Simplest Mistake
8 Ichigo Kurosaki
Notas iniciais
Trigésimo quarto dia desde que Rukia fora admitida na organização.
– Quero concentração, coelhinha.
– Se me voltar a chamar desse apelido garanto que…
– Que o quê? Você me vai matar, coelhinha?
O olhar violáceo transbordava ira e diversos sentimentos malignos. Sempre a provocava imenso em treinamentos, sabia que ele fazia proporcionalmente para em combates reais ela aprender a controlar suas acções instintivas. Segundo ele, tornava-se fraca e vulnerável nesses momentos.
E novamente, ele estava certo.
No intuito de o golpear, sem reflectir primeiramente, foi impulsiva em seus movimentos. E concretizando seu aviso, o ruivo a desarmou facilmente a ponteando na barriga enquanto a aprisionou contra o piso.
– Menos orgulho e mais atenção. Você quer morrer facilmente numa missão por acaso?
Rukia fechou os olhos, trincando os lábios, omitindo o rosnado preso em sua garganta. A razão estava do lado de Ichigo, e isso era o que mais a irritava. Preferia ignorar, conseguir comprovar que ela poderia surpreende-lo mas isso nunca aconteceu.
A face austera sob si se levantou, sem um único momento ter sorrido. O corpo da morena tremeu com o frio espontâneo. Porque estes sentimentos estranhos não a abandonavam? Porque ele conseguia controlar não só sua mente como seu corpo? Lágrimas invisíveis encontravam-se presas no canto de seus olhos enquanto escutava os passos do ruivo se afastarem.
– Segue o que te ensino, Rukia. Eu sou mais experiente que você, é normal saber o que faço. Se quer criar seu próprio estilo de luta, diferente do meu, primeiro precisa de aprender comigo a lutar e só depois se autonomizar.
"Rukia…"
Maldito. Ele pronunciara seu nome. Devido à raridade do seu uso, sempre que o utilizava seu corpo estremecia com o som excitante. Submetendo-a completamente. Arduamente se ergueu sabendo que deveria estar num estado penoso, depois de três longas horas a insistir em combates físicos. Arrastou os pés até seu compartimento, só queria alcançar sua cama fofa, onde lá poderia entregar-se a seus sonhos sem hesitar.
Trigésimo quinto dia.
O despertar fora acompanhado de resmungos doloridos. A morena contornou seu corpo com os dedos vagarosamente, identificando uns múltiplos hematomas provocados pelo episódio do dia anterior. Sabia onde tinha-se de deslocar… A única pessoa que poder-lhe-ia oferecer alguma ajuda naquele inferno, uma das maiores salas do edifício da organização, que resumia-se num estabelecimento curativo e desenvolvimento tecnológico.
Ukitake Juushirou, era o responsável e coordenador por todas as acções que envolvessem estas duas áreas. Um cientista lunático, calmo e sorridente. Em poucas palavras, a personalidade mais paterna da organização. Um ex-assassino que tivera de antecipar sua reforma devido a um problema que surgiu inesperadamente e inexplicavelmente. Sempre que matava sua vítima, deparando-se com o sangue escarlate, sentia náuseas e tonturas com o cheiro, desmaiando. Ganhou uma fobia única pelo líquido existencial.
Apesar dessa característica peculiar, sempre que seus ferimentos não possuíam uma generosa quantidade sangrenta exigia que seu médico fosse o albino. Sentia-se melhor em sua presença, talvez por ele representar o que ela procurava dentro daquele subúrbio. Piedade e generosidade.
Ela resignava-se a cada dia àquele confim. Diversas vezes tentara fugir quando se encontrava só em seus aposentos. De facto, conseguia escapar do edifício sem problemas, e durante umas horas ou dois dias permanecia incontactável. Porém, sempre a encontravam. Seu chefe era quem se encarregava de a trazer… Contemplando seu fracasso sucessivo. Odiava ser capturada por ele, era uma flechada em seu orgulho que ele tinha prazer em observar.
Ukitake sempre a ajudara a enxergar o melhor do ruivo sedutor, criando-lhe esperanças que um dia a organização se desmantelasse e que cada um reconstruísse uma vida digna. Sempre cedia com uma história inovadora de um possível futuro. No entanto, só esperança já não bastava. Ela precisava de motivos para crer nisso. Estava farta de ser uma arma humana. Queria ser só uma pessoa.
– Odeio aquele cretino.
O albino sorriu descontraidamente para ela, como se ele soubesse que ela pronunciara a maior mentira já dita. Esse facto a irritou profundamente, fazendo-a suspirar pesadamente. Não compreendia a satisfação naquele olhar cálido, e isso a enervava ainda mais. Era como se ele ignorasse sua revolta.
– Kurosaki-san é uma pessoa melhor do que parece…
A Kuchiki assistiu o olhar alegre converter-se em opaco, a surpreendendo tanto como sua frase enigmática.
– O que quer dizer com isso, Ukitake-san? Ichigo é… um monstro.
Cuspia as palavras, amarga. Seu peito se contorceu num doloroso aperto, com um ardor irritante em seus olhos… O cientista não a recriminava, em vez disso era nítida sua compreensão pela pequena mulher.
– Mas ele a salvou. Talvez isso seja a prova que há algo de bom ainda em Kurosaki-san…
– Por interesse! Tudo foi um maldito plano dele! Eu me arrependo profundamente por ter acreditado nas boas intenções dele! Ichigo é um criminoso afinal… O que eu podia esperar? Fui salva para trabalhar neste inferno! Para obedecer a suas ordens…!
– Ele preocupa-se com você.
Rukia interrompe seu desabafo, inspirando um pouco de ar, para se tranquilizar. Pequenas lágrimas fluíam pela face corada da morena, que já esquecera de tentar disfarçá-las. Sentia-se idiota pelas emoções que a atormentavam, sendo que ela se transformou no mesmo que o ruivo. Porém, o último comentário de Ukitake a encheu de esperança, aquilo que ela evitava a todo o custo sentir… Não queria novamente iludir-se. No entanto, ele foi convicto. E bastante sério, algo incomum naquela personagem que sempre fora atenciosa e delicada desde que o conhecera.
– O quê?
– Ichigo esconde seus sentimentos. Mas ele gosta de você, Rukia. Ele já não consegue disfarçar… Se fosse outra, ele a teria matado na primeira fuga, no primeiro grito contra ele. Não seria a primeira vez que isso aconteceria.
Estremeceu com essa possibilidade. Era um facto que ela já desrespeitara seu superior, e ele não costuma permitir isso, porém sempre fora temperamental e nunca media suas palavras e muito menos o seu tom. Tinha de reconhecer que a sorte tinha a acompanhado constantemente nesses momentos pela clemência do impotente Kurosaki. Contudo, se ele fosse um monstro também não poderia ser compreensivo com suas revoltas. Era isso que Ukitake tentava transmitir? Que ela tinha pensamentos contraditórios sobre seu chefe?
– Mas ele não o fez. Rukia você é diferente…
O sorriso do cientista acarinhou o peito de Rukia, que timidamente ruborizou.
– Você mudou o mundo de Ichigo. Ele não é mais o mesmo, ele agora tem um objectivo para viver, para evitar as matanças.
A coloração avermelhada em seu rosto era mais nítida, porém nem por isso evitou sorrir discreta, algo borbulhava em seu peito, a crença naquelas palavras modificaram seus sentimentos. Ou talvez eles nunca tivessem mudado e só agora os começava a descobrir.
– É a única que o pode salvar deste sítio, não desista dele.
Apesar das encantadoras palavras serem do seu agrado, ela não queria que as borboletas em seu ventre voassem no auge de seus sentimentos. Queria aprisionar aqueles pequenos seres, antes que voassem e fosse tarde demais para pousar.
– Porque me diz essas coisas? Porquê!? Eu quero sair deste buraco, não ficar presa a um homem sem escrúpulos!
– O Ichigo foi forçado a entrar também.
Abismada, desviou seu olhar para a direcção do portador das madeixas alvas, tonalidade devido a uma experiência mal sucedida no laboratório.
– Pode parecer estranho. Mas ele não queria esta vida.
– Então… Porque o fez?
Ele redirecciona o rosto para uma parede, duvidoso em revelar o segredo por detrás da entidade misteriosa daquela organização. Entendo sua hesitação, a cólera inflamou os punhos da morena que socou a mesa junto de si.
– Ukitake-san eu quero respostas, não mais perguntas! Por isso me conte!
– Suas irmãs mais novas.
– Irmãs?
– Sim. Os pais dele foram mortos… Seu pai, Isshin Kurosaki, tinha sido um antigo assassino, e o passado o perseguiu encontrando sua família. Kurosaki-san entrou nesta vida para proteger as irmãs do mesmo destino de seus pais. Mas alguém quebrou o trato e pouco tempo depois elas tiveram um acidente suspeito. Supostamente acidental. Kurosaki-san nunca os perdoou por isso.
– Quem… Fez isso? Quero dizer o responsável pelas mortes?
– Kurosaki-san nunca compartilhou os nomes dos culpados comigo.
Assistindo o choque dela, optando por fazer uma pequena pausa, aguardando que esta recomponha-se das informações adquiridas. Afinal ninguém conhecera aquele lado humanitário do ruivo, somente Ukitake por o ter presenciado, se não fosse assim talvez nunca tivesse crido na transformação dele.
– Ele sabia que não fora um acidente… Tinha acabado de ficar sozinho no mundo. Não havia motivo para ele continuar lutando já que não havia nada. Por isso ele quis vingança. Rasteou cada um dos membros… Matando-os um por um, cruelmente. Desde então Kurosaki-san nunca mais foi o mesmo.
Algo intrigava os pensamentos da Kuchiki… Ela conhecera Ichigo já como chefe da organização quando este era ainda muito jovem, mesmo temendo a resposta ela arriscou que a curiosidade domasse o pequeno diálogo.
– Quantos anos ele tinha?
Ele percebeu as intenções não reveladas sob aquela questão, respondendo sem delongas.
– Oito.
– Não pode ser…
– Ele é perspicaz. Usou sua astucia para enganar e capturar todos os membros.
– Mas ele era uma criança ainda! Como isso aconteceu!? É impossível…
– Rukia… O que nos torna crianças?
Piscou diversamente as pálpebras rapidamente, num claro gesto inocente confuso.
– Como assim?
– A nossa ingenuidade, os nossos sonhos, a pureza… Tudo isso fora roubado a Kurosaki-san. No dia em que perdera sua família, ele deixara de ser criança. Seu ódio, sua sede de vingança, eram de um homem.
Rukia encarou o piso húmido, suas lágrimas escorriam como um rio, até seus pés, localizados nas poças imundas pelo pó que se misturou com a água cristalina, a tornando impura.
– Ele só precisara de treinar uns anos para ficar forte e cumprir seus objectivos. Completando-os quando tinha doze anos.
– Quatro anos antes de nos conhecermos.
– Sim.
O silêncio mórbido inundou a sala de investigações. A mente a trabalhar mecanicamente da morena escutava-se longinquamente, ecoava por seu olhar, transmitindo toda a sua confusão.
– Ukitake-san…
– Sim?
– O que eu faço? Eu não o consigo deixar… Não depois de ter esperança que ele se torne naquilo que era…
Ukitake sorriu, apesar de ligeiramente preocupado.
– Uma missão complicada Rukia. Mas espero que o consiga.
– Eu sou o braço direito de Ichigo Kurosaki. Fracassar não é admissível.
O albino descontraiu seus nervos, enquanto encarava as íris violáceas com o brilho da determinação. Um cientista não costuma prever acontecimentos, os seus conhecimentos constam na tecnologia, no entanto, ocasionalmente o faziam viajar no futuro. Nesta nova viagem, a sua experiência na vida, com a idade muito mais desenvolvida que os outros membros, criara a certeza que um dia o casal poderia permanecer junto mesmo com todas as tribulações. Tinha fé que quando eles decifrassem completamente seus sentimentos ainda não fosse tarde demais, podendo reconstruir um final, juntos e felizes.
Rukia queria escapar do local onde sempre vivera. Não queria mais permanecer presa, queria sua liberdade. Um acto corajoso, mas impulsivo. Alvejava voar para longe, no entanto não estariam suas asas frágeis e sem forças? Poderia quebrá-las no caminho, e cair do alto do céu. Só não esperava que conhecendo seu chefe de um outro ângulo, de forma mais humana, mudasse sua vida para sempre, e até fortaleceria suas asas quebradas. Porém ela lá permaneceu no lugar onde queria fugir.
Rukia sempre andara perdida… Porém, Ichigo a encontrou, e agora era o turno dela em perfurar a alma do misterioso ruivo.
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