- Sinceramente não – me olhou o sorriu de canto -, achei que gostasse de atenção.

- Não sou do seu tipo... então – dei meu melhor sorriso, com as mãos na cintura, o cigarro entre os dedos e o olhar frio e malicioso.

- Só vendo pra se saber – sorriu, desacionando o alarme do conversível de luxo, entrando no mesmo e me olhando – Aceita carona? – perguntou fazendo um gesto estranho com a cabeça como se me convidasse a entrar.

Caminhei até a porta e me escorei sobre ela.

- Não sou o que acha que sou... Qual seu nome mesmo? – levantei o cenho.

- Uma prostituta? – estreitei os lábios – Ou profissional do sexo, seja lá como prefere? – o fitei desdenhosa – Sei que não és o que parece. Meu nome não lhe interessa, não no momento...

Sorri de canto e levei o cigarro a boca novamente, abrindo a porta descuidada.

- Quer conversar?

- Eu tenho cara de psicopata? Pode ser, obrigada.

Ele sorriu e fitou meus lábios mais uma vez. Entrei no carro, puxei a porta e o olhei.

- Olá, estranho. Eu não sei o seu nome, mas você tem um ar de... alguma coisa poética. Seriam as drogas?

- Acha que uso?

- Do mesmo jeito que acha que sou uma psicopata.

- Sei que não és. Parece.

- Tens idéia do que sou? – entrei na brincadeira.

- Arriscaria o fato de ser romancista, teus olhos refletem belas cores.

- E o que isso tem há ver?

- Não sei, assim como não sabes. Aceita uma dose de prazer?

- Prefiro refletir.

- Aceitamos troca, no caso.

- De idéias?

- Negócio feito – sorri.

Tudo bem, não estava no meu eu na noite, mas foi bom conhecê-lo. Sabia quem era, não preciso citar nomes. Seu olhos eram estreitos e frios, eu? Uma diversão.

Mas gostava daquilo, meu lado egocêntrico costumava se manifestar em choque com a bebida, e suas palavras eram bonitas e convidativas.

A obsessão pela boca carnuda nascia a cada olhar, e os joelhos – ao invés de falharem, como em meus poemas -, estavam rígidos e firmes.