Silêncio nas montanhas
4 Capítulo 3: Entre Céu e Inferno
— Bom dia, meu nome é Sophie Watson — disse a professora, exibindo um sorriso radiante que pareceu contagiar a sala. — Hoje, pensei em um tema interessante para abrirmos os debates. Vocês têm acompanhado os noticiários? Há um tema sendo bastante discutido ultimamente. Alguém sabe qual?
— Pena de morte — respondeu um garoto loiro sentado no fundo da sala.
— Muito bem, Petter — Sra. Watson sorriu, satisfeita por ver que ao menos um aluno estava atento às notícias.
Na Flórida, eu já acompanhava pouco os noticiários. Nos últimos seis meses, então, menos ainda. Mas depois de ouvir aquela conversa entre minha avó e o homem estranho, tentei prestar mais atenção. Mesmo assim, não encontrei nada relevante. No entanto, lembro de algo nos jornais sobre pena de morte… Willians alguma coisa. Ele havia sido executado e, anos depois, inocentado. Será que era disso que estavam falando?
— Quero que vocês se posicionem a favor ou contra essa medida. Organizem seus argumentos. Em vinte minutos começaremos o debate.
Apesar de ser um assunto polêmico, eu já tinha minha argumentação quase pronta. O caso desse tal Willians era um exemplo perfeito. Como inocentá-lo agora? Seja qual fosse o crime que ele havia cometido – confesso que não prestei muita atenção nisso – nada justificava retirar a vida de outra pessoa como punição.
Independentemente da religião, a pena de morte nunca foi unanimidade. No cristianismo, há quem diga que o direito à vida é inviolável, enquanto outros defendem que a morte seria uma justiça divina. O mesmo acontece com ateus e agnósticos: alguns são contra, pois acreditam na falibilidade do sistema judiciário e na reabilitação; outros a favor, baseando-se na justiça retributiva do Código de Hamurábi. Mas, para mim, os argumentos contra eram claros:
A justiça é falha, e o caso que está sendo debatido na mídia é um exemplo claro disso. Como reverter um erro quando a punição é a morte? Com prisão perpétua, ainda há uma chance de reparação.Mesmo em casos de homicídio, a morte do réu não trará a vítima de volta. Eu mesma não sentiria paz alguma com isso. Apenas mais uma morte, sem sentido.Para mim, a morte é o fim de tudo. Não acredito em céu ou inferno, apenas no vazio. Se não há sofrimento, não há punição. O verdadeiro castigo seria a perda da liberdade.A humanidade distorceu a religião ao longo dos séculos, banalizou a fé, comercializou igrejas e reinterpretou textos sagrados para benefício próprio. Não é como se eu não acreditasse em nada, mas certamente não vejo Deus – seja qual for seu nome – no que as religiões representam hoje. Meu pai costumava dizer: “Se a sua religião te obriga a ser alguém que você não é, então não é uma religião, é uma prisão. Uma prisão que te promete algo que não pode ser provado, em troca de uma vida de negações. Não me parece justo.”
A sala foi dividida basicamente em dois grupos: Contra X A favor. Cada grupo deveria se organizar, elencar seus argumentos e prever as objeções do outro lado. Como sentia falta disso. Como sentia falta dos meus amigos. Como sentia falta da minha vida.
As ideias no meu grupo giravam, em sua maioria, em torno da religião. Nenhuma surpresa. Cidades pequenas sentem a necessidade de pautar tudo em um livro de mais de 3.000 anos.
— Muito bem, acho que já deu tempo de todos terminarem seus rascunhos — disse a professora, trazendo-me de volta ao presente. — Então, quem quer começar expondo sua opinião?
O silêncio se instalou.
— Pois bem, eu começarei.
Ela se levantou, foi para o centro da sala e apoiou-se em uma mesa vazia, de onde podia observar todos nós.
— Willians Barns foi condenado à pena de morte há dez anos por três homicídios duplamente qualificados. Na época, todas as provas apontavam para ele. No entanto, um advogado reabriu o caso e solicitou novas perícias, já que, naquela época, exames de DNA não eram comuns. O resultado foi a absolvição do condenado, mas ele já havia sido executado. Partiremos desse ponto.
Um arrepio percorreu minha espinha. Foster… Eu já havia escutado esse nome antes. Onde?
A sensação era incômoda, como se uma memória esquecida tentasse emergir à força. Mas de onde eu conhecia esse nome? Como um caso de Vermont teria chegado até mim?
Sacudi a cabeça e me concentrei no debate.
— Com a prisão perpétua, por exemplo, um inocente condenado pode ser libertado. Mas, com a pena de morte, não se pode devolver a vida a quem já morreu.
— Belo argumento, senhorita…?
— Holloway. Nicole Holloway. — Apresentei-me e continuei. — A vida não pode ser tratada de forma leviana. Seria ingênuo afirmar que a justiça foi feita apenas porque o condenado morreu.
— Eu discordo — disse Petter, inclinando-se na cadeira. — Se você não defende a pena de morte, então apoia a prisão perpétua como alternativa?
— Sim. Para mim, a pena de morte virou uma válvula de escape.
— Você acha que a morte é uma saída fácil?
— Sim. Ela concede descanso a quem morre.
Ele pareceu genuinamente intrigado.
— Então você não acredita no céu ou no inferno?
Era a típica visão de uma cidade pequena. O bem e o mal, preto e branco. Mas o mundo era feito de nuances.
— Não, não acredito — respondi de forma direta. — Acredito no respeito ao próximo. Mas essa não é a questão agora.
— Ok. Mas você já pensou no custo da prisão perpétua para os cofres públicos? Superlotação nas prisões?
Hum... esse era um bom argumento, realmente a prisão perpétua custava uma fortuna para o Estado. Mas o custo da pena de morte também era bem alto para os cofres públicos. As execuções se transformaram em “shows de vingança” para os familiares, principalmente nas cidades menores.
— Mas segundo os estudos mais recentes, não é uma grande diferença entre os custos da pena de morte para a perpétua. Quanto você acha que um erro como esse custa aos cofres públicos? Quanto vale uma vida? — perguntei, invertendo o jogo – Pude perceber que ele sabia que o meu argumento era válido. Ele parecia um pouco confuso... ou seria ansiedade?
— Ninguém quer perder a vida — ele disse, convicto. Parecia mais uma afirmação pessoal do que um argumento.
— Talvez seja o bem mais valioso para você, mas para um psicopata, a satisfação vem da morte das vítimas. Impedir isso é punição muito pior do que matá-lo.
— Ok, mas suponhamos que Barns tivesse sido condenado à prisão perpétua. Como devolveriam os anos que ele perdeu?
— Não devolveriam. Mas ele estaria vivo para ser inocentado. Como deve ser morrer por algo que não fez?
— Mas ele sempre foi inocente perante Deus!
Ah, a religião de novo.
— E isso garante o quê? — Suspirei. — E se ele fosse adúltero? Homossexual? Ainda teria direito ao céu?
— Você parece odiar Deus.
— Meu problema não é com Deus e sim com a igreja que tem usado a religião para controlar a população, eliminando o livre arbítrio e transformando todos em uma massa de manobra para o interesse da elite. Eu nunca disse que não acreditava em Deus. Mas se Jesus voltasse hoje, vocês o crucificariam de novo, sem dúvidas.
O sinal tocou. Eu me sobressaltei. Quanto tempo havia passado?
— Bem, na próxima aula, continuaremos esse debate. Mas espero a participação de todos. Combinado?
A professora olhou séria para mim e para Petter, como se dissesse “Deixem para brigar fora da minha sala de aula”.
E, pela primeira vez desde que cheguei a Maple Hollow, a escola parecia mais do que uma obrigação — parecia um desafio que eu queria enfrentar.
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