Silver Knight

2 O começo? - Parte 1


Notas iniciais
Ahe! Segundo capítulo para deixar a sexta ainda melhor! ( se bem que é feriado, então :v esquece ) Espero que gostem :D É, capítulo grandinho até xd (leitores fantasmas, apareçam (~'o')~ )

Estava em choque. Não sabia o que fazer. Ignorei meu braço trêmulo e a queimação que a pedra branca amarrada ao cordão estava causando quando tocava em minha pele. Mal havia percebido que estava com um brilho roxo.
Fiquei vários minutos o encarando. Sem saber como agir.
Para minha felicidade —ou não — nada se moveu ou coisas estranhas surgiram. Aquilo era real então?
Era a primeira vez que queria meus distúrbios agora.
Ouvi um baque na porta do quarto e dei um pulo enorme de susto, mas me recuperei um pouco quando ouvi uma voz familiar:
—Está acordada, Kate? Mamãe está te chamando, você tem curso agora de manhã, não é? —Raquel dizia enquanto tentava desemperrar a porta.
Com os olhos arregalados, olhei para porta, depois para Jack. E soltei um gritinho de desespero.
— A-ah! Sim! Tá! Eu já vou! Avise a ela que já vou! —Saltei da cama com um pulo e olhei para os lados, procurando inutilmente algo que me ajudasse.
—Tá, não demore.
Esperei até que o barulho dos passos de Raquel sumisse, e voltei a analisar Jack de novo, ele ainda dormia e seu braço já tinha parado de sangrar, já a marca estava se desfazendo lentamente.
Suspirei e cocei a cabeça, droga. Pense, Kate.
Sentei na borda da cama e olhei para porta por um breve instante, como se pudesse achar respostas nela. Quando voltei meu olhar a Jack, levei outro susto. Imaginei que poderia morrer de ataque cardíaco se continuasse me assustando tanto.
— Que horas são? —Ele perguntou enquanto me fitava com os olhos arregalados e alertas.
— O-O que aconteceu com você?!
Minha voz saira mais alta do que deveria. Mordi levemente os lábios com medo de que alguém voltasse e abrisse a porta. Encontrar Jack aqui seria estranho, e ainda mais com ele nesse estado! Pelo sangue, iam achar que era um psicopata.
E, aliás, o que eu estava achando disso?
Estranhamente não sentia medo.
Ele me ignorou enquanto fitava o chão de forma pensativa. Ainda estava sentado no chão e limpava uma manchinha de sangue do pescoço com as unhas.
— Me responda, Jack! —sussurrei erguendo as sobrancelhas, preocupada.
— Sh...
Ele levantou um dedo no ar e observou atentamente debaixo da cama. Fiquei quieta, mas minha cabeça explodia de perguntas. Sangue? De quem era aquele sangue? Ah, não me diga que ele é mesmo um psicopata fingindo ser um estudante normal? Eu sou a próxima da lista? Eu devo fugir?
Minutos passaram-se totalmente em silêncio, e a cada segundo o ar ficava mais tenso. Conseguia apenas ouvir as batidas do meu coração nervoso. Para ajudar, Jack não se movia, apenas fitava o chão, para debaixo da cama. Até que percebi que uma espada formava-se magicamente, presa em sua mão direita, era cinza e possuía listras pretas que percorriam o cabo e iam até a ponta, na qual afinavam. A espada fazia seu lento trabalho de se solidificar, parecia cuidadosa. Jack também.
Com tudo isso, não sei o que me ocorreu. Arregalei os olhos e estava prestes a gritar quando ele me olhou, seus olhos castanhos escuros levemente frios me passaram um ar tranquilo e confiante, e de, alguma forma, eu percebi que ele não estava querendo me machucar.
Foi nesse exato momento que um estranho ser saiu do nada debaixo da cama e pulou em cima de Jack. A besta era rápida e tinha o corpo roxo com pontos em vermelho claro, com um grande rabo cheio de espinhos três vezes maior que a minha cabeça. O tamanho de sua boca semiaberta conseguia engolir dois Jacks de uma vez.
Eu não conseguia ver se Jack tinha se machucado, a cama virara para trás, jogando-me para o outro lado bem na hora.
Quando levantei — Ah, erro meu... — vi o animal. Era grande demais. Senti vários calafrios quando ele me olhou com seus olhos enormes por cima de seus minúsculos ombros. Sua íris preenchia quase todo o globo ocular e tinha um risco vermelho no meio, na qual parecia um corte na retina. Gritei e escorreguei para trás, mas fui barrada rapidamente pela parede.
Meu corpo todo tremia e eu poderia até desmaiar ao ver o sangue que escorria da boca dele. Era... O sangue de Jack...?Não pode ser...
O pior foi quando o animal se virou e começou virar lentamente na cama, claramente para vir em minha direção, fitando-me com seus olhos pretos hipnotizantes. Restou apenas um passo em minha direção e eu já sentia a respiração forte e quente do animal em meu rosto. Meus braços não se moviam, não estava tendo controle de nada, tanto é que nem percebi que estava desidratando em lágrimas.
Mas eram de preocupação.
Fechei os olhos com força e virei a cabeça, esperando o golpe final em mim também. Surpreendentemente, não aconteceu nada. Não em mim.
O bicho se remexeu e rugiu de dor, arranhou várias vezes o ar com suas garras enormes e então caiu de lado. Pouco tempo depois, ele se desintegrou no ar, em cubinhos negros, e o sangue negro do animal desapareceu, limpando qualquer vestígio de batalha ali.
Quando tive coragem de abrir um olho, percebi Jack com a espada na mão e no lugar onde o animal estava. Ele estava vivo! Agora eu poderia chorar de felicidade.
Ele tinha apenas um arranhão na perna esquerda, e parecia não se incomodar. Estava completamente diferente da última vez que o vira: vestia uma calça jeans preta quase toda rasgada de forma desigual nos joelhos, a cacharrel branca com duas listras pretas nas laterais que lhe cobria parte do pescoço, estava levemente rasgada e manchada de sangue seco, igualmente com a blusa de frio que não desgrudava de jeito nenhum. Ele estava sem sua touca de frio, e pela primeira vez que reparei, pude perceber que suas mechas eram prateadas com um leve dégradé de preto nas pontas. Era lindo, um efeito anormal. Podia ser apenas tinta, mas estava tão natural que realmente duvidei.
– Esse não foi tão difícil. —Ele arrumou o cabelo para trás, tirou a blusa de frio e amarrou a cintura. Então me olhou e deu um sorriso torto— Ele te machucou?
Só consegui virar a cabeça para os lados, ainda estava em choque. Ele deu um suspiro de alívio e me ajudou a levantar, minhas pernas estavam trêmulas demais para ficar em pé.
— Esse foi um de muitos, precisam sair daqui rápido. — Ele riscou a parede com a espada e ela se revelou em um vórtice que dava para uma floresta. — Vamos, ele se fecha rápido.
Eu fitava a passagem com os olhos arregalados enquanto meu cérebro tentava processar tudo o que tinha acontecido. Monstro... Espada... Jack... Sangue... Um de muitos... Minha mente estava repleta de uma névoa escura, parecia que quanto mais eu tentava assimilar as coisas, mais elas se embaraçavam. Engoli em seco e me vi sendo empurrada com delicadeza pela passagem.
— Ráápido...
Jack me empurrava pelas costas, e, quando me apoiou numa árvore próxima, terminou de pular o vórtice e ele logo se fechou, deixando cair uma pequena pedra verde na grama escura. Jack apanhou-a e me mostrou.
— Pegue, isto é seu.
Ele me entregou a pedra verde na mão e a fechou com força. Ele percebera que ainda não tinha recuperado minhas forças e que com certeza a derrubaria no chão.
— O que é isso...? — Minha voz saiu fraca e trêmula.
— Seu caminho para casa. Não o perca. — Ele olhou em volta e voltou a apertar minha mão em torno da pedra. — Ouça, devo ser rápido: — Ele olhou em volta mais uma vez e finalmente fixou seus olhos escuros nos meus — No lugar aonde precisamos ir é perigoso de noite e de dia. Os monstros que vê aqui não são tão diferentes de lá, mas nos de lá... Podem realmente te matar. Eles querem a você, e só a você. Você tem algo importante dentro de si. Eu sou seu guia, e tenho o dever de te manter segura e garantir que não relem um dedo em você. —Ele deu uma pausa rápida para tomar fôlego e continuou: — A enfermeira que viu no hospital é a Rainha deles, ela descobriu onde você estava e foi pessoalmente, foi muita sorte ter escapado dela. Ouça: ela a deixou ir, e não vai descansar até ter você. Parecia estar apenas te testando.
O olhar dele me fazia voltar a tremer. Ele realmente falava sério.
— Eu sei que deve estar confusa, mas vamos deixar perguntas para depois, no momento vamos a um lugar calmo. Aqui eles podem me matar, mas você não. Então podem conseguir te capturar mais facilmente. Quando entrarmos na Villa, será o contrário, entendeu?
Assenti e guardei a pequena pedra no bolso costurado na minha blusa de pijama. Ele largou da minha mão e me abaixou na árvore, nos mantendo camuflados nos arbustos da floresta escura enquanto Jack analisava o local. Depois de nos declarar seguros por algum tempo, ele abriu uma pequena parte do arbusto para que pudesse enxergar o que havia do outro lado.
— Ali é o portal para a Villa. — Mostrou Jack — Mas digamos que é difícil entrar. Ahn, você, quer dizer.
— Hm. E agora?—Suspirei e tombei a cabeça para o lado, estava exausta e nem fazia uma hora que tinha acordado.
Ele me observou por alguns segundos enquanto pensava. Depois de um tempinho o brilho de seus olhos aumentou e ele abriu um sorriso.
— Você tem algo feito de platina?
— Não. Por quê?
Ele abanou uma mão no ar e voltou à atenção ao portal.
— Precisa de algo do tipo para entrar. Mas tudo bem.
Ele tirou do dedo o anel que sempre usava. Eu nunca o vi tirar para nada.
— Use isto, vai ser mais fácil entrar com ele.
— E você?
—Vou usar minha espada.
Depois de me lançar um sorriso gentil e me fazer um sinal com a mão para que seguíssemos, avançamos lentamente pela borda da floresta até ficarmos de frente ao portal.
O Portal era lindo. Era totalmente prateado e emitia reflexos roxos, tinha pequenas pedras coloridas presas ao topo, que formava um chapéu cheio de outras pedras maiores. Tinha mais ou menos sete metros de altura e três de largura, era gigante. O Portal era sustentado por um muro maior ainda de pedras cinzentas enormes. Eu não conseguia achar o final dos seguimentos de pedra, eram muito extensas.
E o grande problema do Portal é que, antes dele, havia uma larga área aberta, de aproximadamente 6 metros, o que nos deixaria ser vistos facilmente, e pelo que entendi de Jack, estávamos em muito perigo, e isso não era algo muito apropriado no momento.
— Vamos ter que sair daqui. Mas deve ser rápido, eles podem nos ver entrando.
— Você vai primeiro? Aí eu sigo o que fizer. — Sugeri.
— Não. —Ele balançou a cabeça negativamente — Eles podem estar esperando para que eu me distancie por apenas um segundo e a peguem. Venha.
Ele segurou no meu pulso e se ergueu lentamente enquanto analisava o lugar. Eu imitava seus passos e vi o quanto estava estressada quando meus músculos do pescoço se contraíram pela simples virada que dei para olhar ao redor.
Jack olhou em volta mais uma vez, endireitou as costas, e finalmente, avançou até o portal. Eu o seguia quietinha e imitava tudo o que fazia, sem pular nenhum passo.
Ele se aproximou de uma pedra branca brilhante em formato redondo presa ao Portal e a tocou com o dedo indicador. A pedra tremeu e brilhou levemente, então se afundou às pedras do muro. Logo depois, o Portal rangeu e abriu-se lentamente, fazendo um barulho de portão enferrujado se abrindo, e por ser maior, meus tímpanos suplicaram para que o barulho parasse.
Jack abriu um sorriso gigante e me puxou rapidamente pra dentro do portal, antes dele abrir-se por completo. Passei sem dificuldade, mas percebi que o Portal era guardado na parte de dentro por uma grande barreira invisível que tremeu, fazendo algumas ondas no ar quando passei. Quando estávamos já próximos da vizinhança da Villa, percebi que o anel de Jack brilhava bem fraquinho, e logo se apagou, voltando a sua cor avermelhada. O Portal, percebendo que já havíamos passado, começou a fechar-se mesmo sem ter tido tempo de ser aberta por completo. Era um portal mágico... E inteligente, pelo jeito.
A tal Villa era linda. Toda alegre, ora por casas e flores, oras pelos próprios habitantes cujo riso era contagiante e feliz.
— Que lugar é esse? —Perguntei, admirada.
— Minha casa. — Sorriu Jack, colocando as mãos na cintura. —Venha, temos que ir.
Jack balançou levemente a mão num sinal para avançarmos. Andamos por alguns minutos em silêncio. Perguntava-me se seria legal questionar sobre o que estava acontecendo.
Arrisquei:
— Eh... Quem era aquela tal Rainha que me disse?
Ele apenas me olhou e suspirou.
— Tem gente que a chama de Morte.
— Como assim? O que eu tenho com ela?
Está bem. Eu precisava saber. Não dava para esperar.
— Não íamos esperar até chegar em casa?
— Eu não prometi nada. —Cruzei os braços.
— Bem, é uma longa história, mas resumindo é assim: Uma mulher que sempre foi má, que agora está querendo dominar o mundo, e há algo em você que ela quer. Na realidade, há várias pessoas com a mesma coisa que você, mas ela apareceu pra você. Escolheu você. Ela provavelmente quer te matar...
— O quê? Como assim?
— A partir de agora, você não vai voltar para casa, Kate.
Meus olhos se arregalaram com a seriedade de Jack. Como assim não vou voltar pra casa? Isso só podia ser brincadeira.
Uma baita brincadeira de mau gosto.
— Pare de brincar! Não vê como é chato? Quem é você para concluir isso? Tenho a pedra verde que me deu!
Jack parou de andar. Fiz o mesmo. Ele colocou as mãos nos bolsos da calça e, olhando para os pés, disse:
— Não estou brincando, Kate. A partir de agora, tudo o que tem medo vai aparecer. Esqueça o que conhece de mim. A partir de agora sou seu guia, existo apenas para te proteger dela. —Deu ele uma pequena pausa. Percebi que seus olhos fecharam-se levemente— Quanto aos seus distúrbios? Esqueça-os também... A partir de agora vai ser pior. Bem pior... —Ele levantou o olhar lentamente, olhando-me com os olhos sem brilho— Vamos lidar com demônios, Kate.

A esse ponto, eu já havia perdido todos os meus sentidos.

*****

Acordei numa cama macia, afofada com travesseiros, mas com uma forte dor na cabeça.

Fechei e abri várias vezes os meus olhos enquanto os mesmos focavam em algo.

Eles fixaram-se numa pequena garotinha ao meu lado esquedo. Ela me olhava de forma muito fofa de preocupação.

— Jack! Ela acordou! — Animou-se a garotinha, abrindo um largo sorriso.

A garota tinha cabelos finos e prateados, igual aos de Jack, sua pele era bem branca e seus olhos eram de um roxo sem igual. Ela certamente era albina.

Virei à cabeça para a direita a fim de descobrir onde estava. Era um quarto rosa e com cortinas bem enfeitadas, a janela estava bem aberta, por onde entrava um vento que refrescava todo o quarto.

— Ah, ainda bem! — Chegou Jack, limpando a testa e suspirando — Que susto!

A garotinha então voltou a enfiar o rosto em cima de mim. Agora com os olhos roxos brilhosos e bem abertos de encanto.

— Ahhhh! — Suspirou ela ­— Seus olhos são tão lindos!

Eu não a conhecia, mas eu sabia que a simpatia já havia me encantado. Meus olhos eram de um castanho bem escuro, e mesmo assim ela havia se encantado tanto como uma criança a ver doces. A surpresa maior é que: por que ela acharia graça em olhos como o meu enquanto ela havia um lindo par de olhos roxos?

Só deu tempo de abrir um leve sorriso. Quando fui tentar responder, minha cabeça doeu e Jack acabou roubando minha oportunidade de falar.

— Ela é a Kate, Inka. Lembra-se dela, não? Aquela que tem resistência baixa — Brincou ele, enquanto se sentava na borda da direita na cama. — Kate, esta é Inka, minha irmã.

Ahn... Baixa resistência, sim... haha... Eu havia desmaiado. De novo. Engraçado ele.

E para completar sua meiguice, seus frágeis braços envolveram meu tronco num abraço delicado, enquanto sua cabeça esfregava lentamente minha barriga.

— Prazer em conhecê-la, Kate! Vamos com certeza ser amigas!

Inka abriu um largo sorriso e pude ver uma janelinha na frente de seus dentes da frente, ela era bem nova, tinha no máximo seis ou sete anos. Eu não sabia que Jack tinha irmãos, mas sorriso de Inka era idêntico e contagiante, igual ao de Jack, o olhar brilhoso e com vida também, estava mais que na cara que eram irmãos. E ambos eram lindos.

Jack sorria com a agitação de sua irmã, mas seu belo sorriso durou pouco.

Ele rapidamente se concentrou na janela à frente, e seus olhos emitiram frieza para a bela paisagem ensolarada lá fora. Ele parecia de certa forma, preocupado.

— Ah! Eu fiz algo especial pra você! — Sorriu Inka, enquanto pegava um copo cheio de suco do criado-mudo. — É de morango!

Eu não estava a fim de suco, mas seria falta de educação não aceitar, ainda mais vindo de Inka, a fofura em pessoa. Ela ficaria no mínimo chateada. Então sorri e aceitei o copo. Observei Jack enquanto experimentava o suco de Inka, era ótimo.

Minha mente voou um pouco e percebi que estava totalmente confusa com a situação. Bem mais do que queria. Sentia o ar pesado vindo. Iguais às nuvens negras que avançavam lentamente e silenciosamente no horizonte, rumo a Villa, trazendo um leve vento gelado no meio do quente que a cidade ensolarada trazia, mas que eram suficientes para balançar e torcer as frágeis cortinas do quarto.

Imaginei num reflexo se algo do tipo ocorreria comigo. Com nós.

E eu sabia... Que poderia ser algo pior...

Acordei de repente, assustada com trovões altos. Chovia demais e agora era de noite. O quarto estava vazio e escuro, iluminado apenas pelas luzes da cidade meio a chuva, que batiam fortemente na janela. Quando eu havia dormido mesmo?

Senti os braços quentes de alguém me abraçando, enquanto se aconchegava ao meu lado na cama. Teria assustado se não reconhecesse o gesto.

Sem dizer nenhuma palavra, Jack abraçou-me forte e sussurrou:

— O suco que Inka te deu tinha um sonífero.

Arqueei as sobrancelhas, indignada. Agora havia descoberto meu sono repentino.

— O que você quer comigo, Jack?! Isso já é demais!

Ele pareceu chateado, mas não me importei. Ele era um ótimo ator quando queria.

— Desculpe, eu sabia que iria me fazer mil perguntas quando se levantasse dessa cama, e eu não sei se estava preparado para te contar tudo. Então pedi pra Inka te fazer um suco, e daí eu coloquei um sonífero escondido.

— Para quê?! — Disse, horrorizada, enquanto empurrava-o inutilmente com meus pobres braços que claramente não podiam competir com o firme corpo de Jack.

Com as sobrancelhas ainda fortemente arqueadas, me afastei um pouco, esperando uma explicação.

Até que ele me soltou e cruzou os braços sobre o peito.

— Porque eu acho a história complicada, então concluí que amanhã vou te levar a uma biblioteca de onde estudei.

— A da nossa escola?

— Não... É uma... Especial.

— A secretária é tipo um bicho de três cabeças esquisito? — Disparei, ainda empurrando-o para fora da cama. Sem sucesso.

Ele pareceu horrorizado com a minha colocação.

— A Venty é linda! Ela não é um monstro e é super inteligente!

— Pelo menos uma, né?! — Irritei-me, sem nenhuma vez parar de empurrá-lo para longe.

Até que ele perdeu a paciência, e num gesto rápido, agarrou firmemente meus pulsos e me olhou nos olhos.

— Poxa, Kate! Você não consegue nem ver o mais simples?! Nós somos normais. Seres estranhos e de três cabeças só são aqueles que você deve matar! — Disse Jack, sem tirar os olhos sérios e meio irritados dos meus. — São soldados da Rainha! Tenha em mente de quem é o verdadeiro inimigo, Kate! Por favor... — Ele começou a soltar lentamente os meus pulsos — Eu estou aqui para dar minha vida por você... Pense um pouco em como eu me sinto também...

— É claro! — Interrompi — Até porque pelo que entendi você só esteve do meu lado todo esse tempo, me aturando porque era o seu dever! Quem iria se aproximar de uma garota esquisita como eu, não é mesmo? —Retruquei, sentindo logo em seguida as facadas que as minhas próprias palavras causaram em mim. Senti uma dor horrível no peito. Mas eu não queria chorar, poxa... Não agora...

Mas não adiantou. Meus olhos já estavam marejando em lágrimas.

— Ninguém em sã consciência viria... — Solucei, tentando esconder meu rosto.

Jack apenas me observava, balançando levemente a cabeça para os lados, com um olhar totalmente desmoronado, eu não via, mas sentia que havia doído nele também.

Ele segurou delicadamente minhas mãos entre as dele e disse baixinho, enquanto olhava pra baixo:

— É. Eu fui obrigado sim... — Senti algumas lágrimas rolando sem permissão por meus olhos em seguida — Mas eu gosto muito de você. — Disse ele, olhando-me nos olhos com seriedade. E quando percebeu que eu havia me interessado, pelo menos um pouco, e o olhado, continuou: — Você é bem mais interessante do que pensa. Eu... —Ele arqueou levemente as sobrancelhas — Cresci longe de meus pais biológicos e fiquei congelado por cinquenta anos para que eles morressem e eu não voltasse a procura-los, e, principalmente, só me tiraram de lá porque eu tinha que te proteger. Você foi o motivo de eu estar aqui, agora, e, além disso, posso dizer que você me deu a amizade mais verdadeira que tive. Não sabia ao certo o que era confiança, compaixão, saudades, amizade... Me sentia apenas um peão contra a Rainha, que seria apenas questão de tempo para ser morto no primeiro ataque.

Ele balançou a cabeça e abriu um sorriso.

— Mas sabe o que era o mais legal? — Lembrou ele — Que eu cheguei a esquecer completamente da minha verdadeira missão várias vezes, apenas por estar próximo de você. Principalmente quando testávamos os jogos da empresa do meu pai adotivo, lembra? — Riu ele, o que me arrancou um leve sorriso.

Lembrei-me das várias vezes em que seu pai adotivo, dono de uma bem-sucedida empresa de vídeo-game nos mandava pilhas de jogos para que zerássemos e os avaliássemos. Passávamos horas e horas jogando e rindo. E claro, discutindo quando alguns jogos eram apenas de um player. Mas sempre achávamos um jeito.

— Lembro quando tinha um jogo de romance e você o tacou no chão por ser muito melequento... — Arrisquei, segurando o riso. Jack tinha nojo de romance, jogos, filmes, pessoas, tudo. E eu era uma romântica super pegajosa com tudo. E eu amava irritá-lo. Era engraçado.

Ele arregalou os olhos.

— É verdade, depois eu fiquei sem celular por uma semana por estragar uma das únicas cópias do jogo.

A cara dele era cômica demais. Não pude deixar de rir.

Era assim, querendo ou não eu me aconchegava quando estava com Jack. Era a mesma coisa com ele. Não adiantava, eu sentia que tínhamos uma forte conexão.

E até então eu já havia esquecido minhas desconfianças.

Jack deixara bem longe as dores do passado.

E ambos não se lembravam da perigosa chuva que caía lá fora, poderosa o suficiente para arrancar suas vidas.

Não sentíamos medo.

Não enquanto estivéssemos juntos.

Notas finais
até o próximo capítulo ^^ (bônus: deixarei o link do desenho que fiz da Inka no meu perfil, não consegui deixar aqui :B ) . . . ''Estávamos enfrentando algo maior, elaborado e complexo Nosso principal inimigo era a Morte na qual poderia apagar nossa pequena chama de vida tão facilmente como um piscar de olhos Mas será mesmo? [...]''