Sinistro

2 Dois agente sousa


O telefone toca pela enésima vez e ainda não consegui me mexer da cama. Sei que deve ser algo urgente – são quatro e meia da manhã de domingo – e mesmo assim não tenho forças para me levantar. Minha cabeça parece que vai explodir, sinto uma dor intensa, fixa, ao lado da nuca, e um latejar na testa que me faz apertar os olhos e lacrimejar. Não me embebedava desde os vinte anos – tenho trinta e dois – e pelo jeito escolhi o pior momento para cair em tentação, mas foi inevitável, Renata saiu de casa ontem, achei apenas um bilhete quando voltei do trabalho: “Seja feliz com sua escolha”.

Finalmente crio coragem e atendo o telefone. Do outro lado, explode a voz do delegado, nervosa, estridente, com um desespero pouco comum a ele. “Vem pra cá agora, Sousa, que aconteceu uma desgraça”, e desliga na minha cara, sem me dizer que desgraça tinha acontecido. Sigo para a cozinha, pego a caixa de remédios em cima da geladeira e tomo dois analgésicos. Queria algo mais forte, mas meu estoque acabou e nenhum médico quer me dar receita. Nem para um mero Tylex. Lembrar de descobrir algum meio alternativo de me reabastecer.

Me enfio embaixo do chuveiro, sento no chão e deixo a ducha forte e quente cair na cabeça, no pescoço e nos ombros. Ficaria assim até a eternidade, mas o tempo urge, como dizia meu avô. Na verdade, ele dizia o tempo ruge, mas agora não é hora de ficar lembrando de quem já se foi há tanto tempo. Visto a primeira calça e camisa que vejo no armário, meu único par de sapatos decente – como não vi que estavam tão absurdamente imundos? – e engulo duas torradas secas e um suco de laranja passado, feito na antevéspera. A refeição me embrulha o estômago, mas não há tempo pra mais nada, nem mesmo uma passadinha rápida no banheiro, então desço para a garagem, ligo o carro e saio rumo à delegacia.

Não chego nem a entrar no prédio, me espera do lado de fora uma equipe com mais três agentes, um perito e, claro, o delegado, que vem em minha direção como um jogador de futebol atrás da bola na cara do gol. “Porra, que demora, precisa se embelezar toda pra vir trabalhar, ô princesa? Não falei que aconteceu uma desgraça? Entra logo nesta porra deste carro”, ruge, irritado, me apontando a porta da viatura, gotículas de saliva saltando pelos cantos da boca. Poucas vezes vi o delegado assim, então entro logo, ele em seguida. Fico esperando. “Assassinaram o prefeito dentro da casa oficial, a mulher dele achou o corpo há pouco mais de uma hora. A coitada está em estado de choque, mal deu conta de ligar pra polícia. Puta que o pariu, olha o tamanho do problema”, pragueja. Ele está visivelmente nervoso, sua em bicas, não consegue manter mãos e pés parados, o tempo inteiro levando as mãos à cabeça e arrancando os já poucos cabelos que existem no local. Enquanto seguimos para a residência oficial, a uns dez quilômetros de distância, o delegado pouco fala, deve estar pensando em quem jogar a culpa quando a merda feder. Porque é claro que vai feder.

Chegamos à residência oficial, onde já estão outros policiais. O movimento é tranquilo, a corja de jornalistas ainda não ronda o local, esfomeada como urubus na carniça. Mas isso é questão de tempo, é só a notícia vazar e isso aqui vai virar um pandemônio rapidamente. Falei cedo demais, na esquina acaba de aparecer uma van da tevê local, melhor entrar enquanto é tempo, depois o delegado que se preocupe em dar explicações.

Cruzo a porta e entro no salão principal, um monumento à ostentação e ao desperdício de dinheiro público. Cumprimento a primeira-dama, mas acho que ela nem me vê. Sigo em direção à biblioteca. Entro e dou de cara com uma cena digna de filme de terror. Não sou fã do prefeito, muito pelo contrário, mas o que vejo me dá pena imediata do sujeito. Do que sobrou dele, na verdade.

O corpo, nu, está estendido no chão, sobre um tapete felpudo que um dia deve ter sido branco. Há sangue e carne humana por todo lado. No ar, um cheiro acre, metálico, me embrulha o estômago. Tenho onze anos de polícia, já vi coisa que até deus duvida, mas a crueldade da cena me impressiona. A mutilação é generalizada. No rosto, faltam as duas orelhas e a ponta do nariz. As órbitas dos olhos estão vazias. No tórax, os cortes são inúmeros: pequenos, grandes, superficiais, profundos, todos diferentes entre si. A impressão é que o assassino usou o prefeito como parque de diversões, numa espécie de balé macabro, em que cada passo de dança deixa uma impressão própria, sangrenta, única. Os braços estão no lugar, mas incompletos. Faltam toda a mão direita, e o indicador, o anelar e o dedo mínimo da mão esquerda. Pernas e pés estão intactos, mas também cobertos de cortes. Não precisaria haver mais nada para a cena ser apavorante, mas há, o pênis também foi cortado e encontra-se enfiado no ânus do prefeito, uma suprema humilhação que eu não desejo nem pro meu pior inimigo.

O silêncio é absoluto e o constrangimento, geral. A maioria vira as costas para o corpo, alguns saem da sala, um dos agentes, que começou na semana passada, vomita, é preciso realmente estômago, até para os mais habituados. Tem gente que devia procurar outra profissão. Como diz uma amiga, quem não sabe brincar não desce pro play. Continuo olhando o corpo, algo nos cortes da perna esquerda me incomoda, de longe parecem rabiscos aleatórios, mas quando me aproximo vejo que eles seguem alguma lógica, algum padrão, parecem palavras em algum alfabeto esquisito ou algo do tipo. Pode ser uma pista, ou uma mensagem do assassino, a espera de ser decifrada. Apostaria todo meu dinheiro nisso, se tivesse algum dinheiro, é claro. Para alguém ter coragem – e competência – para mutilar e matar, ou matar e mutilar, sei lá, o prefeito em plena residência oficial, e sair sem visto, como parece que aconteceu, esse alguém só pode ter uma mensagem a passar. Sei lá, pode ser também que o prefeito tenha pisado feio na bola e despertado o ódio irracional de alguém. Mas é melhor pensar em outra coisa, preciso dar licença, agora é hora de a perícia trabalhar.