Silêncio nas montanhas
3 Capítulo 2: A Estrada
As aulas começaram e, como esperado, virei a nova e única atração da cidade. Quanto mais eu tentava me afastar desse “show de horrores”, mas era colocada no centro das atenções. Minha avó me apresentou a todas as netas das amigas, certa de que eu faria amizade com alguém. Mal sabia ela que eu não queria criar vínculo algum com aquela cidade. Mas fingi interesse, porque ainda queria descobrir quem era o homem que consertara o celeiro e o que ele sabia sobre a investigação.
O acidente aconteceu antes de chegarmos a Vermont, longe de Maple Hollow. Mas aquele cara sabia de algo. E como fofocas correm rápido, talvez valesse a pena descobrir mais — sem chamar atenção.
Hollow Creek School não fugia muito da arquitetura tradicional da região. Assim como boa parte das casas, era construída parte em tijolos e parte em madeira, sempre pintada de cores claras como branco ou bege. Apesar das turmas minúsculas, os corredores, salas e bibliotecas eram amplos e bem iluminados, com luz amarelada para contrastar com o branco do lado de fora.
A grande mudança foi no currículo "esportivo". Na Flórida, eu fazia parte do grupo de corrida (já que era obrigatório participar de algo esportivo), mas aqui as opções não eram nada animadoras:
Hockey ou patinação. Como se eu tivesse coordenação e já tivesse usado um par de patins de gelo na vida.Curling. Isso era um esporte mesmo?Debate ou xadrez. Sério que consideravam essas opções como esporte? Bom, eu não iria reclamar. Fiz parte do grupo de debate na Flórida e jogava xadrez com a minha mãe desde criança. Nada profissional, mas acho que sobreviveria.— Animada para seu primeiro dia? — Minha avó perguntou pela terceira ou quarta vez naquela manhã enquanto dirigia até a escola.
Não é como se eu quisesse ocupar o estereótipo de adolescente sofredora, mas, honestamente, não havia muito como estar animada vivendo a minha atual situação.
Respirei fundo e tentei responder do melhor jeito possível:
— Bem, é bom mudar às vezes.
Isso era algo que minha mãe sempre dizia quando queria que meu irmão e eu tentássemos algo novo. E valia para tudo: pular de bungee jump, experimentar um refrigerante diferente ou participar de uma atividade em família que nitidamente não era para a gente—como acampar. Mas eu entendia o porquê. Ela só queria evitar que ficássemos presos numa rotina.
Meu pai sempre dizia que se casar com ela foi a maior aventura da vida dele—e que nunca se arrependeu nem por um segundo. Eles eram o casal improvável, sabe? O extrovertido que adorava a agitação da cidade e a introvertida (ou pelo menos era o que as pessoas achavam) que queria experimentar coisas novas o tempo todo.
Perdi a conta de quantas vezes fui forçada a experimentar smoothies diferentes com gosto de terra só porque ela decidiu que nossa alimentação não era saudável o suficiente. No meio disso tudo, ainda encontrava tempo e disposição para ser detetive de homicídios.
Ela parecia se dividir em duas versões distintas, e eu sempre me perguntei se isso não a cansava. Passar o dia sendo a mulher séria e no comando no trabalho e, à noite, inventar jogos malucos para distrair os filhos.
- Falou exatamente como sua mãe. Às vezes acho vocês duas muito parecidas – disse minha avó, com um sorriso nostálgico. – Determinadas, impacientes – ela me cutucou de leve – e resilientes.
- É, ela era sim.
Ela ainda falava da minha mãe como se estivesse aqui. Mas eu já tinha aceitado que não estava mais.
Pelo pigarro da minha avó, percebi que a magoei. Não foi minha intenção. Apenas saiu. O resto do caminho seguimos em silêncio, até a chegada à escola.
— Você deve procurar a Srª Minerva. Ela vai te entregar seu plano de estudos e horários. A secretaria fica logo na entrada. Se quiser, posso ir com você, caso esteja ansiosa.
Ela queria ir junto. Isso a deixaria mais aliviada e, considerando que eu a magoei sem querer, aceitei a barganha.
Claro, vó. – Sorri da melhor forma possível. Queria encontrar um jeito de agradecer por todo o esforço que ela tem feito para me ajudar a seguir em frente. – Vamos, juntas.
Ela sorriu um pouco mais. Isso era suficiente para mim. Nunca me importei com o que os outros pensam, e não seria agora que me incomodaria se dissessem que minha avó me mima demais. Eu já era a forasteira com um passado triste e digno de pena.
Como meu pai dizia: "Se já está no inferno, abraça o capeta." Uma expressão que minha mãe odiava e sempre trocava para "Se já está na chuva, tem que se molhar." Uma pena para ela que a dele fosse muito mais chamativa.
Saí do carro rindo sozinha, e minha avó perguntou:
— Rindo? Isso é novidade. Posso saber o motivo? – disse, colocando a mão no meu ombro.
— Só lembrando de uma das frases infames do meu pai.
— Ah, prefiro nem saber, então. Seu pai tinha um senso de humor... único, para não dizer outra coisa – rimos enquanto caminhávamos até a entrada da escola. – A secretaria deve ser logo aqui. Mas faz tempo que não venho, posso estar enganada.
Procuramos pelos corredores até encontrar a placa da secretaria.
— Posso entrar sozinha? A senhora me espera aqui? – Queria resolver por conta própria, mas gostei da companhia dela até ali.
— Claro, se precisar, estarei aqui fora.
Bati na porta e entrei ao ouvir um "Pode entrar."
— Bom dia, senhora Minerva. Sou Nicole Holloway.
Ela parecia ainda mais velha que minha avó. O escritório não revelava nada da sua personalidade – sem fotos, sem cor, sem vida. Parecia uma repartição pública.
— Olá, senhorita Holloway. Como posso ajudá-la? – Sua voz soava como aquelas gravações de atendimento automático.
— Me disseram para pegar meus horários e o mapa da escola.
— Ah, sim. Mas antes, gostaria de conversar com você. Pode se sentar, por favor.
Apesar do "por favor", não soava como um pedido, e sim uma ordem. Acatei prontamente.
— Vi que se inscreveu na turma de debates. Não sei como era na sua antiga escola, mas aqui levamos essa atividade muito a sério. Não gostaria que alguém entrasse achando que seria uma optativa fácil. Nossa escola tem prêmios em vários concursos, não é apenas para matar o tempo. Me entende?
De onde ela tirou que eu queria matar tempo e que não levaria a sério?
— Senhora Minerva, essa não é minha intenção. Sempre gostei de debates, sociologia e ética. Tive ótimas notas na minha escola na Flórida. Sei que não é um interesse comum entre adolescentes, mas meu pai era psicólogo e minha mãe, detetive. Cresci observando o trabalho deles. Então, de forma alguma acho que seja uma disciplina fácil. Pelo contrário, é uma chance de estar perto de algo que conheço e gosto.
Ela me olhou de cima a baixo, como se estivesse examinando meu passado, e então acenou de leve antes de me entregar alguns papéis.
— Espero que esteja falando a verdade. Temos uma reputação a zelar. Não me decepcione.
Credo. Será que ela trata todos os alunos assim?
Pelo visto, minha expressão ao sair da sala dizia tudo, porque minha avó logo comentou:
— Um doce de pessoa, né? — Ela estendeu o braço, me puxando de leve para perto. — Não liga para ela. Sempre foi assim, desde criança. Estudei com a Minerva, e, para falar a verdade, até os professores tinham medo dela. Acho que foi por isso que a colocaram nesse cargo. Quem, em sã consciência, teria coragem de dizer não a ela?
Por essa eu não esperava. Soltei uma risada mais alta do que deveria, o que nos fez apressar o passo para longe da secretaria.
— Conseguiu ficar na turma de debates? — perguntou minha avó, enquanto caminhávamos até a entrada da escola.
— Consegui, mas foi um tanto… intimidador. O papai ia adorar analisar ela. Pessoa encantadora.
Rimos juntas.
— Verdade, seu pai sempre gostou de ajudar aqueles que ninguém queria ajudar… Era cada paciente que aparecia na clínica! Sua mãe me contava pelo telefone. Mas era isso que eu mais admirava nele. Apesar do humor exótico.
Nossos olhos se encheram de lágrimas ao mesmo tempo. Mas nenhuma de nós deixou que caíssem.
— Agora vá, Nick. O sino já vai tocar.
Dei um passo para o corredor e ouvi sua voz mais uma vez:
— Nick?
Me virei.
— Estou orgulhosa, querida.
Sorri para ela e acenei um tchau antes de seguir em frente.
Alguns alunos riram ao meu redor, mas não me importei. Eles não faziam ideia de quando veriam seus pais ou avós pela última vez. Eu sabia. E precisava aproveitar.
Foi então que ouvi a voz do meu pai ecoando em minha mente:
"Agora você tomou sua decisão. Meus parabéns!"
Fechei os olhos por um instante e vi minha mãe:
"Essa é a Nicole que eu conheço. A vida continua, querida. O show tem que continuar."
Aquele era o momento. Eu aceitei. Aceitei aquilo que não era justo, mas que eu não podia mudar.
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