Silhouette
6 Tia Marie
Notas iniciais
De forma displicente ele deixou o olhar ziguezaguear pelas paginas amareladas do que parecia ser uma versão simplória e esquisita de um catálogo telefônico. Exausto, ele lutava contra o corpo piscando inúmeras vezes numa tentativa silenciosa de se manter acordado. Devido ao avançar das horas ele provavelmente deveria continuar a busca no inicio da próxima manhã, no entanto, ele já havia chegado ao prazo final à busca deveria continuar.
Soltado um suspiro que era algo entre a frustração e o cansaço, ele se levantou e caminhou até a cozinha atrás de mais uma xicara de café, talvez um energético fosse mais eficiente naquele momento, mas como teria que acordar cedo na manhã seguinte e trabalhar durante todo o dia, e ele conhecia bem o seu corpo, o café era o certo a ser escolhido.
Ele destravou o celular e se permitiu distrair olhando as ultimas atualizações dos conhecidos e parentes no facebook, única rede social que ele usava. Menos de dois minutos deslizando o dedo sob a tela do celular ele recebeu uma mensagem da irmã. Marie havia conseguido uma folga de ultima, uma amiga cobriria durante aquele sábado, assim ela podia viajar até Mallow e ficar com a sobrinha. O alivio que varreu o corpo de Robin foi tão grande que ele quase podia chorar.
O loiro enviou inúmeras perguntas a irmã, a fim de checar que ela não entraria em apuros por ajuda-lo daquele jeito, e nem correria nenhum risco viajando durante a noite. Após confirmar que estava tudo certo e que ela iria de carona com uma amiga da faculdade Robin se tranquilizou, mesmo não gostando da irmã viajando durante a noite, e a agradeceu. Nos minutos que correram a seguir, enquanto ele se preparava para ir para cama, ele se questionou se a ideia de se mudar para longe da mãe e da irmã havia sido mesmo sábia.
Quando o celular começou a vibrar sob o criado mudo fazendo com que um barulho incomodo ressoasse pelo ambiente, ele deixou um gemido de indignação lhe escapar, não era possível que já havia amanhecido, ele sentia como se tivesse acabado de deitar. Ele ainda estava exausto. Em uma atitude nada responsável, ele decidiu por ignorar o barulho enterrando a cabeça entre os travesseiros. No entanto, segundos depois ele ouviu a campainha tocar e soube que não adiantava, ele precisava se levantar.
Ainda com a cara amassada e vestindo pijamas, ele recebeu a irmã com um abraço apertado e um grande agradecimento, fazendo questão de frisar como ela estava o salvando por ficar com Autumn aquele final de semana.
“Eu sei que sou um anjo andando sob a terra ou algo assim” Marie brincou caminhando atrás de Robin em direção a cozinha. “Mas me conta, o que você fez ontem? Com quem Autumn ficou?”
“Eu fiz a coisa mais estupida do mundo, mas que por alguma razão pareceu ser uma boa ideia na hora.” Ele disse passando as mãos pelo rosto em um claro sinal de frustração e Marie apenas ergueu um das sobrancelhas dando sinal para que ele continuasse a história.
“Eu liguei para Regina e perguntei se ela poderia ficar com Autumn, porque ela era realmente a única pessoa que eu conhecia nessa cidade que eu confiava para cuidar da minha pequena e Autumn sempre fica muito confortável ao redor dela, então eu simplesmente juntei a fome e a vontade de comer.”
“Regina? Que é Regina?” Marie perguntou pareceu genuinamente curiosa, mesmo sabendo de quem se tratava uma vez que a sobrinha havia comentando sobre ela em uma das ultimas vezes que elas haviam conversado.
“Regina é a professora de Autumn, eu pensei que eu tinha te dito isso antes.” As expressões faciais do loiro estavam marcadas pela confusão.
“Oh! Sim, mas eu fui apresentada a Senhorita Mills, não a Regina. Não sabia que vocês já estavam na base do primeiro nome.” A morena disse com um sorriso marcado de segundas intenções no rosto.
“Não, não mesmo senhorita Marie Louise Locksley. Pode ir tirando esse sorrisinho do rosto, porque aqui não há uma história para você construir.”
“Eu não disse nada!” A morena disse levantando as mãos em um sinal de rendição e o sorriso em seu rosto aumentou consideravelmente.
“Como se eu não te conhecesse.” O loiro disse passando pela irmã “Sinta-se em casa, eu vou tomar meu banho, preciso sair daqui a pouco, mais uma vez, obrigada M. de verdade.”
—x-
Não eram nem nove da manhã quando o celular de Regina começou a tocar, largando os planos de aula sob a mesa da sala de jantar, ela correu até a cozinha onde havia deixado o aparelho carregando pensando ser o pai, mesmo que inconscientemente ela repetisse a si mesma que não seria o pai, uma vez que havia combinado com ele que o veria um pouco mais tarde naquele sábado.
Ao ver o nome de Rebecca no identificador de chamada o primeiro pensamento que passou pela mente da morena foi que alvo grave havia acontecido, mas logo em seguida a morena rejeitou a ideia sabendo exatamente do que se tratava aquela ligação.
“Alô” Regina atendeu a ligação já com um sorriso no rosto.
“E então?” Rebecca se quer tentou disfarçar a curiosidade.
“Não são nem nove horas da manhã” A morena disse tentando segurar a gargalha que ameaçava ganhar vida a qualquer segundo.
“E?”
“E não foi você que me disse que acordar antes das onze era algo inconcebível para você?”
“Ok, você pode parar de bancar a cretina e me dizer o que aconteceu ontem?”
“Ontem?” A morena fingiu desconhecer, torturar Rebecca se mostrou algo interessantíssimo e Regina estava aproveitando mais do que devia.
“Tudo bem, você quer isso em todas as letras? Então eu vou te dar, o maior DILF da cidade simplesmente a apareceu em sua casa numa sexta feira a noite, então querida cretina, eu quero todos os detalhes do encontro, é isso.”
“Você percebe que não foi realmente um encontro e que ele apenas passou aqui para pegar a filha dele? Que por um acaso era aquela adorável menina da qual nos cuidamos.”
“Corta essa, ele estava NA SUA CASA.”
“MAS não foi um encontro.”
“Você o convidou para entrar?”
“Logico que sim, estava congelando lá fora, e ele precisava pegar Autumn no meu sofá.”
“Será que você ofereceu a ele uma taça de vinho?” Regina sentiu as segundas intenções marcadas na pergunta da amiga e revirou os olhos diante da obviedade dela.
“Você secou até a ultima gota da garrafa de vinho, não era como se eu tivesse algum para oferecer a ele.”
“Então quer dizer que se você tivesse você ofereceria a ele uma taça?”
“Não, ele parecia estar exausto, e ele ainda tinha que dirigir de volta para a casa, não acho que isso seria uma combinação boa.”
“Então você poderia ter convidado ele para passar a noite em sua casa, talvez até mesmo dentro de suas calças.” A ruiva disse rindo ao ouvir a amiga bufar em descontentamento ao que havia ouvido.
“Robin não vai entrar em minhas calças e você precisa esquecer essa história. E se você não tem nada para fazer eu tenho, então tchau, mais tarde talvez eu te ligue.”
“Não precisa, eu vou aparecer ai mais tarde, com o almoço, eu preciso fazer mais algumas perguntas olhando em seu rosto, ele é o maior livro aberto que eu conheço.” Rindo ambas as amigas desligaram o telefone após se despedirem e Regina voltou aos afazeres.
—x-
Os pequenos pezinhos batendo na madeira que cobria todo o chão da casa denunciou a garota antes que ela se quer aparecesse no topo da escada, com um sorriso enorme no rosto, Marie caminhou até o fim da escada e se abaixou abrindo os braços, pronta a receber a sobrinha. Com os olhinhos brilhando de emoção e um sorriso tão grande que fez o coração de Marie saltar no peito, Autumn desceu as escadas pulando de dois em dois degraus e se jogou sobre os braços da tia ao alcançar o ultimo degraus.
Depois de se abraçarem por um longo tempo, as duas se afastaram e Marie cumprimentou a sobrinha com a linguagem de sinais. A primeira pergunta que Autumn fez assim que a euforia por ver a tia se acalmou, foi onde estava o pai, e a tia explicou de maneira didática que um problema no trabalho dele havia acontecido ele havia precisado ir lá ajudar os colegas. Numa tentativa de consolo, Marie disse que elas teriam o dia inteiro só pra elas.
“Então, o que a senhorita deseja fazer hoje mademoiselle?” A tia perguntou sorrindo.
“Nós podemos fazer cupcake?” A menina perguntou com as feições marcadas pela expectativa.
“Sim, de chocolate?”
“SIM!!!!!!”
“Mas algum pedido? O gênio da lâmpada permite mais um.”
“Mas não são três?” A garota perguntou verdadeiramente curiosa e Marie riu, a sobrinha era inteligente demais, ela devia lembrar-se disso para ocasiões futuras.
“Sim, mas hoje vão ser só dois, o terceiro a gente guarda para amanhã. Combinado?”
“Sim”
“Então, qual é o segundo pedido?”
“Eu não sei, eu posso decidir durante o dia?”
“Sim, você pode decidir durante o dia.”
Marie caminhou escadas a cima com a sobrinha e a ajudou trocar de roupa, prontas para começar o dia, elas se aventuraram pela cozinha, após um rápido levantamento, a tia percebeu que elas precisavam de alguns ingredientes, como por exemplo, ovos.
As duas então pediram um uber e foram para o supermercado, e Marie se divertiu com a empolgação da sobrinha que tentava apresentar à tia a cidade através da janela do carro. Marie descobriu mais tarde que a ida ao supermercado era um desafio maior do que ela podia ter imaginado. Controlar a vontade de dizer ‘sim’ a sobrinha diante de cada pedido dela, era quase bem mais difícil do que o exame de carteira de motorista, e olha que Marie levou três anos para finalmente conseguir sua habilitação.
De volta a casa as duas mergulharam na aventura culinária, entre gemas de ovos, bater a massa e muitas brincadeiras, elas finalmente conseguiram terminar os cupcakes. No entanto, antes que pudessem comer, Marie decidiu que Autumn precisava de um banho, e decidindo que o segundo pedido daquele dia era assistir novamente os seus filmes favoritos da Disney, a pequena decidiu que o vestido verde igual o da princesa Tiana era o que ela queria vestir.
A seleção de Autumn era variada, ia de O bom dinossauro até A princesa e o Sapo, e Marie riu. Após dois cupcakes e um filme e meio, a morena finalmente percebeu que a sobrinha havia adormecido então, ela se permitiu passear pela casa e ver se havia algo que precisava ser feito, afim de assim ajudar o irmão.
Era o inicio da noite quando Robin chegou em casa, exausto. Autumn já havia acordado a essa altura e havia ajudado a tia no preparo do jantar, pelo menos era isso que ela acreditava, já a tia tinha uma opinião bem diferente.
“Então como foi seu dia?” Marie perguntou assim que eles sentaram para comer, e Robin já havia tomado banho e estava com uma aparência melhor.
“Cansativo. Uma bosta” Ele disse olhando a irmã.
“Palavra” A pequena sinalizou para o pai, deixando claro que havia lido os lábios dele e havia ouvido que ele havia dito palavra que não era suposto eles usarem.
“Desculpe querida.” Ele sinalizou de volta e foi brindado com um sorriso enorme que silenciosamente dizia que estava tudo bem.
“Mas e o dia de vocês, o que vocês fizeram de incrível?”
Empolgada Autumn começou a gesticular rapidamente, tentando colocar o pai a par de todos os detalhes do dia que na percepção dela havia mesmo sido incrível. Tudo correu bem e tranquilo até o momento em que Robin subiu com Autumn para colocá-la para dormir.
“É amanhã que nós vamos à casa de Julie?” A garota perguntou enquanto o pai se preparava para começar a ler para ela.
“Seria amanhã, mas o papai ficou preso no serviço e nós não conseguimos ir pra casa da vovó hoje, então vamos ter que cancelar os planos de amanhã.”
“Mas você prometeu que a gente iria.” A pequena gesticulou e Robin viu o beicinho começar a se formar no rosto dela, e as lagrimas se acumularam nos olhos miúdos.
“Eu sei querida, e eu sinto muito, mas algumas coisas aconteceram ...”
“Você é o pior pai do mundo.” Ela gesticulou antes mesmo que ele terminasse de falar.
“Autumn! Eu sinto muito ok. Eu sei que você queria muito ir ver a Julie, eu juro que eu tentei fazer de tudo para que a gente pudesse ir, mas eu não consegui.”
A garota ficou em silencio, e uma lagrima solitária rolou pelo rosto dela. Ela deitou na cama e se virou dando as costas para o pai. Robin sentiu um sabor amargo se espalhar pelas costas e o coração se apertar no peito. Caminhando calmamente ele se sentou no chão de frente para a pequena.
“Ei querida, eu sei que você esta chateada, mas o papai realmente tentou. Existe algo que eu possa fazer para compensar isso?” A menina continuou em silencio fitando-o e ele sentiu um sentimento estranho se rastejando para dentro de seu corpo.
“Que tal a gente ligar para Julie amanhã e convidar ela, a irmã e a mãe para virem para cá semana que vem? Isso seria bom?” Ele perguntou calmamente, e após alguns minutos de completo silencio, a menina balançou a cabeça positivamente e ele começou a sentir que afinal havia esperanças para aquela situação.
“Ótimo, e que tal amanhã a gente fazer algo bem legal?” Ele perguntou com um sorriso tímido pintando lhe as feições e viu uma pitada de excitação aparecendo no olhar da filha.
“A gente pode ir comprar o presente da senhorita Mills?” A menina gesticulou timidamente.
“Sim querida, nós podemos.”
“A gente pode chamar a senhorita Mills para um encontro de brincar?”
“Encontro de brincar?”
“Sim, um encontro de brincar, no parque, eu, você, ela e a tia Marie, e então eu posso dar a ela o presente.”
“Oh! Eu vou ligar para ela querida, mas eu não posso te prometer que ela vai aceitar, tudo bem? Ela pode ter algo já planejado.”
“Tudo bem.”
“Ótimo, onde foi que paramos da ultima vez?” Robin perguntou puxando o livro para o centro do seu colo e observou em quanto a filha dizia onde havia parado. Mais tarde quando pegou o telefone para ligar para Regina, Robin sentiu o coração acelerar no peito e não entendeu porque de repente se sentia completamente ansioso para falar com a morena.
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