Simplest Mistake
7 Rosnado do Chappy
Notas iniciais
A noite estava quente. Estranhamente calorosa em pleno Outono.
Sentia-se terrivelmente melancólica, nostálgica de algo que nem ela sabia identificar. O tom negrume do céu, com pouca iluminação das estrelas, as folhas que perderam sua cor vívida para declinar num tom entre o laranja e o vermelho.
Vermelho… Sangue… A cor do declínio da vida.
Queria abrigar-se no seu refúgio e esquecer as folhas de tons particulares naquela estação. Afortunadamente estava escuro e ela não conseguia enxergar e distinguir com exactidão as tonalidades. A escuridão não é morte, é a ausência dela e da vida, como um estado profundamente adormecido. Por isso ela optava por um cenário negrume face ao escarlate.
Percorria as ruas desatenta. Caminhara durante duas horas, precisava de sair das redondezas de Rukongai até uma mata sombria, poucos se dirigiam até ela por suas lendas de monstros que devoravam humanos. A Kuchiki limitava-se a suspirar por tais absurdos. O único monstro que habitava entre aquelas árvores eram os humanos sádicos que aproveitavam para caçar pessoas inocentes e seguidamente livrarem-se delas depois de obterem todos seus pertences, e por vezes os corpos femininos esbeltos. Contava mentalmente os arbustos com uma folhagem parcialmente seca. Assim que alcançara o número cento e seis, erguera uma sobrancelha, aproximando-se do arbusto. De facto estava num sítio bem localizado e discreto. Se ela não soubesse possivelmente nunca suspeitaria que aquilo se encontrava ali.
Sorriu com o modelo escolhido pelo chefe, uma Yamaha. Notava-se que ele conhecia bem seus gostos. Passou ligeiramente com os dedos pelo metal, alargando seu riso. As motas eram o melhor transporte para ela sentir o gosto pela liberdade. O vento embatendo violentamente contra sua face, iludia sua mente, sentindo que voava. Porém havia algo que ela odiava, associado às motas, considerado uma medida de protecção que rompia esta sua idealização…
Geralmente, era recriminada por não usar capacete, incluindo o Kurosaki inicialmente. No entanto, em poucas semanas ela ganhara uma agilidade suprema em conduzir todos os transportes, privilegiando os de duas rodas. Eram os mais velozes, mais alucinantes. No horário nocturno em que se encontrava quase ninguém percorria as estradas, ela podia abusar da velocidade sem atrair a atenção.
Aquele ruivo arrogante sabia mesmo como persuadi-la, em todos os sentidos.
– Ichigo, só por isto você está perdoado.
O modelo do transporte era de elite, não fazia ideia de como ele a conseguira e pouco estava se importando com isso, já tinha uma ligeira noção mesmo. Agachou-se, procurando em sua bota de cano alto uma chave pequena escondida para aquela situação. Encontrando-a, posicionou-se em cima da mota, com uma perna esticada apoiando-se no solo. Quando o motor rugiu, a adrenalina arrepiou sua pele.
Manuseara o meio a contornar toda a floresta deparando-se com uma estrada antiga. Perdera as perspectivas do tempo. Desfrutava a esplendorosa sensação pela brisa de temperatura suave, a temperatura amena daquele dia aumentara o gozo da riqueza das sensações.
Foi diminuindo gradualmente a velocidade, assistindo o arvoredo retomar às suas formas nítidas que antes eram um enorme borrão. Depositou um pé no chão, encontrando Grimmjow e Nell numa briga enquanto a aguardavam, mas tão concentrados um no outro, nem repararam na sua chegada. Forçara uma tosse rouca, conquistando de imediato a atenção desejada e o embaraço dos dois consecutivamente.
– Missão concluída.
– Vejo que você já está em forma. Lamento pelo anterior, missão é missão. Você deve entender.
Rukia arqueou a sobrancelha perante o sorriso sarcástico da pantera. Sentiu vontade de rir com a tentativa do pedido de desculpas. Ela no fundo não estava chateada, nunca o teve. Bom, em parte sim, era inegável… Ele foi um dos responsáveis pelo retorno dela, no entanto ela desvalorizou a situação, afinal ele estava a receber ordens directas de um chefe supremo que odeia ser contrariado.
– Não há problema pantera, aquelas feridas foram de nada. Para minha sorte, você enfraqueceu na minha ausência.
– O que você disse desgraçada!? Queres brigar?
– Meninos por favor acalmem-se. Precisamos regressar ao abrigo, o chefe ficará irritado se não formos rápidos.
– Tens razão, nem todos são livres de punições do chefão, não é Kuchiki?
– O que você está insinuando?
– Você quer mesmo que eu diga?
– Maldito!
Nelliel suspirou pesadamente assistindo os dois colegas repetirem uma das suas rotineiras brigas. Ela ia insistir para tomarem seu caminho mas um barulho chama a sua atenção, que rapidamente se coloca em posição de ataque. Seus movimentos alertaram os outros dois que começaram a prestar atenção nas redondezas.
Tendo perdido a vantagem do ataque de surpresa, o grupo de atacantes se revelou. Abandonaram as sombras que protegiam sua presença. Nenhum dos membros era conhecido pelo trio. Percorrendo num olhar rápido sobre cada individuo, a portadora dos longos cabelos esverdeados, pegou em finas lâminas de suas mangas. Ela possuía uma excelente pontaria, o objecto fino e quase invisível poderia parecer inofensivo se não fosse pelo seu veneno na ponta de cada uma, criada e desenvolvida pelos laboratórios da organização. Ninguém para além deles conhecia o antídoto, ou seja, uma vez acertado pelo objecto pontiagudo, salvação era uma comédia. Nelliel acreditava firmemente que Aizen estivesse evolvido naquele embuste. Eram coincidências demasiado sarcásticas, e principalmente o sorriso cínico do último encontro deles, deixara claro seus planos malévolos.
Grimmjow numa estrondosa gargalha, desembainhara sua espada que repousava em sua cintura. Não era muito longa, mas extremamente afiada. Por norma, ele usava a espada como um apoio aos seus punhos. Não tinha perfil de espadachim, sua força focava-se na imprevisibilidade dos movimentos corporais potentes. O azulado não se deixou intimidar pela diferença astronómica, limitou-se a atacar, satisfazendo seus desejos de os ver esvaírem-se em sangue. Odelschwanck atingia os membros mais distantes com suas lâminas, enquanto manuseava suas pernas para pontear e impossibilitar os inimigos que a enfrentavam directamente. Tal como a pantera, a esverdeada tinha mais desenvolvido os dotes físicos, embora seu ponto privilegiado fossem as pernas. Nomeadamente toda a extensão dos joelhos que quebravam qualquer homem potente a seus pés.
Rukia por usufruir uma estatura miniatura era a mais desfavorecida nos combates corpo a corpo. Para vencer os inimigos mais corpulentos sempre utilizava a sua inteligência e armadilhas para apanhar seus adversários desprevenidos, isto quando se encontrava desarmada. Se tivesse ao seu alcance qualquer pistola, ela própria se tornava numa derradeira arma. Apesar de também ter habilidade de dançar em combates com longas lâminas.
De facto foram inúmeros oponentes, mas o trio conseguiu rapidamente dizimar esse número. No entanto, um membro permanecia escondido na penumbra esperando seu momento glorioso, em que derrubaria Kuchiki Rukia pela retaguarda, quando esta estivesse desprevenida.
Saboreando o deleite da vitória, relaxando a compostura do ataque, a morena não pressente um inimigo ainda respirando na sua dianteira. Subitamente, a nuca da Kuchiki arrepia-se dolorosamente, sentindo o instinto da sobrevivência gelar seu pescoço, ela rodopia rapidamente. A tempo de deparar-se com um homem na penumbra de uma árvore robusta, o único detalhe perceptível do mesmo era o brilho da arma apontada a si, mais propriamente para sua cabeça.
Lentamente, engoliu em seco. Sabia como era doloroso um ferimento por uma arma de fogo, o quanto podia ser fatal, já experienciara isso. Como também tinha plena consciência que uma vez na mira a fuga era impossível. Recusara a fechar os olhos, encarando dignamente o opositor. Se o destino quisesse riscar seu nome do mundo, ela teria de assumir a compostura que lhe fora ensinada, e nunca resignar-se sem lutar. Esse fora um dos ensinamentos que ela mais se orgulhava por o ruivo sedutor ter compartilhado com ela, uma inexperiente caçadora.
Por fim, o som agudo com requisitos de pólvora agoniou a audição dos presentes. Rukia pensando que ia encontrar pessoalmente a morte, percebe que não estava ferida. Era demasiado patético alguém falhar um alvo assim a descoberto. O som seguinte fez com que os olhos violáceos encontrassem seu opressor caído no piso, com a cabeça estoirada. Erguendo mais a vista deparou-se com Ichigo a sorrir descaradamente, com uma pistola na mão direita enquanto a outra repousava no bolso das calças.
Rukia recusava-se a acreditar que ele encarava o grupo com um sorriso rotineiro como se nada fosse. Mas o mais inédito é que pela segunda vez em sua vida, ele a salvara da morte duplamente, ambas de um tiroteio. Permitiu que o oxigénio reentrasse em seus pulmões, suspirando aliviada. Sua testa humedeceu completamente em alguns segundos com o medo de perder a vida. Não fazia sentido. Recentemente estivera disposta a morrer pelas mãos de seu chefe para obter a liberdade que alvejava, porque naquele momento ela temera? O que mudara? Será que ela estava mesmo disposta a tudo para conseguir uma vida minimamente digna?
– Chefe!
Perante o silêncio da Kuchiki, Grimmjow e Nell se aproximaram dos outros dois. Ignorantes do perigo que segundos antes, a mulher de baixa estatura enfrentara.
– O que você está fazendo aqui, Ichigo!?
– Mais respeito Grimmjow, ou você quer uma bala na cabeça também?
O homem de madeixas azuladas revirou o rosto, endurecendo a face numa careta cómica a quem visse. Odiava receber ordens. Por sua vez, Ichigo riu tranquilamente, apesar das implicâncias entre eles, eram bons amigos. O ruivo tinha plena confiança naquele trio, sabia que nenhum jamais o trairia. Apesar de cético que alguém dentro de sua organização cometesse alguma loucura desse género, ele por segurança sempre desconfiava das suas sombras. Embora, por algum motivo, aqueles à sua frente e mais um ausente nunca fossem alvo de sua desconfiança.
– Não se preocupe, eu só vim divertir-me também. Estava entediado, sozinho, na base.
Recompondo o clima entre eles, o ruivo imediatamente percebeu o brilho roxeado cintilante sob si. Alargou o seu sorriso, ele conhecia aquele olhar. Oh, se conhecia. Ela estava furiosa consigo… Seria excitante escutar a baixinha reivindicar como sempre o fazia.
– Não está feliz por me ver, Coelhinha?
– Esta missão era só minha, não em conjunto.
– Que mulher mais maníaca.
Um silêncio agudo reinou naquele espaço por indefinidos minutos, quando inesperadamente, a Kuchiki deposita uma forte energia em seu punho, que consequentemente com toda a sua força descarregou directamente no rosto do Kurosaki que foi ao chão, resmungando de dores. Ele por vezes odiava admitir. Mas a treinara bem demais… A nível de força física por vezes ela obtinha uma considerável vantagem.
– Desgraçada! Você é uma ingrata! Eu salvei sua vida!
– Não lhe pedi ajuda, idiota!
Como duas crianças que querem o mesmo brinquedo, uma discussão hilariante se iniciou. Normalmente, esta perdoaria até o amanhecer. Porém, a presença do casal com o recente cemitério criado, e todo o contacto com os mortos relembrou-os de assuntos fundamentais e delicados. Analisando os cadáveres, como se estes tivessem as respostas às incógnitas, cada um começou a partilhar seus pensamentos, demonstrando suas teorias.
– Ichigo… Será que Aizen é o responsável por isto?
– Provavelmente. Não confio nele.
Abrutadamente, a expressão do ruivo modificara. Este assumira uma postura mais rígida e erecta, não era mais o Kurosaki Ichigo que falava, mas o líder de uma poderosa organização. Ele cruzou os braços no peito, com um olhar gélido, sem requisitos de um único sorriso. Era um péssimo sinal quando ele perdia todo o seu humor… Nelliel o encarava temerosa, seu chefe sabia ser terrivelmente assustador e intimidante em determinadas ocasiões.
– Vingança?
– Seja o que for… Ele pagará caro. Ninguém pode caçar os meus coelhos.
Disposto a descontrair, evitou enervar-se a uma hora da noite já adiantada, sabia que não pregaria olho. Seria péssimo seu humor posteriormente pela manhã. Novamente, permitiu que o sorriso alcançasse seu rosto, pronto para infernizar a paciência de Rukia, que mordia o lábio ainda irritada consigo. Grimmjow, como um companheiro leal de Ichigo, não podia permitir que este entrasse só no campo de batalha, socorrendo-o nas investidas.
– A única roedora inofensiva aqui é a…
– Pantera, se você acabar essa frase, vai haver mais um corpo sem vida no chão.
Grimmjow tremeu disfarçadamente sob as roupas. Quando queria a coelha sabia rosnar.
A lua alva habitava no alto céu, iluminando a noite amena, acolhia cada ser com seu brilho nostálgico. Os quatro membros se dirigiram à sua apelidada casa, a fim de obter seu merecido descanso, podendo usufruir de um tranquilo sono sem perturbações constantes. Dispersa do restante grupo, Rukia se deslocou até aos seus aposentos. Num móvel gasto mas elegante, ela abre uma comporta, revelando um pequeno cofre. Erguendo sua saia negra, empinando sua coxa direita, onde guardava uma de suas armas, uma chave minúscula se tornava invisível perante o outro objecto.
Num som oco, abriu a caixa azulada. Neste era escondido o maior tesouro da Kuchiki: seus desenhos do seu famoso coelho designado, por ela, de Chappy. Ele era o contador de suas histórias, de suas vivências horrendas retratas de uma forma mais rósea, mascarava seu sofrimento num conto de fadas que sempre obtinha um final feliz.
– Obrigado senhor Chappy, por tornar meus dias mais coloridos.
O pequeno desenho era a personificação da alma infantil que ainda habitava na assassina.
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