Silver Bird
1 1996
Eu tinha três anos nesse dia. O dia que jamais irei esquecer.
Meus pais eram pobres, como esperado. Não havia dinheiro. Não havia pena. Não havia nada, só terror. Me lembro de uma vaga cena, de meu pai puxando minha mãe para a esquina dobrada da rua escura e chuvosa, enquanto ela esticava os braços em minha direção, chorando, desesperada. Quando estava mais próxima, jogou algo na caixa onde eu estava. Eu me agarrei nele no mesmo momento em que tocou o fundo da caixa rasgada de papelão. Eu me lembro, eu estava gelada, imóvel, e uma lágrima sólida e fria descia pelo meu rosto. Como criança, deveria ter gritado, chorado, feito um belo escândalo. Não. Não consegui, não era uma hora exata para escândalo. Poderia até ser, mas não foi. Me lembro de que um ano depois, aos 4 de idade, entrei no colégio militar para crianças. Ah Deus, como odiava esse lugar. Odiava, e continuo odiando. Vilma, aquela gorda obesa e rabugenta só sabia dar ordens e comida velha. Se é que aquilo podia se chamar "comida". Alguns anos depois, com 17 anos, conhecei um carinha no colégio. Seu nome era Jhonny, eu estranhei um pouco, esse nome era meio ( meio digamos que, muito ) diferente para mim. Mas ele era legal. A única pessoa que entendia como eu me sentia lá dentro. Ele também fora abandonado pelos pais, mas não por conta financeira, não. Seus pais era usuários de droga. Sua mãe engravidou sei lá porque, talvez, para abandonar uma criança no mundo e roubar, fumar, enfim, coisas que drogados fazem. Eu desci os corredores com o uniforme básico, apesar do frio intenso, e lógico, o Silver Bird, Colar de minha mãe, agora, meu. Meus cabelos ruivos esvoaçaram ao correr das escadas. Não sei por que, mas eu sempre descia as escadas correndo. Enquanto eu fazia minha bandeja com aqueles purês de alguma coisa e mais gororobas, Jhonny me cutucou:
- Bom dia, senhora vermelha. — Ele sabia que eu não gostava que me chamassem de senhora vermelha por causa do meu cabelo, mas achava uma certa graça na brincadeira.
- Bom dia senhor Jhon. Tão cedo ?
- Ah, pois é. Aconteceu algo hoje de noite muito importante, e eu preciso lhe contar.
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