Sing of the times
5 Saturn
Notas iniciais
Capítulo 5: Saturn
O universo, em sua vasta e indiferente mecânica, possui uma inclinação cruel para a simetria. Dez anos depois de Londres ter se tornado o epicentro do colapso de tudo o que eram, Bella e Edward encontravam-se novamente em uma sala de carvalho, cercados pelo peso de legados que não lhes permitiam respirar. Naquela manhã, a decisão de Charlie e Carlisle não soou como uma estratégia de negócios, mas como uma sentença de exílio.
— Quinze dias — Charlie anunciou, ajustando os óculos enquanto apontava para os cronogramas de fusão. — É o tempo que vocês precisam para alinhar os detalhes com o conselho europeu. Londres é o coração dessa transação. Bella, você conhece a logística. Edward, você conhece os investidores. Juntos, vocês são imbatíveis.
Bella sentiu o sangue esfriar. Edward, sentado à sua frente, não moveu um músculo, mas a mandíbula travada era um sinal claro de que ele estava processando a mesma ironia amarga. Londres. O lugar onde as promessas morreram e o silêncio nasceu.
Ao fundo, Rosalie e Stefan trocaram um olhar carregado. Havia um pavor silencioso neles. Eles sabiam que mandar Bella e Edward para Londres sozinhos era como jogar um fósforo aceso em um armazém de pólvora que esperava uma década para explodir. Mas o conselho não via sentimentos; o conselho via apenas gráficos de desempenho.
Mais tarde, na privacidade de sua suíte, Bella observava Damon abrir a mala sobre a cama. O sol de Manhattan entrava pelas janelas, iluminando a figura dele, o homem que a resgatara do nada.
— Eu não queria ir, Damon — ela confessou, a voz saindo pequena enquanto se apoiava no batente da porta. — O projeto é importante, mas quinze dias...
Damon parou de dobrar uma de suas camisas de seda e caminhou até ela. Ele a envolveu em um abraço seguro, o cheiro de seu perfume amadeirado sendo, como sempre, o seu porto seguro.
— Você é a melhor pessoa para esse trabalho, Bella — ele disse, beijando o topo de sua cabeça com uma ternura que fez o peito dela arder de culpa. — Você ajudou a construir cada tijolo dessa empresa. Não deixe ninguém, nem mesmo o Edward, fazer você esquecer disso. Eu e a Lottie vamos ficar bem, estaremos aqui esperando por você.
Ele sorriu para ela, um sorriso sem vestígios de dúvida ou ciúme. A confiança de Damon era a coisa mais bela e, ao mesmo tempo, a mais devastadora na vida de Bella. Ele a amava com uma pureza que ela sentia que estava prestes a trair, mesmo sem intenção. Ele começou a ajudá-la a escolher os ternos, sugerindo combinações, agindo como o parceiro perfeito que sempre fora. Bella o observava e pensava em como era raro e belo o fato de ele existir, e como era trágico que, mesmo com todo esse amor, ela ainda se sentisse flutuando no vazio.
No apartamento da Park Avenue, o clima era o oposto. Caroline estava sentada na ponta da cama, observando Edward fechar a maleta de couro com movimentos mecânicos.
— Você não deveria ir — ela disse, a voz trêmula de uma ansiedade que beirava o pânico. — Outra pessoa poderia fazer isso. O Jasper, ou o Stefan...
— São ajustes técnicos, Caroline. Eu sou o responsável por Londres — Edward respondeu, sem olhar para ela.
— Toda vez que Manhattan coloca vocês dois na mesma sala, você volta a parecer infeliz, Edward — ela disparou, a verdade saindo de forma crua. — E agora você vai passar quinze dias com ela no lugar onde tudo começou? Eu sinto que estou perdendo você, e na verdade eu nem sequer sei se um dia eu te tive .
Edward parou por um segundo, as mãos apoiadas sobre a mala. Ele não negou. Não ofereceu palavras de conforto. O silêncio dele foi a confirmação que Caroline mais temia. Ele apenas pegou seu casaco e saiu, deixando-a cercada pela perfeição estéril de um lar que nunca se tornou uma família.
O hangar particular na madrugada de quinta-feira era um cenário cinematográfico de melancolia. A neblina cobria a pista, e as luzes de sinalização brilhavam como estrelas distantes. Edward chegou primeiro. Ele desceu do carro preto e ficou parado perto da escada do jato particular, o vento frio de Nova York bagunçando seu cabelo. Ele estava sozinho. A imagem da solidão que ele mesmo cultivara.
Minutos depois, o SUV dos Salvatore estacionou. A porta se abriu e a quietude do hangar foi quebrada pelo som da vida. Charlotte pulou do carro, correndo em direção à mãe, seguida por Damon.
Edward observava a cena em um silêncio sufocante. Ele viu Damon abraçar Bella por trás, mantendo-a aquecida contra o frio da madrugada. Viu o modo como eles formavam uma unidade perfeita.
Charlotte, vendo Edward, soltou a mão de Bella e correu até ele. Edward se ajoelhou instintivamente quando a menina se aproximou.
— Edward! — ela exclamou, envolvendo os bracinhos ao redor do pescoço dele. — Você vai cuidar da minha mamãe em Londres, tá? Ela fica triste quando trabalha muito e ela odeia a Inglaterra.
O coração de Edward parou. Ele sentiu o beijo estalado da menina em sua bochecha e a doçura inocente de seu pedido. Ele olhou para Charlotte e, por um segundo, a música de sua vida mudou para um tom menor, dilacerante. Ele queria dizer a ela que daria a própria vida para cuidar da mãe dela, mas que o destino já havia decidido que ele não era o homem escolhido para essa função.
— Eu vou, Lottie. Eu prometo — ele sussurrou, a voz embargada.
Damon aproximou-se, estendendo a mão para Edward com uma cordialidade sincera.
— Boa viagem, Edward. Traga ela de volta inteira para mim.
Damon então se virou para Bella. Ele a segurou pelo rosto, ignorando a presença de todos ao redor, e a beijou com uma intensidade que falava de dez anos de dedicação.
— Eu amo você, Bells— ele murmurou contra os lábios dela. — Vá e conquiste Londres com o seu talento...
Bella assentiu, sentindo-se desmoronar. Ela deu um último aceno para Charlotte e subiu as escadas do jato sem olhar para trás.
Dentro do avião, o luxo era silencioso e sufocante. Bella sentou-se perto da janela, observando Damon e Charlotte ficarem cada vez menores na pista enquanto o jato começava a taxiar. Edward sentou-se na poltrona do outro lado do corredor.
As luzes da cabine foram reduzidas. Abaixo deles, Manhattan tornou-se um tapete de luzes cintilantes, e logo, apenas o vazio escuro do Atlântico os cercava. Eles estavam acima das nuvens, em um espaço onde o tempo parecia não existir.
Nenhum dos dois falou. A tensão parecia vibrar nas paredes do avião. Eles estavam ali, lado a lado, dois sobreviventes de um desastre que ainda estava acontecendo.
Londres havia sido o lugar onde Bella e Edward se perderam na escuridão da ambição e do medo. Agora, o universo os colocava em um voo sem escalas de volta para o início. Quinze dias talvez fossem tempo suficiente para que encontrassem, um no outro, tudo aquilo que jamais conseguiram esquecer, ou para que finalmente percebessem que, às vezes, a beleza de existir é a mesma que torna a perda insuportável.
O jato cortava a noite, e em meio ao silêncio das turbinas, o maior ruído era o de dois corações que, apesar de tudo, ainda batiam no mesmo ritmo.
A cabine do jato particular era um casulo de luxo e silêncio, suspenso a dez mil metros acima de um Atlântico invisível. O único som era o zumbido constante das turbinas, que parecia pulsar no mesmo ritmo do coração de Edward.
Bella tentou trabalhar. Ela revisou os contratos de Londres, sublinhou cláusulas e ajustou projeções, mas sua mente estava exausta. O peso emocional dos últimos dias, o reencontro, a fúria na cozinha de Alice, a despedida de Damon e Charlotte no hangar, finalmente cobrou seu preço. Lentamente, seus olhos pesaram. A caneta escorregou de seus dedos para o tapete macio e sua cabeça pendeu suavemente para o lado, repousando contra o estofado de couro da poltrona.
Edward, que fingia ler um relatório de investimentos, baixou o tablet no mesmo instante. Ele a observou.
Ver Bella dormir sempre fora o seu oxigênio. Há dez anos, ele passava horas apenas contando o ritmo da respiração dela, maravilhado com a paz que ela exalava. E ali, naquela luz baixa e âmbar da cabine, ele percebeu com um aperto no peito que a biologia dela não havia esquecido a dele. Bella nunca dormia perto de estranhos; ela era um animal arisco, sempre em alerta. Mas ali, a poucos metros de Edward, o corpo dela relaxara involuntariamente.
Ele se levantou com passos felinos. Com uma delicadeza quase religiosa, Edward pegou uma manta de cashmere e a cobriu. Ele ajustou o travesseiro atrás da nuca dela, seus dedos roçando minimamente na pele quente de seu pescoço. Ele congelou quando ela se mexeu, mas Bella apenas soltou um suspiro longo.
— ...Edward... — ela murmurou entre sonhos, a voz num fio de seda. — ...não vai...
Ele sentiu o ar escapar de seus pulmões. Ela ainda falava dormindo. E ela ainda chamava por ele. Edward ficou ali, curvado sobre ela, observando cada detalhe: a curva dos cílios, o modo como os lábios dela se entreabriam. Por um momento, não havia empresa, não havia Salvatore, não havia passado ou futuro. Havia apenas a raridade de tê-la ali, ao alcance de sua mão. Ele afastou uma mecha de cabelo de seu rosto, o toque durando um milissegundo a mais do que o necessário.
— Eu não vou a lugar nenhum, meu amor — ele sussurrou, uma promessa que chegou dez anos atrasada.—Durma, minha Bella. Tenha sonhos felizes. Você é a única que já tocou meu coração. Ele será sempre seu. Durma, meu único amor...
Quando o sol começou a nascer sobre o horizonte europeu, pintando o céu de Londres com tons de rosa e cinza, Bella acordou. Ela se sentiu estranhamente descansada, uma sensação que não experimentava há meses. Ao perceber a manta sobre o corpo e ver Edward sentado à sua frente, tomando um café preto enquanto olhava para a névoa lá fora, ela não se armou.
— Obrigada... — ela murmurou, a voz rouca de sono.
— De nada. Você estava começando a tremer — ele respondeu, a voz suave, sem a aresta profissional que usavam em Manhattan.
Londres os recebeu com a sua habitual melancolia cinzenta. O carro os levou até o hotel, e o impacto foi imediato. Ao entrarem no saguão do The Savoy, Bella parou abruptamente. O cheiro de lírios brancos e cera de madeira antiga a atingiu como um soco.
Era o mesmo hotel. O mesmo onde celebraram o aniversário de 22 anos dela. Onde planejaram o futuro que nunca aconteceu.
— O Carlisle deve ter reservado por hábito — Edward disse, sua voz carregando o mesmo choque que ela sentia. — Se você quiser, podemos mudar...
— Não — Bella respondeu, recuperando a postura. — É apenas um hotel, Edward. Somos adultos.
Mas não era apenas um hotel. Quando chegaram ao andar, as portas de seus quartos eram vizinhas. Uma proximidade que parecia um convite ao desastre.
— Merda! Esqueci o adaptador para as tomadas europeias — Bella disse, vasculhando a bolsa na frente da porta, a frustração começando a subir. — Droga, eu sempre esqueço.
— Gaveta da esquerda da mesa de cabeceira, Bella — Edward disse, abrindo a porta do próprio quarto. — Eu trouxe três. Já deixo um na sua porta.
Bella parou. Ele lembrava. Ele lembrava que ela sempre esquecia o adaptador. Ele lembrava do lado da cama que ela preferia. A familiaridade entre eles era uma linguagem que nenhum dos dois conseguira desaprender.
Mais tarde, o jet lag e a chuva persistente os impediram de sair. Eles se encontraram no restaurante vazio do hotel para uma refeição tardia. O clima não era de confronto, mas de uma trégua silenciosa.
— Como está a Lottie? — Edward perguntou, após um longo silêncio.
Bella sorriu involuntariamente e pegou o celular. Sem pensar, ela virou a tela para ele. Era um vídeo que Damon acabara de mandar: Charlotte tentando usar um guarda-chuva grande demais para ela, rindo enquanto rodopiava.
— Ela é... ela é incrível, Edward. — Bella disse, e por um segundo, ela não era a executiva, era apenas a mãe.
Edward assistiu ao vídeo. Ele viu a alegria pura na menina e a presença protetora de Damon ao fundo. Doeu, mas ele sorriu. Pela primeira vez, Bella o deixara entrar na parte mais sagrada de sua nova vida.
— Ela tem a sua luz, Bella — ele disse, devolvendo o celular. O toque de seus dedos ao entregar o aparelho foi prolongado. — Às vezes eu acho que passei dez anos apenas sendo funcional. Como uma máquina que esqueceu para que serve.
Bella baixou o olhar para a taça de vinho.
— Eu entendo. Às vezes eu acho que passei tanto tempo tentando sobreviver ao que aconteceu que esqueci como era simplesmente... viver. Sem planejar o próximo sacrifício.
Eles riram. Um riso pequeno, triste, por causa de uma piada interna sobre o café horrível que tomaram em um aeroporto há uma década. E naquele riso, a distância entre eles encurtou de quilômetros para centímetros.
Quando voltaram para o corredor do hotel, a luz era baixa. Bella parou diante de sua porta, a chave magnética na mão. Edward estava logo atrás, perto demais. O cheiro dele,aquele cedro e chuva, estava em todo lugar.
— Londres continua parecendo o fim do mundo — ela sussurrou, olhando para as próprias mãos.
Edward deu um passo à frente. Ele não a tocou, mas sua presença era um abraço invisível.
— Talvez porque foi aqui que eu perdi o meu, Bella.
Ela ergueu os olhos para ele. Havia tanta verdade naquela frase que o ar pareceu vibrar. Por um segundo, ela quis se inclinar. Quis esquecer Damon, a fusão e o peso dos sobrenomes. Mas ela apenas assentiu.
— Boa noite, Edward.
— Boa noite, Bella.
Ela entrou no quarto e fechou a porta, encostando-se na madeira. Ela tentou invocar o rosto de Damon, tentou lembrar do beijo dele no hangar, mas a imagem estava embaçada. A única coisa que ela conseguia sentir era o peso da manta no avião e o som da voz de Edward no corredor.
Naquela noite, sob o céu de Londres, Bella percebeu que o problema de voltar ao lugar onde tudo começou é que o coração não entende que o tempo passou. Ele apenas reconhece o seu dono.
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