Sinapsis
24 Tudo o que Restou
Eu tapei os ouvidos com as mãos. Não adiantou. O som atravessava a porta, atravessava minhas palmas, se enfiava direto no meu crânio. Eu curvei o corpo para frente, a testa encostada nos joelhos, e chorei junto — silencioso, seco, sem força para fazer barulho.
O choro da mãe dela não diminuía. Era constante, pesado, como se ela estivesse se desfazendo por dentro aos poucos.
Meu celular vibrou no bolso. Eu ignorei. Vibrou de novo. E de novo.
Eu tirei o telefone com a mão trêmula. O nome na tela: Pai.
Atendi sem conseguir falar direito.
— David? — A voz dele saiu baixa, urgente, mas tentando manter a calma. — David, me responde. O que aconteceu?
Eu abri a boca. As palavras saíram quebradas, entre soluços.
— Ela... ela morreu, pai. A Lorie... morreu. O Victor... atirou nela. Eu vi. Eu vi tudo. E eu não consegui... eu jurei que ia proteger ela...
Do outro lado da linha, um silêncio curto. Depois a voz dele mudou — mais grave, mais direto.
— Não foi o Victor, filho…O Grande Mestre Obscuro…retornou à vida.
Eu pisquei, confuso, as lágrimas ainda escorrendo. A informação entrou, mas não processou. Só ficou pairando ali, sem significado real no meio de toda aquela dor.
Meu pai soltou um suspiro longo, cansado.
— Eu tô indo agora mesmo te buscar. Fica aí. Tenta se acalmar. Eu vou falar com a mãe dela também. Segura mais um pouco, tá? Eu tô a caminho.
Ele desligou.
Quase dez minutos depois, a campainha tocou.
Eu me levantei devagar, as pernas bambas. Abri a porta.
Meu pai estava ali, Roupa amarrotada, ele havia acabado de ser ejetado, o rosto marcado de cansaço. Ele me olhou uma vez — só uma — e me puxou para um abraço forte, apertado, daqueles que quase esmagam as costelas. Eu não retribuí de imediato. Depois soltei tudo, agarrando a camisa dele como se fosse afundar.
— Eu tô aqui — ele murmurou no meu cabelo. — Eu tô aqui, filho.
Ele me soltou devagar, segurou meu rosto com as duas mãos, limpando as lágrimas com os polegares.
— Vai pra fora um pouco. Pega um ar. Eu vou falar com ela.
Eu assenti, sem força para discutir.
A porta se fechou atrás dele.
Eu me sentei no chão novamente, encostado na parede oposta. Consegui ouvir pedaços da conversa — vozes baixas, abafadas. A voz da mãe dela, rouca de tanto chorar, respondendo algo que eu não entendi. Meu pai falando devagar, calmo.
Eu não conseguia processar nada. Só ficava ali, olhando para o nada, as mãos ainda trêmulas no colo.
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Em Sinapsis, o silêncio era absoluto.
O campo de batalha improvisado ainda carregava o cheiro de energia queimada e de estruturas oníricas despedaçadas. Corpos de agentes da Unidade — os que sobraram — estavam ajoelhados em fileiras perfeitas, cabeças baixas, esperando. Os doze Líderes permaneciam de pé um pouco à frente, imóveis como estátuas.
No centro de tudo, flutuando alguns centímetros acima do chão negro reflexivo, estava ele.
O Grande Mestre Obscuro.
O corpo pálido, quase translúcido, parecia maior agora que estava completamente desperto. Os robes negros esvoaçavam sem vento, as runas roxas pulsando como veias vivas. Os olhos — dois buracos escuros sem fundo — varreram a multidão.
Ele ergueu a mão direita devagar.
Um gesto simples. Despreocupado.
Todos os agentes restantes — centenas deles — explodiram ao mesmo tempo. Não houve grito. Não houve tempo. Apenas um estalo seco, como se a própria realidade tivesse se fechado sobre eles. Seus corpos oníricos se desfizeram em partículas pretas que evaporaram antes mesmo de tocar o chão.
— Escória — a voz dele ecoou, profunda, antiga, sem emoção. — Inúteis. Fracos. Corrompidos pelo próprio medo. Não mereciam estar aqui.
Os doze Líderes não se moveram. Nem piscaram.
O Mestre baixou a mão.
— Vocês, porém... — continuou, a voz agora carregando um peso quase reverente. — Vocês entenderam. Entenderam que a individualidade é uma doença. Que o isolamento é o maior erro da humanidade. E hoje, depois de milênios, vamos corrigir esse erro
Ele abriu os braços devagar, como se abraçasse o vazio infinito de Sinapsis.
— A partir de agora, não haverá mais portas. Não haverá mais selos. Não haverá mais sonhos separados. Haverá apenas uma mente. Uma consciência. Um único oceano onde todos nós seremos gotas iguais, sem dor, sem solidão, sem ego.
Um murmúrio baixo percorreu os Líderes — não de dúvida, mas de êxtase contido.
— Venham — ordenou o Mestre, a voz ecoando como um sino antigo. — Entrem no QG. O verdadeiro trabalho começa agora.
Ele virou as costas e caminhou em direção ao enorme prédio negro que flutuava acima do campo. Os doze Líderes o seguiram em formação perfeita.
Assim que o último deles cruzou a entrada, o prédio inteiro começou a tremer. Não com violência — com precisão. As paredes, as janelas, as torres, tudo começou a se dissolver em partículas de luz roxa que subiam para o céu de Sinapsis como fumaça invertida. Em menos de trinta segundos, a estrutura inteira desapareceu, deixando apenas o vazio negro onde antes havia estado.
E então, no mundo real, algo mudou.
No meio de uma rua deserta nos arredores da cidade, o ar se distorceu. Primeiro como um calor invisível. Depois como uma rachadura na realidade. Do nada, o prédio negro se materializou — sólido, real, com suas torres tocando as nuvens baixas. As runas roxas ainda pulsavam nas paredes, visíveis até para quem não tinha nenhum dom onírico.
A porta principal se abriu.
O Grande Mestre Obscuro deu o primeiro passo para fora, os robes negros tocando o asfalto molhado de chuva. Atrás dele, os doze Líderes saíram em fila, os ternos impecáveis contrastando com o brilho sobrenatural que ainda emanava de suas peles.
Eles estavam no mundo real.
Com todo o poder de Sinapsis ainda correndo nas veias.
O Mestre ergueu o rosto para o céu cinza, inalando o ar úmido como se fosse a primeira vez em milênios.
E sorriu.
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