Sing of the times
7 Never Let Me Go
Notas iniciais
Capítulo 7: Never Let Me Go
Os primeiros cinco dias em Londres não foram marcados por grandes eventos, mas por uma erosão silenciosa de defesas. A rotina se instalou entre eles com uma naturalidade assustadora. Eram cafés divididos em silêncio às seis da manhã, antes que o mundo acordasse; eram as mensagens de Damon que Bella respondia com monossílabos, sentindo-se cada vez mais como uma turista em sua própria vida; era Edward esperando por ela no lobby, observando-a descer as escadas e ajustando o relógio como se o tempo só começasse a contar quando ela aparecia.
Sem perceber, Bella já escolhia as gravatas de Edward para as reuniões. Sem notar, Edward pedia o prato favorito dela no almoço sem consultar o cardápio. Eles funcionavam como uma máquina perfeitamente azeitada, uma unidade que o resto do conselho observava com reverência e temor. A bolha de Londres havia se tornado o único universo real.
O choque de realidade veio em uma tarde cinzenta, através de uma notificação na tela do celular de Bella. Uma mensagem de Rosalie:
“Você sumiu emocionalmente, Bella. Eu conheço esse silêncio. Cuidado com o que você está deixando Londres levar de você.”
Bella travou. Ela olhou para Edward, que estava do outro lado da sala rindo de algo que Stefan dissera por telefone, e percebeu que não lembrava a última vez que pensara em Nova York sem sentir que estava forçando a memória.
A noite do jantar de encerramento da primeira fase da fusão chegou com a promessa de celebração. O restaurante era um refúgio de luxo discreto em Mayfair, com paredes de veludo azul e luz de velas. O vinho era caro, antigo e fluía sem restrições.
Pela primeira vez em dez anos, o peso desapareceu. Bella ria alto, uma risada que vibrava em seu peito e fazia Edward esquecer de respirar. Ela provocava-o, encostando o braço no dele com uma ousadia que o álcool facilitava e a alma implorava. Edward não se escondia mais; ele a olhava abertamente, com uma adoração que desafiava qualquer protocolo. Eles estavam leves. Estavam, pela primeira vez, felizes sem esforço. E isso era a coisa mais perigosa do mundo.
No elevador do The Savoy, na volta para o hotel, a realidade começou a cobrar o preço daquela leveza. O silêncio era pressurizado, carregado pelo som das respirações curtas. Bella olhou para o reflexo de Edward no metal polido e depois diretamente para ele.
— Você ainda olha para mim como se eu fosse a única mulher no planeta — ela sussurrou, a voz levemente embargada pelo vinho e pela saudade.
Edward deu um passo à frente, encurralando-a contra a parede do elevador. Seus olhos verdes queimavam.
— Porque para mim você ainda é, Bella. Nunca deixou de ser.
O elevador parou no andar deles com um tilintar suave. Eles saíram, mas não foram para quartos separados. Bella parou diante da porta dele, a chave magnética tremendo em sua mão. Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, ela o puxou pela nuca e o beijou.
Não foi um beijo de cinema. Foi um beijo de náufrago. Desesperado, faminto, como se ela estivesse morrendo de sede há dez anos e ele fosse a única fonte de água no deserto. Edward congelou por um milésimo de segundo, o choque de uma década de espera finalmente colidindo com o presente. Então, suas mãos envolveram o rosto dela com uma delicadeza quase religiosa antes de ele a pressionar contra a porta do quarto, retribuindo o beijo com uma ferocidade que dizia tudo o que o silêncio escondera.
Assim que a porta se fechou, o mundo exterior deixou de existir. Edward a prensou contra a madeira, suas mãos descendo para as coxas de Bella, levantando-a para que ela entrelaçasse as pernas em sua cintura. O beijo nunca cessava; era uma conversa de línguas e dentes, um reconhecimento de sabores que suas mentes tentaram esquecer, mas que seus corpos guardavam como um mapa sagrado.
Ele a carregou até a cama de lençóis de seda branca, deitando-a e pairando sobre ela. Edward parou por um segundo, os olhos fixos nos dela.
— Eu tentei sobreviver sem você, Bella — ele murmurou, a voz quebrada enquanto seus dedos trêmulos começavam a abrir os botões do vestido dela.
— Eu sobrevivi — ela respondeu, os olhos marejados enquanto puxava a camisa dele para fora das calças. — Esse foi o meu maior problema.
O vestido caiu, revelando a pele de Bella sob a luz âmbar do abajur. Edward a adorou primeiro com os olhos, depois com os lábios. Ele traçou um caminho de fogo de seu pescoço até os seios, seus beijos tornando-se mais famintos, mais urgentes. Ele a explorava como se estivesse redescobrindo um continente perdido.
Quando ele se livrou das próprias roupas, o impacto de seus corpos nus foi como um relâmpago. Edward desceu o corpo, os lábios percorrendo o ventre dela até chegar ao centro de sua necessidade. Bella arqueou as costas, os dedos enterrados nos cabelos dele, soltando um gemido que ecoou pelo quarto silencioso enquanto ele a devorava com uma dedicação absoluta, levando-a ao primeiro ápice apenas com a boca e a língua, em um ato de entrega total.
Quando ele finalmente se posicionou sobre ela, houve um momento de hesitação dolorosa. Edward pegou a mão esquerda de Bella. Ele olhou para a aliança dourada que ela ainda usava, o símbolo de sua vida com Damon. Com uma reverência triste, ele beijou o anel antes de Bella, com os olhos fixos nos dele, retirá-lo e colocá-lo na mesa de cabeceira.
Ele entrou nela devagar, um preenchimento que não era apenas físico, mas espiritual. Bella soltou um suspiro que era metade choro, metade prazer. Era como se as peças de um quebra-cabeça quebrado finalmente se encaixassem.
O ritmo começou lento, uma adoração mútua de pele contra pele, mas logo se transformou em uma tempestade. Edward a possuía com uma possessividade que clamava cada centímetro dela, e Bella respondia com a mesma intensidade, arranhando suas costas, implorando por mais. O som da pele batendo, os gemidos abafados contra o pescoço um do outro, o calor sufocante, eles transaram como se o sol nunca fosse nascer, como se pudessem queimar toda a dor de dez anos em uma única noite de excessos.
Fizeram amor repetidamente, explorando posições, buscando o limite do prazer um do outro até que seus corpos estivessem exaustos e suados. Foi uma celebração carnal, crua e detalhada, onde cada toque de Edward era uma promessa e cada resposta de Bella era um perdão.
Perto do amanhecer, a luz azulada da manhã londrina começou a infiltrar-se pelas frestas das cortinas. Eles estavam deitados, os membros entrelaçados, a respiração finalmente voltando ao normal. Bella estava com a cabeça no peito de Edward, ouvindo o coração dele, o som que ela sempre considerou o seu metrônomo. Pela primeira vez em anos, ela sentia uma paz absoluta. E foi essa paz que a destruiu. Porque se ela estava em paz ali, significava que nunca estivera inteira em nenhum outro lugar.
O silêncio sagrado foi quebrado por um brilho súbito. O celular de Bella, na mesa de cabeceira ao lado da aliança, acendeu com uma notificação.
A foto da tela de bloqueio iluminou o quarto: Damon e Charlotte rindo no parque.
Edward viu. Bella viu que ele vira.
O paraíso desmoronou instantaneamente sob o peso da realidade. O oxigênio do quarto pareceu acabar. Bella sentou-se na cama, puxando os lençóis para cobrir o corpo, sentindo o frio da manhã e o peso insuportável da traição.
Eles passaram dez anos tentando sobreviver longe um do outro. E bastou uma única noite para perceberem que nunca aprenderam como, e que o preço de voltarem para casa seria destruir o mundo de todos os outros.
O silêncio que se seguiu ao brilho do celular foi denso, quase sólido. A luz azulada da tela de bloqueio, mostrando o sorriso de Damon e a pureza de Charlotte, agia como um farol de realidade em meio aos destroços daquela madrugada. Bella puxou o lençol contra o peito, sentindo cada centímetro de sua pele ainda pulsando pelo toque de Edward, enquanto sua mente começava a processar o peso do que acabara de acontecer.
Edward não desviou o olhar. Ele não se moveu para cobrir a própria nudez ou para buscar uma desculpa. Seus olhos verdes estavam fixos na pequena aliança dourada que Bella havia deixado sobre a mesa de cabeceira. Com um movimento lento, ele estendeu a mão e pegou o anel.
Ele o segurou entre o polegar e o indicador, observando o brilho do metal sob a luz pálida da manhã de Londres.
— Eu odiei esse anel por dez anos — Edward disse, a voz tão baixa que era quase um sussurro, carregada de uma rouquidão exausta. — Cada vez que eu via uma foto sua, cada vez que eu imaginava você com ele... eu odiava o que ele representava.
Ele fez uma pausa, os olhos finalmente encontrando os de Bella, que agora estavam inundados de lágrimas silenciosas.
— E agora eu odeio ainda mais — ele continuou, a amargura se misturando à dor. — Porque ele pertence a um homem bom. E nós acabamos de provar que não somos dignos da bondade dele.
Bella soltou um soluço sufocado, cobrindo a boca com a mão. As lágrimas finalmente rolaram, quentes e amargas.
— Eu gosto dele, Edward — ela confessou, a voz quebrada, sentindo a traição arder em sua garganta como ácido. — Eu amo a vida que nós construímos. Eu amo a segurança, o riso dele, o modo como ele cuida da Lottie e de mim. Então, por que isso pareceu tão certo? Por que eu sinto que respirei pela primeira vez em uma década?
Edward deixou o anel cair de volta na mesa. O som do metal contra a madeira pareceu uma batida de martelo em um julgamento. Ele se inclinou, segurando o rosto dela com as mãos trêmulas, obrigando-a a olhá-lo.
— Porque talvez algumas pessoas sejam erradas no papel, Bells... e inevitáveis na alma. Nós tentamos ser corretos.
, tentamos ser o que eles esperavam. Mas aqui, no escuro, não existe papel. Só existe o fato de que eu sou seu e você é minha, não importa quantos nomes a gente assine em certidões diferentes.
O dia que se seguiu foi uma tortura de civilidade.
— Isso não pode acontecer de novo — Bella disse, enquanto se vestia apressadamente no banheiro, evitando o reflexo no espelho.
— Eu sei — Edward respondeu, já de pé, recuperando a armadura do terno caro.
Mas a mentira era transparente. A partir daquele momento, a dinâmica mudou. Não havia mais a negação que os protegia; agora havia o conhecimento.
No carro a caminho da primeira reunião do dia, Bella estendeu a mão e ajeitou o cabelo de Edward que estava levemente bagunçado na nuca. Foi um gesto automático, doméstico, carregado de uma intimidade que agora tinha memória física. Edward fechou os olhos por um segundo, aceitando o toque como um condenado aceita a última refeição.
Durante o almoço, dividiram uma sobremesa sem trocar uma única palavra, os garfos se cruzando no prato com uma sincronia que dizia: eu conheço cada preferência sua. Mas a bolha de Londres estava sendo perfurada. No meio da tarde, o celular de Bella vibrou com um áudio. Ela colocou no ouvido, e a voz de Charlotte preencheu o espaço: "Mamãe, a tia Rose disse que você volta logo. Eu fiz um lugar pra você na minha cabaninha de lençol. Volta logo!"
Logo em seguida, no celular de Edward, uma mensagem de Caroline: "Você ainda me ama? Ou o silêncio de Londres finalmente te convenceu de que eu não sou o suficiente?"
Eles se olharam através da mesa de conferência. O peso do mundo lá fora ,das pessoas boas que estavam sendo destruídas pelo egoísmo deles, era uma pressão constante. Mas, ao mesmo tempo, quando Edward passou por ela para pegar um documento e sua mão roçou deliberadamente na lombar de Bella, ela parou de respirar.
O toque não era mais apenas tensão; era o reconhecimento da pele que ele possuíra horas antes. Ela sabia exatamente o calor daquela palma, e o corpo dela clamava por ele com uma urgência que a assustava.
À noite, de volta ao hotel, a separação foi insuportável. Bella tentou dormir em seu próprio quarto. Ela deitou, fechou os olhos e tentou pensar em Damon. Mas o travesseiro não tinha o cheiro dele. A cama era grande demais. O silêncio era um grito.
Ela se levantou, os pés descalços no carpete frio. Ela não pensou. Ela apenas abriu a porta e saiu para o corredor.
Edward já estava lá.
Ele estava parado entre as duas portas, vestindo apenas uma camiseta preta e calças de moletom cinza. Ele parecia terrivelmente jovem e terrivelmente destruído. Ele não disse nada, apenas esperou. Ele sabia que ela viria, porque ele estava sentindo a mesma falta de ar.
Bella não hesitou. Ela caminhou até ele, agarrou o tecido da camiseta dele com as duas mãos e o puxou para dentro de seu quarto com uma força desesperada. No momento em que a porta se fechou, ela o beijou com uma fúria que era metade desejo, metade luto.
Eles caíram na cama novamente, as roupas sendo descartadas como se fossem obstáculos para a própria sobrevivência. Naquela noite, eles não fizeram amor; eles se agarraram um ao outro como sobreviventes de um naufrágio que decidiram parar de nadar.
O caso deles não começou na noite em que fizeram amor pela primeira vez. Começou no instante em que perceberam que não queriam mais voltar a sobreviver separados. Depois daquela noite, Londres deixou de ser o lugar onde eles se perderam. Tornou-se o lugar onde finalmente pararam de fingir que o resto do mundo ainda importava mais do que o que sentiam.
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