Silente Devoção
17 Um Beijo e Algo Mais.
Notas iniciais

Atordoado e com os pensamentos totalmente tumultuados, Áries caminhava apressado se afastando o máximo possível do Torneio. Exasperado, ofegante e ainda muito excitado, precisava por a mente e o corpo em ordem, organizar seu raciocínio e entender o que havia acabado de acontecer naquela arena de luta, para isso necessitava urgentemente se isolar em algum lugar com paz e tranquilidade.
Fugindo de toda movimentação do evento e não querendo ir para o Templo de Áries, onde seria facilmente encontrado, Mu logo adentrou o pequeno bosque perto dos limites do Santuário e caminhou até chegar ao seu refúgio favorito desde a infância. Seus pés descalços agradeceram ao trocar a terra arenosa pela grama macia e seus ouvidos o guiavam em direção ao som agradável da queda d’água não muito distante. Não tardou para surgir diante de seus olhos um lago de águas calmas e translucidas formado pelo desaguar de uma pequena cachoeira que ficava em uma clareira bem iluminada pelo sol e rodeada por relva, árvores e flores. Uma piscina natural com um fundo de pedrinhas lisas, onde alguns peixinhos coloridos nadavam serelepes e que já fora cenário de muitas escapadas e brincadeiras na juventude.
Adorava aquele lugar.
Por não ser muito conhecido e um tanto afastado, o lago era bem pouco frequentado, se tornando ao longo dos anos seu santuário “particular”, para onde rumava quando sua necessidade por solidão e privacidade se fazia urgente. Exatamente tudo o que ariano mais queria naquele momento.
Com o corpo quente pela luta, todo sujo de areia, suor e azeite, adentrou vagarosamente as águas cristalinas a fim de refrescar o calor, acalmar sua mente agitada e principalmente apagar o fogo que lhe queimava por dentro. Quando a água refrescante tocou suas pernas lhe causando arrepios e sentiu sob seus pés as pedrinhas lisas, suspirou fundo, mas não de alívio. A tensão de momentos antes vivida naquela arena ainda o arrebatava e mexia com todo seu organismo. Nunca passara tamanho sufoco, nem pensado que um dia viveria por uma situação constrangedora como aquela. Ainda podia sentir na pele o contato do corpo quente de Shaka sobre o seu e a excitação absurda que o tomara naquele momento. Fora muito difícil sair da arena sem passar vexame. Após a luta, havia aguardado angustiado os intermináveis segundos necessários para seu pênis diminuir ao menos um pouco o volume da ereção para por fim poder sair praticamente fugido da arena, antes que alguém notasse sua situação vergonhosa.
Agora ali, naquele refúgio tranquilo, finalmente podia deixar todos os pensamentos turbulentos virem à tona para com calma tentar entender o que de fato havia acontecido momentos antes.
Áries soltou os cabelos, deu mais alguns passos dentro do lago, abaixou as alças do uniforme de luta, o que diminuiu a pressão em seus ombros, e quando a água lhe atingiu o peito puxou o ar com força para tomar fôlego e afundou de uma só vez, mergulhando até se sentar no fundo do lago e ficar completamente submerso.
Paz. Silêncio.
Ali, embaixo daquelas águas cristalinas com os peixinhos nadando curiosos ao seu redor, beliscando vez ou outra sua pele, a sensação de quietude e tranquilidade em nada se assemelhavam com o mar revolto que habitava dentro de si.
“Shaka”
Invocou o nome do homem que roubara seu coração e toda sua sanidade. Não restava nenhuma dúvida de que o amigo agira de forma consciente ao lhe tocar com malícia e desejo. Por que ele havia feito aquilo? Por que na frente de tantas pessoas? Aquele comportamento era tão absurdamente incompatível e incoerente. Shaka era casto, puro, sempre tão respeitoso e reservado, nunca houvera nada além de amizade entre eles, quer dizer, nada além da paixão pecaminosa que nutria por ele em segredo.
“Por Atena... Ele é meu melhor amigo... Um homem iluminado... Com que intensão Shaka fez isso comigo?” — o ariano pensava angustiado, porém ainda sentindo-se excitado e instigado ao se lembrar dos toques e olhares voluptuosos do loiro — “... Um homem iluminado... Lindo, atraente, absurdamente sedutor e que acabou de me agarrar e me deixar louco de tesão no meio de uma arena lotada... Merda!”
—“Shaka quebrou o nariz do Aldebaran com um soco quando soube que ele te traiu!” — lembrou-se do que dissera o amigo pisciano pouco antes da luta.
Ainda submerso, de olhos fechados e prendendo a respiração, um filme acelerado passava diante dos olhos de Mu, que revia na velocidade da luz todos os momentos de íntima amizade que compartilhara nos últimos meses com o Cavaleiro de Virgem. Tentava entender, encontrar pistas ou ao menos justificativas para a atitude do loiro na arena.
Logo relembrou de todos os dias que passaram juntos em Jamiel, dois meses em que conviveram em intensa cumplicidade e harmonia, o virginiano cuidando de si com imenso carinho e dedicação, montando a mesa para dois com as xícaras tão próximas que acabavam sentados lado a lado.
O treino de Tai Chi na montanha... Os movimentos lentos e o toque suave da mão de Shaka deslizando por seus braços naquele dia agora não lhe pareceram mais tão inocentes.
A despedida na porta de Virgem.
—“...Ouse ir embora novamente sem me avisar, e eu vou até o inferno lhe buscar pelos cabelos, Mu de Áries!...” — a voz de Shaka ecoou vívida em sua mente.
Pequenas falas, pequenos gestos singelos que agora pareciam fazer todo o sentido, como as visitas na prisão da qual partilharam de momentos muito profundos.
“O livro...”
Áries arregalou os olhos e abriu a boca fazendo o ar lhe escapar todo de uma vez na forma de bolhas agitadas.
Sem fôlego tanto pelo tempo submerso como pela conclusão a qual seu raciocínio chegara, voltou a superfície imediatamente buscando ar e deixando seu corpo flutuar sobre a linha d’água apenas o suficiente para respirar. Em choque e imóvel olhava fixo para o céu azul enquanto seu peito subia e descia acelerado, ofegante.
O coração batia tão rápido que parecia querer estourar seu tórax e sair tresloucado para fora.
— Por todos os deuses... — murmurou para si mesmo em um misto de euforia e aflição.
Após alguns segundos de inércia Mu deu um sorriso discreto mordendo os lábios para conter a ansiedade que lhe tomou, fechou os olhos com força e afundou novamente, agora para mergulhar em direção a queda d’água, emergindo logo abaixo dela.
Precisava se acalmar e pensar melhor sem tirar conclusões precipitadas. Sua vida já estava um terrível caos e confusão, não podia se dar ao luxo de cometer mais nenhum engano, por isso sentou em uma pedra grande e lisa logo embaixo da cascata, que não era muito forte e nem muito alta, de forma que a água corrente caía sobre seus ombros massageando seus músculos doloridos, limpando seu corpo de toda a sujeira ainda grudada em sua pele e lhe ajudando a acalmar os nervos.
♈ *** ♍
Distante do bosque a terceira rodada do Torneio estava dando o que falar e o principal burburinho era sobre a derrota de Shaka por W.O. O Cavaleiro de Virgem simplesmente abandonara a competição ainda no intervalo não comparecendo para seu próximo desafio, o que deu automaticamente a vitória ao seu oponente quando as lutas recomeçaram.
Ninguém sabia dizer ao certo o motivo, mas baseado no fato de Mu não ter cumprimentado o melhor amigo após o fim de sua luta, saindo sem se quer lhe dirigir a palavra e de que Shaka fora visto exaltado discutindo com o Cavaleiro de Fênix antes de também ir embora pisando duro, o que se cochichava aqui e ali é de que a luta entre os dois havia acabado em briga de verdade e que o desentendimento entre Áries e Virgem fora tão feio que ambos se retiraram da arena.
E realmente, apesar de não ter ocorrido uma briga propriamente dita, a culpa por Virgem ter abandonado o Torneio era sim do ariano.
Percorrendo os arredores do santuário ainda com o traje de luta, uma sandália que calçara apressado nos pés e todo sujo da luta, Shaka procurava desesperado por Mu. A angustia e o medo de ter estragado tudo era tanto que o deixava desnorteado. Nunca havia sentido o coração tão apertado no peito, precisava desfazer aquele mal entendido, se desculpar, se explicar, falar qualquer coisa que fosse, só não podia deixar as coisas como estavam. O olhar que o lemuriano lhe lançara fora muito intenso e seu sumiço era um péssimo sinal.
— Buda, me ajude! — rogou baixinho enquanto descia apressado as escadarias de Áries. Havia ido ao primeiro Templo após procurar o lemuriano no vestiário da arena e não encontra-lo, mas para seu infortúnio Áries também estava vazio.
— É por isso que eu nunca peço conselhos e nem ajuda! — resmungava caminhando sem rumo enquanto esfregava as mãos geladas pelo rosto suado e emporcalhado de azeite e terra. Mu estava no santuário, podia sentir a presença dele, mas seu cosmo estava tão suprimido que era impossível determinar a localização exata — No fundo eu sabia! Deveria ter seguido meus instintos. Nada de bom viria de uma armação feita pelo estrupício do Peixes. Foi minha culpa... Buda! O que deu em mim para seguir dicas “românticas” de um grosseirão como o Fênix?
O virginiano andou mais um pouco sem saber para onde ia até que parou. Se continuasse guiando-se apenas por suas emoções e agindo de modo afobado não chegaria a lugar algum, fora justamente por ter deixado seus sentimentos suplantarem sua razão que agora estava encrencado. Por isso respirou fundo e fechou os olhos, que estavam abertos desde a luta, tentando acalmar seu espírito e pensar com mais clareza.
“Inspire... Expire...” — dava ordens mentais a si mesmo — “O Mu está bravo comigo e possivelmente ofendido também, porém deve estar confuso com o que eu fiz.” — mais uma inspiração e expiração profunda — “Ele gosta de se isolar quando está em conflito. Se ele não está na casa dele onde mais ele iria se...”
Seu raciocínio foi cortado quando sua mente teve um estalo.
— Buda! — Shaka abriu os olhos e começou a correr. Sabia exatamente onde Mu estava.
♈ *** ♍
Em poucos instantes o Cavaleiro de Virgem adentrava o bosque próximo aos limites do Santuário. Fazia algum tempo que não ia ali, mas mesmo que mil anos se passassem ainda saberia de cor o caminho para a clareira com o lago.
Assim que escutou o som da cachoeira, Shaka diminuiu seus passos e se aproximou devagar. Seu coração batia tão acelerado ao se aproximar do local que parecia querer escapar pela boca. Estava nervoso! Não sabia como abordar o lemuriano e nem como resolver aquele mal entendido, mas estava resoluto! Depois do que fizera na luta não podia mais adiar, precisava revelar a verdade a Mu sobre o que sentia e se desculpar por suas ações completamente inapropriadas.
Foi com as mãos trêmulas e a garganta seca que Shaka adentrou a clareira e correu os olhos pelo local a procura de Áries, o que não foi difícil, pois ele estava sentado de modo relaxado logo embaixo da cascata com os olhos fechados, imóvel.
Imerso em si mesmo e concentrado em seus pensamentos, Mu não ouviu a aproximação do amigo, pois o barulho da cachoeira abafava os sons ao seu redor. Porém logo sentiu-se observado e apurando seus sentidos notou a presença suave e discreta do Cosmo de Virgem.
Mu abriu os olhos e imediatamente seu olhar cruzou com o de Shaka, que parado em pé na margem do lago o encarava com o semblante sério. Um calafrio percorreu toda sua espinha diante daquela figura enigmática.
Imóveis, com um clima de tensão pairando entre eles, os dois não desviavam o olhar.
Era um momento estranho, confuso e revelador. O ariano via seu melhor amigo, o Cavaleiro honrado de Virgem que tanto conhecia, mas também identificava naqueles olhos azuis a mesma chama do homem ousado e sexy que lhe seduzira há poucos minutos.
Shaka, por sua vez, estava temeroso. A face de Mu era uma incógnita e não conseguia ver nela qualquer sinal do que ele estava sentindo. Pelo menos ainda não o havia expulsado dali e nem se teleportado para longe.
Sendo assim, Shaka literalmente deu o primeiro passo naquele conflito, angustiado para acabar de vez com aquilo. Fora até ali para se desculpar com o homem que amava e não se acovardaria agora, mesmo que o olhar intenso do ariano fizesse suas pernas tremerem. Devagar, ainda sobre a mira dos olhos esmeraldas, Virgem tirou a sandália e entrou no lago indo na direção do tibetano. Nenhum dos dois ousava desviar os olhos e o contato visual só foi quebrado quando andar na água se tornou difícil e Shaka mergulhou emergindo pouco depois diante de Mu.
— Desce aqui. — pediu assim que ficou de pé precisando elevar o tom de voz por causa da cascata. A água lhe batia no peito e erguia a cabeça para falar com o ariano sentado na pedra — Preciso falar com você.
— O que faz aqui? — Mu questionou sem se mover. Mesmo que a culpa fosse toda de Virgem, estava com muita vergonha da ereção constrangedora que tivera — Você ganhou a luta, deveria estar no Torneio agora.
Shaka sentiu como se levasse um tapa na cara, Mu não parecia muito feliz com a sua presença.
— Eu não me importo com o Torneio. Eu me importo com você.
Diante da resposta do loiro Áries fechou os olhos e franziu a testa.
“Se importa comigo? Cara de pau!” — ralhou em pensamento para si mesmo — “Se importa tanto que me deixou com uma ereção enorme na frente de todo o Santuário. Que vexame minha deusa, que vexame!”.
— Mu... Desce, por favor! — a voz aflita de Shaka fez com que Mu abrisse os olhos novamente.
— Como sabia onde eu estava?
— Da mesma forma que eu sabia que estava em Jamiel. — Shaka disse ao estender a mão na direção dele.
O lemuriano olhou para a mão e depois para o loiro e por fim a aceitou. Assim que segurou firmemente a mão do indiano, foi puxado gentilmente para o lago, afundando na água até ficar de pé, cara a cara com o amigo. Sentiu-se estranho, nunca em sua vida havia passado por uma situação parecida, não sabia como reagir. Parte de si estava com vergonha do melhor amigo, por ele ter sentido seu desejo de forma tão nítida e íntima, já a outra parte estava completamente eufórica com a possibilidade de ter alguma chance com homem pelo qual estava completamente apaixonado.
— Era para cá que nós dois vínhamos na infância para brincarmos escondido, lembra? — Shaka chamou a atenção de Mu após um breve momento de silêncio constrangedor entre eles.
— Sim, eu lembro.
— É um bom lugar para quem busca paz e tranquilidade. Além disso, foi aqui que me deu adeus antes de desertar e abandonar o Santuário. — Virgem confessou com um tom um pouco melancólico.
Áries baixou os olhos ao se lembrar da noite em que choroso despedira-se do amigo sem lhe dar muitas explicações nas margens do lago e mais uma vez o silêncio se instaurou.
— Mu... — chamou novamente tomando coragem — Eu... Eu vim aqui para me desculpar. — fez uma pequena pausa — Mas antes eu preciso lhe dar uma explicação, então por favor me deixe falar tudo porque não... Não é muito fácil para mim.
O lemuriano olhou fixamente dentro dos intensos olhos azuis de Shaka e sentiu o coração disparar.
O indiano estava nervoso, nunca havia falado com Mu de outra maneira que não fosse respeitosa, amiga e singela, abrir o coração lhe parecia infinitamente mais difícil que descer aos infernos, mas ainda assim depois do erro que cometera, não havia como evitar.
Quando Áries acenou positivamente com a cabeça, Shaka respirou fundo e começou a falar.
— Mu, eu sei e admito que agi como um homem baixo e vil agora pouco com você, que fui extremamente imoral e invasivo em minha ações e tais atos em nada se assemelham ao meu caráter. Fui indigno e extremamente desleal com você e por isso peço humildemente o seu perdão. — Áries ouvia atento sem se quer piscar —...Mas eu quero que saiba que se eu fiz o que eu fiz é porque além do monge, do Cavaleiro e da minha busca pela iluminação, eu sou apenas humano, homem e falho. — a voz de Shaka era branda porém carregada de sentimento, falava tudo olhando diretamente dentro dos belos olhos esmeraldas de Mu — Hoje eu fraquejei, me deixei levar por um momento de emoção e agi movido puramente pelos sentimentos que tenho por você. — o ariano ofegou em choque — Eu confundi totalmente seu comportamento com sinais de retribuição e não pensei no que estava fazendo, o que nos levou a aquela situação vexatória e terrível.
A essa altura Mu mal conseguia inalar o ar, as mãos formigavam, os coração batia tão acelerado que jurava que Shaka talvez estivesse ouvindo. As borboletas tresloucadas lhe reviravam as entranhas e o lemuriano pensou por um instante que talvez estivesse em delírio e que a qualquer momento abriria os olhos e descobriria que estava sonhando
Ao notar que Áries permanecia imóvel, de olhos arregalados lhe encarando, Shaka piscou os olhos com força e mais uma vez escolheu as palavras cuidadosamente. Não podia perdê-lo por conta de um momento de desespero.
— Por favor Mu, me perdoe. Eu me arrependo profundamente dos meus atos. Eu magoei você, não respeitei sua vontade, tropecei em minhas próprias pernas por conta da minha afobação. Eu sei que você não esta em um bom momento e ainda assim não fui capaz de conter meus ímpetos e desejos mais humanos. — com lentidão e da forma mais respeitosa que era capas de fazer, Shaka segurou uma das mãos frias do lemuriano a mantendo acima da linha d’água entre eles — Não sei mensurar o quão arrependido eu estou por ter feito o que fiz Mu, porém eu preciso que saiba de que eu não me envergonho do que eu sinto por você. Se meus atos me mostraram a miséria do meu desespero, saiba que me orgulho do sentimento lindo que cultivo em meu coração. E por Buda e todos os deuses de todos os panteões, não quero que essa revelação se torne um peso entre nós. Meu maior temor é que depois de hoje você se sinta tão ofendido com a minha falha, ou tão constrangido com o que eu fiz que acabe se afastando de mim e pondo um ponto final em nossa amizade. Buda, isso é tudo o que eu menos desejo em minha existência.
Quando Shaka parou de falar o mundo de Mu havia virado de ponta cabeça. Sua barriga estava em ebulição, seus membros formigavam, a mão que era segurada havia perdido a força, a cabeça rodava e com toda a certeza o coração havia batido tanto que parara.
Mu queria gritar de alegria, queria pular nos braços de Shaka lhe fazendo juras de amor, se afogar naquele lago de pura felicidade, mas parecia que todos os seus neurônios motores haviam colapsado pela overdose de adrenalina e cortisol, pois estava completamente paralisado, incapaz até mesmo de abrir a boca e falar um único “A”.
A paixão tinha dessas.
Quando finalmente após praticamente gritar mentalmente para que seu maldito corpo funcionasse conseguiu fazer com que a porcaria da sua boca balbuciasse qualquer resposta apaixonada para a declaração que acabara de ouvir, um forte estrondo de trovão assustou a ambos. Foi o tempo de olharem para o céu e a chuva de verão cair forte sobre eles.
O encanto do momento havia se perdido.
Olhando preocupado ao redor, Shaka soltou a mão do lemuriano para apontar para a cachoeira.
— Mu! Vamos sair daqui. — chamou atenção do amigo — Se a chuva demorar ou ficar muito forte vai ter tromba d’água, é perigoso ficar embaixo da cascata.
Após piscar os olhos atordoado o lemuriano conseguiu retomar algum controle do próprio corpo e respondeu meio sem jeito.
— Sim, vamos para a beira do lago, acho que é só uma chuva passageira e... E normalmente essa cachoeira não aumenta muito o volume de água mesmo com chuva, a nascente do córrego é aqui perto, mas não é bom arriscar.
Os dois cavaleiros então nadaram juntos alguns metros até estarem a uma distância que eles consideraram segura da queda d’água, porém não saíram do lago. A chuva absurdamente gelada baixou rapidamente a temperatura e por estarem molhados e quase nus o vento piorava ainda mais a sensação térmica. Assim que Mu se levantou para sair voltou imediatamente para dentro da água mais quente do lago, todo arrepiado, com os lábios roxos e trêmulo.
— Merda! Vou ficar aqui mesmo até passar. — reclamou se encolhendo embaixo da água.
A água da chuva era bem mais fria que a do lago o que dava uma sensação gostosa ao estar parcialmente submerso.
— Não pode estar tão ruim assim. — Shaka disse ao se levantar apenas para se abaixar logo em seguida — Por Buda! Isso é gelo puro, me admira não estar caindo granizo. Realmente esta bem melhor aqui dentro.
— E olha que eu sou acostumado com água fria, os rios perto de Jamiel são formados pelo gelo derretido das montanhas.
— Nossa nem me lembre, foi difícil me acostumar a lavar a roupa naquele rio congelante. Vivi a vida toda em lugar quente.
Áries riu discretamente e logo o silêncio desconfortável se instalou entre eles.
Procurando proteger o rosto dos incômodos pingos gelados, Shaka e Mu se encolheram juntos atrás de uma enorme rocha lisa angular. Seus ombros se tocavam e apesar do trovão ter interrompido o momento entre eles e do silêncio esquisito, nenhum dos dois ousava se afastar ou falar nada.
Após alguns minutos o lemuriano notou que o amigo tinha a pele muito arrepiada e que tremia levemente por conta da temperatura que continuava a cair. Não tardou para que o singelo toque de ombros se tornasse um abraço aconchegante.
Com frio os dois haviam se aproximado gradativamente até que Mu se rendera e abraçara Shaka a fim de dividir com ele o calor de seu corpo enquanto sua mente tentava a todo instante elaborar uma resposta boa o suficiente para dar a ele. A verdade é de que era muita informação para um dia só e o tibetano tinha dificuldade em processar a ideia de que Shaka, o Cavaleiro e monge por quem sentia um amor impossível, não apenas lhe desejava como de fato lhe retribuía romanticamente com sentimentos profundos. O ariano estava tão atordoado que agora que havia perdido o timing da resposta não conseguia pensar em uma única frase coerente para falar.
Com raiva de si mesmo, porém se negando a deixar passar aquele momento único por culpa da paixão avassaladora que lhe prejudicava até o raciocínio, agora estava ali, abraçado firmemente ao indiano, com o coração a mil, mal conseguindo respirar de emoção e em completo silêncio enquanto o aquecia.
Shaka por sua vez não estava entendendo nada. Só sabia que sentira muito frio e de repente Mu havia lhe abraçado entrelaçando seus braços e colando o corpo ao seu. O contato era muito íntimo e o indiano sentiu o corpo todo se aquecer quando retribuiu o aperto, ainda assim tinha algum receio sobre o que fazer, pois avançara o sinal recentemente e a recepção não fora boa, além disso o lemuriano não havia lhe dito se o perdoara ou não, portanto Shaka apenas aconchegava Mu com força contra seu peito mal se movendo pois tinha medo de fazer alguma bobagem e quebrar aquele contato.
Mas, por Buda! Como controlar o coração acelerado e a emoção de tê-lo assim, tão junto de si? Podia sentir o corpo dele colado ao seu, a pele arrepiada, a respiração ofegante em sua nuca. Era impressão sua ou agora era Mu que tremia? Estreitou ainda mais o abraço para aquecê-lo e aliviar os tremores.
Porém não era frio o mal que atingia o lemuriano e sim emoção. Sem conseguir controlar as reações involuntárias de seu corpo, quanto mais Mu se dava conta de que de fato estava ali com Shaka e que ele o queria, mais seu organismo se descontrolava e agora sentia até mesmo seu queixo bater.
Não tardou para que seus toques se tornassem ainda mais íntimos à medida que a euforia dava lugar ao desejo. Lentamente, como um estivesse cometendo algum crime e temesse ser pego em flagrante, Mu foi movendo-se um centímetro de cada vez até ter enlaçado a cintura de Shaka completamente, abraçando-o com as pernas e ficando praticamente no colo dele.
Não dizia nada, mal respirava, pois sentia como se estivesse fazendo algo errado, como se fosse um ladrão prestes a roubar a inocência do amigo, e justamente por isso é que parecia ainda mais instigante.
Shaka por sua vez já havia desistido de tentar entender. Agora tudo o que ele fazia era se deixar levar enquanto correspondia timidamente a cada toque de Mu. Ligeiramente agachado com apenas a cabeça para fora da água, segurava firmemente o lemuriano em seus braços enquanto sentia o quadril dele se encaixar ao seu.
Por Buda aquilo já estava se tornando obsceno.
O loiro deixou escapar um suspiro quando sentiu uma das mãos do ariano caminhar por sua nuca e lhe soltar os cabelos. O que ele estava fazendo?
O jogo havia se invertido, agora era Mu que com lentidão torturante seduzia Shaka.
Com os rostos colados e acariciando-lhe a nuca, Áries virava a cabeça devagarinho e deixava a pele de sua bochecha escorregar pouco a pouco na direção da boca de Virgem, criando expectativa e ansiedade em ambos. Deuses! Queria beija-lo desesperadamente, porém também queria degustar Shaka centímetro a centímetro, sem pressa, sem afobamento como se fosse um vinho raro que se sente cada nota, cada sabor.
A essa altura Virgem já estava a beira de um colapso. Com a mente a mil por hora pensando em tudo e em nada ao mesmo tempo, a expectativa de um beijo estava lhe enlouquecendo e toda aquela lentidão nos movimentos de Mu só poderiam ser algum tipo de vingança. Porém não era nem louco de reclamar, ao contrário estava adorando cada mísero segundo daquela deliciosa sedução em câmera lenta, talvez justamente pelo contraste da afobação de seus atos. E quem era ele para reclamar? Virgem no mais amplo sentido da palavra talvez fosse mesmo melhor confiar em Mu e deixar que ele o guiasse naquele doce despertar.
O primeiro toque foi com o canto da boca. Mu deixou que a pontinha de seus lábios roçassem os lábios de Shaka sendo o suficiente para que ambos fossem acometidos por um tremor intenso. Imitando o movimento dele, o loiro moveu o rosto mais um pouquinho e parou.
Foi assim, milímetro a milímetro, um de cada vez que ambos ganharam terreno até estarem frente a frente de olhos fechados, testas unidas e com os lábios colados, sentindo a respiração ofegante um do outro e ainda não era um beijo.
Ah, com toda a certeza não era o tão almejado beijo. Aquele toque suave nada mais era que um delicioso aperitivo para diante de um banquete muito mais saboroso.
Trêmulo de emoção Shaka moveu ridiculamente devagar sua cabeça para cima e para baixo apenas o suficiente para sentir o contorno e o volume da boca do ariano o que foi o suficiente para lhe fraquejar as pernas, agradeceu mentalmente por estarem na água ou teria caído com ele.
Sentindo que o loiro queria mais, Áries fez o mesmo movimento que ele, porém finalizou com um toque suave de sua língua ao finalmente provar o sabor suave da boca dele, o convidando a fazer o mesmo. Virgem atendeu prontamente seguindo seus movimentos a medida que provava a superfície macia e morna dos lábios rosados do lemuriano.
Com paciência ímpar e sem pressa, Mu ensinava a Shaka cada pequeno detalhe luxuriante de seu primeiro beijo, e se ele era um bom professor, pelos deuses, o loiro era um aluno melhor ainda.
Logo Shaka podia sentir a língua atrevida de Mu pedindo passagem e lhe invadindo a boca apenas para tocar-lhe o céu da boca antes de fugir faceira deixando um rastro molhado de saliva e água da chuva. Sacana! Ele o estava provocando deliberadamente. Shaka avançou sem medo para dentro da boca do lemuriano e extasiado sentiu o choque da própria língua com a dele.
— Hmmm! — deixou escapar um gemido alto no mesmo instante em que pressionou o corpo de Mu contra a rocha lisa e o sentiu aprofundar ainda mais o beijo.
Por Buda, por Atena e todos os outros deuses! Beijar Mu era muita mais delicioso do que jamais sonhou em qualquer uma de suas fantasias solitárias.
Extasiado Shaka não conseguia parar nem mesmo para respirar, não que o ariano estivesse em melhor estado, ao contrário, a essa altura Mu já havia perdido completamente a calma e o controle de momentos antes e agora puxava as pressas as alças do uniforme do indiano para baixo enquanto pressionava obscenamente sua ereção rija contra a dele.
O frio desaparecera, assim como a chuva e agora envoltos pelas chamas do desejo, os dois cavaleiros se agarravam desesperadamente entre gemidos ardentes e mãos buliçosas.
Já nem sabiam mais o que faziam, agora eram seus corpos excitados que ditavam suas ações. Talvez justamente por isso é que nem se davam conta da intensidade com que esfregavam seus quadris alucinados pelo prazer gerado no estímulo obsceno que faziam por sobre o uniforme.
Em algum lugar no fundo da consciência de Mu ele tinha alguma noção de que o que fazia não era muito apropriado, não era mais um adolescente e mesmo assim não conseguia parar. Excitado e muito duro, passava a parte interna de suas coxas no quadril do virginiano enquanto se esfregava contra o ereção dele o beijando com sofreguidão. Não que Shaka estivesse achando ruim, muito pelo contrario, delirava e revirava os olhos fechados cada vez que sentia o pênis turgido de Mu pressionando o seu, retribuindo o estímulo ao lhe agarrar as nádegas e coxas firmes e o empurrando com ainda mais força contra a pedra lisa a fim de intensificar o contato.
A verdade é que a todo instante ambos lutavam contra a vontade enorme de arrancarem aqueles malditos uniformes e fazerem uma loucura, mas o pouco de consciência que lhes restava lhes impedia, os lembrando que aquele não era o local e nem a hora adequada. Mu tinha plena ciência de que não queria tirar a virgindade de Shaka em uma transa afobada dentro de um lago. Sexo na água não era algo simples, ainda mais sem nada para auxiliar e com um dos dois sem experiência alguma. O virginiano também não avançava além da conta porque de fato não sabia como prosseguir, bem em teoria até sabia, mas era melhor não arriscar assim de primeira, mal havia dado seu primeiro beijo, podia muito bem esperar mais um pouco para consumar seu amor por Mu, para que a pressa?
Porém se a mente ditava uma coisa, o corpo queria outra.
Com o desejo nas alturas e a necessidade gritante a comandar-lhes as ações, não tardou para que depois de tanta esfregação, agarro, beijos mordidas e apertões Mu sentisse o baixo ventre formigar em aviso. Desesperado ainda tentou impedir, mas era tarde demais, trêmulo e em êxtase Áries gozou deliciosamente nos braços de Shaka, que para sua surpresa pouco depois soltou um longo e tímido gemido, denunciando que também havia gostado bem mais do que devia daquele amasso delicioso.
Ofegante, Shaka escondia o rosto na curva do pescoço de Mu. Perdido no próprio prazer não havia percebido o orgasmo do lemuriano e agora estava extremamente envergonhado de sua performance adolescente diante do homem que amava.
— Me desculpe... Foi tudo muito novo e intenso para mim...— sussurrou rente ao ouvido de Mu quando reuniu coragem — Eu não queria...
— Não queria o que? — Mu indagou ao afastar-se ligeiramente e segurar o rosto febril do loiro diante do seu com ambas as mãos — Ter prazer comigo? — sussurrou ao depositar um beijo suave nos lábios do indiano.
Shaka sentiu o rosto corar e sorriu tímido sem jeito de responder aquela pergunta. Ter prazer com Mu era tudo o que sempre quis, mas não como um virgem amador.
— Ei, está tudo bem! — Áries roubou outro beijo — Fomos meio afobados, mas acredite, caso não tenha percebido, foi delicioso para mim também Shaka.
Shaka arregalou ligeiramente os olhos quando sentiu Mu encostar o quadril ao seu novamente e constatar que a ereção dele também havia diminuído. Era um alívio saber que seu orgasmo fora resultado do forte tesão compartilhado e não apenas obra de sua inexperiência, e mais, se o ariano também havia chegado aquele ponto significava que ele tinha gostado e que de fato estava atraído por si.
Isso deixou o virginiano um tanto agitado. Estava ainda mais confuso com o comportamento contraditório do lemuriano, que primeiro lhe condenava e depois o agarrava.
— Mu... Isso foi o que? — perguntou com uma ruga entre as sobrancelhas pois precisava saber se realmente existia algo mais — Apenas atração momentânea ou...
— Quer saber se foi só vontade e desejo ou se sinto algo mais? — Áries sorria um tanto travesso — Eu não sei quando exatamente ou como aconteceu, mas sim, Shaka, é algo mais.
—Ahh Mu...
O rosto do virginiano se iluminou e ele não conseguiu conter a alegria. Com o coração batendo forte no peito abraçou o lemuriano com força roubando dele vários beijos acalorados.
Afastaram-se devagar e ainda trocando um olhar apaixonado e cumplice, o ariano fez um carinho singelo na face corada do indiano e tomou a palavra novamente um tanto mais sério.
— Para ser sincero eu acho que estou apaixonado por você. — confessou aquecendo o coração de Shaka que ameaçou dizer alguma coisa porém foi silenciado pelo toque gentil dos dedos de Mu sobre seus lábios que continuou a falar — Porém eu estou muito confuso. Não esperava jamais que meus sentimentos fossem retribuídos, lutei muito contra eles por achar ser algo errado e não estava preparado para o que aconteceu. Agora eu nem ao menos sei como lidar com tudo isso, não sei como vamos viver esse... isso! Seja lá o que for...
Ambos ficaram em silêncio por um tempo enquanto o lemuriano tentava organizar as palavras.
— E agora, Shaka? Como vai ser? — Mu indagou ao acariciar o rosto do loiro e lhe ajeitar a franja — Você sabe da minha situação delicada, que eu ainda nem...
— Shiiiih! — Shaka interrompeu Mu com um pequeno sorriso de amor e compreensão — Eu sei. Eu, mais do que ninguém, entendo você. Não precisa se explicar, não para mim. Não estou te exigindo nada Mu, o que eu sinto não vai mudar. A única resposta que eu preciso agora é se posso encontra-lo outras vezes e se me permite beija-lo novamente.
— Ohh! Pela deusa! Se você não me beijar de novo eu juro que mato você, Shaka! — disse ao puxar o rosto do virginiano para si e lhe dar um beijo digno dos melhores filmes românticos — Acha mesmo que depois de hoje eu vou te deixar livre assim?
— Eu não sei. — respondeu sincero — Eu também estou um pouco atordoado com tudo isso, aconteceram muitas coisas, incluindo eu te magoar mais cedo. Eu não quero errar novamente com você, Mu.
— Você não me magoou Shaka. Você errou sim, mas ao me constranger perante tantas pessoas, se tivesse me agarrado daquele jeito a sós, o final teria sido bem diferente, provavelmente parecido com o que ocorreu agora. — disse com um toque de malícia.
— Eu não tinha como saber.
— É, não tinha... — Mu sorriu sensual — Agora sabe!
— Sim, agora eu sei! — Shaka retribuiu o sorriso e beijou novamente o lemuriano.
Mais alguns beijos foram trocados e finalmente afastaram-se de vez, a chuva já havia passado a tempos e o sol voltava a iluminar o lago. Era hora de sair dali.
Para não chamar a atenção e evitar ainda mais fofocas decidiram que Mu iria embora primeiro e Shaka alguns minutos depois, assim não correriam o risco de serem vistos juntos e despertarem mais questionamentos sobre onde estavam e o que faziam juntos por tanto tempo.
Quando teve certeza de que Mu fora embora e que estava sozinho no lago Shaka finalmente deixou explodir toda aquela imensa alegria que continha em seu peito.
Como uma criança bateu os braços agitando a água, brincando com ela e se jogou para traz, mergulhando fundo apenas para abafar os gritos que escapava do fundo de sua garganta junto das bolhas de ar.
Naquele momento, naquele instante tudo o que sentia era: Felicidade!
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Grupo no face com as minhas fics — Fics trio ternura
Grupo do Mushakismo, espaço reservado apenas para Mu x Shaka
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