Sinapsis

8 Meu Mundo, Minhas regras


David estendeu suas mãos em direção a minha porta e fechou os olhos, suas mãos começaram a brilhar em ressonancia com minha porta, e então nela, um simbolo apareceu, David recolheu suas mãos e se virou pra mim.

— Você agora está oficialmente ancorada por mim. David fez um gesto com a cabeça, quase que em reverência.

— err...Certo? — respondi meio que sem saber exatamente o que responder — bom, quer entrar? imagino que meu espaço seja mais interessante que esse vazio de portas...

— Claro Lorie, obrigado pelo convite.

Assim que cruzamos a soleira e a porta se fechou atrás de nós com um clique suave, a pressão esmagadora de Sinapsis desapareceu instantaneamente. O ar pesado do corredor foi substituído por uma brisa leve e purificada. Estávamos de volta à minha cidade, sob o meu céu de um azul profundo e sem nuvens.

Respirei fundo, sentindo cada músculo do meu corpo relaxar. A sensação de segurança era absoluta, a adrenalina da luta no corredor aos poucos abandonando o meu sangue. Mas, ao meu lado, David parecia ter sido atingido por um raio silencioso.

Ele estava paralisado a poucos passos da porta, os olhos escuros arregalados enquanto varriam a imensidão do meu cenário. A postura defensiva, de soldado tático que ele mantinha no corredor, simplesmente derreteu. Ele olhou para a geometria perfeita dos arranha-céus espelhados, para as ruas largas e meticulosamente planejadas, e finalmente para o céu.

— Isso... isso tudo aqui é seu? — ele sussurrou, a voz carregada de um assombro genuíno, quase reverente. Ele deu um passo hesitante pelo asfalto, como se tivesse medo de quebrar o chão com o peso. — Lorie, a estabilidade desse lugar... A quantidade de energia bruta e foco necessários para manter uma cidade inteira dessa escala tão sólida, sem oscilar um único milímetro... É surreal. A maioria das pessoas mal consegue manter um quarto montado sem que as paredes comecem a derreter.

Senti minhas bochechas esquentarem levemente. Para a garota que passava o dia inteiro sendo invisível, ver o “garoto de ouro” do conselho estudantil boquiaberto com algo que eu tinha criado era, no mínimo, uma massagem muito bem-vinda no ego.

— Eu amo esse lugar — confessei, tentando disfarçar o orgulho enquanto olhava para as ruas que eu mesma havia desenhado. — Aqui dentro, eu não sou refém de nada.

David ficou em silêncio, contemplando tudo. Eu ia dizer mais alguma coisa quando ele virou o rosto na minha direção… e parou.

Seus olhos desceram lentamente por mim, me observando por inteiro, o cabelo ruivo-acastanhado caindo solto até o conjunto lilás delicado que eu sempre usava aqui. O top com alças finas e o grande laço roxo no peito, o tecido transparente brilhante caindo como uma cascata sobre a calça soltinha com babados, os pés descalços. Ele piscou duas vezes, visivelmente sem saber o que fazer com a própria cara.

Eu levantei uma sobrancelha, sentindo o rosto queimar, mas não consegui segurar o sorriso.

— Vai… pode falar — provoquei, girando de leve para ele me ver melhor. — Eu deixo você dizer que eu sou a coisa mais bonita daqui.

David abriu a boca, fechou, abriu de novo. As pontas das orelhas dele ficaram vermelhas na hora.

— Você… hum… — Ele pigarreou, olhando para qualquer lugar menos para mim. — Você está… muito bonita aqui. Tipo… muito mesmo.

Eu ri baixinho, achando graça do jeito atrapalhado dele.

Para salvar o pobre coitado do constrangimento total, resolvi mudar de assunto rapidinho.

—Mas, David... me explica uma coisa. Por que aqueles dois agentes lá fora foram tão fáceis de derrotar? digo...Aquele homem que matou o prefeito na outra noite parecia muito mais perigoso. Se eles são tão frágeis, como conseguem ser uma ameaça tão grande a ponto de precisarmos de toda essa cautela?

David piscou, parecendo forçar a própria mente a se desconectar da beleza da arquitetura e voltar para a gravidade do nosso problema. Ele caminhou até a beirada de um terraço próximo e sentou-se, balançando as pernas sobre o vazio da cidade abaixo. Caminhei até ele e me sentei ao seu lado. O rosto dele, iluminado pela luz suave do meu mundo, assumiu uma sombra densa e cansada.

— Nós não sabemos os objetivos completos deles, porque a Unidade ficou reclusa nas sombras por décadas. Eles ressurgiram há pouco mais de vinte anos, e estão agindo de forma muito mais suja do que os registros antigos contam — ele começou, a voz perdendo completamente a leveza. — Eles não procuram mais pessoas com mentes fortes ou Despertos. Eles descem ao submundo e recrutam Tolos. Pessoas de má indole.

Ele olhou para a rua lá embaixo, como se enxergasse coisas além do asfalto limpo.

— Gente que quer o poder de controlar os próprios sonhos não para voar ou criar cidades incríveis como a sua, Lorie. Eles querem o controle para transformar os próprios espaços pessoais em lugares obscenos, malignos. Parques de diversões doentios onde podem realizar as piores crueldades humanas sem sofrerem nenhuma consequência no mundo real. E a Unidade oferece a chave para isso.

Senti um calafrio subir pelos meus braços. A ideia de que o lugar que eu usava como refúgio de paz era usado por outros como um antro de fantasias doentias me embrulhou o estômago.

— E como eles dão esse poder a pessoas comuns? — perguntei, quase com medo da resposta.

— Com uma droga — David respondeu, os olhos escuros fixos no horizonte. — Eles distribuem uma droga sintética no submundo chamada MetaDream. Quando consumida no mundo físico e misturada com a escuta de frequências sonoras específicas, ela causa um curto-circuito agressivo no cérebro. Força a consciência a ser ejetada de forma tão violenta para o estado lúcido que o impacto estilhaça as barreiras da mente. É uma conexão tão brutal que a porta para Sinapsis é rompida. A pessoa ganha acesso forçado ao próprio espaço pessoal e, de quebra, ao corredor de Sinapsis.

— Isso soa como uma bomba-relógio para o cérebro.

— E é. O problema para eles é que esse método não natural corrompe a estrutura REM de quem usa. A mente apodrece por dentro. O corpo onírico deles fica instável, como uma casca frágil. É por isso que aqueles dois caíram tão rápido quando os meus lobos bateram neles. O REM deles é fraco

Ele se virou para mim, a gravidade do perigo transbordando na sua expressão.

— Mas é exatamente por causa dessa tecnologia que eles são o nosso pior pesadelo. A Unidade pode recrutar, drogar e lançar esses Tolos corrompidos no corredor aos milhares. Eles não têm técnica, não têm respeito por Sinapsis. Eles atacam em bandos, como abutres covardes e irracionais. Se na emboscada ali fora tivesse vinte agentes em vez de apenas dois... o meu relógio teria zerado muito antes de eu conseguir invocar o segundo escudo. Nós teríamos sido destroçados.

O peso daquelas palavras pairou no ar. O meu refúgio imaculado de repente parecia cercado por um oceano infestado de predadores fabricados a sangue frio. A brisa da minha cidade soprou, e eu olhei para as minhas próprias mãos, percebendo o quão pequena eu ainda era no meio daquela guerra.

Mas o meu mundo não seria palco para medo. A Unidade tentava destruir a individualidade e transformar sonhos em pesadelos doentios; a minha melhor forma de rebelião imediata era fazer exatamente o oposto.

— Sabe de uma coisa? — levantei-me, flutuando alguns centímetros acima do chão, sentindo a gravidade ceder ao meu comando com a fluidez reconfortante de sempre. — Aqui dentro, as regras ainda são minhas. E eu me recuso a passar o resto da noite filosofando sobre psicopatas drogados

David me olhou, surpreso pela mudança brusca de assunto, e antes que pudesse abrir a boca para reclamar, a gravidade sob o corpo dele simplesmente deixou de existir.

Ele soltou um pequeno grito engasgado enquanto começava a levitar involuntariamente, os braços balançando comicamente no ar numa tentativa inútil de encontrar equilíbrio. Toda aquela pose de Sinapster experiente evaporou.

Com um estalar de dedos, dobrei o prédio à nossa frente como se fosse feito de borracha macia, transformando a fachada de vidro espelhado num escorregador colossal que serpenteava vertiginosamente pela cidade inteira.

— Bem-vindo ao meu Mundo!! — eu ri, me jogando de costas no escorregador e ganhando velocidade na descida, o vento jogando meu cabelo no rosto.

Por um segundo, achei que ele fosse me dar um sermão sobre a "gravidade do momento". Mas então ouvi uma risada genuína, despreocupada, e ele manipulou o próprio peso para se jogar no escorregador logo atrás de mim.

Passamos horas dobrando o cenário e esquecendo a Unidade. Nós voamos por entre anéis de luz neon que eu criei no céu, apostamos corridas sem gravidade pelos becos da cidade e desafiamos a física de todas as formas possíveis. Pela primeira vez, David não parecia um soldado carregando o fardo de proteger duas dimensões. Ele parecia apenas um garoto normal, rindo até perder o fôlego quando se chocou contra uma nuvem que eu havia transformado em algodão doce.

Nós conversamos sobre trivialidades e rimos das minhas edições arquitetônicas malucas até nos deitarmos no topo de um arranha-céu invisível, observando um pôr do sol quente, repleto de tons de terracota e laranja queimado, que eu programei meticulosamente para não acabar nunca. A presença dele ali, no meu santuário particular, não era mais uma invasão ou um fardo tático. Era surpreendentemente confortável.

Quando a manhã do mundo fisico finalmente começou a puxar nossas consciências, o céu alaranjado se desfez gentilmente em uma neblina quente e espessa.

Acordei devagar. A luz forte do sol da manhã de quarta-feira já invadia as frestas da persiana do meu quarto, desenhando linhas amarelas na parede e me avisando que o dia no mundo real havia começado.

Minha mente estava limpa e leve. A energia de ter sonhado livremente e ancorado o meu selo havia renovado cada célula do meu corpo. Espreguicei-me sob as cobertas, murmurando baixinho, mas meu braço direito esbarrou em algo sólido. E quente.

Pisquei, os olhos pesados ainda tentando focar na realidade ao meu redor.

Eu não estava no centro da minha cama. E David definitivamente não estava no colchonete no chão.

Meu rosto estava afundado no peito dele. O braço esquerdo de David estava firmemente enrolado na minha cintura, me segurando em um abraço possessivo, e nossas pernas estavam encostadas sob o lençol bagunçado. A respiração dele batia rítmica e quente no topo da minha cabeça, e o cheiro de sabonete e amaciante da camisa do colégio inundou meus sentidos.

Meu cérebro deu um curto-circuito instantâneo.

Eu congelei, prendendo a respiração. Não sabia se gritava, se o empurrava para longe da cama com um chute ou se me fingia de morta até ele acordar e ir embora por conta própria. Se a minha mãe abrisse aquela porta com uma bandeja de café da manhã agora, eu teria que mudar de continente, porque a vida de garota invisível acabaria para sempre e ela teria material de tortura psicológica para as próximas três encarnações.