Sinistro

1 Um primeira-dama


Moro nesta casa há mais de três anos e, por mais que tente, não consigo mudar de opinião em relação a ela. Não sei se são os cômodos imensos e fétidos, as paredes amareladas, o chão de madeira brilhante, os quadros modernistas unicolores que me fazem sempre questionar o que é verdadeiramente arte, o relógio cuco estridente que irrita meus ouvidos a cada hora, os móveis da época em que tudo durava para sempre – como se eu realmente quisesse que tudo durasse para sempre. A impessoalidade do lugar me incomoda, não tem nada que me lembre eu mesma. Não consigo gostar deste palácio oficial, de muita pompa e pouca praticidade. Sinto saudades da minha própria casa, do meu jardim, das árvores que vi crescer, do cheiro de mofo do sótão, do tempo em que a vida era mais simples e eu, mais feliz.

Fora os empregados, vivo sozinha com meu marido. São mais de mil e quinhentos metros quadrados só de área construída. O terreno, então, parece um clube, com quadra de tênis, campo de futebol, piscina semiolímpica e até um pequeno píer com um veleiro que um de nossos empregados mantém sempre impecável. Para quem, eu não sei. Penso sempre em meus netos correndo pelo local, divertindo-se como só as crianças sabem fazer. Mas não tive netos. Nem filhos.

Dizer que vivo sozinha com meu marido é força de expressão. Na verdade, vivo é sozinha comigo mesma, ele não passa de uma ilustre visita, se não está no trabalho está com as outras. Sim, eu sei das outras. Como não saberia? Mas não ligo mais, já me acostumei à solidão e ao desprezo. Depois de tanto tempo percebi que é melhor fingir. A vida, infelizmente, é manter aparências, mesmo em pleno século vinte e um. Em algumas coisas, pouco evoluímos. Mas chega de tristezas, cabeça vazia, oficina do diabo, vou à biblioteca, quem sabe um livro não me tira deste marasmo ou me ajuda a vencer a insônia.

A porta está entreaberta, o que é estranho, mas não vejo motivo para preocupação. Entro no cômodo e paro, estática, o inferno à minha frente. Não sei se grito, se choro, fico tonta e me sento no chão, em meio a todo aquele sangue e aquele cheiro de morte que preenche minhas narinas como se fosse um anestésico. Perco o sentido temporariamente, acordo algum tempo depois e ele continua lá. Reúno o que me sobra de forças e ligo para a polícia.