Silver Knight

3 O começo? - Parte 2


Notas iniciais
Oioi, perdoem-me por não ter postado semana passada, meus bloqueios criativos são persistentes quando querem ;3; Boa leitura!

No dia seguinte estava com leves olheiras em baixo dos olhos. Eu e Jack havíamos ficado horas e horas conversando. Depois de algum tempo comecei a cair no sono, e tinha uma leve impressão de ter adormecido enquanto estávamos conversando.

Logo quando acordei, a casa estava repleta numa música natural vinda de fora, muito bem-vinda aos meus ouvidos: cantos de pássaros. Fazia-me lembrar da minha casa. Quando era pequena, bem antes de minhas alucinações se revelarem, havia construído com minha irmã uma casinha para pássaros. Fiquei muito feliz quando um casal de passarinhos azuis começou a morar lá depois de um tempo.

E, aliás, pensando agora, e a minha mãe? Minha irmã? Eu havia sumido do nada. Suspirei. De qualquer forma, Jack teria de me dar uma boa explicação quanto a isso, mas no momento estava interessada em conhecer outra coisa, talvez até mais importante no momento.

A casa.

Depois de arrumar a cama onde havia dormido e sair do quarto rosa, percebi que na porta, do lado de fora, tinha uma plaquinha de madeira fina colorida, escrito numa caligrafia linda. Lá estava marcado ‘’Inka’’. Como desconfiei, ali era o quarto dela.

Olhei em volta, no corredor, e havia mais duas portas, uma de madeira, no final do corredor, e outra mais acinzentada, de frente para o de Inka. Já o final levava aparentemente para a sala. Deixando-se levar pela curiosidade, abri lentamente a porta de madeira. A intensa luz de fora penetrava pela janela de vidro sem cortinas em frente, cegando temporariamente aquele que entrava. Como eu agora. Lá era o banheiro, os ladrilhos brancos opacos curiosamente me lembraram do hospital. De verdade, eu não gostava de hospitais. E quem lá gostava?

Saí, fechando a porta à minha frente. Olhei para a porta acinzentada. Fiquei imóvel por um tempo, aquele devia ser o quarto dele. Eu sabia que não era certo a minha curiosidade me empurrar para lá, mas quando percebi, já estava com as mãos bem próximas da maçaneta redonda.

Prendi levemente a respiração e segurei a fria maçaneta. De um segundo para o outro tudo ficou em um silêncio estranho, mórbido, e o ar ficou bem desconfortável, deixando-me ainda mais tensa com a situação.

—Não é como se ele dormisse sem pijama, né? — Murmurei entre dentes, tomando coragem para finalmente abrir um pouco da porta.

— Jack dorme de pijama!

Inka!

Com os olhos arregalados, larguei rapidamente a maçaneta e quase que instantaneamente o ar voltou ao normal. Virei-me para Inka, imaginando a palidez em meu rosto. Inka estava com as mãos na cintura e levava uma carinha brava de guarda-costas, o que não combinava tanto com seu pijama de coelhos e pantufas de tigres.

— Hmmm... Eu vou contar pro meu irmão que você queria espiá-lo dor-min-do! —Inka fez bico.

— A-Ah! Não era isso que estava vendo, eu... —Balancei a cabeça, tentando ganhar tempo e parecer tranquila — Eu só queria o banheiro.

Inka cruzou os braços e virou levemente o rosto, ainda fazendo um pequeno bico com os finos lábios, como se considerasse a resposta. E depois de um silêncio mortal, disse:

— Quero três barrinhas de chocolate até hoje à noite, senão eu conto tudo.

Como é?

Quando estava prestes a dizer algo, a porta acinzentada abriu-se e quase soltei um grito com o susto, fazendo-me parar do outro lado da parede.

Jack riu.

— Eu não estava dormindo, tá bem?— Brincou ele, enquanto ajeitava o cabelo molhado — Eu estava tomando banho.

Fiquei completamente vermelha. Agora entendi o porquê de Inka não ter aceitado minhas desculpas. O quarto de Jack era uma suíte!

E pelo menos ele já estava trocado do banho.

— Ela estava tentando te espiar enquanto tomava banho! Isso não se faz. —Disse Inka, balançando a cabeça negativamente, como a dona da situação, mas sem abandonar o biquinho fofo dos lábios.

— N-Não é verdade! — Retruquei, trêmula — E-Eu só...

Ele sorriu.

— Tudo bem, de qualquer forma, você já se arrumou? Vamos ir naquela biblioteca.

É verdade. Eu havia me esquecido desse detalhe.

— Ah! Mas... Eu só estou de pijama. Eu não tenho roupas pra ir, já que você praticamente me sequestrou lá de casa.

— Eu já providenciei isso. Está tudo no quarto de Inka, ela vai te mostrar. — Ele balançou levemente a mão e sorriu, pedindo para que Inka fosse buscar. Ela sorriu e saiu correndo para o próprio quarto.

— E quanto a minha família? — Perguntei, vendo uma oportunidade de falar sobre isso agora.

— Hm, sei. Por enquanto está desaparecida — Respondeu simplesmente.

Fiquei fitando-o, com as sobrancelhas levemente arqueadas enquanto mexia lentamente a cabeça, perguntando-me como ele conseguia dizer algo tão importante assim com tanto descaso.

—... Como? — Aproximei-me levemente, num tom quase de deboche.

Eu não o entendia. Uma hora parecia o amigo de sempre, o carinhoso e gentil, e outra hora parecia um estranho insensível.

— Desaparecida, oras. Eu não tinha como fazer um bonequinho de você e colocar pilha pra ele funcionar o tempo todo, fingindo ser você. — Suspirou Jack.

— Eu vou voltar... — Murmurei, dando meia volta.

— Vai nada. — Murmurou com autoridade, enquanto cruzava os braços sobre o peito. — Se quiser voltar para a sua família, vai ter que primeiro cumprir sua missão aqui. Não vai adiantar nada voltar agora, vai ser caçada e morta por ela e vai dar no mesmo sofrimento que sua família tá passando agora. — Disse Jack, sem rodeios. Se não o conhecesse, diria que ele me detestava.

Suspirei.

— Claro...

— Fico feliz que tenha compreendido — Sorriu Jack, agora todo amigável —Precisa se arrumar agora, pois temos um longo dia pela frente! — Riu ele.

— Aqui, Kate! — Chegou Inka, com as roupas e uma toalha por cima, com shampoo, condicionador e um sabonete novo. — Se precisar de algo mais, pode me chamar. — Sorriu ela enquanto eu me agachava para pegar as roupas.

— Ah, e quanto ao chocolate, você bem que poderia me dar alguns né? — Murmurou ela, próximo ao meu ouvido com um sorriso travesso.

Eu ri. Inka era facilmente mais esperta que eu, e isso era engraçado por ela ser tão novinha.

— Ei, o que estão cochichando aí? — Interferiu Jack, erguendo uma sobrancelha, ainda na porta do quarto.

— Coisa de mulheres! — Disse Inka, fazendo o típico biquinho e cruzando os braços que nem o irmão estava, como se de certa forma o desafiasse.

— Hmm tudo bem então... Não me peça doces depois... — Jack deu um leve sorriso de quem havia ganhado, e se enfiou dentro do quarto de novo, fechando delicadamente a porta por trás, sem tirar o sorriso do rosto.

Inka fechou a cara na hora.

— Nãão! Meus doces! Jaaaack! — Ela se jogou na porta cinza, enquanto dramatizava de todas as formas com a esperança de que Jack retirasse o que disse.

E, no entanto ele não abriu a porta e nem deu sinal de quem estava ali.

****

Depois de algum tempo eu já havia tomado meu banho, que por sinal me fez muito bem. Agora estava enxugando lentamente o meu cabelo enquanto me perguntava onde que Jack estava me metendo. É, estava fazendo o que ele pediu, estava confiando. Porém tinha medo de estar confiando demais. Eu tinha várias e várias possibilidades para formar teorias de tudo isso, mas senti que apenas me confundiriam mais, então procurei pensar menos, pelo menos até ter alguma prova mais concreta disso tudo.

Observei o meu cabelo castanho escuro molhado e penteado para trás, enquanto aqueles olhos igualmente castanhos e cansados me encaravam de volta do espelho. Eu estava assim por um longo tempo, até que resolvi me trocar logo. Já, já iríamos sair.

As roupas que Jack arrumara para mim eram compostas de uma calça preta justa, uma camiseta roxa escura, uma blusa de frio cinza e fina, visto que estava até calor para usá-la, e então uma bota marrom de cano baixo pelo qual me apaixonei.

Depois que me vesti, arrumei o banheiro e saí rapidamente, encontrando Jack, Inka, e uma senhora de idade na cozinha, na qual tinha uma grande janela-porta de vidro ao lado, que dava ao quintal.

— Então poderia ficar com ela? É apenas por um tempo, voltamos logo. Ela promete se comportar, não é? — Sorriu Jack, daquela forma encantadora que fazia enquanto bagunçava levemente o cabelo de Inka, que tinha um sorriso estampado igualmente encantador e iluminador nos lábios.

Jack emitia uma gentileza extraordinária apenas com a voz a senhora, na qual sorria encantada com o jeito bondoso do garoto. O coque alto, o vestido largo junto ao sorriso carinhoso e o ar calmo me lembravam a minha avó Anna, ela faleceu quando tinha oito anos.

—Claro, Claro. Vamos nos dar bem... Inka, certo? — Sorriu a senhora, enquanto olhava gentilmente para Inka.

— Eu posso te chamar de vovó? — Perguntou Inka, enquanto abraçava delicadamente a idosa.

Ela riu, e então concordou com a cabeça, despedindo-se de Jack e levando Inka junto, sorrindo enquanto saíam da casa.

— Podemos ir agora? — Perguntei, vendo o leve susto de Jack, enquanto ele mesmo encontrava-se distraído olhando para fora da casa.

— Sim, sim. Claro. Vamos. — Agitou-se ele, desencostando do batente da janela-porta. Ele então pegou um post-it laranja e o colou na geladeira, onde estava apenas um endereço.

—Não tá acostumado a deixar Inka sozinha, né? —Sorri.

— Não mesmo... — Respondeu ele, esfregando as mãos.

Quando saímos da casa e fomos para o quintal, Jack abriu outro vórtice, igual ao do dia anterior quando saí de casa. Ele o pulou e eu fiz o mesmo rapidamente. Então ele o fechou, e uma pequena pedra roxa caiu no chão, mas essa ele mesmo o guardou no bolso.

Quando desviei o olhar de Jack, dei de cara com uma construção gigante em marrom brilhante e com adornos dourados, lotada de janelas com vidros refletindo a paisagem de fora, e pessoas apressadas mais a frente, indo em direção a grande porta de entrada, na qual se encontrava bem no meio da grande casa. Estávamos debaixo de umas das muitas árvores que enfeitavam e criavam sombra ao caminho até a porta da escola.

— É. Bem-vinda à minha escolinha.

— Escolinha?!

— Acredite, é impossível se perder. — Sorriu Jack, arrastando-me para dentro da instituição.

Eu seguia Jack, mas sem tirar os olhos da escola, era ainda mais belo que o Portal para a Villa. Depois de subirmos os curtos degraus até a entrada, atravessamos a porta, e quando eu passei exatamente pelo batente da porta, pude sentir a mesma barreira tremular em ondas. Igual ao Portal. Foi aí que lembrei, deixando-me confusa. Eu estava sem o anel de Jack.

Estava prestes a perguntar quando o mesmo parou em frente à escada principal, grande e larga, porém Jack fitou o único homem que nos bloqueava, enquanto poderíamos desviar. Aparentemente o homem já era um pouco velho, mas nem tanto. Ele era bem alto e forte, de forma que eu e Jack precisávamos inclinar levemente nossas cabeças para olhá-lo nos olhos. Ele encarava Jack com um leve sorriso acolhedor, mas transmitia um olhar sério, o que quase anulava o seu sorriso.

— Sr. Eway!... — Murmurou Jack, surpreso.

— Há quanto tempo, Jack. Sumiu de verdade. Por onde andou? — Perguntou ele. — Parece que foi ontem que um garotinho corria que nem louco por aqui a procura de uma espada com capacidade de armazenar mais energia.

Jack sorriu, e disse meio sem graça enquanto colocava as mãos nos bolsos da blusa de frio e se balançava lentamente:

— Eu tive que ir embora, né... haha...

— Sim. Fico feliz em revê-lo — Sorriu gentilmente Sr. Eway, dando passagem para nós logo após abrir um simpático sorriso para mim. — Deu sorte de ter conseguido um guia tão dedicado desse jeito.

— Ahn... Obrigada... — Agradeci com um sorriso torto, ainda confusa, enquanto acompanhava Jack pelas escadas.

— Ah, Jack! — Chamou-o — Ela está aqui. Por que não conversam um pouco? Faz tanto tempo... — Sorriu Sr. Eway, e logo após saiu andando, pelo caminho contrário de nós.

Jack parou de andar, e pude ver sua expressão numa mistura de completa surpresa com felicidade e indecisão quando o mesmo se virou para trás, procurando por Eway novamente.

— O que foi? — Perguntei meio incomodada.

— Nada. Venha! Vou te levar a biblioteca!

Jack segurou meu pulso e me puxou pelas longas escadas, correndo, enquanto desviávamos de várias pessoas. Eu ia reclamar, ele me fazia esbarrar em quase todo mundo! Mas algo me atrapalhou.

Esbarrei forte em alguém, e de súbito, o mesmo me olhou, e eu fiz o mesmo. Era um garoto. Seus olhos dourados e fechados tomaram conta da minha mente. Seu olhar fixou-se de uma forma no meu, que tive arrepios na espinha por fitar olhos tão quentes misturados ao frio daquela forma, parecia que tudo havia parado por um instante. Esse rapaz...

Acordei do meu transe com um desequilíbrio na escada. Jack segurava firmemente em meu pulso e eu quase não acompanhava seu ritmo. Ao final do lance das escadas, procurei rapidamente por meu ombro o garoto dos olhos dourados. Ele havia sumido.

Subimos dois lances e logo nos vimos num enorme corredor silencioso, e com tantas portas mais simples, fomos a uma dourada grande, ele a abriu e entramos.

O ar de livros velhos misturados aos novos preenchia o aroma de uma verdadeira biblioteca. A sala era toda de um dourado brilhante junto com o chão e as barras que dividiam os vidros no teto. As estantes eram gigantes, mais ou menos cinco metros de altura, e tomavam conta de todas as paredes (fora aquelas em fileiras no pátio), deixando um espaço de mais ou menos dois metros até o teto, onde nesse espaço, tinham duas portas instaladas, uma do lado da outra. Perguntava-me onde poderiam dar, era muito alto. As prateleiras mais altas só eram possíveis de se alcançar com escadas.

No final havia várias e várias mesas com cadeiras anexadas, onde algumas pessoas liam e estudavam. Eu observava cada detalhe enquanto esperava minha respiração ficar mais leve. Jack parecia procurar algo disfarçadamente, mas eu pude perceber que parecia ansioso pelos seus olhos bem abertos.

— Lembra-se da Venty? Ela está ali. — Apontou Jack para uma bancada a esquerda também em dourado, mas sem olhar, ele estava focado em outra coisa. — Diga para ela que quer livros sobre a história de tudo isso aqui. Eu já venho!

E então ele se foi. Deixando-me sozinha. Eu estava totalmente confusa com a situação, então, até meio atordoada, segui até Venty, que me recebeu com um enorme sorriso nos lábios.

–Jack-

Segui até as prateleiras mais escondidas, sabia que poderia encontrar o que queria lá, nas prateleiras de livros do mundo humano. Não que vivêssemos em outro lugar que não fosse esse, mas estávamos tão isolados dos outros que era como se morássemos num outro lugar.

Procurei entre cada seção, todas vazias. Corri entre uma quando encontrei o que finalmente estava procurando. Sorri, e então me escondi entre as estantes, esperando o momento certo para agir.

Lena observava atentamente cada livro que apanhava. Sua expressão para o eles era maravilhosa. Olhava como se tivesse achado um diamante meio a uma mina cheia de simples ametistas. Tinha os cabelos castanhos com listras pretas presas folgadamente por um lápis num coque médio, e suas roupas estavam limpas e ajeitadas. Falando por mim mesmo, era raro vê-la tão arrumada, visto que sempre esteve aprontando uma aqui e ali.

Sorri por ser ela mesma. Fazia sete anos que não a via.

Então saí de onde estava num movimento rápido, e então enlacei meus braços em volta de seu pescoço por trás. Teria sido simples se ela não tivesse se virado no último momento e apontado uma faca em meu peito, fazendo com que eu quase me matasse agora.

— Vá devagar, mocinho. Quem é você? — Perguntou friamente ela, olhando para a faca, enquanto encontrava-se meio presa entre mim e a estante.

Arqueei as sobrancelhas, enquanto me afastava um pouco, aquela faca poderia facilmente me perfurar, mas sorri.

— Sou eu.

Ela me olhou seriamente, e então arregalou levemente os olhos.

— Você... — Sussurrou ela, deixando a faca cair, causando um barulho alto para uma biblioteca.

— Shh! Quer que nos descubra aqui?! — Disse com um sorriso torto, enquanto pegava a faca e aproveitava para guarda-la em seu cinto, já que eu sabia que ela tinha uns pares deles ali.

— Seu idiota, você sumiu. — Sussurrou ela, irritada.

— Eu sei, desculpe — Murmurei, ainda sem tirar o sorriso torto.

Era ótimo ver Lena novamente. Havíamos crescido juntos, éramos amigos, mas normalmente eu sentia que o mais amigo era eu. Ela sempre estava irritada comigo, e sempre agia dessa forma. Eu nunca soube do por quê, pois ela sempre era mais leve com outras pessoas, embora ela sempre fosse desse jeito meio complicado. É certo que tive que ir embora, mas todos que estudavam ali iam, e ela só não ia por ser filha única do Sr. Eway, mas esse era seu sonho. Eu sabia.

Mas depois de tanto tempo, fiquei chateado por ela ainda ser assim, complicada.

—Desculpe? — Murmurou ela, arqueando as sobrancelhas — Vá embora! — Irritou-se, empurrando-me para longe.

Cambaleei levemente para trás, não porque ela teve forças o suficiente para me tirar do lugar que estava, e sim porque tinha me pego de surpresa.

— Você está tão mudada! Faz anos que não nos vemos, por que não conversamos? — Sugeri gentilmente, mas temia a resposta.

— Não. Estou ocupada, não vê? Vai embora.

Apertei levemente as mãos, completamente chateado. Eu havia ficado contente por ela estar aqui, e a recepção não foi nem um pouco como eu esperava.

Ela estava mais alta e com um corpo mais desenvolvido, os cabelos estavam presos num coque, mas dava para ver que estavam bem grandes porque estavam caindo levemente, da última vez que a vi estavam nos ombros. Suas listras negras no cabelo não a abandonaram, como sempre. E suas expressões continuavam rasas. E, no entanto, ela costumava sorrir mais e ser mais gentil, pelo que me lembre.

— Está acontecendo alguma coisa, Lenorya? — Perguntei baixinho, como alguém que estava escondendo algum segredo. Eu estava realmente preocupado. — Pode contar comigo.

— Não. E se estivesse, não é coisa sua. E não me chame assim! Por favor. Tchau, Jack! — Acenou, Lena, que logo voltou aos seus livros.

É, costumava.

Arqueei levemente as sobrancelhas

Apenas fiquei a olhando, sem deixar guardado a minha decepção.

— Até mais, Lena. — Abri um sorriso triste antes de sair.

Não vi sua expressão, mas eu sabia que a minha não era nada boa.

–Kate-

Eu já estava afundada em minhas leituras quando Jack me cutucou e disse que precisava ir embora, por sorte eu podia levar os sete livros que Venty pegou para mim, eu queria terminar de lê-los, e eu só havia começado sobre a história dessa escola, que na realidade era uma academia de treinamento, mas apenas para pessoas especiais, que eu ia descobrir o tipo delas agora se ele não estivesse me puxando e me irritando tanto para irmos.

Perguntei o por quê da pressa e ele não disse absolutamente nada.

Fui arrastada para fora da academia e ocorreu a mesma coisa de antes: Jack abriu o vórtice e voltamos para casa, no quintal. Ele passou a mão na cabeça e suspirou ao entrar na casa, parecia preocupado com algo. Comecei a me questionar se ele devia ter ouvido a minha pergunta, ele não parecia estar aqui.

*****

No final da tarde, eu procurava por filmes na estante ao lado da televisão na sala, já que Jack estava no quarto dele há horas, e não saía de lá desde que chegamos na hora do almoço.

Eu me sentia sozinha, pois nem Inka estava lá. E achava que Jack deveria estar realmente mal, visto que poderia ter ido buscar a irmã mais cedo na casa daquela senhora, mas não o havia feito.

Estava prestes a escolher um filme quando tive uma grande ideia: eu ia buscar Inka na casa da senhora, e íamos fazer a janta para Jack, ele com certeza se animaria.

Decidida, fui até a cozinha e descolei o post-it laranja que estava na geladeira branca, escrito com caneta azul o endereço, com certeza da senhora. Saí pela porta-janela e percorri o quintal até a cerca da frente, fora da casa.

O Sol já estava perigosamente próximo do horizonte, apressei o passo, observando as placas dos nomes das ruas por aqui.

Depois de um tempo percebi o quanto a minha ideia fora infeliz. Eu não conhecia a Villa, era enorme e eu não fazia ideia se ficava nessa parte ou próximo ao Portal. Ou pior, não sabia nem se estava dando voltas.

E agora só o que me faltava era estar perdida.

Procurei o caminho de volta, mas o Sol já tinha se posto e eu estava totalmente perdida, eu realmente não devia ter vindo. O que eu estava pensando?

Estava um pouco mais tranquila por a Villa ser algo tranquilo, e pelo que tinha lido naquele livro sobre a academia, vi que aquela barreira protege de seres maléficos, as janelas também possuem, já o Portal devia ser a mesma coisa, né? Eu acreditava que sim.

Suspirei, e quando me apoiei a um muro vi que tinha uma farmácia perto, ela estava aberta e do lado de fora tinha algo que eu precisava muito:

Um orelhão.

Corri para lá e liguei para o celular de Jack. Não sabia se ele pegava aqui e nem sabia se o telefone funcionava do mesmo jeito que o da minha cidade, mas liguei. Quando ouvi o som de que estava chamando, suspirei de alívio, segurando com força o aparelho, com medo de que ele não atendesse.

Ele estava realmente estranho desde que chegamos, não saiu de seu quarto nenhuma vez. Eu estava preocupada demais.

O som da chamada persistia, e a cada toque, eu me agoniava ainda mais.

— Atenda, por favor... — Murmurei, estranhamente estava começando a ficar com frio, parecia que era de madrugada e o ar gelado da chuva da noite passada ainda se mostrava presente. Talvez fosse chover de novo. Mal percebi que segurava com força o cordão da pedra branca de Jack me dera.

— Eu? — Atendeu Jack, com uma voz rouca de quem tinha acabado de acordar.

— Jack! Ainda bem... Sou eu. Eu vinha buscar a Inka para fazer uma surpresa, mas não deu certo.

— Ah, Kate... Você é maluca — Suspirou ele — Você não devia ter de forma alguma ido. — Sua voz aos poucos pareceu irritada, mas eu não liguei, sabia que estava preocupado. E logo após ela ficou mais calma e leve — Eu vou aí te buscar, onde você está?

— Como que alguém pergunta onde alguém perdido está? —Brinquei, tentando afastar o medo que estava de estar ali sozinha. Eu tremia, nem sabia mais se era por medo ou frio. Olhava toda hora para os lados com receio de ter ouvido algo se movimentar ou sussurrar — Vem me buscar, por favor. Eu estou do lado de uma farmácia toda de vidro...

— Ah, sei qual é. Entre lá, eu já vou.

Desliguei a chamada, e entrei correndo na farmácia, cumprimentei levemente o único farmacêutico, na qual me cumprimentou com um leve sorriso. Passeei lentamente pelas estantes com remédios, disfarçando um pouco. Estava tudo bem, a temperatura da farmácia estava boa e confortável. Tudo normal, até que as luzes da farmácia começaram a piscar. Engoli em seco e procurei ficar próximo ao farmacêutico, talvez fosse melhor.

Mas ele não estava mais lá.

As luzes piscaram de novo, e senti a presença de mais alguém ali, um vulto atrás de mim. Arrastei-me lentamente e com os olhos bem abertos até a primeira coisa que poderia ser usada como arma ali: um extintor.

Tirei o lacre com as mãos trêmulas e encostei-me à parede de vidro da janela, procurando ter uma visão melhor de qualquer coisa que aparecesse. Senti um par de olhos fitando-me fora da farmácia. Virei-me imediatamente. Não havia nada lá.

Fiquei preparada para atacar a qualquer momento, esperando para que o vulto aparecesse de novo. Eu podia ouvir as próprias batidas descompassadas do meu coração enquanto minha respiração totalmente superficial me sufocava.

Chegue logo, Jack, por favor.

Andei lentamente pela farmácia, atenta a tudo. O farmacêutico desapareceu, provando que isso não era uma alucinação. Estava tremendo demais.

O vulto passou novamente, próximo demais, acabando por raspar em minha roupa e fazer meus cabelos voarem. Minha blusa de frio se rasgou por completo e foi arremessada pelos ares, tirando por um segundo minha atenção para ela.

E fazendo eu me desesperar pelas grandes gostas escuras de sangue no ar.

A luz da farmácia se apagou por completo. E, tão instantâneo como a luz, uma dor horrível me atingiu na cabeça.

E eu não senti nem o desespero antes de perder completamente os sentidos.

Notas finais
Quando eu estava escrevendo a última parte do capítulo, (concentrada, no escuro, ouvindo música e de costas pra porta) minha mãe brota do nada no meu quarto e quase me mata do coração çuç poxa, main Próximo capítulo: O nome dele é Willian Acker