Simplest Mistake
22 Sempre Juntos
Notas iniciais
Numa caçada, o roedor era sempre a presa. Sempre existiriam predadores ansiando capturá-lo e devorá-lo. Por muito alto que saltasse, ou muito fundo que escondesse, existiria sempre uma fera para o capturar. Essas leis não se regiam apenas pela necessidade básica de sobrevivência, era um jogo. A luxúria do poder e do controlo, o prazer de apanhar a presa e ver em seus inocentes olhos o brilho da esperança desaparecer, esvaecendo-se em sangue. A adrenalina da perseguição, enquanto inutilmente a presa tinha a crença de viver.
Era um ódio natural entre presas e roedores. Ichigo e Rukia faziam parte desse ciclo, suas personalidades e sonhos os definiam nessa sequência criada pela Natureza. No entanto, era possível uma união entre os dois? Era possível um predador não ambicionar caçar e destruir uma coelha? Em vez de a matar, ter compaixão?
Talvez, Ichigo e Rukia não fossem afinal assim tão diferentes. Quiçá os roedores poderiam sim ser predadores, mais pequenos, mas não menos ferozes. Pelos motivos certos, um coelho pode ser temível e perigoso. Eles não eram um casal de domínio, mas o equilíbrio entre dois predadores que caçavam outras presas.
— Está me olhando com uma cara estranha desde que disse que gostava que fosse minha esposa. —Ichigo riu, coçando a nunca, ligeiramente nervoso pelo ar chocado e silêncio mortal da Kuchiki.— É assim tão difícil de acreditar?
Incrédula, mantinha-se a encará-lo, estática. Sua mente vazia de raciocínio, sua voz sem palavras. Incredulidade. Ela confiava nos sentimentos que Ichigo nutria por si, ambos acreditavam em sua ligação. Porém, ela nunca esteve disposta a continuar na organização, e ele a sair dela. Suas vidas cruzaram-se num ponto, mas estavam fadadas a distanciar-se, mas aquele pedido mudava tudo. Era um sonho. Mas como isso aconteceria? Eram diferentes demais ainda…
— E a organização? —Uma simples pergunta que expôs toda a confusão na mente da Kuchiki. Ichigo riu torto, compreendendo sua confusão.
— As coisas mudaram enquanto esteve presa, percebi que não importa o que faça… Minha família morreu, esta vingança nunca terá fim. —Fez uma pausa olhando para o céu, distante, suspirou fundo.— Não posso perde-la também. Meu pai cometeu esse erro, eu não o farei.
Rukia o encarou incrédula, arregalando o olhar. Um pássaro escalou seu vôo elegante, livremente, quando gaguejando Rukia comentou alto seus pensamentos.
— Vai acabar com a organização? —Esperança era evidente no seu tom, Ichigo riu com isso, era o que ela sempre desejou.
— Diria uma reformulação. Trabalhos pesados, missões… dentro da legalidade. Não sei bem como será isso. Talvez torne-se divertido. —Ichigo riu ligeiramente vermelho, bagunçando os cabelos. Murmurou. — Não me imagino longe do pessoal, são barulhentos mas o silêncio é deveras mais assustador.
— Parece… perfeito. —Ichigo observou-a surpreso, quando agarrou na sua face, o puxando, beijou-o. Um beijo delicado. Distanciou os lábios por poucos centímetros, respirando contra eles.— Sim.
Ele piscou o olhar, atordoado. A convicção transcrita no seu olhar, com um rubor acompanhando seu singelo sorriso.
— Está aceitando…? —Rukia ergueu uma sobrancelha, rindo do seu assombro.
— O que foi Ichigo? Você me pediu em casamento para receber um não?
Com a face enrugada, desviou o olhar, corado. A morena gargalhou por sua atitude, irritando-o mais. Deitou a cabeça em seu peito, feliz, sentindo os braços do Kurosaki a envolverem. Pequenas lágrimas estavam presas no canto de seus olhos, seu sonho estava se realizando. Envolvendo as mãos, o casal fez uma promessa silenciosamente… estariam sempre juntos.
O sol baixava gradualmente, circulando o alto céu, modificando sua posição entre os astros, perante a visão humana. O calor emitido era um convite para as pessoas saírem de suas casas, passeando pelos longos jardins que pertenciam às famílias reais. Ichigo não seguiu imediatamente para Rukongai, acompanhou antes o trajecto que a Kuchiki inconsciente fez, intrigada, e pretendendo entender de certa forma Hisana, ela procurou o melhor daquele mundo para além da riqueza. Alegres, as nobres carregavam seus filhos nos braços sem medo ou pessimismo. Vivendo tranquilamente.
Ichigo parou três passos atrás de Rukia, observado sua fisionomia. Ele não censurava por ela ter ido atrás de Hisana, era uma atitude previsível para ele na verdade. Por isso assim que acordou e percebeu que ela não estava ao seu lado, escapou sorrateiro da organização, sabendo que a ia encontrar no território Kuchiki.
— Isto aqui nem é feio de todo. —Comentou baixo, atraindo a atenção da morena que o encarou inexpressiva. Ele franziu o rosto estranhando aquela expressão.
— Quase me esquecia de uma coisa… —Sua voz soou fria e fatal.
Aproximou-se em passadas lentas do chefe, erguendo o braço acariciando a maçã de seu rosto, o Kurosaki ficou constrangido com o gesto, apesar de ainda suspeitar da feição vazia de sentimento. Num milésimo de segundo, tudo mudou. As sobrancelhas arquearam-se, com as íris violáceas fulminantes, Rukia estava furiosa. Descarregou toda a sua irritação no soco desferido na cabeça de Ichigo que, desprevenido, agachou-se gemendo de dor.
— Sua maníaca! O que pensa que está fazendo!? —A dor em sua cabeça latejava, mas nem isso impediu de este gritar furioso com a morena.
— Como você não me contou que sua família era nobre, Ichigo!?
O Kurosaki permaneceu em silêncio perante a acusação. Não identificou mágoa ou revolta, ainda assim foi um gatilho para sua culpa. Ele sabia que devia ter contado, mas não quis lembrar daqueles tempos. De sua família… Do que ele fez… Do que ele era e no que se tornou… Não era uma questão de confiança, mas de orgulho. Será que ela o admiraria da mesma forma depois de saber como torturou os responsáveis pela morte de suas irmãs e de seu pai?
— Ichigo… —Abismado, notou lágrimas nos olhos de Rukia, fungando, mordeu o lábio continuando com a voz chorosa.— Droga. Não me esconda nada de novo, idiota.
Ele sorriu quando esta abaixou-se, enrolando os braços no seu pescoço puxando-o para seu peito. Seus olhos arregalaram-se com o leve murmúrio que escutou, fazendo os olhos avelãs lacrimejarem.
— Obrigada… por tudo, Ichigo.
Ele puxou seus pulsos, desenrolado-os do abraço. Sentando-se abriu as pernas encaixando as costas dela em seu peito. Colocou o queixo no ombro dela, inspirando seu aroma fazendo com que esta se arrepiasse instintivamente com o seu gesto.
— Ichigo…?
— Meu pai era um assassino. —A rápida declaração fria fez com que a Kuchiki se calasse escutando atentamente, ficando sensível à confiança que ele depositava em si, revelando o segredo que o perturbava.— Shiba Isshin. O Tribunal da Seireitei descobriu seus crimes mas não tinha provas suficientes para prender um nobre importante, o escândalo foi o motivo para expulsa-lo da realeza. Uma vergonha, foi como descreveram o incidente.— Ichigo murmurou entre dentes um baixo “hipócritas”, prosseguindo seu discurso após expirar mais tranquilo.— Mas ele apaixonou-se por minha mãe.—Um ténue sorriso foi desenhado nos rostos de ambos.— Quando se casaram, ele assumiu o apelido dela, para uma nova vida. O resto você já sabe o que aconteceu…—Rukia acenou em concordância, recordando as palavras de Ukitake.
Ichigo apertou-a mais forte entre seus braços, tentando ser delicado.
— O que pensa fazer a respeito de Hisana?
O roxo tornou-se mais opaco em meio da indecisão de seus pensamentos. A cólera não era a mesma, o tremendo sentimento de perdão queria ressurgir… Ainda assim a palavra traidora dançava ondulando em suas memórias e o recente acontecimento. E mesmo que ela a perdoasse, não poderiam mais estar juntas. Agora, elas pertenciam a mundos diferentes, suas experiências de vida em nada coincidiam.
— Minha família agora é a organização. Só isso importa.—Afirmou simplesmente.
O ruivo suspirou, depositando a testa no ombro desnudo. Essa foi a frase que ele sempre quis ouvir mas não se sentia satisfeito com ela. Estava alegre com tal declaração, no entanto, ele conhecia a alma daquela coelhinha, ela não estava feliz. Nem nunca o seria. Ichigo sabia como aquilo era doloroso para ela, afinal Rukia tinha uma família para além da organização, dentro daqueles muros. Ela era, e sempre seria, diferente dele.
Pela primeira vez, em vastos anos, cogitou permitir que ela voasse, apesar de saber que ele era demasiado egoísta para conseguir tamanho gesto altruísta. Tremeu receoso com a possibilidade de perdê-la, e apesar de uma reacção de leve, Rukia compreendeu-a. Sorrindo genuína, virou-se para o olhar, notando que ele estava disposto a dar-lhe sua liberdade, fez com que ela percebesse que nunca iria querer isso, agarrou sua mão deparando-se divertida com o seu espanto.
— Eu nunca o abandonarei, Ichigo.
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