Notas iniciais
Pronuncia-se "gúi".

Todos nas ruas, nos penhascos, nas colinas, nos montes e torres; todos os curiosos, amedrontados e maravilhados nestes, pois um espetáculo de luz começara no céu.

A grande estrela estava pairando sobre os olhos de quem a via e sobre os olhos virados do louco que se debatia intensa e incansavelmente contra o chão.

Caiu fora da estrada, enquanto tentava observar o céu, bem próximo a um carvalho. Novamente e justo agora, com esse sinal demoníaco na noite, pensava Guy, enquanto observava-lhe de longe.

Por um longo período caído, o louco pareceu morto aos olhos de Guy. Mostrou o contrário quando acordou e gemeu feito um moribundo. Voltou para a estrada, arrastando-se. Deitou, abriu os braços e encarou o céu, enquanto recuperava o fôlego.

Guy subia a colina, enquanto ouvia os gemidos da figura ao chão. Essa estrela... é branca como o gelo. É algo vindo do inferno, sim, pensou, decidindo se olhava para a grande luz ou para o louco.

Guy entrara pelos portões do velho castelo, quase uma ruína, mas ainda sim a relíquia histórica da cidade. Dizia-se que os próprios romanos ergueram um forte grotesco e que os saxões o melhoraram, mas agora era só um conjunto de muros e torres feitas de rochas quase negras, abandonadas devido à incidentes de erosão do solo.

Escolheu a entrada do muro mais próxima e começou a desbravar os degraus. Meus dias de vigor já se foram. Odeio pensar nisto, mas Guy pensava, porém não tanto quanto se importava pelo coitado esticado ao chão.

Conhecia o garoto desde pequeno. Amigo da família, a protegeu de ladrões pervertidos que tentaram estuprar a mãe e matar o pai e a criança; Com isso, obteve a afeição, onde o pai o admitira em sua casa, podendo trabalhar como o carpinteiro que era em um dos cômodos. Ficou aconchegado com a gratidão, que durou até a morte de ambos os pais do garoto. A doença os levara tão rápido quanto teriam sido com os ladrões. Antes disso, Guy fora soldado, ou só mais um andante armado com um machado de cortar lenha que acabou seguindo mais uma tropa de combatentes vinda do norte.

Pessoas desciam enquanto Guy subia, até que uma multidão veio correndo em sua direção, onde se empurravam e gritavam de desespero. Por Deus, o que está havendo? Por que estão descendo? Guy abraçou a parede e esperou os aldeões vararem os degraus, depois disso, subiu com receio do que encontraria.

Dois dos merlões e suas respectivas bases de rocha haviam se desprendido do muro, caindo, levando outras partes do mesmo na queda, Guy notara. Fora isso, via o horizonte negro do mar, e as torres em volta, sob a luz de archotes.

Com a cabeça entre os merlões, Guy olhou para baixo. Viu a praia, a formação rochosa em volta do solo do castelo e parte da estrada que a liga com a cidade, então se desprendeu destes e andou até o outro muro, passando pela torre à direita.

Procurando pela figura negra deitada na estrada, encontrou-lhe embaixo da árvore, sentado e encostado no tronco. Parecia pensativo, perturbado, confuso. Olhava para muitos lados a cada momento, com expressão de temor.

A noite era fria, com um vento gelado que tornava qualquer um quebradiço. Guy tremia, mesmo por baixo de pesados casacos. Este deve ser o maldito demônio de gelo que atormenta esta terra, Guy pensou, com um olhar rígido para a luz no céu.

Era religioso, porém evitava igrejas. Há pelo menos quinhentos anos a religião de Cristo chegara no reino do outro lado do mar, logo se disseminando até a grande ilha que residia. A grande estrela para a maioria dos curiosos nada mais era do que um sinal divino; a visão era bela. Uma ponta branca deixava seu rastro azul pela noite.

– Maldito, maldito seja! Voltou! Para a minha infelicidade e temor! Ó espetáculo do inferno, presságio de morte e dor! — Recitou o padre Oliver, em tom dramático.

Guy quase infartou quando se deparou com o ainda mais velho Oliver, gritando por trás de sua orelha de maneira súbita.

– Inferno, padre! Quase perco o equilíbrio e caio daqui mesmo. — Riu Guy, logo cumprimentando os ombros de Oliver.

– Não o reconhece, jovem? O rabo do diabo, que espalha fome, pestes e lágrimas nos olhos das mães desse país. — Guy deu um sorriso de orelha à orelha quando ouviu a palavra jovem.

– Em minha vida nunca vi algo assim. O senhor já? — Guy mostrou-se curioso, depois de ter quase se jogado do penhasco.

– Sim, filho. Quando era então mais jovem que você, eu a vi. Estava dentro de um barco, vindo para esta terra, quando a avistei.

Guy havia visto o velho padre pela última vez há pelo menos cinco meses. Desde então, Oliver se dedicara a escrever seus relatos de quando jovem, segundo aldeões nos quais Guy ouviu. Oliver tinha no mínimo alguns oitenta anos, e questionava-se na cidade se ele iria morrer tão cedo.

O padre era uma figura cansada pela idade; de baixa estatura, já corcunda e quase cego, Guy questionava o motivo do ancião ter subido todos os ramos da escada para quase matá-lo de susto.

– Filho — pediu a atenção de Guy, tocando-lhe o braço — No momento em que a avistei, o barco fora jogado contra o mar, juntamente comigo e minha mãe, onde meu pai e todos os bons normandos viajantes afundaram com ele.

Guy tentara demonstrar compaixão, mas aquilo apenas reforçou seus pensamentos acerca da luz branca e azul. Não, de longe não é um bom sinal. Deixou o padre parado por um instante e olhou pelos merlões novamente. O garoto está indo à praia.

A figura vestida de negra andara vagarosamente sobre a areia. Logo, sentou no meio da praia e então virou para o lado, deitou e assim permaneceu. Guy estava cansado do frio... mas principalmente de suas expectativas com o garoto.