Simplesmente para Provar que Eu Existo...
13 Só Agora...
Notas iniciais
Yuuto se aproxima e ergue a espada.
–Me desculpe – diz ele.
Fecho os olhos esperando pelo sentimento sórdido da morte, não tenho nada, então não preciso mais viver.
Porém antes da morte ouço o grito abafado de Yuuto e o vejo ser atirado e cair no chão.
Kami está com uma perna levantada, fica de pé e me olha.
–Você não vai morrer – fala – Tem que viver por mim, lembra?
Cerro os dentes. Como ela pôde impedir minha morte desejada?! Por que nunca posso ter o que quero?! Nem mesmo a morte?!
Me ajoelho no chão ainda chorando e pergunto:
–O que você quer afinal?
–Uma alma. Esqueceu? – responde ela – Se você morrer eu volto a ficar presa, nenhum garoto idiota vai me atrapalhar!
–Como você ousa falar assim de Yuuto? – a fuzilo com o olhar – Ele é bem melhor que você.
–Mesmo depois de ter te feito gritar e chorar daquela forma? – zomba Kami – O amor estraga as pessoas.
–Sim – afirmo – Eu não mereço ser amada, nasci pra matar. Mas... Vou matar Kami pra mudar isso.
Levanto repentinamente e ataco ela, Kami se defende, pega meu braço e tenta ferir meu rosto. Mas desvio e a empurro, me liberto de suas mãos.
–Venha – ela sorri – Ou está com medo?
Corro e pego uma espada do chão, Kami vem flutuando rapidamente. Me ataca com aquela lâmina, ela é tão forte que me empurra pra parede. Meu corpo todo treme, já estou fraca por perder muito sangue.
–Essa carinha de dor – comenta Kami – Ninguém é capaz de derrotar Deus!
–Vai pro inferno! – a empurro pra trás e tento feri-la.
Kami ri como se fosse divertido, ou talvez pense que e impossível eu vencê-la.
Continuo lutando, até que Thy desperta e desfere um golpe em Kami. Mas não consegue feri-la, pois Kami defende e ainda consegue desviar de meu golpe. Ela fere o pescoço de Thy. A ladra de almas tenta acertar Kami de novo, mas a deusa machuca e levo um golpe nas costas e lhe dá um chute no rosto. Thy cai pra trás.
Tento pegar Kami pela retaguarda, mas ela percebe e acerta meu rosto também. Fico desorientada e levo um golpe nas costas. Sou atirada pra frente e rolo no chão. Arquejo cuspindo sangue.
Thy luta com Kami, mas acaba se ferindo bastante. Tento me levantar, mas não consigo mexer meu braço esquerdo ele dói demais. Percebo que está sangrando muito mais que o outro, então vejo o osso de meu cotovelo saltado, perfurou minha pele e saiu pra fora. Desvio o olhar dessa cena horripilante, sinto arrepios ao pensar que meu corpo está assim. E agora? Como vou me levantar?
Thy grita de forma pavorosa, Kami a deixou atirada no chão com uma das pernas retorcidas, está quebrada assim como meu braço. Kami a apunhala sem misericórdia, Thy se contorce no chão tentando fugir.
–Isso dói? – indaga Kami sem emoção alguma – São só umas cutiladas, lha só...
Ela pega do chão uma das facas de Thy e finca em sua barriga, estranho, sai sangue, mas ela não parece sentir nada. Claro, Kami não tem emoções. No entanto parece que matá-la não tem muita graça. Porém é meu dever, ou é ela ou eu que morro. Lógico que prefiro que ela morra. Não que eu me importe com a morte, só não quero ser morta por ela.
Tento levantar novamente, fecho os olhos e urro por causa da dor no braço quebrado, tenho que ser forte e derrotar Kami. Consigo ficar em pé, mas não posso mover um dos braços.
–Kami... – quase não consigo falar.
Ela me olha meio surpresa.
–Pensei que ia ficar ali esperando que eu te mate.
Pego minha espada do chão com dificuldade, quase não me aguento em pé, mas não desistirei.
–Acho que isso seria chamado de ridículo – comenta Kami – Eu deveria rir, não é?
–Cale-se... – aponto a espada pra ela – Sua coisa fria e vazia!
–Acho que eu deveria ficar irritada – supõe ela – E lhe dar uma lição.
Kami me dá um soco doloroso no estômago, sou atirada pra trás, a dor é tão grande e iminente que nem tenho tempo de gritar. Minha cabeça colide com a parede e perco mais sangue. Sinto que há uma pedra em cima de mim, estou fraca demais pra me mover.
Gemo e viro a cabeça bem devagar porque dói muito, Yuuto me fita deitado no chão. Espero que esteja vivo, mas não pisca, só me observa com um ar curioso. Tento chamá-lo, mas minha voz não sai. O coração em meu peito palpita, quero que Yuuto faça algo, sei que não está morto, só se finge e isso me faz sentir como se estivessem espremendo meu coração e me sufocando. E o pior é que não consigo fazer nada.
–Oh, seu querido sente aversão a você – Kami se aproxima – Acha que ele vai te ajudar?
Ela chuta minha barriga e me faz soltar um grito esganiçado que parece que estou engasgada com algo.
–Ele vai até rir – diz Kami – Mesmo que você chore, grite, sangre... Ele quer que você morra, porque matou aquela que ele amava!
O olho pelo canto do olho, Yuuto tem uma expressão fria no rosto.
Meus olhos se enchem de um liquido vermelho, não consigo nem chorar, isso...é sangue. Agora não posso enxergar direito também. Por que Yuuto?! Por quê?!
Vomito sangue, meus olhos sangrando já não conseguem se manter abertos. Vou morrer...Então acabe logo com isso!
–Dare... – ouço Yuuto, mas talvez seja minha imaginação – Dare, use a luz.
“Não consigo” penso.
–Dare...desculpe.
–Só agora... – acho que ele não ouve.
–Adeus – ele se despede.
Fico confusa com sua despedida sem motivo. Me toco que tudo está silencioso e só ouço Yuuto, devo ter morrido e isso é só uma fantasia.
Até que um grito horrível quebra o silêncio, meus ouvidos estalam pelo som alto.
–Acho que era pra eu chorar e me lamentar – a voz é de Kami – Você não a odiava?
–Ódio é um sentimento muito sujo – diz Yuuto – Acho que Dare não é Nightmare.
–Como não?
–Ela não é “ninguém” como a chamam – discorda ele – Ela é capaz de amar, chorar, sorrir e odiar como qualquer ser humano.
–Ela matou todos!
–Ela tem um nome! – fala ele – O nome dela é...Hikari.
No momento não consigo pensar em nada, parece que estou flutuando. Será que minha alma está saindo de meu corpo? Não quero morrer, não agora.
–Ah... – Kami geme – Ah, isso dói! Pela primeira vez...Ah!
Ela dá risada.
–A sensação de proximidade da morte...Ótimo! Mais! Mais dor Yuuto!
O que será que está acontecendo? Não posso enxergar, só ouvir e sentir o cheiro pútrido de sangue.
–Sinto muito! – Yuuto está chorando.
Sinto algo pesado sob meu corpo, é Yuuto que chora como uma criança em cima de mim.
–Desculpe Dare...quer dizer...Hikari.
O peso sobre mim não me incomoda, nem um pouco. Como ele não se incomoda com todo aquele sangue?
–Hikari... – algo macio e aconchegante toca meus lábios suavemente.
Ele está...me beijando? Não consigo pensar em nada, mas sinto e é bom.
–Como sou mau! – se lamenta Yuuto – Só faço isso no fim e te deixo apanhar aqui, sem remorso algum. Você está sangrando tanto! Vai morrer por minha culpa!
–Me beija de novo? – por algum motivo consigo pronunciar essas palavras – Quero morrer assim...
–Claro – ele o faz sem se importar com o sangue que verte de minha boca ou as lágrimas vermelhas que escorrem por minha bochecha.
Se o que ele faz é uma hipocrisia não me importa, vou morrer e quero morrer pelo menos pensando ser amada.
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