Silente Devoção
18 Babado, mexerico, intriga e maledicência.
Notas iniciais

♊ *** ♏ Quarta-feira 2:00 p.m. ♉ *** ♈
Ocupando uma das mesas de um botequim nas proximidades do centro de Rodório, três Cavaleiros de Ouro aproveitavam à tarde de folga para beber cerveja enquanto conversavam em tom baixo.
— Olha Aldebaran, eu não quero te desanimar não, mas eu conferi a legislação como você me pediu e toda documentação que me entregou semana passada, e... Sinto muito! Não há nada que se possa fazer. — Saga deu uma golada no copo de cerveja encarando firme os olhos amendoados e aflitos do taurino sentado do outro lado da mesa. — Se Mu realmente deu entrada no pedido de separação no cartório em breve você será notificado e terá que comparecer perante o juiz que desfará a união estável de vocês.
A feição do moreno se fechou na mesma hora. Visivelmente insatisfeito com a notícia bateu o punho fechado na mesa fazendo os três copos e a garrafa em cima dela tremerem de leve, o que atraiu a atenção de outros clientes ao redor por conta do som seco da pancada.
— Merda!
— Calma cara! — Milo, que estava sentado ao lado do taurino, tentou contornar a situação — Você me disse que rasgou os papéis quando ele voltou não é? E até agora não recebeu nenhuma intimação... Vai ver ele nem deu entrada ainda.
— Você acha mesmo? — Aldebaran perguntou esperançoso ao virar o rosto na direção do escorpiano — Acha que ele desistiu?
Milo encarou os olhos aflitos do brasileiro e trocou um olhar nervoso com Saga. Gêmeos e Escorpião sabiam que Áries não era homem de hesitar em nada, se ele havia se decidido pelo divórcio não existia mais volta, ainda assim a verdade não parecia uma boa opção de resposta, já que Touro estava cego e se negava a aceitar a realidade, escutando apenas o que queria ouvir.
O escorpiano ajeitou as mechas roxas rebeldes para traz em um gesto meio sem jeito e tentou mais uma vez sair pela tangente.
— Olha, eu acho... — Milo começou a falar, mas logo foi interrompido por Saga.
— O que a gente acha ou deixa de achar não importa Aldebaran! — o geminiano ditou em tom firme atraindo mais uma vez a atenção do moreno. Diferente de Milo, não achava bom nutrir as ilusões do brasileiro — Você queria saber se tinha alguma maneira de impedir o divórcio, não é?
— S-Sim...
— Pois não tem! Não existe nenhuma maneira legal de obrigar alguém a ficar casado contra a própria vontade. Deixe de teimosia, não importa o que você quer, perante a lei se Mu não deseja mais a união estável você não tem direito de impedi-lo.
Touro deu outra pancada na mesa.
— Como que não? Que lei é essa? — retrucou nervoso — O Juiz também não pode ir contra os meus direitos, contra a minha vontade e me obrigar a assinar nada. E eu não quero me separar.
Milo bebeu um gole da cerveja a fim de distrair sua boca e impedi-la de dizer alguma besteira, já Saga enxugou a testa com o braço e soltou um longo suspiro. O geminiano estava cansado daquela discussão absurda, por isso cruzou os braços e deu sua cartada final, direto no coração do taurino.
— Os seus direitos, Aldebaran, acabam quando se chocam com os direitos e o livre arbítrio de Mu. Você não precisa assinar nada, é o Juiz que vai assinar.
Um longo silêncio desconfortável se fez entre os três enquanto o brasileiro encarava furioso o geminiano, porém logo a ira se transformou em melancolia quando finalmente Aldebaran se deu conta de sua situação.
Ao encarar a madeira escura da mesa, Touro precisou segurar a vontade de chorar respirando fundo.
— Não tem problema! — murmurou para os amigos, mas era como se falasse consigo mesmo — O Juiz pode entender tudo das leis no papel, mas não entende nada das leis do coração, do amor e nem do Mu. — ergueu o rosto e mirou determinado o geminiano a sua frente — Vou trazer meu carneiro bravo de volta e amansar ele direitinho, vocês vão ver. Eu sei que ele não me esqueceu, foram cinco anos de casamento. O Juiz não vai precisar assinar nada se não tiver nada pra ele assinar.
— Opa, gostei de ver a determinação. É isso aí cara! Assim que se fala! — Milo incentivou dando alguns tapinhas no ombro do taurino enquanto Saga o encarava com os olhos arregalados fazendo sinais negativos com a cabeça para que parasse. No fundo o escorpiano estava se divertindo com o absurdo da situação — A esperança é a ultima que morre Debão.
— Sim, ela é. E quer saber? Já deu a minha hora. — o taurino disse e se levantou tirando da carteira algumas notas de dinheiro que colocou sobre a mesa para pagar a bebida que consumira — Meu carneiro já deve ter chegado e eu não vou perder meu tempo aqui.
— Vai lá Debão! — Milo se despediu do moreno que já lhe dava as costas — E boa sorte!
Em silêncio Escorpião e Gêmeos observaram Aldebaran se retirar do estabelecimento enquanto esvaziavam seus copos. Assim que tiveram certeza de que ele já havia ido embora, voltaram-se um para o outro e foi impossível controlar o riso.
— Pela deusa, Milo! Não ilude o cara. Ele não tem a mínima chance.
Escorpião deu de ombros rindo.
— Amigo é pra essas coisas cara! No fundo ele também sabe que está dando murro em ponta de faca. Só falei o que ele queria ouvir, nem dei tanta assim. Vai que acontece um milagre e o sol ande para traz, o mundo vire de cabeça pra baixo e o Mu volte pra ele?
Saga não conseguiu segurar a gargalhada.
— Agora você pegou pesado. Coitado do tourão.
— Pois é... — Milo acenou para o garçom pedindo para repor a garrafa vazia — Mas onde o teimoso foi? Quando eu cheguei aqui e encontrei vocês dois eu notei que ele estava todo arrumado e perfumado, agora saiu dizendo que o Mu já chegou... Chegou onde?
— No serviço comunitário. — Gêmeos respondeu se ajeitando de maneira mais confortável e desleixada na cadeira — O Mu está cumprindo sentença, como você sabe, e Aldebaran descobriu que hoje ele vai estar de jardineiro na pracinha podando os arbustos...
— Nem precisa falar mais nada! Já entendi tudo... O Debão achou uma boa ideia se arrumar todo, vir até aqui, esperar ele começar a trabalhar e então ir lá atazanar o coitado só para ganhar outro coice merecido do carneiro bravo. — Milo balançava a cabeça de um lado par o outro abismado com o raciocínio do colega — Tsc, tsc, tsc... Só ideia torta, pela deusa.
Saga deu de ombros.
— O não ele já tem... Agora foi atrás da humilhação. — Gêmeos levantou o copo como se fizesse um brinde bebendo em seguida e foi o suficiente para Milo cair da gargalhada.
♉*** ♈
Não muito longe do botequim, protegido do sol escaldante por um grande chapéu de palha, Mu podava distraído os arbustos da pracinha central de Rodório com uma pesada tesoura de jardinagem.
Era uma visão no mínimo inusitada a do nobre Cavaleiro de Ouro usando botina, calça jeans surrada, regata velha e grossas luvas de couro enquanto fazia o trabalho humilde de jardineiro. Não que o serviço simples causasse qualquer constrangimento no lemuriano que não era provido da arrogância presente em muitos dos companheiros de armas, pois acreditava que todo trabalho feito com dedicação era honrado.
Era por isso mesmo que sem se importar com os olhares curiosos, tratava de executar sua tarefa com o máximo primor, afinal não era porque estava ali cumprindo uma penalidade que faria o corte dos arbustos de qualquer jeito.
Entretanto ao fazer uma pequena pausa para secar com um lenço o suor que lhe escorria pelo rosto devido ao intenso calor, qual não foi sua surpresa e desgosto ao avistar do outro lado da pracinha, a figura do ex-marido, notavelmente bem arrumado, a se aproximar vagarosamente segurando uma sacola de compras.
— Mas que merda! O que esse infeliz faz aqui? — o ariano resmungou para si mesmo ao guardar o lenço no bolso — Só me faltava essa...
Mu abaixou a cabeça no mesmo instante e recomeçou a podar os arbustos fingindo não tê-lo visto, quem sabe assim ele fosse embora e lhe deixasse em paz. Porém se antes cortava os galhos excedentes com cuidado e primor, agora, bastante irritado, parecia estar guilhotinando o pescoço do taurino a cada abrir e fechar da tesoura, tamanha era a força que empregava na poda.
Em instantes o lemuriano notou a luz do sol desaparecer oculta por uma enorme massa corpórea ao seu lado que projetava sobre si sua sombra, porém se manteve de cabeça abaixada, focado no que fazia.
— Oi Mu. — Aldebaran tentou uma abordagem simples.
Porém Áries o ignorou solenemente acelerando a velocidade da tesoura em suas mãos, tornando o som do “tic-tic-tic” produzido pelo metal sua resposta.
Mas o taurino mesmo intimidado pelo corte furioso das plantas não se deu por vencido.
— Eu estava indo ao mercadinho quando passei e te vi aqui, que coincidência né? — mentiu — Como eu sei que sua pele é sensível ao sol quente e que normalmente muito calor te faz mal eu fiquei preocupado e... Bom, eu comprei um isotônico gelado, algumas garrafas de água e um protetor solar para você.
Ansioso, Aldebaran ajeitou os longos cabelos com uma das mãos e estendeu sorridente a sacola de compras com a outra na direção do ariano. Como o grande chapéu de palha escondia o rosto de Mu, o brasileiro não viu quando ele revirou os olhos e soltou uma meia dúzia de xingamentos mudos.
Áries estava indignado com a cara de pau e a capacidade de lhe subestimar do taurino.
— Agradeço a preocupação, mas eu estou bem. Não preciso de nada. — Mu respondeu ríspido sem parar de podar os arbustos alucinadamente.
— Que isso Mu, deixa de marra. Está um sol de rachar mamona, duvido que não esteja com sede. Aceita, é de coração e está geladinha. — insistiu, agora pegando uma das garrafas da sacola e a estendendo diante do lemuriano.
— Eu já disse que não quero Aldebaran. — a voz soou rude e enérgica — Eu estou muito ocupado e você está me atrapalhando. Saia e me deixe terminar o serviço.
— Calma Mu, eu só estou sendo gentil, querendo te ajudar.
— Não preciso da sua gentileza e não te pedi ajuda.
— Ei, você está muito nervoso. É por causa da briga com o enjoado do Shaka? Não precisa descontar sua irritação em cima de mim. Eu vim na paz.
O ariano parou de podar no mesmo momento, mantendo a tesoura de metal aberta entre os galhos do arbusto ao se voltar indignado na direção do taurino, finalmente lhe encarando com os olhos arregalados.
— Mas... O que? — Mu estava tão perplexo que nem conseguia processar direito o absurdo que escutara — Você é inacreditável Aldebaran, I-NA-CRE-DI-TÁ-VEL. É por isso que está aqui se prestando a esse papel? — soltou uma das mãos e apontou o dedo enluvado para o moreno — Andou ouvindo mexericos e agora, porque eu supostamente “briguei” com Shaka, achou que era um bom momento para se aproveitar da situação e tentar uma reaproximação?
Surpreso com a reação agressiva do ariano o taurino deu alguns passos para traz.
— Claro que não! Que isso Mu, não é nada disso. — se faz de ofendido — Eu ouvi algumas coisas sim, mas não é por isso que eu estou aqui. Eu só estava de passagem mesmo e fiquei com pena de te ver aqui no sol e...
— CHEGA! — o ariano interrompeu com um grito ao jogar a tesoura de jardinagem no chão. A discussão já atraía a atenção de vários curiosos ao redor da pracinha — Eu não quero a sua gentileza e não preciso da sua pena. Se eu estou aqui debaixo desse sol miserável cumprindo essa sentença é por culpa do que você me fez. — o taurino arregalou os olhos e se encolheu — Além disso, é um estupido se pensa que pode me ludibriar com esse papinho furado, pelos deuses. Acha que sou idiota? Estava aqui de passagem e quis ser gentil. Que coincidência oportuna! Só que esqueceu que eu conheço todos os seus hábitos diários. Desde quando você toma banho, veste roupa nova e se perfuma todo para ir fazer compras no mercadinho? E cadê as compras?
Aldebaran abriu e fechou a boca algumas vezes sem conseguir formular uma resposta.
— Que foi? O gato comeu sua língua?
Nervoso o ariano se abaixou e pegou a tesoura de poda com um gesto rude. Com ela em mãos, ajeitou o chapéu em sua cabeça e se dirigiu uma ultima vez ao ex-marido, queria por fim ao show antes que atraísse ainda mais plateia.
— Eu preciso voltar a trabalhar e já te disse que está me atrapalhando. Então, Cavaleiro de Touro, eu quero pedir “educadamente” para que você, sua gentileza, sua pena e essa sacola de compras vão todos juntos para a puta que te pariu. — Mu havia perdido completamente as estribeiras e a paciência — Suma da minha frente agora mesmo ou além de te dar um murro na cara eu faço um relatório para deusa Athena.
A hostilidade do ariano deixou o moreno em choque, mal conseguindo se mexer. Ver aquele olhar furioso cravado em si e escutar aquelas palavras fizeram o chão desaparecer sobre seus pés, pois ao contrario do que imaginava, quanto mais tentava reconquistar Mu, mais rude e agressivo ele ficava.
— Mu... me desculpa... Eu... — balbuciou algumas palavras na tentativa de amenizar a situação.
— SAAAI!
O berro de Áries fez todo o corpo do taurino tremer e pôs fim aquela investida fracassada. Um tanto envergonhado pelos olhares que recebia dos transeuntes curiosos e com o coração partido por mais uma rejeição de Mu, Aldebaran encolheu os ombros e de cabeça baixa deu as costas para ele saindo da pracinha em silêncio, rumo ao santuário.
Com o rosto tomado pela cólera, o ariano o acompanhou com os olhos até vê-lo desaparecer ao virar uma esquina, só então deixou escapar um suspiro de chateação. Olhou ao redor para verificar se os curiosos ainda estavam de olho na confusão e assim que teve certeza que já haviam se dispersado voltou a ao trabalho.
Detestava as abordagens inconvenientes do taurino, não tinha mais paciência nenhuma com Aldebaran, tudo o que queria dele era a maldita assinatura nos papéis da separação, mas ouvi-lo falar o nome de Shaka simplesmente o tirou dos eixos. Sorriu discretamente ao lembrar-se do virginiano, porém a lembrança do loiro não o suficiente para mudar totalmente seu humor e nem o seu semblante irritadiço. Por isso abria e fechava a tesoura em suas mãos de modo frenético, descontando nas pobres plantinhas toda sua ira e transformando a poda dos arbustos em algum tipo de obra de arte abstrata.
Porém mal sabia o ariano que os olhos azuis que tanto amava haviam presenciado toda a confusão.
♍ *** ♊ *** ♏
Durante os últimos três dias, movidos pelo sentimento intenso que partilhavam, Mu e Shaka haviam se encontrado furtivamente pelos arredores do Santuário para trocarem carícias e beijos acalorados como se fossem dois adolescentes apaixonados. Aproveitavam o máximo que podiam os poucos minutos que tinham juntos, pois por conta de suas obrigações como cavaleiros e também para evitar que fossem pegos e gerassem outro escândalo, os encontros eram sempre breves.
Naquela tarde quente, pensando no bem estar do homem que amava e que deveria estar trabalhando sob o sol escaldante, Shaka tivera uma ideia semelhante a do taurino pois preparou para Mu um refrescante suco de abacaxi. Planejara usar a desculpa do suco para ver o ariano sem levantar suspeitas pois depois não teria tempo disponível, já que passaria o restante da tarde auxiliando Marin com os novos aprendizes. Seria um encontro em público e, portanto, não poderiam trocar carícias, mas era muito melhor que não vê-lo.
Entretanto ao descer até Rodório feliz da vida carregando a garrafa térmica com o suco dentro de sua bolsa transversal e louco de ansiedade para encontrar o lemuriano, Shaka viu ao aproximar-se de seu destino Aldebaran sair de dentro de um mercadinho mais arrumado que um pavão e rumar justamente para a praça onde Mu estava.
Na mesma hora o pequeno sorriso no rosto do indiano se desmanchou e ele sentiu vontade de correr e interceptar o brasileiro. Iria dizer-lhe para esquecer o lemuriano de vez, contar que Mu agora estava consigo e que o taurino deveria parar de importuna-lo. Porém sua razão falou mais alto, não podia por tudo a perder por conta de ciúme. Ele e o ariano estavam juntos há tão pouco tempo e nem se quer eram namorados ou coisa do tipo, além disso Mu havia lhe suplicado sigilo para que se preservarem ao máximo de mais fofocas e escândalos.
Não, não faria nenhuma besteira irracional, mas também não conseguiria simplesmente ir embora. Por isso, com todo o cuidado e de forma sorrateira para não ser visto, seguiu Aldebaran e assistiu de longe, escondido atrás de uma parede na esquina, toda a confusão que ele causara, sendo preciso invocar muitos mantras para não aparecer naquela praça e socar a cara do brasileiro.
O que Shaka não esperava é que ao termino da discussão Aldebaran se virasse e viesse justamente em sua direção. Tentando evitar um possível confronto, assim que o brasileiro se aproximou do local em que estava, o indiano caminhou apressado pela rua e entrou no primeiro estabelecimento que encontrou aberto: o botequim onde Milo e Saga ainda conversavam e tomavam cervejas.
O indiano mal havia entrado no local e a voz potente de Gêmeos ecoou de uma das mesas o assustando.
— Shaka? Você aqui?
— Senta aqui com a gente cara. — agora era Milo que falava, acenando para a cadeira vazia do seu lado.
Shaka suspirou fundo e apertou as pálpebras fechadas. Era só o que faltava, agora não podia simplesmente sair dali, o jeito era disfarçar e se enturmar.
Um tanto desgostoso, mas tentando não levantar suspeitas, o virginiano caminhou até a mesa onde estavam os colegas e se sentou no local indicado por Milo.
— Que surpresa te ver aqui! — o escorpiano disse descontraído.
— Surpresa por quê? Não posso frequentar estabelecimentos de entretenimento?
Saga e Milo trocaram olhares e foi a vez do geminiano se manifestar.
— Claro que pode, mas é que... nós nunca te vimos por aqui. — deu de ombros — Não sabia que monges frequentavam bares.
— Se eles quiserem, sim! Qual o problema? Nunca disse que era abstêmio. — Shaka disse com falsa naturalidade, a verdade era que nunca havia pisado os pés naquele lugar.
— Que era o que? — Milo arqueou as sobrancelhas confuso.
— Um bêbado feito vocês. — disse baixinho mas logo se corrigiu limpando a garganta — Digo, nunca disse que não bebia. — engoliu seco — Eu não vim quando vocês estavam, quando não estavam eu já vim... várias vezes. — Buda perdoaria aquela mentira, era por uma boa causa.
A resposta não pareceu convencer muito os colegas, porém logo o clima estranho foi quebrado por Milo que deu um grande sorriso animado ao dar dois tapinhas nas costas de Shaka.
— Ahh... Que bom saber que também gosta de beber uma gelada! Então, já que finalmente nos encontramos no boteco, vai beber uma com a gente pra matar esse calor dos infernos. É por minha conta.
— Ah... Claro, por que não? — Shaka disse meio sem graça.
— GARÇOM, TRAZ UMA TORRE! — Milo gritou para o garçom.
Em poucos minutos havia uma torre de um litro de chopp geladíssimo sobre a mesa e um copo cheio na mão do indiano que, relutante, dava vez ou outra um pequeno gole na bebida amarga esforçando-se para não fazer careta com o gosto horroroso que ela tinha. Shaka queria muito ir embora daquele lugar, o tempo estava correndo e logo não poderia mais encontrar Mu, porém os colegas o envolveram na conversa de tal maneira que simplesmente não sabia como livrar-se deles.
Vendo que não teria jeito e que estava preso ali, o virginiano resolveu aproveitar a oportunidade para assuntar, afinal se havia algo que geminianos e escorpianos sabiam fazer bem era falar, portanto, ninguém melhor que Milo e Saga para lhe deixarem a par de como andavam os mexericos do santuário e qual a repercussão de sua luta com Mu.
— Milo, esqueci de te parabenizar pela vitória no Torneio. — Shaka puxou o assunto assim que encontrou uma brecha no falatório dos dois.
— Ahh, valeu cara. Derrotar o Aiolia foi difícil, mas não impossível.
— Eu estava apostando no Deba, achei que ele ia para a final. — Saga comentou ao tomar uma golada generosa — Mas até que foi fácil derrota-lo.
— Eu também, mas ele estava doido para lutar com o Mu e depois que o carneiro saiu ele ficou meio desmotivado, todo mundo percebeu. — disse Milo.
— Ele ainda não desistiu? — Shaka comentou como quem não quer nada ao fingir tomar mais um gole, mas apenas molhava os lábios extremamente interessado no rumo que a conversa tomava.
— Desistiu nada. O cara tá completamente cego. Entrou em negação de um jeito que só um taurino empacado é capaz. — Saga completou — Ele estava agora a pouco aqui com a gente só esperando dar a hora pra ir lá atazanar o pobre do Mu.
— Deprimente ele se prestar a esse papel. — Shaka não conseguiu segurar o comentário acido.
— Pois é, mas falando no Mu, e aí? Como tá o lance entre vocês? — escorpião perguntou curioso ao encher seu copo vazio e se ajeitar na cadeira.
A pergunta pegou Shaka de surpresa, quase o fazendo se engasgar com a bebida já quente que tentava engolir na marra.
— Que lance? — respondeu com a voz um pouco arranhada e exaltada.
— Ué... A briga de vocês. Mu não sabe perder! É do signo, arianos são muito competitivos. — Milo foi enfático.
— Exatamente. Mas releve Shaka, assim como não sabem perder, também não guardam rancor. — agora era Saga que se intrometia — Logo ele esquece e vocês voltam as boas. Deve ter ficado com ciúmes porque você estava mandando bem, ganhou até do Ikki! Andou tomando uns suplementos?
O virginiano estava perplexo com a habilidade de pressupor absurdos daqueles dois tagarelas, mesmo que não estivessem completamente enganados, afinal havia sim rolado um pequeno desentendimento por ciúmes, mas bem diferente do que eles supunham. Naquele instante, Shaka achou que era bom dar uma explicação melhor para a confusão na arena e acabar de vez com os rumores de uma suposta briga.
— Sobre a vitória contra Fênix não tenho muito o que falar. Andei treinando um pouco mais esses dias e acabei pegando o rapaz desprevenido, só isso. Mas eu estou curioso, é isso que estão dizendo? Que eu e o Mu brigamos? — indagou aos colegas.
— E não foi isso? Algumas pessoas viram o Mu de cara feia e você discutindo... — Saga começou a falar mas foi interrompido pelo indiano.
— As pessoas veem muitas coisas e falam ainda mais com suas línguas de trapo. Lógico que não brigamos.
— Então o que aconteceu? — Milo questionou — Vocês sumiram e ficamos sabendo que a luta toda foi esquisita. Mu não é homem de perder fácil daquele jeito, o cara levou três passividades e ainda foi finalizado com um encostamento. Pensamos que ele ficou puto e levou para o lado pessoal.
Shaka abaixou levemente a cabeça para disfarçar o sorrisinho que surgiu em sua boca. Sim, Mu havia levado para o pessoal e eles nem imaginavam o quanto.
— Mu passou mal por causa do intenso calor. — disse quando voltou a encarar os amigos.
Buda perdoaria essa também, afinal não estava mentindo, quer dizer, não tecnicamente. Tesão também era um tipo de calor.
— Calor? — Saga arqueou uma das sobrancelhas e trocou um olhar com Milo. — Eu esperaria isso do Camus, mas do Mu? Um forjador celestial? Que esquisito.
Shaka respirou fundo. Era por isso que detestava mentiras, sempre precisava de mais para encobri-las. Porém não se abalou e continuou firme ao contar sua versão dos fatos.
— Sim também estranhei na hora, porém me lembrei que ele é de lugar frio, acostumado com as geleiras das montanhas. Parece que ele estava um pouco desidratado, e o sol quente em conjunto com o esforço da luta fez a pressão dele despencar. Quando notei que ele não estava bem, fui atrás para ajuda-lo.
— E por que não foram para a enfermaria? É bem preocupante um Cavaleiro de Ouro passar mal dessa maneira.
Maldito escorpiano e suas perguntas sem fim. Para ganhar tempo, Shaka bebeu na marra mais um gole do chopp quente.
— Orgulho. — falou a primeira baboseira que lhe veio a mente — Como você mesmo disse não é comum nós da elite dourada termos esse tipo de problema. Eu até fiz essa sugestão mas ele não quis, por isso eu o ajudei a chegar em um local mais afastado da movimentação do torneio para descansar, lhe dei água e fiquei ao lado dele para caso precisasse de ajuda. No final nos distraímos conversando e quando nos demos conta o torneio já havia acabado.
Ao terminar seu relato, Shaka podia ver os rostos de Gêmeos e Escorpião cheios de dúvidas. Antes que eles lhe bombardeassem com perguntas e se enrolasse ainda mais, o virginiano se levantou apressado.
— Enfim. Adoraria ficar mais, mas preciso ir embora. Tenho um compromisso em cinco minutos com Marin e os novos aprendizes. — disse ao conferir as horas no relógio de parede próximo da porta principal — A bebida estava ótima. Na próxima sou eu que pago. Até mais rapazes.
Virgem se despediu as pressas e saiu do botequim tão de repente como havia entrado, deixando para traz os colegas sem entender o motivo de sua saída abrupta.
Gêmeos e Escorpião ainda o acompanharam com os olhos por mais alguns instantes antes de encherem mais uma vez os copos na torre de chopp em cima da mesa e retomarem o diálogo.
— Olha, eu sei que escorpião é o signo mais paranoico do zodíaco, mas aí tem! — Milo soltou um suspiro ao ver ao longe, através do vidro da janela, Shaka caminhando apressado na direção do santuário — Você não achou essa conversa do Shaka muito esquisita?
— Achei. Você sabe que eu não sou de fazer mexerico, mas foi bem estranho mesmo.
— Foi o que pensei! Diz que vem aqui direto, mas olha o copo dele... — o escorpiano apontou para onde o virginiano havia deixado o copo — Está cheio. Ele não bebe coisa nenhuma, estava só enrolando a gente para pagar de descolado.
Gêmeos revirou os olhos impaciente.
— Não estou falando disso Milo!
— Ah não?
— Não! Estou falando desse lance com o carneiro. — o geminiano se inclinou sobre a mesa abaixando o tom de voz — Pensa comigo, Mu é ariano e é todo cheio daquela marra de cavaleiro honrado. Ele não dá para trás nem em disputa de bolinha de gude, você acha mesmo que ele deixou o Torneiro por causa de tontura e sol quente?
— Hmmmm verdade. Se fosse assim ele já estaria desmaiado lá na pracinha.
— Exato. Eu não sei... Não vou falar do que não tenho certeza, como disse eu odeio fofoca, mas... — o geminiano se inclinou ainda mais sobre a mesa e sussurrou baixinho — Você não acha que Virgem e Áries passaram muito tempo juntinhos em Jamiel?
Milo estreitou os olhos e deu um sorrisinho sem vergonha para o amigo.
— Acho... E acho também que de besta o carneirinho não tem nem a cara. Se cifre trocado não dói... Debão que fique esperto! O elmo dele logo logo vai começar a pesar...
Saga deu um sorriso cúmplice para o amigo e encheu mais uma vez seu copo, a conversa entre eles estava só começando e nada melhor que um chopp geladinho para molhar a garganta.
***
Grupo no face com as minhas fics — Fics trio ternura
Grupo do Mushakismo, espaço reservado apenas para Mu x Shaka
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