Silente Devoção
16 O mundo está em chamas e eu lutarei para ter o seu amor.
Notas iniciais

♈ *** ♍
Enquanto faziam o intervalo os competidores se reuniam nos locais de descanso para recuperarem as forças e também se prepararem para o próximo desafio. Em um desses locais Áries raspava apressado toda a imundície de sua pele usando uma espátula de madeira que o auxiliava a se livrar da mistura de terra, areia, azeite e suor que o recobria da cabeça aos pés. Havia vencido o pisciano por superioridade técnica na prorrogação e precisava limpar a pele para reaplicar o azeite de oliva.
Afrodite, diferente de Ikki, foi mais discreto e não deu a vitória de mão beijada ao ariano, pois temia que ele não reagisse bem caso suspeitasse que sua próxima luta fora obra de manipulação. Por isso o pisciano dera uma canseira em Mu, tornando o combate travado, longo e difícil. Terminou os dois primeiros rounds empatado com ele e aliviou a pressão só na prorrogação onde, após o ariano marcar alguns pontos únicos, Mu conseguiu lhe aplicar um golpe de 5 pontos, em que em pé o lutador atacante faz uma ação de grande amplitude e derruba o oponente o colocando em posição de perigo direto e imediato. Foi o suficiente para o lemuriano abrir vantagem de 8 pontos e vencer o combate.
— O que foi? O gato comeu sua língua? Não era você que ia me dar um pau Afrodite? — Áries provocou Peixes que também se raspava ao seu lado.
— E eu dei! Tivemos até prorrogação. A minha queda foi sorte sua.
— Sorte nada! Você só enrolou o tempo todo e nos fez chafurdar na terra igual a dois suínos, isso sim. Deve ter poeira até na minha alma, minha boca está com gosto de areia e eu sinto os grãozinhos crepitando entre meus dentes...
— Para de reclamar e pensa pelo lado positivo.
— Que lado positivo? — o ariano indagou com umas das pintinhas levantadas.
Afrodite encarou o amigo com expressão de pura safadeza e saliência, e deu um sorrisinho sem vergonha com o canto da boca.
— Se cru já é gostoso... — deslizou uma das mãos sobre o próprio tórax definido e todo sujo de modo sensual enquanto ondulava o corpo, rebolando — Imagina à milanesa!
Mu arregalou os olhos e não se aguentou, caiu na gargalhada!
— Ô! Delícia! — revirou os olhos divertido voltando a se raspar — Mas falando sério agora. Na antiguidade o pessoal vendia isso como remédio! — olhou para a pasta de sujeira gordurosa presa em sua espátula — Credo!
— Bom, remédio eu não sei, mas eu deveria vender o meu suor como perfume.
— Nossa é mesmo! — só ao ouvir a fala do amigo que o lemuriano percebeu que de fato, o pisciano exalava um forte odor de rosas e ao cheirar curioso o próprio braço constatou que também estava levemente perfumado — Estamos perdendo dinheiro, Afrodite! Se raspa e vamos vender a meleca para as velinhas do asilo de Rodório, elas vão adorar!
Peixes respondeu a indireta de que rosas era cheiro de velha com um gesto obsceno arrancando outra risada de Mu.
Após a raspagem, o sueco avisou que iria dar uma volta e descobrir os detalhes das outras lutas e saiu, enquanto o lemuriano foi pegar uma das toalhas de linho cru dispostas sobre algumas mesas ali perto e terminar sua limpeza.
Caminhava distraído em direção as toalhas quando distinguiu, um pouco distante no meio dos outros cavaleiros e pessoas envolvidas com o torneio, Fênix e Virgem. O loiro estava sentado em um banco bebendo algo enquanto o jovem moreno se mantinha em pé na frente dele. Emburrado ao vê-los juntos, Mu não conseguiu disfarçar a careta que se formou em seu rosto. Com gestos meio rudes alcançou uma das toalhas e enquanto a esfregava contra o rosto e pelo corpo, observava os dois conversando.
Sua próxima luta seria contra Shaka, isso por si só já era motivo para agitar as borboletas em seu estômago e fazer acelerar o coração, porém a causa de sua palpitação não era apenas expectativa e paixão. O virginiano havia enfrentado o rapaz japonês momentos antes e esse fato lhe causava um desconforto tão grande que não sabia como explicar. Enquanto lutava com Afrodite havia visto alguns relances do combate dos dois, incluindo a conversa entre eles após a luta e o meio abraço que Ikki dera em Shaka. A visão o deixou tão perturbado e irritado que fora o gatilho para finalizar a própria luta em um só golpe, derrubando Afrodite com violência e descontando no combate toda a fúria do seu ciúme.
Sabia que estava sendo tolo e egoísta, mas simplesmente não conseguia evitar se zangar ao vê-los juntos. Ele, Mu, era o melhor amigo de Shaka, tinha orgulho desse posto e não seria qualquer Cavaleiro de Bronze que tomaria o seu lugar. Jogou o linho cru, agora todo sujo, no cesto ao lado da mesa, soltou uma bufada e decidido foi até onde eles estavam.
O que Áries não imaginava e que suas ações eram justamente o assunto da conversa entre os dois, que o estavam observando discretamente pelo canto dos olhos.
— ...Tsc! Eu não te falei? — Ikki estalou a língua, cruzou os braços e deu um sorriso confiante — Olha lá, buda loro, tá vindo para cá batendo os cascos pronto para usar os galhos que o Touro botou nele para me dar uma chifrada! Se aquilo ali não for ciúme dos bravos eu troco de armadura com o Jabu e vou peidar arco-íris por aí.
Shaka apertou os lábios e segurou o riso tentando manter-se calmo e controlado. Por dentro seu coração batia acelerado, pleno de pura euforia e felicidade, uma vontade louca de sorrir a todo instante feito criança que ganha presente no natal. Agora que sabia que o interesse de Mu era real e não apenas uma possibilidade vaga, absolutamente tudo havia mudado.
— Por Buda! Não seja maldoso Fênix, foi muito doloroso para ele o que aconteceu. — o indiano respondeu com falsa naturalidade e bebeu mais um gole da garrafa com isotônico que segurava em uma das mãos.
Virgem não queria que o rapaz a sua frente percebesse o quão eufórico realmente estava por notar o ciúme de Mu pela primeira vez. Mesmo assim sua mão nervosa apertando a garrafa e um leve rubor em sua face lhe entregava, para divertimento do japonês.
— Mas estou mentindo? Um homem sem chifres é um animal indefeso! Como eu não estou a fim de levar cabeçada de carneiro chifrudo e ciumento, vou dar uma volta e deixar as moçoilas a sós. — Ikki disse e deu as costas para Shaka, saindo de perto dele.
Foi só o tempo de Fênix se afastar para Áries chegar de cara fechada e sentar ao lado de Virgem, meio bicudo.
Um clima estranho se instaurou entre os dois, um silêncio esquisito que não sabiam como quebrar.
Shaka tentava lidar com a nova realidade ainda sem saber ao certo como proceder. Sim, os sentimentos do Mu estavam claros, mas ariano não demonstrara nada explicitamente e o conhecia o suficiente para saber que não podia simplesmente chegar e falar “Oi, soube que você está a fim, eu também estou, vamos nos beijar?”. Além disso não é como se tivesse grande experiência no assunto, o que o fazia repensar a ideia de pedir alguns conselhos.
A maior dificuldade era tentar agir naturalmente quando todo seu mundo havia vidado de ponta cabeça. Não conseguia mais olhar para o ariano da mesma forma, até as malcriações dele tinham novo sabor, o ciúme que antes aos seus olhos pareciam grosserias, agora o encantava. Como fingir que Mu não estava adorável com aquela testa franzida e um pequeno bico no lábio superior? Talvez, de fato, aquela ideia maluca de Peixes e Fênix fosse o pequeno empurrão que lhe faltava, sua boca poderia até não saber quais as palavras corretas para usar, mas o corpo sabia. Decidiu-se naquele instante por seguir a sugestão de Ikki, se estava travado com a fala, mostraria em seus atos todo amor que estava preso dentro de si.
Mu também já não via Shaka com os mesmos olhos, mas ao contrario do loiro que tinha os sentimentos claros e objetivos definidos, Áries estava ainda mais confuso, literalmente desnorteado, sem saber o que fazer, o que pensar, o que falar.
Shaka havia agredido Aldebaran, quebrado o nariz dele e imediatamente viajado ao seu encontro em Jamiel, onde lhe dera apoio e conforto incondicional. Estava claro como o dia que era importante para o virginiano, ele o amava e não havia dúvidas sobre isso, nunca houvera! Mas qual tipo de amor? Fileo? Ágape? Será que poderia nutrir alguma esperança de que esse amor mudasse e se tornasse Eros? Seus próprios sentimentos haviam mudado... Por que não os dele?
Buscando interromper aquela aura estranha, Mu olhou para o lado na direção do amigo pensando em algo para lhe dizer e viu uma escoriação no ombro dele, provavelmente havia caído de mau jeito durante a luta e machucado o local.
— Aquele rapaz é mesmo um grosseiro! — Áries referiu-se a Fênix ao tocar com delicadeza a pele ralada do indiano com a ponta dos dedos e verificar a profundidade da lesão — Vai ficar um hematoma.
Shaka olhou curioso para o próprio ombro e depois sorriu discretamente para o amigo, que interrompeu o toque assim que se sentiu observado.
— Não tem como sairmos das lutas ilesos Mu, você também está meio ralado. — bebeu um pouco da garrafa. O segredo era continuar agindo normalmente — Mas esse roxo é culpa minha. Caí de mau jeito quando o arremessei para trás.
— Eu soube que deu um suplê no abusado. Seu golpe foi uma das sensações das primeiras lutas. — o lemuriano disse com satisfação na voz e deixou escapar um sorriso empolgado — Não vou mentir! Eu adorei e achei bem feito para aquele leonino exibido que não tem respeito pelos superiores.
Shaka riu e ofereceu ao colega a garrafa de isotônico evitando se gabar pelo feito, afinal não fora um golpe tão glorioso de usa parte já que Ikki o favorecera.
— Foi um momento de sorte, ele é um adversário difícil.
— Não acho! — Mu a aceitou a garrafa e bebeu alguns goles generosos da bebida gelada do colega — Adversário difícil é você: Cavaleiro de Ouro, o mais próximo dos deuses e um dos mais fortes entre os Doze já que possui o maior Cosmo entre nós, a elite. — devolveu a garrafa — Não é porque estamos lutando apenas com a força dos nossos músculos que você deixou de ser tudo o que é. Quem teve sorte foi ele!
Shaka, não soube o que responder de imediato. Estava extremamente lisonjeado pelas palavras de Mu, mais do que isso, percebeu através delas, do modo sincero e direto com que ele falara, a admiração genuína que o lemuriano tinha por si. Para não deixa-lo sem graça e também porque o intervalo estava quase no fim, bebeu o restante de seu isotônico, colocou a garrafa no banco e se levantou em seguida, começando a se alongar de frente para o colega.
— Bom... Estou deveras honrado por me considerar um adversário difícil, Cavaleiro de Áries. — o virginiano falou em tom exageradamente pomposo e descontraído — Mas sabe o que eu acho? Que isso é tática sua. Você vem aqui como quem não quer nada, eleva o ego do seu próximo oponente, se fazendo de bonzinho... Pois essa sua estratégia não vai funcionar comigo! Eu sei muito bem como você é lutando, não vai me amolecer com suas belas palavras, seu ariano competitivo!
Mu comprimiu os olhos e abriu a boca surpreso com a acusação absurda do amigo. Porém não ficou ofendido ou tentou defender-se por saber se tratar de uma brincadeira.
— Poxa... E não acredito que você descobriu! — o lemuriano riu falsamente indignado entrando no jogo do loiro e também se colocou de pé — Essa tática milenar sempre dá certo!
— Exato! Mas um golpe não acerta o mesmo cavaleiro duas vezes!
— E quando foi que caiu no meu golpe antes, Shaka de Virgem? Posso saber? — Mu indagou curioso e divertido.
— Quando tinha 7 anos e você me convenceu de que eu era forte o suficiente para treinarmos juntos e acabei sem um dente de leite e um olho roxo! — Virgem respondeu com um falso ar de seriedade e deu um meio sorriso confiante.
Áries primeiro arregalou os olhos mas logo caiu na risada ao se lembrar do episódio.
— Pelos deuses! E depois os escorpianos é que são vingativos!
O clima descontraído entre os dois perdurou por todo o restante do intervalo enquanto se aqueciam juntos para o combate que teriam dentro de poucos minutos.
♈ *** ♍
Distante de Áries e Virgem, em outro local da arena, Peixes e Fênix confabulavam aos cochichos.
— Para de reclamar Afrodite! Eu não sou ator e não sei lutar de mentirinha igual você. Fiz o que tinha que fazer. O lorão descobriu, e daí? Foi até melhor...
O jovem cruzou os braços já irritado com a bronca que estava levando.
— “Melhor” como? Posso saber? Não sei como ele não nos tirou os sentidos. — o sueco ralhava com o rapaz. Shaka não deveria saber da travessura que haviam feito — Era para ser natural. Eles lutariam e eles mesmos perceberiam o que está rolando. Agora que Virgem sabe que sabemos ele pode se fechar por vergonha, pudor ou sei lá o que passa na cabeça daquele monge de uma figa.
— Vai nada! Justamente ao contrário, eu aproveitei a deixa e dei uns toques pra ele, um choque de realidade. Se eu não falasse nada aí sim que ele ia se manter naquela pose de homem respeitador.
— E ele te ouviu? Shaka de Virgem aceitou conselhos seus? — perguntou com certo desdém ao arquear uma das sobrancelhas e colocar as mãos na cintura.
— Do jeito dele... Eu dei muita coisa para aquela cabeça loira pensar. Enfim, Shaka já está ciente da situação e nós já colocamos os dois para se pegar. Agora é com ele.
Ikki sorriu de lado e foi retribuído com o mesmo sorriso sacana por Afrodite, como duas crianças cumplices de uma traquinagem.
— Então não vamos perder mais tempo. A segunda rodada de desafios está para começar e eu estou doido para ver aquela luta pegar fogo... literalmente. — o sueco riu divertido e deu meia volta para ir assistir ao combate.
Mas antes que ele desse um passo Fênix o deteve ao lhe segurar pelo braço.
—Ei! E o empata foda do Touro? Não vai aparecer lá para broxar o esquema?
Afrodite abriu outro de seus belos sorrisos.
— Não! Por incrível que pareça ele ganhou do Adônis, por um ponto no round de desempate, mas ganhou. Agora ele vai estar bastante ocupado lutando com outro grandalhão de Prata que eu posso, talvez, ter colocado na chave dele. — Afrodite piscou para o rapaz.
♈ *** ♍
A segunda rodada de desafios do Torneio estava para começar.
Já devidamente untados com azeite novamente, os competidores faziam os últimos alongamentos e se posicionavam próximos aos círculos de luta, enquanto os guerreiros derrotados se uniam a plateia.
Se durante o intervalo a conversa entre Mu e Shaka fora descontraída, agora que estavam prestes a se enfrentar, o silêncio reinava entre eles. Aguardavam o chamado do juiz do lado de fora do quadrado que marcava a área de passividade e nenhum dos dois ousava falar qualquer coisa, completamente imersos em seus pensamentos. A poucos instantes de enfrentar o amigo, Áries foi tomado pelo nervosismo que havia tentado afastar até o momento. Ter um contato físico tão íntimo com o homem pelo qual estava perdidamente apaixonado seria uma difícil prova de resistência mental e moral, e não sabia se estava preparado. Porém preparado ou não, seu tempo se esgotou quando o juiz sinalizou para que se posicionasse no círculo central.
Com suor frio lhe escorrendo pela têmpora e as mãos geladas Mu caminhou até o local indicado no solo lado a lado com o amigo, mas assim que ficou de frente para ele levou um choque que fez um calafrio percorrer toda sua espinha dorsal.
Shaka estava de olhos abertos.
O Cavaleiro de Virgem raramente abria os olhos, por que ele havia feito aquilo? Aquele “ínfimo detalhe” o abalou profundamente, pois o indiano o encarava de um modo tão profundo e intenso que ver as belíssimas safiras azuis lhe deixou intimidado. Estava tão aturdido com o olhar de Shaka que só se deu conta do inicio do combate quando viu o loiro avançar. Imediatamente espantou a confusão e avançou também.
O choque entre os dois foi intenso.
Com as mãos escorregadias unidas, os cavaleiros travavam os pés na terra e empurraram-se com força.
Foi no meio do empurra-empurra, ao se agarrar a pele oleosa de Virgem e tentar de alguma forma derruba-lo no solo, que Mu teve certeza de que havia algo muito estranho no comportamento de seu oponente. Mesmo em meio ao conflito Virgem mantinha os olhos cravados nos seus com uma intensidade ainda maior da notada momentos antes. Sua conduta também era contraditória, pois apesar de aparentemente ele estar fazendo força contrária, lhe empurrando, o indiano esticava o pescoço para frente e deliberadamente encostava a própria testa na sua. Isso os deixava com os rostos tão pertos um do outro que os narizes se tocavam e Mu podia sentir o hálito quente saindo pela boca dele.
Aquela proximidade toda fez o coração de Áries se acelerar e seu rosto, já vermelho pelo esforço da luta, corar ainda mais. Achou até que estava enlouquecendo, mas podia sentir nitidamente a malícia no olhar de Shaka e a lascívia com que ele se movia.
Assustado com a postura do seu oponente o ariano fugiu das safiras azuis e virou a cabeça para o lado ao tentar agarrar o indiano pelos cotovelos. Péssima ideia, pois Virgem aproveitou para enfiar o rosto na curva do seu pescoço e deslizar uma das mãos por seu braço de modo preguiçoso, delicado e insinuante em direção a sua nuca onde discretamente lhe acariciou com a ponta dos dedos enquanto tocava a pele de seu pescoço com os lábios.
O movimento rápido teve um efeito avassalador em toda a fisiologia do lemuriano, que precisou comprimir os olhos e a boca para conter o gemido que lhe brotou no fundo da garganta enquanto apertava os braços de Shaka com força.
Logo o contato entre eles foi interrompido pelo juiz que não havia percebido os discretos, porém, voluptuosos movimentos do virginiano, mas sempre que os adversários travavam em uma posição sem avanço de nenhuma das partes, o cronometro parava e o combate deveria ser reiniciado no círculo central.
Na verdade apenas dois pares de olhos atentos na plateia haviam notado o “lance” duvidoso.
— Menino! É impressão minha ou ele acabou de dar uma fungada no cangote do Mu? — Afrodite perguntou a Ikki que sentado ao seu lado em um dos bancos de descanso acompanhava a luta de perto.
— Hum! Eu sabia que aquele recato todo era só fachada. — Fênix respondeu de braços cruzados e um meio sorriso convencido.
De volta ao embate, o ariano estava completamente atarantado com o comportamento atrevido e inapropriado do então “amigo monge”.
Haviam travado a luta mais duas vezes sem pontuar e todas elas porque ao avançar e fazer a pegada, Shaka deslizava as mãos pelos braços e ombros de Mu, o acariciando, enquanto esfregava o rosto e o próprio corpo contra o dele extremamente insinuante e nada “esportivo”. Nesse momento o lemuriano perdia até a força em meio a arrepios e calafrios esquecendo-se até de como lutar, que golpes usar, sem saber como se portar diante da situação. Áries chegou até a cogitar por um instante que se tratava de alguma estratégia suja de Shaka para vencer o combate, já que sendo assumidamente gay teoricamente as carícias feitas por outro homem poderiam lhe desconcentrar, mas esse tipo de jogo baixo jamais seria do feitio de Virgem, além disso, o loiro não aproveitava sua fraqueza para pontuar e ao contrário, ao sentir a resistência de do lemuriano diminuir o agarrava ainda mais até o juiz perceber a trava e os separar.
O que Mu nem suspeitava era que Shaka usava aquele embate para conquista-lo de uma vez por todas.
O Cavaleiro de Virgem estava empenhado porque sentia que aquela luta não era mera obra do acaso, e não por conta do plano furado de Fênix e Peixes. Esse sentimento, de estar diante de um momento decisivo de sua vida, surgiu ao escutar o discurso da deusa Athena e de quando fora particularmente abençoado por ela. Ikki e Afrodite não passavam de meros piões do destino que o conduziram até aquele momento.
Por isso, guiado pela força do seu coração, do amor que guardava dentro dele, Shaka havia abandonado momentaneamente seus princípios morais e seu espírito esportivo ao aceitar a sugestão de Fênix e transformar aquele combate em uma corte de sedução. Amava Mu desesperadamente, o desejava como homem e ficou ainda mais instigado ao notar, ainda no início da luta, que além do ariano não repelir seus toques, a cada carícia que fazia o lemuriano ofegava literalmente estremecendo em seus braços.
Foi como atear fogo em mato seco.
Tomado por um furor libidinoso como jamais experimentou na vida, suas carícias e provocações tornaram-se cada vez mais atrevidas e íntimas, o fazendo perder completamente o foco da luta, que agora se resumia em arrancar de Áries o máximo de suspiros e arrepios possíveis.
Por outro lado, Áries estava cada vez mais confuso e desesperado. Tentava entender o porquê do melhor amigo celibatário o estar bolinando descaradamente durante uma luta e no meio de uma arena lotada, mas o absurdo dos fatos, as emoções conflitantes oriundas de sua paixão, junto da velocidade em que tudo acontecia não permitiam que raciocinasse corretamente.
Estavam ainda no meio do primeiro round e o comportamento de Shaka era tão absurdo que naquele um minuto e meio Mu passou a formular hipóteses em sua mente para justificar aquelas ações, talvez não fosse Shaka ali e sim um infiltrado disfarçado, poderia também ter caído em algum golpe inimigo e todo aquele torneio não passar de uma alucinação. Porém por mais bizarro que parecesse, conhecia o Cosmo do virginiano como ninguém, podia senti-lo queimando latente dentro do corpo dele e era só por esse motivo que tinha certeza de que era mesmo Shaka que estava ali, fingindo tentar lhe derrubar só para alisar seu peito e resvalar os dedos em seu mamilo respirando ofegante ao pé do seu ouvido.
Porém apesar de estar reagindo “positivamente” as carícias, pois não conseguia impedir as reações de seu corpo, não entender o que acontecia com Virgem e não ser capaz de controlar a si mesmo, angustiava e assustava Mu.
Fora por esse motivo que ao retornarem a posição inicial após mais um travamento, quando Shaka o encarou e avançou sobre si, Mu, instintivamente na defensiva, deu um passo para traz e evitou a pegada ao empurrar as mãos do loiro para baixo as soltando em seguida .
Diante daquele recuo o juiz imediatamente deu uma advertência verbal sem interromper o combate.
— PASSIVIDADE! — o juiz avisou Áries que ele havia cometido sua primeira “passividade”, entrando na posição de passivo ao evitar o confronto necessário para a luta.
Quando Shaka esticou os braços e fez a pegada novamente, aproveitou a situação para acariciar de modo proposital os punhos do lemuriano além de mais uma vez cravar seus belos olhos azuis nas íris verdes. Diante daquele olhar tão intenso e penetrante Áries ofegou acuado, e embora o aviso anterior do juiz tivesse ligado um alarme dentro se sua cabeça, seu nervosismo falou mais alto e acabou puxando os punhos para baixo ao se esquivar mais uma vez das mãos de seu oponente.
— PASSIVIDADE!
A segunda advertência deixou Mu literalmente apavorado diante da possibilidade de tomar três passividades seguidas, principalmente por conta da punição consequente. A questão é que Shaka também sabia exatamente o que aconteceria se ele se esquivasse mais uma vez e por isso mesmo o loiro avançou com gosto, ainda mais instigado.
Dito e feito.
Foi tudo muito rápido, mas em questão de poucos segundos o ariano via se concretizar seu pior medo, e Shaka seu maior desejo, desde que aquela luta se iniciara: o par terre.
— PASSIVIDADE! — o juiz finalmente interrompeu o combate — Áries, posição par terre! — apontou para o cavaleiro e depois para solo.
Mu sentiu todo o calor de seu corpo o abandonar ficando lívido e gelado.
Nervoso, o lemuriano desviou os olhos para Shaka por um instante e o que encontrou só piorou sua situação. Muito sério, Virgem o observava tal qual um predador que encurrala a presa suculenta durante a caça: olhos vidrados e pronto para dar o bote. Mu perdeu o ar dos pulmões incapaz de conter o calafrio violento que sentiu, aquele olhar lhe excitara de um modo tão obsceno que ficou ainda mais apavorado ao saber que deveria fazer o par terre.
O Par terre, que em francês significa “no chão”, era a famosa posição em que um lutador que está em desvantagem ou cometeu uma falta, começa o combate literalmente no chão. O lutador passivo fica em situação exposta apoiado nas mãos e nos joelhos e facilita o golpe do adversário que está atrás em pé ou com um joelho no chão pronto para ataca-lo.
Então não era atoa que o lemuriano caminhou para o centro da arena a passos vagarosos como se rumasse para a forca, pensando bem, morrer agora seria excelente. A posição por si só já era extremamente insinuante, e com o atual comportamento malicioso de seu oponente, que não por acaso era seu melhor amigo monge por quem “recentemente” se apaixonara e pelo qual sentia um tesão absurdo, Áries estava totalmente ferrado.
Apesar da plateia estar um tanto entediada com aquela luta enrolada, muitos viam no par terre a chance de alguma reviravolta mais emocionante, principalmente os dois cavaleiros que haviam armado aquela tramoia toda.
— Vishhh! Rapaaaz... Agora fo-de-u! — Afrodite agarrou o braço de Ikki com força e arregalou os olhos ao ver Mu caminhando até a área central e se colocar de quatro no chão de terra — O Shaka não vai perdoar uma dessas, eu não perdoaria!
— Que você se esfrega nos caras enquanto luta eu não duvido, seu viado oferecido! — Fênix puxou o braço incomodado com o agarrão — Mas dessa vez eu concordo contigo! Depois dessa o carneirinho vai virar jantar de lobo mal.
O rapaz riu ao apontar para Virgem que já se aproximava para ficar atrás de Áries e o pisciano mordeu os lábios em expectativa.
— Athena me perdoe, estou até meio com dor na consciência de ter feito isso com o pobre do Mu, pela deusa! Uma pegada assim por traz do boy magia... Ui! Deu até calor — o sueco disse rindo enquanto se abanava com uma das mãos.
Na área de combate, Áries, pela primeira vez em toda a sua vida, sentiu literalmente as pernas tremerem durante uma luta. Nem contra os espectros de Hades ou diante do Muro das Lamentações vivenciara a fraqueza que lhe tomava os quatro membros no instante em que se abaixou para fazer o par terre. De quatro sobre a terra, o tempo parecia ter desacelerado a medida que, de cabeça abaixada, via Shaka se aproximar levantando uma nuvem quase imperceptível de poeira ao redor dos pés a cada passo que dava. Quando ele se abaixou atrás de si com um dos joelhos no chão entre suas pernas, um arrepio de ansiedade percorreu a coluna de Mu e o suor frio que brotava de seu rosto gotejou abundante no solo. Até a areia da arena parecia mais grossa incomodando seus joelhos e a palma de suas mãos como se seu corpo pesasse uma tonelada e estivesse ajoelhado sobre pedras afiadas.
Shaka também estava nervoso, enquanto esperava a autorização do juiz sentia as mãos suarem e seu coração bater acelerado feito fanfarra no peito. Ofegante pela euforia, mal conseguia manter-se no lugar pelos milésimos se segundos que faltavam até ser autorizado a avançar. Mu possuía um corpo escultural e extremamente sexy, era impossível vê-lo naquela posição, de quatro e com as nádegas arrebitadas para cima, quase nu e não perder completamente o juízo.
A ansiedade predatória de do loiro não passou despercebida pelo lemuriano, que sentia todos os pelos de seu corpo arrepiados pela intensa tensão sexual que se instaurou entre eles. O clima era tão forte, que mal o juiz levantou a mão e autorizou o recomeço da luta, Mu entregou-se a debilidade que sentia e atirou-se de cara no chão fugindo do ataque de Shaka, que avançava sobre suas costas.
Assim que agarrou Áries com força pela cintura, Virgem se jogou por cima dele e o prendeu embaixo de si, pressionando-o contra o solo. Imediatamente o lemuriano se debateu e tentou tira-lo de suas costas usando a força dos braços para empurra-lo para cima com os ombros, porém nesse momento Shaka usou o espaço criado entre eles e o chão para puxar Mu com força contra o próprio corpo, aperta-lo e executar um belíssimo rolê, golpe em que literalmente rolou na terra levando Áries consigo, mas sem no entanto encostar as costas no chão, sustentando-se apenas nos pés e na cabeça para girar.
O movimento foi lindo e perfeito.
A plateia foi a loucura dando gritos ensurdecedores de pura animação. Porém o que o público não havia percebido é que durante o movimento técnico, instigado pelo desejo sexual visceral que sentia por aquele homem em seus braços, Virgem se deixou levar pela luxuria e escorregou as mãos ásperas de poeira pelo peito forte e sujo de terra de Mu lhe acariciando os mamilos, enquanto deliberadamente aproveitava a movimentação para friccionar sua virilha contra as nádegas firmes dele.
Quando terminou o rolê Shaka estava novamente por cima do lemuriano, só que agora além de imobiliza-lo no chão comprimia a pelve contra a bunda dele de modo intimo, instigante, prazeroso e imoral.
A reação foi imediata e involuntária.
Com os olhos fechados e comprimindo as pálpebras, Mu agarrou com os dedos trêmulos a terra sob suas mãos, apertando com força e deixou o ar escapar por sua boca em um suspiro que carregou consigo um longo e baixo gemido, para deleite de Virgem.
— Ohhhhh...
O gemido sussurrado fora para Áries declaração de derrota.
Agora não tinha mais jeito, não havia mais o que fazer, o contato íntimo do corpo de Shaka sobre o seu, as mãos dele em seus mamilos, a respiração quente em sua nuca, mas principalmente tesão de sentir perfeitamente o pênis dele através do tecido do collant roçando-lhe as nádegas, foi o fim.
Assim que o virginiano quebrou o contato, afrouxou o aperto e tentou mais uma vez o levantar pela cintura, mantendo a farsa da luta, Mu não ofereceu resistência. Para a surpresa de Shaka, o lemuriano se contorceu em seu abraço até girar o corpo e jogou-se de volta ao chão de costas.
Novamente Virgem “imobilizava” Áries contra o solo, que fizera o movimento de proposito para ficar cara a cara com seu algoz.
Ofegante, com o rosto corado e completamente emporcalhado de terra, areia, suor e azeite, pela primeira vez desde o início do combate, era Áries quem encarava com suas belas esmeraldas as safiras azuis.
Mu estava duro.
Shaka podia sentir o corpo fremente e imóvel abaixo de si, assim como a vigorosa ereção pulsante dele contra seu quadril enquanto o ariano lhe lançava um olhar dardejante. Foi a vez do loiro de ofegar e tremer, afinal só não estava na mesma situação porque usava seu intenso controle corporal, adquirido pelos anos de treinamento para Cavaleiro de Virgem, para lhe suprimir as reações biológicas, mas esse já se mostrava ineficiente diante da excitação explicita do corpo febril abaixo do seu.
Porém ao perscrutar os olhos de Mu, Shaka sentiu um aperto estranho no coração, ele não lhe encarava com o olhar ardente e receptivo que esperava receber de um homem apaixonado. Apesar de ler nas intensas íris esmeralda o desejo sexual, o tesão, a atração, por baixo do verde brilhante era visível um mar revolto de sentimentos conflitantes com uma pitada de fúria. Havia uma acusação muda estampada no rosto de Áries, que o repreendia com tanta intensidade que Virgem se sentiu extremamente incomodado e culpado.
Foi quase com alívio que Shaka escutou o juiz encerrar a luta e colocar a mão entre eles, quebrando o contato visual e aquele sentimento esquisito que o olhar do lemuriano lhe causava.
Virgem imediatamente desfez a pressão contra o peito de Áries, porém sem se levantar de uma vez. Em silêncio foi se afastando devagar, cuidadoso em sincronia com Mu, que fechou os olhos e ergueu as costas do solo quase em câmera lenta ao mesmo tempo em que puxava as pernas junto do corpo, escondendo sua ereção aparente ao se sentar no chão com os joelhos dobrados.
Se para Shaka o mundo parecia ter desacelerado seu giro e alongado seus segundos deixando tudo em câmera lenta enquanto estava sobre Mu, após o final da luta o tempo correu tão ligeiro e acelerado que fora atropelado pelos acontecimentos, ficando a mercê do acaso. Em um instante estava de pé tendo o braço erguido pelo juiz enquanto com o canto dos olhos via o ariano ainda sentado, abraçado às pernas e com a cabeça baixa. Porém assim que foi declarado oficialmente o vencedor daquele combate, Mu ergueu o rosto em sua direção, muito sério, e lhe direcionou a mirada.
Mais uma vez a fisionomia e o olhar que recebeu lhe incomodou, aumentando sua perturbação. Definitivamente aquela não era a reação que esperava ter em sua investida amorosa.
Imediatamente desejou ir até ele, perguntar se estava tudo bem, conversar, se explicar, fazer qualquer coisa, mas foi impedido por aprendizes, servos e cavaleiros empolgados que saíram da arquibancada e o cercaram para parabeniza-lo pela vitória incrível, a primeira da segunda rodada.
Foram apenas alguns segundos de distração e confusão.
Quando procurou novamente Áries com os olhos ele havia desaparecido.
— Mu? — Shaka chamou o amigo, o procurando desesperado no meio das pessoas ao seu redor.
— Acabou de se levantar e sair da arena quase correndo. — quem respondeu foi Ikki.
O japonês também fora ao encontro do loiro após a luta.
— Acho que o carneirão não aguentou o tranco! O combate deve ter sido muito “duro” para ele. — o rapaz completou cheio de malícia e duplo sentindo ao rir debochado.
A feição de Shaka se fechou no mesmo instante. Empurrando as pessoas ao seu redor sem a menor delicadeza, o indiano chegou mais perto do Cavaleiro de Bronze e o encarou furioso encostando o dedo indicador no peito dele.
— Cale-se! Pronuncie mais um único impropério e eu lhe tiro a fala por tempo indeterminado, Fênix! — Virgem ameaçou irado por conta da piadinha de gosto duvidoso sobre a situação que causara a Mu — Vocês armaram essa trapizonga e tenho certeza de que foi deveras hilariante o espetáculo. Só que deu errado! — acusou inflamado sem se importar com quem estava ao seu redor — Por Buda e pela roda das encarnações! Que eu me lembre por todas as minhas vidas futuras o maldito dia em que abandonei o bom senso e me deixei subverter pelas ideias de outrem. Eu sabia, no fundo eu sempre soube que estava certo em agir com cautela. Esse quiproquó é culpa sua e desses seus conselhos errôneos e enganosos, Fênix! — Shaka apontou o dedo para o rosto de Ikki e sem aguardar resposta lhe deu as costas e saiu empurrando novamente as pessoas que olhavam curiosas a confusão sem entender nada.
Fênix cruzou os braços e soltou uma bufada de ar irritado ao ver o loiro se afastar pisando duro.
Afrodite havia visto tudo de longe e assim que percebeu os ânimos exaltados se aproximou do japonês.
— Eu falei que essa porra ia dar merda, não falei? — Ikki ralhou com o sueco ao seu lado ainda acompanhando Shaka com o olhar — Alá, agora esse caralho sobrou pra mim.
— Se acalme Fênix, você não queria ver o circo pegar fogo? Pois acabamos de explodir o picadeiro! — o sueco respondeu com naturalidade.
Afrodite também olhava virginiano se afastar, mas diferente do rapaz ao seu lado, estava muito calmo e tranquilo.
“... uma vez que o fogo pega, não tem mais volta bebê. Eu vi muito bem o incêndio que foi aquela luta. Eu mudo meu nome para Misty, em homenagem ao finado, se aqueles dois não se consumirem até os ossos pelo fogo da paixão.” — completou mentalmente ao dar um sorriso radiante.
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Grupo no face com as minhas fics — Fics trio ternura
Grupo do Mushakismo, espaço reservado apenas para Mu x Shaka
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