Importante ? Me contar ? " Ah Jhonny, eu estou com fome, preciso me alimentar ", pensei, mas não disse.

– Venha logo ! Você precisa saber, é urgente !! — Larguei a bandeja na bancada e fui com ele. Estava me arrastando de fome nas escadas, mas ele me puxava, segurando minha mão.

– Estou indo, estou indo ! Dá para ir mais devagar, por favor ?

– Não ! — Ele me pegou no colo e correu as escadas. Tremi de medo de me derrubar, afinal, os degraus eram altos, se caíssemos, seria um estrago. Chegamos no quarto 437, quarto do Jhon. Ele abriu a porta pra mim e entrou como um furacão. Notei a bagunça, que não havia como esconder, nem onde.

– Vem cá, vem ! — Ele disse, apalpando a cama com as mãos. Sentei-me do lado dele, e encostei a cabeça em seu ombro. Precisava me apoiar em algo. Ele segurou meus ombros e olhou arregaladamente para mim.

– Sabe o Silver Bird ? — Que pergunta mais tola ! Tenho esse pássaro há 14 anos, e não, não sei quem é.

– Não — Balancei a cabeça negando, ironicamente.

– Então. Hoje, lá pelas 6 horas da manhã, lógico, estava amanhecendo ainda, esse pássaro parece que se " materializou " do seu colar, e pousou na minha janela. Ai a gente se encarou, meu Deus, eu estava muito assutado. Ele era enorme, nem sei como pude vê-lo inteiramente dentro da vista do vidro. A única diferença do pássaro e do seu colar, é que ele tinha um machucado no bico, e outro no pé.

– Você está pirando. Não dormiu muito, ou a comida entrou no seu cérebro ? — Jhon ADORAVA me pregar peças, e essa, era apenas mais uma delas. Me levantei e andei, mas ele me puxou pelo braço. Ao virar da cabeça, meus cabelos voaram sobre meu ombro, e meus olhos verdes azulados o encararam fixamente.

– Sophia, eu juro. Eu vi. Eu vi esse pássaro. Juro. — Seus cabelos castanhos cobriram seu rosto ao deixar a cabeça olhar o chão. Será mesmo verdade ? Não. Não poderia ser. De onde meu pássaro sairia ? Era invenção da cabeça dele. Voltei para perto dele, abracei seu pescoço caído e desci as escadas. A fome estava me dominando. Tropecei em um degrau e ameacei rolar escada abaixo, quando Jhonny me segurou pelos ombros.

– Vai me deixar tomar café agora, né ?

– É, acho que sim. — Disparou na minha frente e foi para o outro lado do refeitório. Acho que o deixei triste por não acreditar. Mas, afinal, quem acreditaria numa baboseira dessas ? Chega disso, esse assunto já estava me deixando fora de órbita. Termienei o penúltimo degrau num salto, correndo o máximo que podia, tentando não cair, até chegar na bancada. Procurei minha bandeja, mas já haviam a retirado. Fiz outro rapidamente sem nem olhar o que eu haveria posto no prato, pensando apenas em comer. Peguei os talheres e me sentei no banco de mármore redondo, em frente a uma mesa quadrada, do lado de Alicia, minha amiga. No mesmo momento em que apalpei meu traseiro naquela coisa dura, a rabugenta chegou do meu lado.

– Em pé !

– Senhora.

– Onde estava ? Não compareceu a contagem feminina !

– Sinto muito, senhora. — Legal. Eu levando bronca por causa do senhor Jhon. Muito bonito, muito bonito.

– Queixo erguido, garotinha !

– Escute aqui sua velha obesa, tenho 17 anos, o suficiente para não ser mais uma garotinha, não acha ? Ou será que perdeu a noção de tempo ? Com licença. — Só um instante depois, me dei conta da merda que havia falado. Droga, aquela vou me ferrar mais ainda. Ah, dane-se. Aquele lugar já é uma merda mesmo, não vai melhorar nada se eu me ferrar. Vilma apenas me encarou durante uns minutos enquanto eu enchia a boca antes mesmo de engolir. Finalmente ela falou:

– 3 horas de reforçamento seguido, depois, vai limpar o salão de treinamento. Logo, tirará as mesas do refeitório como castigo por sua desobediência. — Não to nem aí. Faço isso praticamente todo dia. Só olhei para ela com a boca cheia, dei um sorrisinho falso e fiz um "beleza" com a mão. Só isso, Vilma ? Ah, que pena, achei que fosse mais autoritária.

– Amiga... — Alicia estava me cutucando pela direita — Mandou bem.

– Ah pois é. Aguento essa obesa por 14 anos, e ela sempre acha que é minha mãe. Hoje não deu para segurar. — Terminei a comida em alguns minutos, o suficiente para não sentir mais fome, dei um beijo na bochecha de Alicia e fui para o terreno de treinamento. Minha posição ficava ao lado de um caule de árvore fino e cortado ao meio.

– Sentido ! — Ajeitamos-se na posição em um segundo. Um vulto prateado pousou em cima do tronco, e me encarou fixamente. Não poderia acreditar. Era mesmo o Silver Bird, Jhonny me disse que o havia visto. Ficamos nos entreolhando por minutos, quando Vilma me deu um puxão na orelha.

– O que tanto olha, garota distraída ? Ao trabalho, vamos ! 1, 2 ! 1, 2 !
O que ? Ela não viu o pássaro ? Qual é o problema dessa otária ? Cegueira ? Num estalo de memória, me recordei de algo que seria possível: O Silver só aparece para quem quer. Ou poderia estar ficando louca também. Silver Bird saiu voando e eu o segui. Ele pousou na janela de Jhon, pude ouvir o gemido assutado dele ao me aproximar da porta.

– Jhon, vem !

– O que ? Onde ? Soph, espera ! — Esperar ? Tá louco ? Se ele também pode ver o Silver Bird, precisamos ver onde ele irá nos levar ! Descemos as escadas correndo, e trombei com Celeste.

– Não deveria estar no treinamento, menininha "radical" que enfrenta os outros ? — Essa guria adorava me provocar. Dei de ombros e desviei, mas ela Me agarrou pelo braço, e lançou o seu olhar de deboche. Retribuí com um sorriso irônico e um tabefe naquela cara maquiada.

– Sophia, está louca ? — Jhon arregalou os olhos para mim, parecia estar decepcionado. Mas eu não. Gostei do que fiz, aquela Celeste estava merecendo. Encolhi os ombros e franzi o nariz , como quem não liga. Voltei a correr e arrastar Jhon, precisava saber onde o Silver iria. Talvez fosse me trombar com meu pais, sei lá, não faço ideia, mas preciso ir. E se Jhon também o vê, deve ir junto.