Silente Devoção
15 Touché...
Notas iniciais

Duas horas da tarde em ponto, todos os guerreiros inscritos no campeonato, agrupados por patente, aguardavam o início do torneio na lateral da arena que já estava primorosamente preparada para a ocasião.
Por conta do grande número de inscritos todas as disputas aconteceriam de forma simultânea e a rodada teria fim quando a última luta tivesse um vencedor declarado. Entre as rodadas, intervalos de 15 minutos seriam feitos para que os lutadores pudessem descansar antes de enfrentarem um novo oponente e também para a apuração dos resultados e organização das novas chaves.
Por isso havia diversas áreas de luta desenhadas no centro da arena com tinta e cal.
A área de luta em si nada mais era do que um quadrado de 12 metros com um círculo de 9 metros de diâmetro no centro. Dentro desse círculo são pintados mais dois, um menor que marca a área central, destinada ao início e reinício do combate, e um maior com 7 metros de diâmetro que é a área de combate, o local onde ocorre a luta. Ao redor fica a área de passividade que marca o limite da área de combate e completa os 9 metros de diâmetro do círculo externo, totalizando três círculos. Toda a área externa aos círculos e ainda dentro do quadrado é a área de proteção.
Por precaução, já que se enfrentariam descalços, quase nus e sobre o chão de terra batida, uma fina camada areia e terra macia fora espalhada por todo o solo visando aliviar as escoriações dos participantes.
Além dos cavaleiros inscritos e dos juízes e assistentes que trabalhariam nas lutas, inúmeros aprendizes, amazonas, guardas e servos lotavam os grandes degraus de pedra ao redor da arena e formava uma plateia animada. No pódio, estrutura que ficava acima da arquibancada e garantia uma visão privilegiada de todo o complexo, sentada em um acento confortável e protegida do calor por um toldo de linho branco, estava Athena.
Em homenagem a ocasião, a deusa havia trançado os cabelos no mais requintado estilo grego antigo e escolhera um vestido muito parecido com os retratados nas antigas estátuas feitas em sua homenagem. Quando se levantou e deu alguns passos adiante chamando a atenção dos presentes, o silêncio que se fez na arena foi absoluto. Divina, era a única palavra para descrever a bela e graciosa figura que tocava o coração de tantos homens e mulheres presentes.
Diante de tantos olhares admirados, a jovem deusa deu início um breve discurso:
— Desde os tempos milenares o meu Santuário tem como missão combater o mal e manter a paz na Terra. Tal feito só é possível porque sempre tive ao meu lado os mais capacitados e corajosos guerreiros, bravos cavaleiros que podem rasgar os céus com os punhos e explodir estrelas com o Cosmos em nome da justiça e do amor. Por isso estamos aqui reunidos: para homenagear o passado, celebrar o presente e inspirar o futuro. — Saori que discursava com seriedade e firmeza, sorriu ao deitar os olhos sobre os jovens aprendizes eufóricos na arquibancada — Hoje reafirmamos nosso compromisso atemporal de proteger este mundo revivendo uma tradição milenar. Nossos guerreiros mais experientes, em instantes, darão uma demonstração de bravura, força e honra aos jovens recém-chegados ao se enfrentarem em combate na modalidade que é considerada a reencarnação do espírito olímpico da Grécia Antiga: a Luta Greco-Romana. Agora, por favor, meus bravos lutadores, apresentem-se para que eu possa abençoa-los.
Conforme ordenado, os competidores que aguardavam nas laterais do complexo, caminharam até o centro da arena ao som de muitos gritos, palmas e vivas da plateia animada. A agitação quebrou o clima sério do discurso fazendo Saori sorrir divertida. Após alguns instantes de festejo, quando todos já estavam posicionados diante de si, a deusa elevou uma das mãos pedindo silêncio novamente e recomeçou a falar, agora em tom mais ameno e com uma pitada de carinho.
— Meus queridos! Nunca se esqueçam de que a verdadeira força de um Cavaleiro de Athena não vem de seus punhos, mas da determinação que queima dentro de seu coração. É esta chama intensa que torna possível homens derrotarem deuses. Por isso, eu vos abençoo para que lutem com honra, lutem com garra, lutem com coragem, mas principalmente: lutem com amor! — nesse momento a deusa repousou seus olhos discretamente sobre um cavaleiro que havia se destacado dos demais devido à intensidade e seriedade com que ele a encarava. Por trás das pálpebras cerradas o cavaleiro mantinha o olhar fixo em si e absorvia cada palavra dita como uma mensagem divina enviada especialmente para lhe tocar a alma. Athena sorriu e naquele instante ele sentiu-se diretamente abençoado por ela — Dito isso... — a jovem desviou o olhar e voltou a mirar a pequena multidão — Eu dou início ao Torneio de Luta Greco-Romana do Santuário. Que a força de vossos corações lhes traga a vitória.
Os Cavaleiros se curvaram prestando uma reverência em agradecimento à deusa, enquanto mais uma vez a plateia batia palmas e soltava gritos animados e de torcida. Logo após discursar Athena retornou ao seu acento especial e os Cavaleiros rumaram todos para a mesa organizadora.
Em frente a ela um auxiliar anunciava qual eram as duplas para primeira rodada do Torneio e qual o número da área de combate a qual deveriam se dirigir de acordo com a chave que haviam caído. O “sorteio” fora realizado algumas horas antes para agilizar a organização e seu resultado, teoricamente, era aleatório e surpresa, porém parte do divertimento consistia justamente na manipulação das chaves, de modo a tornar os enfrentamentos bem mais “interessantes” para o público e participantes.
O que Mu definitivamente não esperava é que já na primeira luta saísse justamente contra o Cavaleiro de Peixes, afinal havia sido o próprio colega o responsável pelo sorteio e sua devida manipulação.
— Ué Afrodite, por que eu? Está pensando que vou aliviar para o seu lado? — Áries indagou ao sueco enquanto caminhavam juntos para o local onde se enfrentariam.
— Acha que é fácil mudar o sorteio das lutas? Existem muitos interessados e como te disse no vestiário, o teu ex queria muito ficar na mesma chave que você, então antes de conseguir despachar ele para o Adônis eu achei por bem garantir que se não conseguisse muda-lo, você não iria para frente. — piscou divertido para o lemuriano e completou debochado — Afinal quem melhor do que eu para te dar um pau e te eliminar do Torneio já de primeirinha?
— Ah tá! Me dar um pau? — Mu riu confiante — Vai sonhando Afrodite! Arianos são muito competitivos meu querido e só por essa audácia vou te mandar para o banco com gosto.
— Mas que ingrato! É isso que eu ganho por querer ajudar.
Mu nem se dignou a responder, apenas revirou os olhos e apertou o passo rindo.
Ao chegarem ao local determinado ambos começaram a se aquecer enquanto aguardavam todos os outros competidores se posicionassem, de modo que as disputas começassem todas juntas. Mas qual não foi sua surpresa ao avistar nada menos do que Ikki e Shaka, caminhando e conversando descontraídos lado a lado até se posicionarem na área de luta ao lado da sua.
Imediatamente seu cérebro registrou aquela informação e lhe despertou uma série de emoções conflitantes.
Virgem e Fênix estarem ali ao lado significava que se ganhasse a disputa contra Afrodite um dos dois seria seu próximo adversário. Enquanto a possibilidade de lutar contra Shaka lhe causava um frio na barriga e uma ansiedade confusa, a oportunidade de literalmente sair na mão com aquele moleque abusado do Fênix e esfregar a cara dele na terra lhe instigava absurdamente. Além disso, saber que os dois lutariam despertou o ciúme incontrolável que o ariano sentia ao ver o jovem japonês próximo ao loiro. Tal sentimento era tão intenso que o deixou extremamente mal humorado e irritado em segundos.
— Foi você que armou aquilo ali também? — Mu perguntou carrancudo sem conseguir disfarçar o tom de desaprovação.
Afrodite olhou para o lado por alguns segundos enquanto alongava as pernas e balançou a cabeça dando de ombros.
— Sim e não. As batalhas que ocorreram quando os pirralhos subiram as doze casas são muito famosas, você sabe, por isso queriam colocar Fênix para lutar comigo ou com Virgem. Como eu vim parar com você sobrou para o Shaka. Também é surpresa para mim um deles ser o nosso possível adversário na próxima luta.
Peixes mentia descaradamente, pois a culpa era toda sua sim. Dera trabalho convencer os organizadores a mudar os nomes na última hora, mas tinha um bom argumento na ponta da língua: Quando voltou como espectro foi o lemuriano que lhe matou, além disso, Mu era melhor amigo de Shaka e Ikki lutara consigo e com o indiano quando invadiu o Santuário. Colocar Áries contra Peixes e Fênix contra Virgem lado a lado no Torneio, garantiria duas lutas interessantes já de cara e ainda a possibilidade de mais uma na sequência.
Toda essa manipulação fora necessária para por em prática a “travessura” que idealizara e que agora dependia da colaboração de Ikki, e de sua própria desenvoltura com o ariano enfezado a sua frente.
— Isso não me parece muito justo! — Mu continuou ralhando.
— Por que não?
— Shaka é um dos cavaleiros mais leves de todo o exercito de Athena e aquele Ikki é um bombadão.
— Ahh para de dizer besteira Mu!
— Não é besteira. Besteira é por ele logo de cara com um moleque brutamontes.
— Você está se ouvindo Mu? — Afrodite riu e aproveitou a oportunidade para por o plano em ação — Pois eu acho que você está é com ciúmes do garotão sarado.
Mu arregalou os olhos indignadíssimo.
— Vai se ferrar Afrodite! Ciúme de que? Eu só expressei a minha opinião, afinal todos sabem que os Cavaleiros de Virgem fortalecem o Cosmo e não o físico. Foi uma baita sacanagem por ele em desvantagem logo na primeira luta quando existem outros cavaleiros que proporcionariam uma luta mais equilibrada.
— Sim é verdade que embates corpo-a-corpo não são a especialidade de Virgem, ainda assim ele não está em desvantagem. Apesar de Shaka ser quase um peso pena ele não é um atleta e sim um Cavaleiro. — Afrodite pôs as mãos na cintura e encarou o ariano com uma sobrancelha arqueada — Me espanta ver justamente você o julgando fraco!
— Eu nunca o julguei fraco Afrodite. Você sabe muito bem o que eu quis dizer. — Mu fechou a cara irritado.
— Sim eu sei, mas ainda sinto que está subestimando Shaka. — muito sério o pisciano olhou dentro dos olhos verdes faiscantes e encostou o dedo indicador no peito untado de azeite do lemuriano, calculando muito bem as palavras que diria a seguir — Pois eu vou te contar um segredinho que vai te fazer rever os conceitos que tem sobre ele. Shaka nunca esteve em desvantagem Mu, quando ele quer é capaz de derrubar até mesmo um touro com um murro só.
Peixes desencostou o dedo, recuou e deixou escapar um sorrisinho matreiro enquanto Áries franzia a testa confuso e extremamente curioso com as palavras usadas por ele.
— O quê? Como assim? O que você quer dizer com derrubar um touro?
— Exatamente isso que eu disse. Shaka quebrou o nariz do Aldebaran com um soco quando soube que ele te traiu!
Os olhos de Áries se arregalaram e o queixo caiu.
Imediatamente a mente dele foi invadida por centenas de questionamentos que se atropelavam de tal forma que se quer conseguia raciocinar. Shaka havia batido no seu ex-marido? Quando apareceu em Jamiel estava tão sereno quanto sempre foi... Nem ele, Mu, havia agredido o taurino, apesar de muitas vezes ter desejado. Um monge budista iluminado e sábio havia se enfurecido a ponto de quebrar o nariz de um cara com mais de dois metros de altura com um soco, fez isso por ele ter traído outro cara e absolutamente nada fazia sentido naquela informação. E por todos os deuses, por que Shaka lhe escondeu esse fato?
Sua mente fervia a tal ponto que talvez até tivesse fumaça saindo por cima de sua cabeça. Mas antes que pudesse questionar o pisciano para que ele lhe explicasse melhor aquela história, o juiz responsável por sua luta chamou:
— Atenção cavaleiros! Se posicionem no círculo central para darmos início ao combate.
Voltando a realidade, Áries caminhou junto de Peixes até a marca no centro do círculo desenhado no chão e tentou afastar toda aquela confusão mental recém-adquirida para focar na disputa. Assim que se posicionou diante do sueco e o juiz apitou o início, percebeu que não teria muito sucesso. Ainda assim nunca fora de fugir de briga e queria ganhar, por isso avançou com vontade.
A luta era disputada em 2 rounds de 3 minutos com intervalo de 30 segundos entre eles. Seu objetivo principal consistia em derrubar o adversário e encostar as escápulas (Costas) dele no chão por 3 segundos, sendo o encostamento, também conhecido como pin ou touché, o único golpe capaz de finalizar a luta em qualquer momento do combate, declarando vencedor quem conseguir realiza-lo. Se o tempo se esgota-se sem que nenhum dos competidores tivesse conseguido realizar o touché, a decisão seria dada pelos pontos dos golpes e punições, em caso se empate haveria uma prorrogação de mais 3 minutos, outra forma de se ter um vencedor é um dos lutadores abrir 8 pontos de vantagem sobre o seu oponente.
Diferente dos outros estilos olímpicos, como o Livre, a principal característica da Luta Greco-Romana é de que eram permitidos apenas golpes da linha da cintura para cima. Os lutadores só podiam utilizar os braços para derrubar o adversário, não podendo atacar abaixo da linha da cintura, nem utilizar suas pernas para derrubar ou travar seu adversário. Além disso, a modalidade era tradicionalmente praticada apenas por homens, sendo essa a razão de não haver Amazonas no torneio.
Com tantas lutas acontecendo por toda a arena, a plateia estava em polvorosa. Os aprendizes corriam de um lado para o outro tentando acompanhar o máximo de embates que conseguiam, já escolhendo seus preferidos para torcer. Os servos e guardas gritavam animados em apoio aos cavaleiros que mais gostavam e vaiavam divertidos aqueles que eram derrotados facilmente.
Aiolia foi o primeiro a sair vencedor. Com o apoio e gritos fervorosos de Marin, que observava sua luta de perto, havia conseguido derrubar e encostar as costas de seu adversário, um cavaleiro de prata, no solo duas vezes. Uma por apenas um instante e outra que durou tempo suficiente para conseguir o touché e lhe garantir a vitória no primeiro minuto do primeiro round.
Mas nem todos conseguiam derrotar o oponente de maneira tão rápida.
A disputa entre Aldebaran e Adônis com toda a certeza era uma das mais difíceis e favoritas do público. Os grandalhões mal cabiam na área de combate e o juiz tinha dificuldade em controlar aqueles dois homenzarrões atracados. Touro praguejava a todo instante mentalmente, pois era muito difícil atacar acima linha da cintura do adversário quando este era mais de um metro maior, mas nem por isso se daria por vencido, tinha sua honra de Cavaleiro de Ouro e perder para um de Bronze não era uma opção.
Bem distante da batalha dos gigantes, outra dupla também atraía publico ao realizarem uma disputa acirrada.
Virgem e Fênix estavam no começo do segundo round.
Ofegante e com o corpo todo recoberto por uma mistura de terra, azeite e suor, o indiano lutava com toda sua garra e determinação. Enfrentar Ikki estava sendo um desafio tremendo e o jovem já abria grande vantagem de pontos, mas movido pela chama do amor exatamente como a deusa havia discursado, o loiro não se permitia fraquejar. Se vencesse o combate seu próximo oponente poderia ser Mu, e por Buda! Lutar com o lemuriano era tudo o que mais queria naquele momento.
Os dois estavam frente a frente, atracados um no outro pela “pegada” e com as cabeças quase se chocando. Tentando empurrar Shaka para trás, ou quem sabe tomba-lo para o lado, o japonês escorregou a mão de apoio até o ombro do indiano imprimindo neste força considerável, e apesar do movimento ter sido muito bem calculado não impediu de Virgem, muito mais ligeiro, armar um contragolpe, pegando Fênix de surpresa. Girando o braço da pegada de dentro pra fora, com a mão que antes tinha firme no pescoço de Ikki, Shaka agarrou-lhe pelo cotovelo e com um tranco forte o fez tombar para frente. Nessa hora usou a vantagem de ser mais ágil e com um só movimento projetou o corpo para as costas do japonês lhe dando um abraço por trás que ao mesmo tempo travava os braços do outro contra o próprio tórax.
A plateia foi a loucura com aquela inversão, pois agora Shaka tinha uma vantagem enorme sobre a movimentação do adversário. Virgem não podia perder tempo, Ikki era muito forte e logo se soltaria de seu aperto, por isso com um raciocínio rápido e desesperado, tirou força de onde nem tinha e aproveitou para realizar um Suplê, movimento clássico em que o lutador levanta o rival enquanto cai para trás com os pés no solo e por cima dos ombros, levando o adversário junto.
Arremessar para trás um homem mais pesado e robusto não era tarefa fácil, por isso Shaka travou os dentes e as mãos escorregadias por conta do óleo de oliva, apertou o abraço ao redor do japonês e o tirou do chão, apoiando o peso dele em seu peito. O gritos do público se intensificaram ao notarem o que ele faria. No momento seguinte o loiro curvou as costas se jogando para trás e com toda sua força arremessou Fênix para trás de si, por cima de seus ombro fazendo-o girar com as pernas para o ar.
Mesmo atirando os membros superiores por cima da cabeça para amortecer o impacto e proteger o pescoço, o tombo de Ikki foi magnífico e fez voar uma nuvem de terra e areia ao seu redor, o deixando caído com os braços, a cabeça, os dois ombros no chão e com as pernas por cima de Shaka. Foi nesse momento que se deu o movimento mais estranho da luta, ou melhor, a estranheza veio da falta dele. Ao levar um Suplê, o lutador imediatamente aproveita o impulso do arremesso para dar uma cambalhota para trás e descolar os ombros do chão, evitando assim o “encostamento” e a derrota.
Prevendo que o adversário faria isso, rapidamente Shaka saiu de baixo do jovem para tentar agarra-lo por trás novamente e manter a vantagem, mas para sua surpresa Ikki não rolou e foi facilmente imobilizado ainda caído na terra. Naquele instante, enquanto se jogava por cima do Cavaleiro de Bronze, segurava as suas omoplatas contra o solo e ouvia a contagem de três segundos feita pelo juiz, Virgem teve certeza absoluta: Fênix havia entregado a luta.
O touché foi confirmado, o juiz encerrou a disputa, declarou o indiano vencedor, mas Shaka não saiu de cima de Ikki. Mantinha-se ali, músculos tencionados, suor escorrendo pelo rosto e a expressão firme encarando o adversário derrotado abaixo de si, que não resistia. Por mais que estivesse feliz coma vitória e que a tivesse desejado, havia uma pergunta muda estampada em seu rosto e que precisava ser respondida.
— Por quê? — indagou em voz baixa e cansada olhando dentro dos olhos azuis de Fênix.
Ikki que respirava com dificuldade devido ao esforço da luta, encarou de volta as pálpebras fechadas do virginiano e deu um sorriso debochado.
— Agora estamos quites!
Shaka franziu a testa sem entender o significado daquelas palavras, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, o juiz se colocou entre eles, afastando-o do rapaz, um tanto nervoso.
— Fim de luta! Afaste-se Cavaleiro de Virgem!
Só então o loiro olhou em volta e percebeu a agitação da plateia e a expressão do juiz. Saiu de cima do Cavaleiro de Bronze imediatamente, se pôs de pé e ajudou Ikki a se levantar, lhe estendendo a mão em sinal de cordialidade.
Com a vitória do virginiano oficializada, ambos os combatentes estavam dispensados até a próxima rodada de lutas. Durante esse intervalo o vencedor deveria se reidratar, descansar e principalmente se limpar para reaplicar o azeite que agora mais parecia uma lama pegajosa aderida a pele dos guerreiros.
Havia toda uma estrutura especialmente montada para isso perto das áreas onde os combates ocorriam, com bancos, bebedouros, toalhas e todo aparato necessário para servir os atletas e era para lá que Virgem e Fênix se dirigiam.
Enquanto caminhava até os bancos para dar início a esse processo, massageando os músculos doloridos, batendo a areia grudada pelo corpo e se alongando, o virginiano não tirava os olhos da luta ao lado, onde Mu e Afrodite ainda se enfrentavam no que parecia ser uma disputa acirradíssima, há julgar pela poeira que voava ao redor deles. Também não se esquecia do comportamento atípico de Ikki, estava só esperando o momento oportuno para tocar no assunto novamente.
— Relaxa, Áries vai ganhar. — o japonês disse confiante ao notar que Shaka prestava atenção na luta ao lado — Aquele jardineiro filha da puta só está dando trabalho para o carneirinho não perceber.
Mal as palavras saíram da boca do rapaz, Virgem estacou no lugar parando de andar bruscamente, esticou o braço para o lado parando a caminhada de Ikki ao barrar seu peito com a mão e se virou para ele no mesmo instante, muito sério.
Encarava firme o rapaz, com a testa franzida e sobrancelhas quase unidas.
— Afrodite também vai perder a luta propositalmente como você fez? — indagou baixo para não serem ouvidos.
Ikki olhou para a mão em seu peito e a retirou de modo rude, depois cruzou os braços e encarou Shaka de volta.
— Para começo de conversa eu não “perdi” a luta! — respondeu com uma bufada de ar também aos cochichos — Estava com seis pontos na sua frente, com mais dois eu seria o vencedor por superioridade técnica.
— Mas não foi! Ao invés disso abriu a guarda, não resistiu ao meu abraço, o que facilitou o Suplê, e depois ficou largado no chão me dando a vitória de bandeja. Você e Afrodite estão manipulando os resultados!
— Talvez.
— Me conhece o suficiente para você saber que eu não gosto de joguinhos Fênix! — Shaka disse com irritação na voz — Ainda mais quando sou incluído neles sem meu consentimento. Por que estão fazendo isso? Não é do seu feitio entregar uma luta.
— Chegamos ao xis da questão! Realmente não sou desses e sim, eu te conheço muito bem. Por isso abri essa exceção, para te dar essa chance.
— Como assim chance? De ganhar uma luta em um torneio de entretenimento? Não me insulte Fênix! Eu não preciso da sua benevolência para nada. — o indiano estava ultrajado — Que chance você pensa que me deu ao me dar uma vitória sem honra?
— A de parar de bancar o Buda e partir pra cima do homem que tu quer! De mostrar para ele que não é um santo imaculado! — disse Ikki tão direto quanto foi capaz.
Shaka abriu os olhos na mesma hora, não acreditando no que ouvia. O rosto sujo de terra ficou branco como um papel, lívido.
— O que foi que você disse?
— Isso mesmo que ouviu. Eu já desconfiava de você faz tempo, mas só recentemente que eu saquei o lance todo com Áries. — o Cavaleiro de Bronze continuava a falar enquanto o virginiano permanecia imóvel como uma estátua, mal conseguindo respirar — Você é muito caxias! Essa pose de melhor amigo sábio e iluminado só está te atrapalhando e nem percebeu. Eu poderia te dar um toque de outra forma, mas você é tão arrogante que jamais aceitaria a minha ajuda. Afrodite também sabia disso, então o jeito foi apelar mesmo e te colocar para se agarrar com o Mu na terra só de sunguinha para ver se a coisa vai de uma vez. — Ikki deixou escapar um meio sorriso de deboche — Para de fazer o papel de monge casto e pega o cara de jeito! Se você ainda não se tocou, ele tá na sua lorão! — Ikki apontou com o queixo para Mu, que acabava de marcar um ponto sobre Afrodite.
Em choque o indiano sentia o coração querer lhe saltar pela boca batendo acelerado. Não sabia se era por conta do desespero de ter seu mais íntimo segredo descoberto, ou de emoção ao ouvir que o lemuriano estava “na sua”.
Shaka desviou os olhos por um instante na direção de Mu não sabendo bem o que pensar e depois voltou a olhar o jovem japonês a sua frente. Naquela altura dos acontecimentos não via razões para tentar negar a verdade sobre seus sentimentos, Ikki lhe parecia muito certo do que dizia.
— Por Buda! Alguém mais sabe? — indagou com um fiapo de voz.
— Ei! Calma, não precisa arregalar os olhos desse jeito e ficar me encarando com essa cara de defunto! Ninguém mais percebeu, que eu saiba só eu e Peixes. Vocês são tão certinhos, cheios de dedos e frescuras que nem vocês mesmos perceberam! Puta merda!
Shaka piscou os olhos algumas vezes meio ansioso e passou a mão suja de terra no rosto suado, tentando organizar os pensamentos.
— No final da luta, quando eu percebi o que fez e lhe questionei, você disse que agora estávamos quites. O que quis dizer com aquilo? — encarou o rapaz muito sério — Você não é do tipo caridoso, por que realmente está fazendo isso?
Fênix ficou sério, descruzou os braços e coçou a cabeça em um gesto um tanto nervoso.
— Sei lá! Eu meio que devia uma para vocês dois. — deu de ombros, não gostava de parecer sentimental, mas não iria mentir — Eu não me esqueci de que quando lutamos eu ia morrer naquela outra dimensão onde fomos parar. Você pediu um favor para o Áries e ele me tirou de lá... — Ikki começava a ficar meio constrangido pelo ar de surpresa no rosto do indiano — Ah, sei lá, Shaka! Eu não gosto de ficar “devendo” nada para ninguém tá me entendendo? Além disso, esse “chove e não molha” de vocês dois já estava me dando nos nervos.
Virgem finalmente deixou escapar um meio sorriso divertido. Quem diria que aquele rapaz com jeito bronco ainda lhe era grato por aquele gesto, o dia estava recheado de revelações. Ainda assim a parte que ele dissera sobre os sentimentos do lemuriano ainda lhe deixava dúvidas.
O que Fênix havia percebido que ele, Shaka, deixara passar?
Virgem passou a mãos sobre os cabelos presos tentando ajeitar alguns fios revoltos, limpou a garganta e resolveu perguntar de uma vez.
— Ikki! — chamou baixo olhando ao redor para ter certeza de que ninguém ouvia — Sobre o Mu... — agora era sua vez de estar sem graça.— Você certeza? — indagou referindo-se aos sentimentos de Áries.
— Claro! Como que VOCÊ não tem? — o Cavaleiro de Bronze torceu a boca em uma careta — Você abriu os olhos mas continua cego como uma toupeira, minha nossa! Não se tocou ainda que aquele chilique que ele deu quando interrompi o treino de vocês foi por ciúmes? Naquele dia se ele pudesse teria rasgado a minha garganta com os dentes só para cortar nossa conversa.
Ao notar que mais uma vez os olhos do indiano se arregalaram, Ikki deu um suspiro e revirou os olhos, passando um braço por cima dos ombros dele obrigando-o a recomeçar a andar junto consigo para a área de descanso, afinal estavam parados no meio do caminho.
— Chega de papo lorona! Estamos aqui perdendo tempo enquanto teu pitanguinho está terminando a luta dele. Tu vai se limpar ou quer continuar a conversa e se pegar com ele assim? — apontou para o corpo imundo do indiano, resultado da luta entre eles — Todo sujo e com o cheiro do meu sovaco no teu pescoço?
Shaka fechou os olhos e empurrou o jovem japonês para longe, desfazendo o contato corporal que mantinham enquanto caminhavam, o que arrancou uma gargalhada alta de Fênix.
— Pitanguinho? Pelos seis infernos, não me obrigue a lhe tirar a fala, Fênix!
♈ *** ♍
Continua...
Grupo no face das minhas fics - Fics trio ternura
Grupo do Mushakismo, espaço reservado apenas para Mu x Shaka
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