Singelas Ameaças
4 Aposta
Notas iniciais
– Sofi! O café tá na mesa! — Gritei no pé da escada, sabendo que Dinah não iria levantar tão cedo, já que chegou depois de mim em casa.
– Sabia que você demorou muito a chegar, Mila? — Descendo veloz e pulando a cada dois degraus, Sofi chegou a cozinha com um bico enorme e a testa franzina.
– Primeiro de tudo, eu avisei que ia chegar tarde e você disse que já estava grandinha pra ficar em casa sozinha e ia estudar e blábláblá! Segundo, quantas vezes eu vou ter que dizer pra você não correr nas escadas, hein?! — Como eu não tinha bebido demais, nem estava com dor de cabeça, apenas com preguiça porque o final de semana todo é pura preguiça nessa casa e sempre foi, então, acordei relativamente cedo pra fazer o café da manhã para Sofi, minha irmãzinha, pois ela tem um final de semana sempre bem corrido já que eu pago dois cursos que ela adora. Balé e contabilidade.
– Eu sei, Mila! Eu sei. Mas é que eu pensei que vocês iriam chegar juntas. Você veio de carro enquanto Dinah ficou sozinha e chegou de taxi. Eram 4:30 da madrugada quando ela chegou cambaleando! — Essa preocupação toda, é de família. Fico bem pior quando ela sai sem me avisar, mas eu já sou menos explosiva. Sofi tem um gênio muito difícil.
– Eu sei, Sofi, meu amor! Eu vi, mas ela tinha me avisado que iria vir depois de mim. Ela estava com aquela mulata que ela se apaixonou semana passada, sabe?! — Assim que eu terminei minha frase, Sofi engasgou com o queijo branco que comia. Ela e Dinah são muito próximas então aposto que Dinah irá ouvir as reclamações por um mês de como ela não contou tudo que pretendia para minha irmã.
– Como assim? Ela ficou com a mulata? Você conheceu ela? — Sua voz sempre elevava-se demais quando estava ansiosa ou empolgada com algo. Parecia uma sirene de ambulância!
– Vai com calma, Sofi! — Novamente o bico costumeiro, para em seguida, pegar uma fatia de pão com manteiga de amendoim. — Fomos a um bar bem legal, que ela conheceu a mulata, que, a propósito, se chama Normani Kordei.
– Nossa! Que nome legal. — Seus olhos estavam vidrados olhando o teto, mas sei que ela estava imaginando.
– É sim. Combina com a imagem sexy que ela tem. — Nós rimos, sabendo que Dinah sempre tem um crush maior por pessoas intensas e sensuais. — Enfim, eu vi a performance dela e depois Normani e Dinah foram tomar algumas bebidas. Aposto contigo que ela se beijaram!
– Tá brincando?! — Abriu a boca, não acreditando que Dinah Jane poderia ser tão rápida assim.
– Quieres apostar? — Desafiei-a, vendo a mão dela bater na mesa e depois, estender numa aposta.
– Valendo cinquentinha, irmã! — Dinheiro. Acho que é por isso que ela adora contabilidade!
– E você lá tem 50 dólares, garota? — Perguntei rindo, sabendo que ela economiza pra tudo.
– Você sabe que sim, Mila! Vai amarelar? — Nossa risada idêntica ecoou pela cozinha.
– É claro que vou, não tô rica igual você que quer apostar logo 50! — Dinah foi rápida para conseguir o número de telefone da Normani, mas DJ sempre fica tímida quando se trata do "primeiro passo" para um toque mais íntimo.
Sofi terminou seu café da manhã e subiu para se arrumar. Peguei uma banana e subi as escadas depressa, pois quem leva a princesinha para o balé hoje, sou eu. Terminei de colocar meu jeans e calcei meu converse preto, procurando pelos cantos, minha camisa da sorte. Minha camisa preferida.
Jeans rasgado jogado na cadeira, regata vermelha jogada pela escada. Ah, Dinah Jane...
Apenas juntei as roupas que estavam espalhadas pelo corredor e fiz um pequeno monte, perto da porta do quarto de Dinah. Abri a porta do meu quarto, que fica praticamente ao lado do de Dinah e fui logo para frente do meu closet, e assim que abri a porta, vi de relance o amarelo da camisa. Puxei o cabide e lá estava: A camiseta com estampa de cogumelo do Mario.
Ganhei essa camisa um dia depois do meu aniversário de 17 anos, como presente de Mama, pois naquele ano, eles fingiram esquecer meu aniversário e eu já estava mesmo acreditando! Como ela e todos em casa sabem que eu tenho uma quedinha por jogos assim, de plataforma, e desde que me conheço por gente, meu jogo preferido é Mario World, ela me deu essa camisa e Papa comprou alguns jogos.
Naquele mesmo dia, fomos a sorveteria que sempre vamos quando um membro da família fica mais velho. A sorveteria preferida de Sofi, que nesse ano estava com apenas 10 anos e disse que queria um sorvete de 3 bolas com calda de menta.
Mama, Papa, Sofi e eu, aproveitamos algumas horas na sorveteria, tanto porque estavamos rindo, tanto porque eu e Sofi comemos muito! A sorveteria era popular no bairro tranquilo da época, porém, quando voltávamos de carro para casa, apenas para trocar de roupa e ir para casa da vovó e jantar em família, sofremos uma colisão com um outro carro, que ultrapassou o sinal vermelho e bateu de frente com nosso.
Quando paro para pensar nisso, vejo o acidente todo novamente. Estava começando a escurecer, então algumas lojas estavam fechando, não tinha tanta criança brincando na rua, apenas alguns adultos voltando do trabalho e alguns comerciantes fechados seus negócios. Minha atenção estava voltada para um cachorrinho pequenino que comia algum resto de comida num potinho verde, que o dono da banca de jornal que me conhecia desde sempre, August, colocou para o mesmo, enquanto acarinhava sua cabecinha.
O próxima lembrança depois dessa é um borrão. Eu sei que senti dor e ouvi gritos de Mama e Sofi, que desmaiou e ficou de ponta cabeça no carro. Sempre colocamos o cinto de segurança, porém, naquele dia, creio que o impacto foi tão forte que o cinto que prendia minha cintura arrebentou, e meus pais não tinham colocado o cinto de segurança ainda. Lembro da horrível mania que meu pai tinha de colocar o cinto de segurança apenas no primeiro sinal fechado quando o carro já estava em movimento. Mamãe só lembrava do cinto na mesma hora em que via Papa colocando-o.
– Hermana! — Ouvi a voz de Sofi, fina e esganiçada, como era a minha quando criança. Ela gritou para mim e vi o desespero nos seus olhos de chocolate antes de bater a cabeça no banco de Mama e desmaiar. — Por que tá olhando pro seu all star desse jeito? Pisou no chiclete? — Apenas senti sua mão no meu ombro. Enquanto relembrava daquela cena marcante, ela estava realmente ali, 4 anos mais velha e mais forte até do que eu.
– Oh, desculpe, amor. Eu acabei... pensando demais. — Levantei da cama, que tinha me sentado para vestir a camisa e olhei em seus olhos. Os mesmo olhos de chocolate que imploraram para mim nunca a deixar, quando ainda estávamos no hospital.
– Você está mesmo bem? Estava... chorando? — Meus olhos lacrimejam sempre que relembro aquele dia. O dia que vi meus pais morrerem no banco da frente do nosso carro.
– Não, eu bocejei. Ainda tô com sono... — Seus olhos, igual aos meus, encaram minha alma de frente. Ela é apenas uma criança, mas me dá forças sempre que preciso. Ela é a razão por eu ainda estar aqui.
– Sei... — Seus olhos passearam pela minha roupa e encararam o cogumelo na minha camisa. — Vamos logo antes que eu me atrase para a aula de balé, Mila.
– Tá, vai na frente... já desço em um minuto. — Ela encarou minha camisa mais uma vez, encarou meus olhos e suspirou. Apenas virou as costas e saiu do quarto. Corri para a escrivaninha e abri a gaveta, pegando minha carteira e um bolo de dinheiro que estava guardando a dois meses para o aniversário de Sofi, que ainda fará 14, mês que vem. Ela sempre fala que é mais velha quando seu aniversário está próximo. Ela querendo ser mais velha enquanto eu... queria apenas alguém pra cuidar de mim. Sinto uma falta enorme de meus pais, pois eles faziam de tudo por nós. Eu apenas estudava quando tinha 16 anos. Mas quando tudo aconteceu... minha rotina mudou drasticamente. Morei 1 ano inteiro com meus avós maternos, pois ainda não podia, pela lei, cuidar de Sofi sozinha. Depois arranjei um emprego como estagiária de meio período num escritório de arquitetura enquanto estudava de tarde e ficava com meus avós de noite. Durante um ano inteiro, aprendi a me virar sozinha, pois meus avós já eram de mais idade, e cuidar de Sofi já tirava o sossego deles demais. Quando fiz 18, queria alugar um apartamento para mim, e meus avós contaram que, mesmo não sendo legalmente maior de idade e responsável pela Sofi, a guarda dela foi transferida automaticamente para mim, pois meus pais já cuidaram de tudo a anos. Transferiram a guarda, a casa, dois carros e a casa na praia que tínhamos e visitávamos nas férias. Tudo para mim. E Sofi, claro.
– Então, você vai conseguir ir na minha apresentação no sábado que vem? — Vi seus olhos brilhando pelo retrovisor. Ela adora dançar e, não faço ideia de como, ama cálculos.
– É claro que sim, Mi amor. Eu e Dinah estaremos na primeira fileira! — Sorri para o espelho, vendo suas covinhas aparecerem. Tudo que eu faço hoje é pensando no futuro de Sofi e na minha felicidade. Agora, não mais estagiária do escritório, sou assistente pessoal da gerente arquiteta. Faculdade de Designer de Interiores, junto a DJ, que sempre quis ter um negócio comigo. Fazemos planos para abrir nossa própria empresa em menos de 7 anos. Vendi a casa de praia e um dos carros para colocar numa poupança para emergências e com o dinheiro que meus pais separaram para Sofi e para mim, pago quase todas as contas. Meu emprego é um lucro para despesas da casa e claro, para que Sofi se divirta e aprenda a ser uma mulher influente.
– Boa aula, mi amor. Venho de pegar ás 17:00. — Sinal positivo com a cabeça, saiu do carro com suas duas bolsas e ajeitando o cabelo igual meu modo de ajeitar o cabelo, e contornou o carro para me dar um beijo no rosto.
– Okay, Mila. Não fica sem comer e faça Dinah sair daquela cama porque vou querer todos os detalhes de ontem quando eu chegar. — Gargalhando comigo, mandou beijos com a mão enquanto se aproximava da porta da companhia de dança. E hoje, o que me resta, é criar coragem para convidar Lauren para um café.
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