Simplest Mistake
4 Mulher Fatal
Notas iniciais
Algumas memórias felizes e melancólicas abordaram a Kuchiki no seu profundo sono. Antes do sol surgir com seus raios, ela desperta, no entanto sua mente estava vazia. Não sabia que sonhara com o passado. Também, pouca relevância tinha.
Com as roupas dispersas pela divisão, seu corpo desnudo estava estendido pela poltrona espaçosa. Colado em suas costas, repousava Ichigo, notando que sua cintura era segurada possessivamente pelas mãos do ruivo adormecido. Mesmo inconsciente, ele a protegia do frio da noite. E mesmo tranquilo, conseguia observar a mancha espessa avermelhada dos homens mortos que suas mãos foram responsáveis.
Rukia queria ter-se refugiado desses actos condenáveis no entanto parecia que sua antiga vida tinha regressado para assombrá-la. Seu repouso calmo seria retirado por penalização do sono eterno que causou a milhares de pessoas. Ainda conseguia escutar fracamente os sons ruidosos dos carros patrulha e ambulâncias… Quando a sua visão escureceu quando identificou vozes abafadas de pessoas aleatórias. A última coisa que viu naquele dia foi o cadáver de um pobre pássaro com as asas abertas, provavelmente desabou em pleno vôo. Ao menos morreu livre. Ninguém valoriza a liberdade até a perder… Certo que ele não a aprisionava naquele covil, como uma prisioneira, mas ela estava acorrentada aos erros. Não queria mais mortes. Almejava um dia poder salvar alguém para recompensar o inúmero mal que causara. Apesar que… Uma vida, mesmo livre, sem o seu chefe sedutor nunca seria perfeita.
– Em que você pensa, Coelhinha?
– Na vida que poderia ter. Se fosse livre.
– Não deixarei você ir embora de novo.
– Compreendo.
Rukia desviou seu olhar para a parede, mesmo não prestando atenção em nada em concreto. Só focara sua visão nos contornos duma estátua peculiar, a contornando visualmente, prendendo sua atenção. Um calafrio gelou sua coluna quando sentiu-o a remexer em seus cabelos curtos. Por um momento sentiu-se melhor. Apesar de tudo, eles eram a sua família, a única que conhecera. Sentia que estava em casa, mas o Kurosaki fizera questão de impor suas tarefas domésticas.
– Temos uma missão.
Desilusão? Raiva? Ou as duas? Não sabia identificar o que amedrontava seu coração mas o aconchego que sentira segundos antes sumira. Suspirou pesadamente, amar um criminoso era em determinados momentos muito entediante.
– O que preciso fazer?
– Explodir o edifício central na província de Seireitei. Pertence a um tal velho Yamamoto.
Não acreditara no que escutara, a informação ainda estava a processar. Certamente, seria uma missão complicada ainda por mais a solo, mas não era isso que a surpreendera. Atentar contra o designado Comandante da cidade era sinónimo de guerra se eles fossem descobertos e culpados como responsáveis pelos danos. No entanto, Ichigo não estava preocupado, ou confiava demasiado em suas capacidades, ou não tinha activo o seu sensor de perigo.
O sabor amargo novamente escalou sua garganta. Seriam inúmeros inocentes que padeceriam pelos erros dos seus superiores. Haveria mesmo necessidade de uma explosão? Encarou discreta a face do ruivo e pela forma como estava descontraído adivinhou logo que seria inútil negociar a forma da matança dos alvos, nitidamente fora uma exigência do cliente mistério. Cobardes imundos que recrutavam aos outros o seu trabalho sujo… Se esses monstros não existissem, ela, Ichigo nem o restante da organização precisariam de fazer o que fazem. Seria o fim perfeito da existência dos assassinos contratos.
– Porquê!?
– Não questionamos nossos clientes. Desde que paguem.
– Certo. Irei preparar-me.
Rude, ou tentou sê-lo. Demonstrar sua insatisfação… Mas após um longo ano, era impossível esconder sua felicidade em revê-lo. Até satisfeita estava por poder brigar e discordar dele novamente. Vestiu-se calmamente, sob o olhar atento avelã, numa tentativa em prolongar o tempo para ir trabalhar. As costas alvas cintilavam sobre os pequenos reflexos solares que invadiam através da janela do compartimento, entre esse espectáculo matinal, Ichigo observa atentamente a cicatriz da bala que quase matara a pequena. Ele enrugou a testa ao recordar esse momento, deparando-se com o mesmo dilema de anos atrás: quem foi o desgraçado? Iria eliminá-lo no dia que encontrasse o seu patético e deplorável esconderijo.
Quando a camisa retomou ao seu lugar no corpo sensual, o Kurosaki deixou de reviver o passado. Assistindo esta ajeitar algumas armas em potenciais esconderijos que estavam em seu armário aguardando o seu retorno profissional. Sabedor do debate interno de Rukia, ele conhecia a sua necessidade em permanecer uns momentos a só, para descontrair a raiva que ela tinha dele. Sorriu divertido, estranhamento gostava-a de ver irritada consigo, agradava-lhe os desafios. E todos os dias, ela lhe apresentava um novo. Talvez por isso seu fascínio por ela sempre se tenha prolongado com o tempo, talvez até seja eterno.
Ele sabia que podia confiar nela para esta missão, que ela voltaria. Não só pela sua família, como por ele.
– Estarei à tua espera, Coelhinha.
Friamente, o encarou. Era sempre assim quando ele a designava para uma missão. Permanecia gélida com ele… Mais concretamente com todos os que apareciam ao seu redor. Era das raras ocasiões em que a jovem sonhadora perdia completamente a emoção em sua face, desnutrida de qualquer sentimento, seja ele qual fosse.
– Não demorarei.
– Eu sei, você é meu braço direito afinal.
Apesar de sua personalidade dócil ela era uma mulher fatal, uma arma perigosa, quando não era movida pelos sentimentos. Apesar de secretamente preferir seu lado inofensivo, no entanto o seu lado perigoso o enchia de orgulho. Seu instinto nunca falhara, e naquele dia em que a salvara não fora a primeira vez em que isso acontecera.
Seireitei era um lugar remoto privilegiado da cidade de Karakura. Uma pequena elite destinava-se a viver em imensas mansões, cobiçados pelos distritos vizinhos, contrastando com sua pobreza miserável. Não era o primeiro ataque que encomendavam contra os “deuses na terra”, mas era uma novidade ser ao rosto principal daquele grupo.
O sol encontrava-se na linha do equador, iluminando as folhas peculiares. No Outono, cada folha possuía sua própria cor, quase como uma segunda primavera. Num sinal de esperança, em que não há só vida numa estação.
Numa travessia do destino, Rukia apreciava sair da condição humana, transformando-se num pássaro. Eles possuem naturalmente uma capacidade que todo o ser terreno ambiciona: asas. Estas lhes permitem alcançar ares que nunca ninguém respirou. No entanto, apesar de serem chamativos pelo seu dom, eram discretos em tudo o que faziam. Eles eram a inspiração para o sucesso da Kuchiki em suas missões. Discrição era a alma do sucesso.
Um longo blusão negro fez ela se interessar imediatamente por ele, seria o indicado para ela se disfarçar entre a multidão. O seu primeiro obstáculo que teria de enfrentar era alcançar o enorme muro que separava os dois mundos hierárquicos, sem nunca ser detectada. Sua presença teria de ser obrigatoriamente anónima.
Seus passos eram inaudíveis entre os rumores rotineiros daqueles que a rodeavam. Subitamente ela vira-se para uma banca de legumes, encarando discretamente os guardas que protegiam o muro.
“Quando o número de inimigos for superior, se concentre somente num. Será esse que você irá derrubar. Atenção nos seus comportamentos, e descobrirá a sua fraqueza.”
A morena movimentara-se usando os cidadãos como barreira do seu contacto visual. Ichigo era um excelente treinador tinha que o admitir, seus conselhos sempre eram-lhe úteis, apesar da prepotência contida em cada um deles, por isso lhe irritava ter de acatar suas indicações.
Imediatamente, um gesto chamou a sua atenção. Um simples olhar elaborado com um sorriso de canto. Seleccionara sua vítima. Notou que esses gestos se iam repetindo em algumas ocasiões. Sentiu nojo daquele ser, nem lhe custaria muito usá-lo para depois o eliminar.
A cobiça brilhava em seu olhar, decerto que as mulheres atraentes eram seu calcanhar. Um calafrio queimou seu pescoço, ela entreolhou em vários ângulos para ter certeza que seu chefe não a vigiava. Ele a ensinara a utilizar várias armas, nomeadamente a sedução, porém ele a proibira expressamente de a usar. Porém longe da vista, longe da fúria.
Averiguou o terreno à sua volta. Nenhum outro guarda estava próximo para se aperceber se ele sumisse do seu posto, e muito menos escutar a conversa. Aproximara-se novamente da banca e comprara uma maçã vermelha, pelo menos o tom era o indicativo para a situação. Acercou-se num indivíduo e este, estando de costas, vira-se mas derruba Rukia que intencionalmente lança a fruta mais longe do que o impacto o permitia. O aldeão rapidamente se desculpa, contudo a morena ignora-o completamente, seguindo o trajecto do seu isco, atraindo a atenção do guarda. Pela sombra das íris sedentas interpretou que sua fisionomia correspondia ao seu agrado.
Desloca discretamente sua mão direita pela cintura, folgando a veste comprida, revelando as pernas torneadas que pontearam inúmeros adversários os deixando inertes. Com satisfação, reparou que a fruta vermelha parou de rolar entre os pés do vigilante. A aproximação a enjoara, principalmente porque o homem não controlava a luxúria em seu olhar. Estava num estado inquieto pela antecipação, notou que ele entrelaçava os dedos irrequieto e por vezes mexia os pés, certamente seria abordada. Aliás, esse era o seu objectivo.
Antes de se agachar, Rukia permitiu que o guarda a encarasse directamente, vendo este salivar no canto dos lábios. Sorriu sedutora, abaixando-se, pegando no que era seu. Os sentidos são o que maioritariamente proporcionam as nossas acções, sem estes, navegávamos num mar eterno à deriva sem direcção a seguir. Como previsto, assim que se ergueu, ele a tomou pela cintura abrutadamente. O vigilante dançou até a sua cabine, com a Kuchiki em seus braços. Mais reservados de olhares curiosos, ele aproximou-se da morena que estava intacta, sentiu o aroma fresco a repudiando. Rukia largamente esboçou um sorriso sarcástico, como aluna aplicada aprendera a imitar seu professor até os mínimos detalhes. Determinada a fechar a cobiça presente daqueles olhos, para que nunca mais retomasse, Rukia soca o pescoço do que a agarrava, desmaiando em seguida, desabando na madeira do camarote.
– Idiota. Deveria ter mais cuidado da próxima vez. E respeitar mais as mulheres.
No mundo em que vivia, ela não presenciou só a morte. Já assistiu a coisas muito mais macabras. Sabia distinguir pelo espelho da alma, a conduta (ou a falta dela) duma pessoa.
Rukia retirou completamente o blusão demonstrando um saco que circulava sua cintura. Neste estavam presentes um kimono deslumbrante púrpura de um tom claro, e um conjunto de folhas sobre os planos sofisticados e muito bem detalhados de seu chefe sobre o alvo. Esse era um problema do grande investimento e desenvolvimento tecnológico. As plantas dos edifícios eram fáceis de conquistar de um escrúpulo que não cumpra o contrato de sigilo em troca de algo mais valioso. A conduta moral do humano era fácil de se comprar.
O kimono deslizava pela pele alva delicadamente. A Kuchiki não pretendia se igualizar a uma deusa daquele lugar hipócrita, só pretendia disfarçar-se de uma empregada de alguma senhora. Quanto mais estatuto, menor a possibilidade da discrição. Novamente escondeu suas armas, agora nalguns sítios distintos. Encarou o guarda adormecido poderia disparar, vontade não lhe faltava. Contudo, isso colocaria seu chefe numa situação delicada. Se ela agisse por impulso, e o matasse por uma questão emocional, poderiam ser descobertos.
A sua saliva ganhou um gosto ávido, enquanto ela acomodava o vigilante numa cadeira, numa postura desleixada, como um incompetente que tivesse adormecido em serviço. Tinha a certeza que descoberto naquela situação estaria morto pelo seu superior. Indiferente a esse detalhe, fez o adormecido ingerir uma droga que perlongaria seu sono até o amanhecer do próximo dia, tempo suficiente para concluir sua missão.
Começou a bater com o pé esquerdo na madeira, procurando um som diferente, mais amplo como a queda de um precipício, encontrando-o em seguida. Com alguma dificuldade descobriu a comporta secreta no piso de madeira, saltando em seguida. Encontrava-se num longo corredor subterrâneo. Caminhou normalmente com um saco da sua roupa entre as mãos, como se carregasse alguns mantimentos. Por vezes encontrava outros serviçais mas estes a ignoravam como ela a eles. Aquele corredor era a passagem dos empregados que andejavam pelos dois mundos separados. Eram os que se encarregavam de trazer os utensílios necessários do hemisfério pobre. Suspirou, contraindo sua raiva, eles concentraram em si a riqueza e o poder de todo o Japão, tornando uma parte do país a Era Medieval, regendo as localidades próximas do muro segundo essas leis antigas.
Quando encontrou a luz daquele túnel aparentemente infinito, deparou-se com o luxo dos habitantes. As mansões pareciam adornadas de ouro. O brilho intenso das matérias e adornos cegava a quem não estava acostumado, ou talvez, quem sabe se todos já não estariam mesmo cegos pela riqueza.
Algumas pessoas notavam na presença humilde da Kuchiki em seu trajecto, ninguém a reconhecia, cogitando que ela seria alguém discreto que se isolara no palácio de seus senhores. Apesar disso, sua beleza era inquestionável, conquistando a simpatia de algumas pessoas ao perceberem seu rosto simples e honesto, e noutro campo oposto a inveja perpétua.
Deslizando suavemente pelo céu, o astro solar arrastou seus raios consigo até uma profundidade mais baixa, colorindo o espaço com tons alaranjados que antes eram de um azul cristalino.
Os fios coloridos iam escurecendo, perdendo sua luminosidade, à medida que as horas avançavam. Rukia instalava diversas bombas consoante os planos após adentrar no edifício, com tanta criadagem era difícil distinguir eles dos impostores. Após, o último aparelho estar pronto, ela define o temporizador, demorando uns segundos antes de o colocar a funcionar. Só porque as pessoas que ali habitavam a desgostavam, não quer dizer que merecessem a morte. Ela presta atenção nos números vermelhos a diminuírem, e antes de partir para o seu destino, ela coloca sua maçã vermelha em cima do diapositivo.
O sol se escondia nos montes impossíveis de alcançar, aproveitando o facto de estar a escurecer, tornando todas as cores num borrão cinza, se camuflando pelas sombras, ela iniciou uma corrida pelo túnel, contando mentalmente a decrescida dos números como se ela tivesse o temporizador instalado em sua cabeça. Escalou em seguida pelo chão falso, reparando que o guarda ainda permanecia em seu sono agridoce.
Abandonou o local, escondendo-se num beco, não demorando muito até escutar a estrondosa explosão, instalando-se a confusão e a gritaria entre os dois mundos. Soando o alarme, ela percebeu que estava na hora de ir antes que dessem com o seu paradeiro, retornado ao seu visual habitual.
O céu noturno brilhava com o contraste das chamas numa conjugação indefinida entre o avermelho e o laranja. Por momentos, pensou ver fogo-de-artifício no ar. Ela cogitou chorar pelas tamanhas vidas que tirou, os sonhos e futuros que roubou. Mas isso seria uma desonra aos falecidos. Tudo por culpa dela, em ser uma coelha que era facilmente caçada.
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