Silhouette
7 Encontro de brincar
Notas iniciais
Um.
Dois.
Três.
Ele contou a tríade por mais duas vezes até finalmente sentir o corpo se estabilizar sob o colchão macio. Ele suspirou de forma contida e sentiu que aos poucos o corpo emergia da inconsciência desmedida que o sono causava. Os dedinhos pequenos chegaram até as pálpebras dele e a puxaram, fazendo com que a claridade chegasse até os olhos dele, e num ato totalmente instintivo ele fechou os olhos que arderam diante do clarão inesperado. Ele jogou um dos braços sob o rosto numa tentativa de proteger os olhos e saudou a filha com um sorriso.
Minutos mais tarde, assim que sentiu que seu corpo tinha despertado totalmente, ele puxou o corpo para cima, encostando-se à parede ele piscou algumas vezes até finalmente focar na figura miúda que estava sentada entre suas pernas com um sorriso tão grande que poderia partir o rosto dela em dois.
“Bom dia papai!” Ela sinalizou empolgada.
“Bom dia querida” Ele se inclinou em direção a ela e a apertou em um abraço. “Você parece empolgada hoje.” Ele disse quando eles finalmente se afastaram.
“Hoje é domingo.” Ela disse simplesmente como se a frase tivesse suficiência em si mesma para explicar o motivo da empolgação dela.
“E por que a senhorita esta tão animada assim?”
“Nós vamos ter um encontro de brincar com a senhorita Mills hoje, né?” Ela questionou e Robin quase riu ao perceber como ela tentou sondar o terreno de forma muito obvia.
“Sim, nós temos um encontro de brincar com a senhorita Mills, mas só mais tarde.”
“Eba!!!!!” A menina disse sinalizando efusivamente e em seguida pulou para fora da casa e correndo em direção a porta do quarto do pai. Parando de supetão como se tivesse lembrado de algo, ela se virou em direção ao pai e disse que o café estava servido e que a tia Marie tinha pedido ela para avisar.
Rindo da filha que em seguida sumiu porta a fora correndo, mesmo que ele já tivesse falado diversas vezes que ela não deveria correr, ele levantou e seguiu até o banheiro. Um banho era o que ele precisava para espantar qualquer rastro de sono que ainda corria pelo corpo dele.
—x-
Sempre que assistia comedias românticas, que por acaso era um dos gêneros favoritos, ela ria e se perguntava como as protagonistas conseguiam fazer tamanha bagunça para escolher uma roupa quando elas tinham algum encontro. Com uma represália silenciosa da sua mente, ela se viu na mesma posição das personagens das quais um dia havia rido.
Na cama da morena inúmeras blusas se amontoavam juntamente com alguns cachecóis e dois ou três vestidos. Vestindo uma blusa de manga comprida de lã bege, uma calça jeans e sapatilhas marrons, ela parrou diante do espelho de corpo todo que tinha em uma das portas do guarda roupa e girou sobre o seu próprio eixo a fim de confirmar que tudo estava no lugar certo.
“Não, não, não e não. Não há nenhuma maneira desse mundo que eu vá deixar você sair de casa vestida assim” Rebecca disse entrando no quarto carregando duas xícaras com chá de ervas que ela havia acabado de fazer.
“E eu posso saber o motivo?” A morena disse suspendendo uma de suas sobrancelhas como se desafiasse a melhor amiga.
“Pelo simples motivo que você parece mais minha avó do que uma mulher de vinte e poucos anos que esta prestes a sair em um encontro.”
“Você esta sendo absurda Rebecca, é um encontro de brincar, que envolve caso você não tenha percebido ainda uma linda garotinha de cinco anos.”
“Sim um encontro de brincar com o maior DILF da história, então querendo ou não você vai se arrumar melhor.”
Dizendo isso à morena caminhou em direção da amiga, e com uma intimidade nada surpreendente ela navegou pelas gavetas e cabides procurando por peças de roupa como se já soubesse exatamente o que queria. E a verdade é que ela sabia.
Pouco tempo depois a ruiva caminhou em direção a morena com uma saia preta que chegava até um pouco depois do meio da coxa, e uma meia calça preta grossa, uma vez que o clima ainda continuava frio. Regina ao ver as peças escolhidas pela amiga começou a balançar a cabeça em negação, mas no fim Rebecca ganhou e contrariada ela retornou ao banheiro para se trocar.
A blusa de lã que Regina havia escolhido foi mantida, e ao ser colocada junto com a saia e a meia calça forneceu a morena um look que ornava perfeitamente, e a deixava com um semblante leve, jovial e sexy na medida certa. Regina deve que dar o braço a torcer que a amiga estava certa, ela gostava do que via refletido no espelho e esperava que Robin gostasse também. Não que ela devesse esta pensando nesse tipo de coisa, ela se repreendeu mentalmente, uma vez que ela e Robin não eram e nunca poderiam ser algo.
“Viu? Você esta maravilhosa Nina.” A ruiva disse ao ver a morena caminhar porta adentro no quarto.
“Ok, você estava certa! O que você quer um troféu ou algo assim?”
“Não, basta você me contar detalhes desse encontro mais tarde eu já me dou por satisfeita.” Rebecca disse com um sorriso repleto de segundas intenções no rosto, e a morena revirou os olhos rindo.
“Então, ele vai vir te buscar em casa ou o que?”
“Eu achei melhor me encontrar com ele, porque seria inviável ele sair da casa dele e vir me buscar aqui e depois voltar para o parque, uma vez que o parque é duas ruas abaixo da rua da casa dele.”
“Você cortou todo o romantismo com essa logica matemática.”
“Quando é que você vai entender que eu e Robin não somos algo?”
“Quando é que você vai entender que eu não estou falando que vocês dois estão profundamente apaixonados um pelo outro, ou qualquer outra coisa assim? Eu estou falando de interesse, ele desperta alguma coisa em você Nina, um sentimento que eu não via em você a muitos anos, e olha você é jovem e solteira e ele também, então essa é a formula perfeita pra você explorar, vê o que existe ai, é só um interesse? É tesão? É curiosidade? Seja o que for, se permita explorar, e vê se isso te leva a algo ou não.”
“Você é a melhor amiga que alguém poderia ter.” Regina disse puxando Rebecca para um abraço apertado.
—x-
Regina estacionou o carro a certa distancia da entrada do parque assim tendo tempo de respirar fundo mais uma vez e dizer a si mesma que estava tudo bem, era só um encontro de brincar, que ela sabia ter sido ideia da Autumn. Checando uma ultima vez o reflexo no espelho do retrovisor interno e sai do carro sendo recebida por uma brisa fria, e ela se abraçou numa tentativa de se proteger.
Caminhando lentamente até o parque, a morena se surpreendeu quando ouviu o som de uma risada e seus olhos ao percorrem o ambiente constataram que a risada vinha da garota que conhecia bem e por quem nutria um carinho imenso. Autumn estava no balanço sendo empurrada pelo pai e se divertia tanto que era como se o mundo a sua volta não existisse, como se só ela e o pai estivessem presentes naquele espaço público.
Percebendo que eles não haviam notado a presença dela, a morena ficou em silencio observando-os e se deliciando com as risadas da pequena, quase quatro meses já haviam se passado desde que Autumun tinha começado a frequentar suas aulas e ela nunca havia ouvido a menina pronunciar nem um tipo de som, e mesmo Regina sabendo que uma pessoa surda não era necessariamente muda, ouvir a voz de Autumn foi uma surpresa, muito bem vinda, diga-se de passagem.
Os olhos de Autumn encontraram os de Regina e ela pode perceber que o sorriso que já habitava o rosto da pequena se expandiu ainda mais, e tal ação fez com que um quentinho gostoso se espalhasse pelo corpo da morena. Com passos ritmados Regina se aproximou de Robin e Autumn e foi recebida com um abraço da pequena, que havia pulado para fora do balanço ao ver a professora, fazendo com que seu pai quase tivesse um ataque cardíaco de preocupação.
“Você veio!!!” Autumn sinalizou de maneira tão rápida que Robin se questionou se a morena havia realmente compreendido.
“Sim, eu prometi que viria!” Regina sinalizou de volta, se abaixando até alcançar a mesma altura que Autumn.
“Papai, eu posso dar o presente agora?” Autumn questionou de forma animada ao pai.
“Que tal mais tarde querida? Nós precisamos pegar ele no carro e se dermos ele a Regina agora ela precisará segura-lo e não vai conseguir brincar com você.” Robin disse com um sorriso tímido no rosto.
“Tudo bem. Você vai mesmo brincar comigo senhorita Mills?” A pequena perguntou com os olhinhos cheios de expectativas.
“Bom, em primeiro lugar, já que estamos fora da escola porque você não me chama de Regina? E em segundo lugar, seu pai me disse que era um encontro de brincar, e eu vim preparada para isso.” Regina disse com um enorme sorriso no rosto enquanto observava Autumun pular de alegria.
Pegando as mãos de Regina na sua, Autumn caminhou em direção ao balanço puxando a morena consigo. Robin que percebeu ter sido esquecido pela filha naquele momento, observou as duas se distanciarem e se permitiu observar minuciosamente Regina. A um expectador comum a beleza de Regina poderia passar como comum, cabelos escuros e olhos escuros e pele clara, mas havia mais, havia algo sobre o jeito dela andar, o sorriso dela e até mesmo a áurea dela que fazia com que todos esses aspectos comuns se destacassem e se tornassem únicos. E naquela tarde ele arriscaria dizer que ela estava ainda mais bonita.
O inverno começava a se despedir, por isso algumas folhas começavam a se acumular no chão onde anteriormente a neve havia reinado. Autumun e Regina caminhavam então pelo parque, após brincarem nos balanços, observando as folhas no chão e dizendo o que as folhas as faziam lembrarem de acordo com as diferentes formas que tinha. Era como observar nuvens. O caminho que percorriam era em direção a Robin que havia encontrado um banco vazio para se sentar enquanto observa as duas brincarem, uma vez que ele havia aceitado que naquele dia a filha havia o trocado por Regina. E ele não julgava a filha, Regina era uma companhia fascinante.
“Papai!” Autumn sinalizou assim que se aproximou o suficiente.
“Sim querida” Ele disse abrindo os braços e permitindo que ela se ajeitasse em seu colo.
“Nós podemos brincar de pique esconde agora?”
“Nós já estamos aqui a um tempinho querida, e mesmo inverno estando no fim, ainda está frio. Que tal ao invés de brincarmos, convidarmos Regina para ir tomar chocolate quente na sua cafeteria preferida?” Enquanto dizia a filha os planos para o futuro próximo Robin observava Regina a fim de se certificar que ela estava confortável com o convite.
“Sim!!! Regina você quer tomar chocolate com a gente?” Autumn perguntou contente e Regia percebeu que provavelmente teria problemas no futuro por não conseguir negar nada a pequena quando ela sorria daquele jeito.
“Eu adoraria!”
Os três caminharam para fora do parque e decidiram que a melhor coisa seria Regina ir no carro de Robin junto com ele e Autumn para a cafeteria, e quando terminassem, Robin a levaria de volta até o parque, assim ela poderia pegar seu carro e voltar para casa.
Ao entrar no carro e se sentar no banco do carona Regina se sentiu um pouco desconfortável, era uma sensação diferente e ela não sabia como lidar com ela. Porém Autumn logo chamou a atenção da morena e a entreteve em uma conversa leve e despreocupada, fazendo com que Regina relaxasse aos poucos.
Chegando à cafeteria, Autumn correu porta a dentro cumprimentando a atendente que já a conhecia. A pequena escolheu a mesa que achava melhor e os adultos apenas a seguiram. Na hora de pedir, Autumn conseguiu persuadir o pai a deixa-la pedir um chocolate quente com dose extra de chantilly, e Robin ao tentar explicar que Regina poderia qualquer coisa do cardápio e não só o chocolate quente, uma vez que ele havia a convidado para tomar chocolate quente, mas que isso não queria dizer que ela só poderia tomar chocolate acabou se embolando e no fim se constrangendo, arrancando assim uma risada da morena.
“Tudo bem, eu entendi o que você quis dizer.” Ela disse com um sorriso no rosto, e Robin se perguntou como ela podia ficar ainda mais bonita com aquele sorriso no rosto.
Minutos após o pedido Autumn se entreteu com as folhas e os giz de ceras que Mila a entregou, dando assim oportunidade para Robin e Regina conversarem e se conhecerem um pouco mais.
“Eu queria lhe fazer uma pergunta, mas se for pessoal demais sinta-se livre para não responder.” Robin começou.
“Oh! Tudo bem, pode perguntar.”
“Você sinaliza super bem, e parece não ter dificuldade em compreender Autumn mesmo quando ela gesticula muito rápido. Como você aprendeu ASL?”
Regina não respondeu de imediato e os olhos dela desfocaram como se ela tivesse sido transportada para outro lugar, e Robin se chutou mentalmente por ter feito a pergunta. Claramente era algo muito pessoal. Ele estava pronto para se desculpar quando ela finalmente falou.
“Quando eu era mais nova, eu e meus pais costumávamos passar as festas de fim de ano na casa da irmã da minha mãe, um ano nós precisamos voltar mais cedo porque um dos pacientes da minha mãe precisou de uma cirurgia de ultima hora e ela precisava acompanha-lo, a estrada estava cheia de gelo e um carro perdeu o controle e acertou nosso carro. Minha mãe morreu na hora. Eu e meu pai fomos levados ao hospital, depois de um mês nós conseguimos voltar para casa, mas meu pai acabou perdendo a audição, e foi assim que eu aprendi o ASL.”
Regina finalizou o relato com um sorriso no rosto, mas os olhos dela deixavam clara a dor que ela ainda sentia, e antes que pudesse se conter Robin deixou a mão serpentear por cima da mesa até alcançar a mão da morena, e em um ato impensado ele apertou a mão dela como se quisesse a confortar.
“Eu sinto muito Regina.”
Após um curto espaço de tempo em silencio, Regina mudou o tópico da conversa e o clima que havia ficado pesado, foi aos poucos aliviando e os dois se agarram a oportunidade de se conhecerem melhor. Cada nova informação que surgia fazia com que os dois se admirassem ainda mais. Quando o pedido chegou, Autumn se atrapalhou com a quantidade extra de chantilly fazendo bagunça e sujando o rosto, fazendo com que Robin e Regina rissem.
O dia começava a escurecer quando eles finalmente deixaram a cafetaria. No meio do caminho Autumn adormeceu no banco de trás, mas nesse ponto Regina já não se sentia mais desconfortável por estar ao lado de Robin. Ao chegarem ao parque, Robin estacionou o carro atrás do carro de Regina, e deixando Autumn dormindo dentro do carro quentinho, ele saiu para acompanhar Regina até o carro dela.
“Eu tive um dia maravilhoso, muito obrigada Robin” Regina disse parando próxima a porta do seu carro.
“Eu que agradeço, você literalmente me salvou, Autumn estava decepcionada por não podermos ir para casa da minha mãe, e então você surgiu como um anjo me salvando.” Ele disse sorrindo e a morena gargalhou de forma contida.
“Bom, fico feliz de ter ajudado.” Ela disse destravando a porta do carro.
“Nós também tivemos um excelente dia. Obrigado!” E dizendo isso Robin se inclinou para dar um beijo na bochecha da morena como despedida e ela movimentou rosto fazendo com que os lábios dele repousassem no fim da bochecha dela e na pontinha dos lábios.
Ao se distanciarem Robin viu a bochecha dela se tingir de carmim, e antes que ele se desculpasse pelo mal entendido, ela se despediu entrando no carro. E Robin ficou parado no meio da rua observando o carro dela se afastar. Enquanto dirigia para casa, o loiro não conseguia parar de pensar na sensação da pele de Regina contra seus lábios.
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