"Há tempos nessa floresta, passa-se de língua em língua que nosso povo humilhara os latinos em uma terrível batalha. O imortal Armínio ordenara uma esperta armadilha, em que a grande massa de soldados romanos fora esmagada, enquanto a que sobrara, escravizada. O grande desastre de Roma."

"Não melhorou minha sensação em nada. Nós somos os romanos agora."

Assim sussurravam Ademar e Henrique, agachados sob duas árvores próximas umas das outras, na negra Teutoburgo. Sobre eles, o céu laranja repleto de nuvens amarelas os avisa de que é tempo de voltar para a fogueira.

"Certo, acalme-se. Vamos embora." — Disse ainda de maneira baixa Ademar.

"Você ouviu? Está vindo da direção da foguei-Ó Cristo, ali!" — Henrique escandalizou.

Com uma vestimenta pesada e toda preta, cobrindo tudo exceto os olhos e nariz, a figura parou de revirar as folhas do chão com um galho e, ainda curvada, olhou de relance para as duas cabeças óbvias aparecendo atrás das árvores. No instante ficou aflita e tornou a ficar ereta, encarando-os com pavor.

"Os barulhos não vieram desse aí."

"Vieram se na verdade é o Diabo em pessoa."

Abaixou o tecido e tirou o elmo de pele, mostrando longos cabelos castanhos e um rosto duro de mulher. Com tom de desconfiança, gritara:

– Atulfo?... Agár?

"É só uma mulher, Henrique."

"Pior. O que vai dizer?" — E disse então Ademar, levantando-se e mostrando a silhueta:

– Sou Ademar — e suspirando — e este é Henrique. Você também ouviu alguns ruídos estranhos por aqui?

Encarando-os, a mulher começou a se afastar lentamente e de súbito, atirou uma pedra sobre Henrique, que ainda permanecia com a óbvia cabeça à mostra. Correu para a escuridão da floresta logo então.

Caído, Henrique gemia e pressionava a mão sobre a testa, cortada e sangrando, enquanto Ademar não contia o riso, dizendo:

– Sabia que isso ia acontecer, vi ela pegando a pedra quando olhou para nós ainda curvada.

– Maldita, vou arrancar a pele dela com essa pedra. Pra que lado ela foi?

– Para a fogueira, que pelo jeito se apagou.

– Vou esfolá-la, vadia do inferno. Vou-

– E a quem ela gritou? Devem estar por perto.

"Ei, aqui." — Sussurrou a árvore.

No mesmo instante, ao mesmo tempo, tanto Henrique quanto Ademar ficaram brancos como um cadáver. Olhos enormes alimentavam a surpresa que obtiveram ao verem dois homens sentados sobre dois galhos em cada respectiva árvore que usavam para se esconder dos ruídos anteriores. O mais mórbido frio na espinha passava por Henrique, enquanto Ademar tirava a faca de caça da cintura e a segurava com ambas as mãos. Atulfo e Ágar, maldita seja a mulher, fraquejava Ademar.

– Ouviram os ruídos então? — Disse um dos homens.

Ainda ao chão, Henrique olhou com receio para Ademar e tolamente disse:

– Não fomos nós. Ouvimos sim os ruídos e decidimos sair da floresta.

Nesse instante, o outro homem cai de repentino como um boneco de criança, seguido por Ademar, que desmaia, caindo nas folhas como um tronco de árvore. Henrique e o sujeito que lhe fez a pergunta trocam olhares cômicos, até que este resolve descer da árvore. Pulando do galho, o homem estapeia seu parceiro caído em busca de um sinal de esclarecimento do que infernos estava acontecendo.

A noite já viera e sob as densas folhas das árvores negras, dormiram Henrique e Atulfo, após fazerem uma fogueira em torno dos dormentes em sono profundo. A manhã chega, a luz aparece e com ela, gritos de uma voz feminina próxima.

"Atulfo, Agár! Vocês perderam o maior espetáculo que já ocorreu nesse mundo! O grande sinal de Deus nos céus! Aonde vocês estão?! Não viram a grande luz branca essa noite? Atulfo, Agár!"

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.