Sinapsis

25 O fim se aproxima


Eu nunca vou esquecer como demorou.

O caos da noite anterior foi o principal responsável por essa demora, levou mais que algumas horas para que os legistas viessem buscar o corpo da Lorie, nunca vou esquecer o desespero da mãe dela, chorando copiosamente enquanto eles levavam o corpo de sua amada filha, os homens, tentavam lidar com o luto daquela mãe, ainda cansados dos dias anteriores onde centenas de pessoas haviam morrido da mesma maneira.

A cerimônia foi uma cremação. Simples. Quase sem ninguém. Só a mãe dela, meus pais e eu. Minha mãe chorava muito, o crematório cheirava a metal quente e a flores baratas. A mãe de Lorie não chorava mais. Talvez tivesse chorado tudo que conseguia nas primeiras horas. Agora restava só raiva — uma raiva silenciosa, pesada, que ela jogava em mim toda vez que nossos olhares se cruzavam. Raiva dos Sinapsters. Raiva de mim, que tinha entrado na vida da filha dela e trazido a morte junto. Eu não conseguia olhar para ela enquanto o corpo de Lorie desaparecia nas chamas. Só fiquei ali, de pé, as mãos dentro dos bolsos, sentindo o calor do forno no rosto e o vazio dentro do peito.

Enquanto isso, a Espanha virou notícia em todo lugar.

Uma figura flutuando acima das cidades. Alta, de robes negros, runas roxas brilhando. alguns noticiarios chamavam de “Alien” “entidade” “OVNI” mas nós sabiamos quem era, o Grande Lider Obscuro mesmo que fosse apenas de ouvir falar. dos contos antigos dos Sinapsters

Ele pairava no céu por alguns minutos. Depois as cidades simplesmente... sumiam. Não explodiam. Não queimavam. Eram consumidas. Pessoas, prédios, carros, animais — tudo virava nada num instante. Milhares mortos em segundos. Os militares tentaram. Mísseis, aviões, tanques. Tudo inútil. O poder dele atravessava tudo. Os noticiários mostravam imagens de cidades inteiras reduzidas a a um buraco no chão, enquanto ele sorria lá em cima, calmo, como se estivesse apenas limpando uma mesa suja

Eu não dormia há três dias.

Os Sinapsters que ainda conseguiam acessar as portas relatavam a mesma coisa: o corredor estava quase vazio. Milhões de portas destruídas. Só restava um vazio imenso, escuro, como se alguém tivesse arrancado pedaços inteiros da realidade. O Grande Líder consumia Sinapsis através do mundo real agora. Não havia mais como lutar. Só restava esperar para ser o próximo.

Eu pensava nisso deitado na cama do meu quarto, o teto branco acima de mim parecendo cada vez mais perto. Meu pai tinha tentado me fazer comer. Eu não conseguia. A minha boca amargava. Os olhos ardiam de cansaço, mas o medo era maior. Medo de fechar os olhos e abri-los de novo, só para lembrar novamente da cruel realidade em que eu estava.

Mas o corpo cobrou.

Eu adormeci sem perceber.

E sonhei com ela.

Não foi um sonho comum. Foi como mergulhar em água morna depois de dias congelando. Cada detalhe dela voltou com uma clareza dolorosa, como se o tempo tivesse parado só para eu poder olhar de novo. O jeito que o cabelo dela caía no rosto quando ria, formando uma cortina dourada que eu sempre afastava com os dedos. O cheiro doce de morango no xampu, misturado com o calor natural da pele dela. A voz rouca, quase sussurrada, quando estava cansada demais para brigar comigo. A testa franzida, aqueles dois sulcos finos que apareciam quando ela tentava entender alguma coisa que eu explicava sobre Sinapsis. O jeito que ela falava “tanto faz”, com um meio-sorriso torto, tentando esconder que se importava mais do que admitia. O calor da pele dela contra a minha na noite da chuva, quando o mundo inteiro parecia ter sumido e só restávamos nós dois. O gosto dos lábios dela — doce, urgente, vivo. O som da respiração dela quando dormia abraçada em mim, ritmada, tranquila, como se nada no mundo pudesse nos alcançar.

Por um segundo — ou dois — eu senti que ela estava ali.

Não como lembrança. Como presença. Quente. Real. Tangível. Como se ela tivesse se deitado ao meu lado no sonho e colocado a mão exatamente no meio do meu peito, bem onde o coração batia mais forte, exatamente como fazia quando eu acordava assustado no meio da noite. Eu senti o peso leve do braço dela sobre mim. Senti o hálito quente na minha orelha. Senti o cheiro dela invadindo tudo, tão forte que por um instante eu esqueci que ela tinha virado cinzas.

E então, bem perto do meu ouvido, eu ouvi a voz dela. Clara. Baixa. Urgente. Como se ela estivesse bem ali, viva, respirando as mesmas palavras que eu tanto precisava ouvir.

— Eu sempre estarei com você.

Eu abri os olhos com um susto tão grande que caí da cama.

O quarto estava escuro. Meu coração batia tão forte que doía nas costelas. O suor escorria pelo rosto, frio agora. Eu me sentei no chão, as costas contra a parede fria, respirando rápido, tentando entender se ainda estava sonhando.

Mas não estava.

A voz dela ainda ecoava na minha cabeça, repetindo sem parar, como um sino tocando dentro do crânio:

Eu sempre estarei com você.

Eu encostei a testa nos joelhos, as mãos tremendo tanto que precisei apertar os punhos para não gritar. Pela primeira vez em três dias, eu não sentia só vazio. Eu sentia algo que parecia quase... esperança. Um fio fino, tênue, mas real. Como se, mesmo depois de tudo, alguma parte dela tivesse conseguido vencer o que quer que fosse que a tinha levado.

E isso me assustava mais que qualquer coisa. pois era o maior desejo que eu tinha naquele momento.