Sinapsis
9 Conchinha.
O silêncio na mesa da cozinha era tão denso que poderia ser cortado com uma faca de manteiga.
Eu encarava o fundo da minha xícara de café como se os segredos do universo estivessem escondidos no pó escuro, enquanto David, sentado à minha frente, parecia repentinamente fascinado pela textura da própria torrada. Nós não havíamos trocado mais do que três palavras desde o momento em que saltamos da cama em um pânico silencioso e descoordenado.
Minha mãe, por outro lado, estava radiante. Ela cantarolava baixinho enquanto lavava algumas louças na pia, ocasionalmente lançando olhares divertidos na nossa direção. O ar estava pesado com a nossa vergonha, e a aura vermelha no rosto de David só competia com a temperatura das minhas próprias bochechas.
Ela secou as mãos no avental, virou-se para nós e apoiou os cotovelos no balcão, com aquele sorriso de quem sabia exatamente o que estava fazendo.
— Então — ela começou, o tom de voz doce e carregado de malícia maternal —, o projeto de “geografia” foi muito cansativo?
— F-foi muito produtivo, dona Linry. Terminamos tudo — David gaguejou, sem conseguir levantar os olhos da torrada.
— Imagino que sim! — ela riu baixinho, pegando uma travessa no armário. — Eu ia fazer uma salada de frutas para vocês, e até peguei aquela concha grande para servir... Mas olhando bem para a cara de vocês, acho que já praticaram bastante a conchinha essa noite, não é?
Engasguei violentamente com o gole de café. Tossindo e com os olhos lacrimejando, vi David soltar a torrada de volta no prato, os olhos arregalados em puro terror. Ele parecia pronto para invocar alguma criatura ali mesmo na cozinha.
— Mãe! — consegui grasnar, minha voz saindo num esguicho agudo de indignação.
— O quê? A casa é pequena, Lorie, e a porta de vocês ficou entreaberta...alguém que levanta para ir ao banheiro, sempre dá uma espiadinha. — ela piscou, soltando uma gargalhada.— Mas não se preocupem, eu sou uma mãe moderna!
— Nós estamos atrasados! — anunciei, levantando de supetão e agarrando minha mochila. — Muito obrigada pelo café, tchau, te amo, fomos!
Agarrei David pela manga do uniforme e o arrastei para fora de casa antes que minha mãe pudesse nos oferecer preservativos para a viagem. Bati a porta da frente com força e marchei pela calçada a passos duros, sentindo o ar frio da manhã finalmente esfriar meu rosto.
Caminhamos em um silêncio tenso até dobrarmos a esquina.
— Lorie, eu... — David finalmente quebrou o silêncio, parando no meio da calçada. Ele esfregou o rosto com as duas mãos, parecendo genuinamente atormentado. — Eu juro, por tudo que é sagrado, que eu não fiz de propósito.
Eu parei e olhei para ele, ainda na defensiva.
— Acho que eu acabei dormindo...na sua cama involuntariamente — ele explicou, falando rápido, a vergonha transbordando. — Quando eu sentei na beirada da sua cama para fazer a indução sonora e te colocar em REM, eu acabei adormecendo quase na mesma hora. Apaguei alguns segundos depois de você, bem ali onde eu estava, e simplesmente fiquei por lá mesmo
A confissão atabalhoada dele quebrou qualquer raiva que eu pudesse ter. O todo-poderoso sinapster não tinha feito nada de forma calculada.
— Tá tudo bem, David — suspirei, sentindo um pequeno sorriso escapar. — Considerando que a alternativa era eu ser apagada pela unidade, eu acho que posso relevar isso.
Ele soltou o ar, os ombros relaxando visivelmente, mas as pontas das orelhas ainda estavam tingidas de vermelho.
Quando chegamos aos portões da escola, o fluxo de alunos já nos separava. Nossos caminhos para as salas eram diferentes. Paramos no meio do pátio, uma hesitação constrangedora tomando conta de nós de novo. A imagem do abraço no escuro da manhã parecia pairar entre nós como uma nuvem visível.
— Bom... eu vou para a minha sala — eu disse, ajeitando a alça da mochila, de repente muito consciente de onde olhar.
— É. Eu também — ele pigarreou, desviando o olhar para o chão e depois de volta para mim, a voz abaixando para um sussurro que apenas eu pudesse ouvir. — Lorie... hoje à noite. No mesmo lugar. Sem emboscadas surpresa dessa vez. Eu prometi que te treinaria, e nós vamos começar.
Assenti, sentindo um frio no estômago que não tinha nada a ver com o medo da Unidade.
— Certo David.
Ele deu um meio sorriso torto, e nós nos separamos no meio da multidão.
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Longe dali, em uma sala onde a luz natural não entrava há anos, o ar era pesado.
Os dois homens que, na noite anterior, caminhavam imponentes por Sinapsis, agora estavam caídos no chão de concreto. Eles haviam sido ejetados com a força de um acidente de carro. Um deles segurava a cabeça, gemendo de dor, enquanto um filete de sangue escorria do nariz do outro. O choque da quebra de suas estruturas oníricas ainda reverberava em seus corpos físicos.
O líder da Unidade — o homem do terno impecável — caminhou lentamente até eles, os sapatos de couro italiano estalando no chão. Ele não ofereceu ajuda. Apenas olhou para baixo com uma expressão de desprezo gélido.
— Um Sinapster... — o líder repetiu a informação que acabara de ouvir, a voz perigosamente calma. — Vocês, chapados de MetaDream, foram desfeitos por um moleque e um único animal espectral?
— Ele... ele era um Sinapster, senhor — o agente com o nariz sangrando gaguejou, tentando se apoiar nos cotovelos. — A energia dele era maciça. E ele estava cobrindo a porta da garota. O selo estava reforçado.
O líder estreitou os olhos, virando-se para o enorme painel de monitores que mapeava as oscilações de energia do setor.
— Se ele estava cobrindo a porta dela, significa que a porta dele surgiu adjacente à dela no corredor — o líder murmurou, a mente analítica juntando as peças com uma rapidez letal.
Ele digitou alguns comandos no painel. O mapa mundi na tela central começou a se aproximar, filtrando as assinaturas de energia REM até focar na região.
— A geografia de Sinapsis é ditada pela proximidade física dos corpos no mundo desperto. Se o Sinapster estava lá no exato momento em que ela abriu a porta...
Um sorriso cruel e metodicamente desenhado surgiu no rosto do líder. Ele olhou para a redoma de vidro no centro da sala, onde o Primeiro continuava em seu coma profundo, alimentando-se das migalhas de caos que a Unidade plantava no mundo.
A energia bruta daquela Desperta Natural seria o banquete final.
— Senhor! o quadrante de sinapsis onde a porta da garota está foi mapeado, poderemos alcançar a porta e enviar as nossas forças totais ja no proximo ciclo.
— Perfeito, na proxima vez que ela pisar em Sinapsis ela vai conhecer a verdadeira Unidade.
os monitores da redoma marcavam 62%
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