Simplesmente "Maria"
2 A infância entre dois mundos
Maria era uma criança quase comum, exceto por seus grandes olhos, cor de mel, expressivos e enigmáticos. Olhos que pareciam falar com quem os soubessem ler.
Era alta, magra, cabelos cacheados e crespos. Vivia no interior de São Paulo.
Mas oque mais a diferenciava das outras crianças, era sua sede de conhecimento.
Aos cinco anos, ela já questionava a existência, o porque das coisas divinas, qual seria sua verdadeira missão aqui na terra, como aprender os desígnios de Deus.
A menina sempre teve uma nata curiosidade por tudo oque era espiritual.
Tudo sobre o mundo, as pessoas, Deus e seus mistérios a atraiam como o sol atrái as plantas.
Ao seu redor, ela não via ninguém como ela, ninguém com quem pudesse dividir suas perguntas e descobertas.
Não havia ninguém próximo á ela que quisesse realmente esmiuçar essas questões á fundo.
Muito pelo contrário, se ela falasse, era recriminada e lhe davam em resposta um olhar de raiva ou no mínimo de surpresa, como ficam aqueles que não entendem algo que se pergunta de inesperado.
Logo ela foi aprendendo a conviver com isso, e começou a dividir seu mundo, entre dois mundos.
O mundo dos outros e o seu mundo.
No mundo dos outros ela era apenas uma criança cheia de energia e feliz. Mas no seu mundo, ela fazia experiências com Deus.
Ela brincava com as outras crianças de igual para igual, mas seus pés estavam no chão e sua cabeça nas estrelas.
E assim foi crescendo, mesmo se sentindo o patinho feio, ou um peixe fora da água, foi vivendo.
O mais difícil para ela era conviver com a crueldade de sua mãe.
Sua mãe costumava sempre ou diariamente chama-la de feia, magrela, gaguinha, cabelo ruim, burra, vadia, ordinária, eram seus apelidos comuns.
Mas se fizesse qualquer arte comum a todas as crianças, em meio as surras, ouvia apelidos piores.
Sua mãe quando nervosa costumava dizer que ela era o quinto aborto que ela não fez, e se arrependia de não tê-lo cometido.
De início doía muito, mas com o tempo ela foi se acostumando com o jeito de sua mãe.
Com 5 anos, ela teve a separação de seus pais e desde então, nunca mais soube oque é ter um pai.
Na verdade, ela não se lembra bem dessa época ,só sabia que por algum motivo, desde essa data, ela adquiriu uma gagueira crônica, e nunca mais falou sem gaguejar.
Possivelmente foi algum trauma, pois era uma gagueira emocional, quando se sentia acuada ou com medo, a crise se manifestava, e ai só saia cuspes, cara feia e a cabeça indo para frente e para trás em um ritmo frenético de desespero para tentar falar....
Nessas horas sua mãe a xingava de gaguinha e mandava parar de gaguejar, como a gagueira era emocional ela gaguejava mais, sua mãe nervosa á mandava parar e batia nela, batia tanto que de tanto a menina apanhar e chorar, parava de gaguejar.
Tempos depois foi descoberto aos oito anos de idade, na escola, que ela tinha miopia nos olhos e era alto seu grau...e assim ganhou mais um apelido carinhoso da mãe....além de gaguinha, agora é ceguinha.
"Dizem que a miopia é nato em crianças que rejeitam ver o mundo da maneira que estão vivendo"
Sua mãe não gostava da aparência da filha ,do cabelo dela ,da gagueira dela, da miopia dela, da risada dela, não gostava dela.
A mãe de Maria dizia que era para ela andar atrás dela, quando iam á algum lugar, pois não queria que suas amigas ,á vissem com menina tão feia. Mas Maria não era feia...aos olhos dos outros.
Sua mãe parecia a madrasta cruel da cinderela, com a diferença que era de sangue, era sua mãe de verdade.
Entre dois mundos, quando a dor era muito grande, Maria se teletransportava para o mundo de lá...e falava intimamente com Deus. Ela sentia que em algum lugar haveria de encontrar amor.
O amor falava tão alto dentro dela, que parecia uma certeza.
Mesmo rodeada de infelicidade e dor, ela conseguia ser feliz .
Nascera com o típico complexo de Pollyana, otimista por natureza e tinha uma esperança digna dos livros de fé.
Nada tirava sua fé. Era inabalável.
Parecia até que toda aquela dificuldade familiar só reforçava sua convicção em um Deus forte e carinhoso que a tudo tem um propósito.
Assim foi crescendo Maria, fazia muitos amigos com seu jeito carinhoso de ser. Era uma criança que tinha verdadeiro interesse nos outros.
Ela era curiosa com a dor da alma de cada um que cruzasse seu caminho.
E queria a todos ajudar.
Sua gagueira a acompanhou ate seus 25 anos, eram umas três crises por dia, e só em situação de medo ou ler textos na escola em voz alta, ou falar números de telefones e ou documentos que aumentava.
No trivial era até possível passar despercebido.
Ela foi também aprendendo as situações de risco e ia tentando evitar esses assuntos, palavras e situações.
E assim diminuindo os vexames.
Até que ela lidava bem com isso. Como não era a mais bonita da sala de aula, nem a mais rica, se tornou a mais legal, era amiga de todos.
E também se tornou a defensora dos oprimidos, muito corajosa, defendia sempre os injustiçados , e se fosse preciso brigava até com meninos para defender a razão.
Ficou também temida por todos, mas no bom sentido, pois tinha um coração de ouro.
Era também inteligente e bem humorada, espirituosa.
Ela gostava da escola, era seu momento de ser feliz.
Pois em casa, se sorrisse muito, apanhava somente por estar feliz.
Aprendeu que a verdade, em sua casa era tida como uma doença contagiosa.
Sua mãe amava mentiras, jogos, calúnias, manipulação, palavras sujas e atitudes deploráveis eram louvadas.
Então como ela jamais conseguiria ser assim, nem fingir ser, foi se distanciando de qualquer assunto pessoal com a mãe.
No inicio ela tentou muda-la, mas a cada tentativa levava uma surra por desobedecer e tentar contraria-la. Apanhou tanto que desistiu.
E assim acabou se distanciando da mãe.
Até seus 15 anos achava que todas as mães eram como a sua .Pois quando chegava visita em casa, sua mãe fazia um teatro, ela abraçava, beijava, pedia para sentarem em seu colo, á chamava de filhinha...quem olhava aquela cena, diria:
—_nossa que mãe carinhosa!
Bastava a visita sair e ela mudava o tom de voz e a expressão, voltava a rotina cruel ,e as vezes até dava um sorriso sarcástico.
Se fosse só pela indiferença até poderia suportar, mas ela tinha uma espécie de perseguição que hoje ela chamaria de diabólica.
Sua mãe sentia prazer em humilha-la, ela ia atrás dela para lhe infernizar, sentia necessidade de descarregar seu ódio, na doce criança.
Ausência de pai dói, mas ter uma mãe como ela, doía mais ainda em Maria.
As vezes pensava que não ter mãe, talvez fosse melhor, do que ter uma como a dela.
Nesse ambiente foi crescendo.
Mas foi aos 15 anos que a doce menina percebeu que havia mães diferentes da sua.
Ela pensava que todas as mães também representavam quando tinham visitas, mas um dia foi sem avisar, a casa de sua amiga Renata e lá chegando, na calçada já pode ouvir a mãe de Renata que estava dentro de casa, gritando para a filha a frase que Maria nunca tinha ouvido.
"Filha, sabia que a mamãe te ama?"
E também lá do fundo do quintal, ouviu sua amiga responder a mãe.
"Sabia que te amo mais ainda?";
Nesse instante Maria ficou petrificada, ela não sabia se apertava a companhia ou se continuava ali naquele momento mágico, pois ela pensou, se não tiver nenhum estranho dentro da casa delas, então esse amor não é teatro, mas é o amor verdadeiro!
Ela pensou, depois de uns instantes, apertou a campainha e confirmou suas expectativas, só estavam as duas....que alegria, era AMOR!
O amor existia enfim!!!!
Ela desconfiava, mas diante do fato, seu coração pulou de alegria.
Hoje ela sabia, que em algum lugar ela também encontraria um dia, esse amor de verdade.
Ela começou a frequentar mais assiduamente a casa da amiga, e a cada dia via que sua constatação se confirmava, as duas, mãe e filha se amavam, eram carinhosas uma com a outra, pareciam ser duas amigas.
Diferente de sua casa, não havia ódio e raiva escondidos, nem mesmo mágoas, as duas conversavam sobre tudo e se amavam. Era lindo de se ver, e assim a fé de Maria foi edificada.
Renata e sua mãe gostavam de dizer que se amavam, não por necessidade ou carência, mas pelo prazer de dizer e ouvir. EU TE AMO!!!!!
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