Sing of the times
6 Say You Love Me
Notas iniciais
Capítulo 6: Say You Love Me
A manhã em Londres não pediu permissão para entrar pelas cortinas pesadas do *The Savoy*. O céu era de um cinza metálico, carregado de uma umidade que parecia penetrar até os ossos. Bella acordou com a sensação de que o tempo havia dobrado sobre si mesmo; por um segundo, ao abrir os olhos, ela esperou ver o papel de parede do antigo apartamento que dividiam, e não a opulência impessoal da suíte master.
Ela desceu para o lobby dez minutos atrasada, o coração batendo em um ritmo ansioso. A falta de sono e o jet lag haviam criado uma névoa em sua mente. Edward já estava lá, sentado em uma poltrona de couro, revisando o tablet. Antes mesmo que ela pudesse dizer "bom dia", ele estendeu um copo de papel térmico em sua direção.
— Latte de aveia. Dois sachês de açúcar mascavo. Extra quente porque o ar condicionado daquela sala de reuniões é glacial — ele disse, sem desviar os olhos da tela.
Bella estancou. Ela aceitou o copo mecanicamente, sentindo o calor através do papel. O gesto foi tão automático, tão despido de hesitação, que a deixou desarmada.
— Obrigada — ela murmurou, levando o copo aos lábios.
Ela bebeu um gole longo e, por puro hábito de uma vida que parecia enterrada, pegou o copo de café preto que estava na mão dele para provar a temperatura, exatamente como fazia há dez anos quando ele reclamava que o café estava frio. Só quando sentiu o amargor do expresso puro é que ela percebeu o que tinha feito.
Edward parou de digitar. Ele ergueu os olhos para ela, e um sorriso de lado — pequeno, genuíno e devastadoramente familiar — surgiu em seus lábios.
— Continua roubando o meu café, Swan? — ele perguntou, a voz baixa.
Bella sentiu o rosto esquentar.
— Força do hábito.
— É um hábito perigoso — ele respondeu, mas não havia raiva, apenas uma nostalgia que doía.
A reunião com o conselho europeu foi uma aula de sinergia. No mundo dos negócios, Bella e Edward eram como uma mente compartilhada dividida em dois corpos. Eles não precisavam se olhar para saber quando um deveria ceder e o outro atacar. Bella apresentava os dados logísticos com uma precisão cirúrgica, e Edward fechava as lacunas financeiras com uma agressividade elegante.
No final da tarde, um dos investidores seniores, um homem francês com décadas de experiência, fechou sua pasta e os observou com curiosidade.
— É fascinante assistir vocês — o homem comentou, sorrindo. — Já trabalhei com muitos sócios, mas vocês... vocês trabalham como uma mente única. Existe uma coreografia entre vocês que não se ensina em Harvard.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Bella fingiu organizar seus papéis, sentindo o peso do olhar de Edward sobre ela.
— São apenas anos de prática, Monsieur — Edward respondeu, mas sua voz soou oca até para os próprios ouvidos.
O dia se estendeu até a noite. Quando as luzes de Londres começaram a brilhar através da chuva fina, eles ainda estavam na sala de guerra improvisada no escritório da filial. A equipe já havia ido embora. Bella estava curvada sobre uma planilha, o cabelo começando a soltar-se do coque perfeito, os sapatos de salto jogados em um canto.
Edward estava ao telefone com Carlisle, a voz tensa, a mão livre massageando a nuca. Ele desligou o aparelho com um suspiro de frustração e puxou a gravata, tentando afrouxar o nó que parecia estar sufocando-o o dia inteiro. O nó prendeu.
Sem pensar, movida por um instinto que ignorava os últimos dez anos, Bella se levantou. Ela caminhou até ele e parou a centímetros de seu peito. Suas mãos subiram para o colarinho dele, os dedos ágeis desfazendo o nó da gravata com a precisão de quem fizera aquilo mil vezes.
Edward congelou. Ele prendeu a respiração enquanto observava o topo da cabeça de Bella. O cheiro de flores cítricas do cabelo dela inundou seus sentidos. Por um momento, o tempo parou. O corpo de ambos lembrou o que a mente tentava negar: a distância exata, o calor da pele, a intimidade doméstica de cuidar um do outro.
Bella afrouxou o nó e alisou o colarinho da camisa dele. Quando seus olhos finalmente encontraram os dele, o choque de realidade os atingiu. Suas mãos ainda estavam apoiadas no peito dele, sentindo o coração de Edward bater em um ritmo frenético sob o tecido fino.
Nenhum deles recuou. Edward fechou os olhos por meio segundo, inclinando a cabeça levemente em direção ao toque dela, como se estivesse finalmente encontrando descanso após uma longa jornada.
— Você está se matando de novo — ela sussurrou.
— Alguém tem que garantir que o império não caia — ele respondeu, a voz rouca.
— Não. Eu tento impedir você de se destruir trabalhando — Bella rebateu, usando as mesmas palavras que ele usara para ela anos atrás. — Você não é uma máquina, Edward.
Eles saíram do prédio tarde. A chuva havia aumentado e o motorista estava preso no trânsito londrino.
— Vamos andando — Edward sugeriu. — O hotel é perto e eu só tenho um guarda-chuva.
Eles caminharam pelas ruas molhadas, as luzes dos postes refletidas nas poças como ouro derretido. Edward segurava o guarda-chuva, inclinando-o mais para o lado de Bella do que para o seu próprio, deixando o ombro esquerdo de seu terno caro ficar ensopado.
Em um momento, o vento soprou mais forte, quase virando o guarda-chuva, e Bella soltou uma risada curta e genuína ao tentar segurá-lo junto com ele. Edward riu também. Foi um som leve, despido de mágoa. Por alguns segundos, eles não eram os herdeiros de fortunas em guerra; eram apenas dois jovens que se amavam em Londres.
Bella tropeçou levemente em um paralelepípedo irregular. Instintivamente, a mão de Edward envolveu a cintura dela para estabilizá-la. Ele não a soltou imediatamente. A palma de sua mão parecia queimar contra o tecido do casaco dela. Eles pararam no meio da calçada deserta, a chuva batendo no tecido do guarda-chuva acima deles.
Eles estavam ali, implorando silenciosamente para serem escolhidos, para que o outro dissesse o que estava engasgado há uma década. Mas o medo era um muro alto demais.
O carro do hotel finalmente os interceptou no meio do caminho. No trajeto final, o silêncio na cabine traseira era denso. Bella, exausta pela tensão emocional e pelo trabalho, sentiu o corpo ceder. Sem perceber, sua cabeça pendeu para o lado e pousou no ombro de Edward.
Edward endureceu por um segundo, mas então relaxou. Ele não se moveu. Ele não respirou fundo para não acordá-la. Ele apenas encostou levemente a própria cabeça na dela, um contato quase imperceptível, mas que para ele era o lugar mais seguro do mundo.
Quando o carro parou em frente ao The Savoy , Bella acordou com o sobressalto de quem se sente exposta.
— Desculpe... eu... eu dormi — ela disse, ajeitando o cabelo, o rosto corado de embaraço.
Edward abriu a porta do carro, mas antes de sair, ele se inclinou em direção a ela. Sua voz saiu em um tom tão baixo que parecia um segredo.
— Não peça desculpas, Bella. Você sempre dormiu melhor comigo.
Ele saiu do carro antes que ela pudesse responder. Bella ficou ali, sentada no banco de couro, sentindo o ar faltar em seus pulmões. Ele não disse que a amava. Ele não precisava. A intimidade daquelas poucas horas em Londres havia dito tudo o que as palavras não ousavam pronunciar: eles nunca tinham deixado de ser um do outro. Eles apenas tinham esquecido como voltar para casa.
O som da porta da suíte se fechando atrás de Bella pareceu o ponto final de uma frase que ela não tinha coragem de terminar. Ela encostou as costas na madeira fria, o peito subindo e descendo em um ritmo descompassado. As palavras de Edward no carro ainda flutuavam no ar do corredor, carregadas de uma verdade que ela tentava enterrar sob camadas de dever e gratidão.
*“Você sempre dormiu melhor comigo.”*
O pior não era ele ter dito. O pior era ser verdade. Londres estava agindo como um solvente, dissolvendo a armadura que ela levou dez anos para forjar. Pela primeira vez em uma década, a culpa não foi o primeiro sentimento a emergir; foi um alívio aterrorizante.
O celular em sua bolsa vibrou, cortando o silêncio como um choque elétrico. Era uma chamada de vídeo.
Damon.
Bella sentiu o estômago revirar. Ela respirou fundo três vezes, ajeitou o cabelo com os dedos trêmulos e atendeu. A tela iluminou o quarto escuro com a imagem solar de sua casa em Nova York.
— Mamãe! — O grito de Charlotte veio antes mesmo da imagem focar. Ela estava de pijama, com o cabelo ainda úmido do banho e um desenho nas mãos. — Olha! Eu desenhei a gente no parque, mas o papai disse que você está em Londres e lá sempre cheira a chuva. É verdade? Londres é molhada, mamãe?
Bella sentiu uma pontada física no coração. A pureza daquela voz era o âncora que ela precisava, mas que também a sufocava.
— É verdade, meu amor. Londres é muito molhada — Bella forçou um sorriso, mas seus olhos não acompanharam o gesto.
Damon apareceu no enquadramento, sentando-se atrás de Charlotte. Ele parecia cansado, mas seus olhos brilharam ao ver a esposa. Era o olhar de um homem que confiava sua vida inteira àquela mulher.
— Você parece exausta demais, Bells — Damon murmurou, sua voz suave carregada de uma preocupação genuína. — Edward está te dando muito trabalho? Se eu soubesse que essa fusão ia sugar sua energia assim, eu mesmo teria ido no seu lugar para te poupar.
A benevolência de Damon era um açoite. Bella sentiu o peso do casaco ainda em seus ombros, o casaco que carregava o cheiro de cedro e chuva de Edward. Ela sentiu como se estivesse cometendo um crime em rede nacional.
— É só o fuso horário, Damon. Eu vou dormir agora — ela disse, a voz falhando por um segundo.
— Vá descansar. Eu te amo, Bella. — Damon mandou um beijo para a câmera. — Charlotte, dá tchau para a mamãe.
— Tchau, mamãe! Cuida da chuva!
A ligação caiu. O silêncio que retornou era dez vezes mais pesado. Bella arrancou o casaco do corpo com uma pressa febril, jogando-o em uma poltrona distante como se ele estivesse em chamas. Ela se sentou na beira da cama, escondendo o rosto nas mãos. A realidade de Nova York acabara de colidir com a bolha de Londres, e os destroços eram insuportáveis.
No quarto ao lado, Edward estava parado diante do espelho do banheiro. Ele não tinha tirado a camisa. Sua mão direita estava espalmada contra a própria nuca, exatamente no lugar onde os dedos de Bella tocaram para afrouxar sua gravata horas antes. Ele fechou os olhos, tentando reter a sensação térmica daquele toque.
Seu celular apitou sobre o mármore. Uma mensagem de Caroline.
Era uma foto. Uma mesa posta para um jantar solitário, uma única taça de vinho e a legenda: "A casa parece grande demais sem você. Sinto falta da sua música no piano. Volta logo."
Edward sentiu uma náusea moral. Ele não odiava Caroline; ele tinha pena da mulher que ela se tornara ao seu lado. Ele sabia que ela merecia ser o sol de alguém, não um satélite girando em torno de um planeta morto. Ele era necessário para ela, assim como Damon era o alicerce de Bella.
Mas ali, no silêncio da madrugada londrina, Edward percebia o paradoxo trágico de suas vidas: Bella era amada por um homem maravilhoso, e ele era a âncora de uma mulher dedicada. Mas eles só se sentiam realmente vistos quando estavam um na frente do outro.
A insônia venceu ambos. Às três da manhã, Bella saiu de sua suíte. Ela estava vestindo um moletom largo cinza, o cabelo solto e o rosto lavado, sem as máscaras da maquiagem ou do poder. Ela só queria um copo de água, um pouco de ar que não estivesse viciado pelas suas próprias mentiras.
Ela encontrou Edward na biblioteca antiga do hotel, um espaço de madeira escura e cheiro de papel velho que ficava no final do corredor. Ele estava sentado em uma poltrona, uma garrafa de água mineral intocada ao lado. Ele também estava despojado do terno; apenas uma camiseta preta e calças de algodão.
Eles pareciam os jovens de dez anos atrás. Duas almas que não sabiam o que fazer com tanto sentimento.
Bella parou na entrada. Edward ergueu os olhos. Não houve susto, apenas um reconhecimento silencioso.
— Você também não consegue desligar a mente — ele constatou.
Bella entrou, sentando-se no sofá em frente a ele. A luz da biblioteca era fraca, criando sombras longas entre eles.
— Eu odeio o fato de que tudo entre nós ainda parece tão fácil, Edward — ela disse, a voz saindo sem filtros, desarmada pela madrugada. — Dez anos. Duas vidas inteiras construídas sobre as cinzas do que fomos. E, em menos de quarenta e oito horas em Londres, nós voltamos a funcionar como se nunca tivéssemos parado. É assustador.
Edward inclinou-se para a frente, os cotovelos apoiados nos joelhos. Ele olhou para ela com uma intensidade que parecia arrancar o coração dela do peito.
— Sabe por que parece fácil, Bella? — Ele fez uma pausa, a respiração pesada. — Porque nunca foi difícil amar você. O mundo foi difícil. As escolhas foram difíceis. A minha covardia foi difícil. Mas amar você? Foi a única coisa natural que eu já fiz na vida.
O ar entre eles tornou-se denso, elétrico. Bella sentiu o espaço diminuir sem que nenhum dos dois se movesse. Era a força gravitacional de uma década de saudade. Ela se inclinou levemente, e Edward fez o mesmo.
As respirações se misturaram. Edward olhou para a boca dela, depois para os olhos, implorando silenciosamente por uma permissão que ele não tinha o direito de pedir. O mundo exterior desapareceu. Não havia fusão, não havia Carlisle, não havia mágoa.
Estava quase acontecendo. O "quase" que eles evitaram por anos.
De repente, o celular de Bella, que estava no bolso de seu moletom, começou a tocar. A vibração no tecido foi como um disparo.
Damon.
Ela recuou imediatamente, como se tivesse sido atingida por um raio. O transe quebrou. Edward fechou os olhos, encostando a cabeça no encosto da poltrona, a expressão de quem acabara de perder tudo outra vez.
Bella pegou o aparelho com as mãos trêmulas.
— Oi, Damon? — ela atendeu, a voz instável.
— Bells? Desculpe ligar de novo, a Charlotte teve um pesadelo e não para de pedir para ouvir sua voz. Você pode falar com ela cinco minutinhos?
Edward levantou-se silenciosamente. Ele não olhou para trás enquanto caminhava em direção à saída da biblioteca. Ele entendeu o recado do universo: não importava o quanto a conexão deles fosse fácil, o mundo dela agora tinha vozes que ele não podia silenciar.
Bella ficou ali, no escuro, ouvindo a voz sonolenta de Charlotte do outro lado da linha, enquanto observava a silhueta de Edward desaparecer no corredor.
O problema de reencontrar o amor da sua vida não era perceber que ainda o amava. Era descobrir que ele continuava parecendo certo mesmo quando tudo ao redor gritava que deveria ser errado. Entre Nova York e Londres, entre alianças douradas e promessas quebradas, eles estavam voltando a gostar da versão de si mesmos que existia apenas quando estavam juntos. E esse era o perigo mais letal de todos.
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