Signatum II - A Gladius de Fogo Renasce
7 Capítulo 6 - Conto de fadas as avessas
Notas iniciais
Nem consegui dar um último olhar para Ayana. Os soldados me cercaram e logo eu estava sendo escoltada para fora da fábrica. Já era noite e as ruas da cidade estavam com movimento discreto. Apenas soldados e poucos comerciantes ficavam de fora dos alojamentos , a maioria de nós já estava trancada e descansando para mais um dia de trabalho forçado no dia seguinte.
Fui direcionada a um carro enorme, uma espécie de furgão, e vi que havia algumas mulheres lá dentro quando cheguei. Percebi que várias tropas faziam sua busca simultaneamente em diversos locais. Mesmo no grupo que deveria estar no dia zero, como chamávamos o dia escalonado para descanso, havia gente recrutada.
Foi pouco tempo depois que um soldado fechou as portas do furgão e nossa viajem em direção ao palácio de Victorius começou. Sem conter a curiosidade, fiquei de pé para poder alcançar as minúsculas janelas de vidro que havia na parte superior da caçamba. Não podiam ser abertas, mas me deixavam ver parte do caminho. Segurando-me como dava, eu observei quando chegamos aos imensos portões da fortaleza em que viva o imperador mais temido da região e sua realeza.
Havia muitos soldados, muitas câmeras e um esquema de segurança que ninguém podia dizer que não era digno de um rei. A visão do palácio era realmente algo memorável. Victorius não só havia escolhido um nome impactante, mas também seu lar era incrível. Nada de porcarias tecnológicas avançadas. Não havia prédio de vidro ou monumentos em realidade virtual. Eu via a minha frente um palácio como os que eu admirava em meus preciosos livros de história antiga. Pilares gigantes em estilo greco-romano sustentavam uma construção fenomenal. Havias esculturas enormes em pedra, palmeiras reais e uma fonte de beleza ímpar na frente da imponente construção. Assim de longe, eu conseguia ver que o palácio era composto de diversos andares, mas a estrutura fundamental e o estilo eram, sem dúvidas, coisas que um imperador desejaria: um verdadeiro palácio para comandar seu reino.
O furgão seguiu direto para um imenso pátio, onde finalmente estacionou. Quando as portas do furgão foram novamente abertas, dois soldados que apontavam suas malditas armas com lasers nos mandaram descer. E assim, nosso pequeno grupo foi conduzido para dentro do palácio de Victorius. Nós caminhamos um pequeno trecho até alcançar uma escadaria na parte, que eu percebi, era lateral do palácio. Ao nosso redor, muitos soldados e servos especiais do palácio olhavam-nos com curiosidade, mas meus olhos estavam apenas presos às belezas do lugar.
Mesmo a noite, eu pude perceber o fino trabalho no mármore das paredes, nas diversas esculturas antigas de inestimável valor. A iluminação, a decoração, tudo era do mais alto padrão de qualidade, apesar da arquitetura antiga do palácio, havia a presença maciça da mais alta tecnologia. Em cada esquina, em cada corredor, havia soldados altamente armados e câmeras de segurança espalhadas por todo o lugar. Havia também scanners na maçaneta de cada porta e sensores de movimento e metais varrendo cada centímetro do lugar. Era a tecnologia disfarçada pelos mármores, véus, quadros e esculturas que tornavam o lugar uma verdadeira fortaleza.
— Esperem aqui. – o soldado da frente que liderava o grupo nos disse assim que alcançamos uma porta enorme na entrada do terceiro pavimento.
O soldado então se postou junto ao outro, atrás do nosso grupo, assim que a porta branca e dourada se abriu e revelou uma linda mulher que sorriu ao nos ver.
— Boa noite, senhoritas. – ela disse, dando um passo para o lado – Podem entrar.
Nós entramos no enorme salão, não mais acompanhadas pelos soldados, e a porta fechou-se sozinha ao final. O salão bem iluminado parecia uma fábrica em miniatura. Isso porque, espalhados pelo espaço gigantesco, estavam diversos grupos de mulheres, como se divididas em equipes. Cada equipe era separada por divisórias feitas em tecido fino e brilhante e combinavam com o uniforme impecavelmente branco que vestiam. Havia máquinas e aparatos diferentes em cada uma das equipes.
A mulher a nossa frente falou em alto bom tom e sua voz revelou-se um veludo líquido.
— Senhoritas. Meu nome é Beth e sou a encarregada chefe do harém do imperador Victorius. Como sabem, uma coleta é feita de tempos em tempos e dessa vez, vocês foram as escolhidas para fazerem parte do seleto grupo de mulheres que honrarão ao nosso rei. Esta noite vocês serão preparadas para que, pela manhã, estejam na presença do imperador. Antes de tudo, precisam saber que todo o lugar é monitorado. O lado leste do andar em que se encontram é exclusivo para as mulheres do rei e aqui não encontrarão soldados. A partir de agora, tenham em mente que seus corpos pertencem a Victorius e que ele não espera menos que a perfeição.
Nessa hora senti uma pontada forte no estômago e uma ânsia de vômito que quase não controlei. As moças ao meu redor choramingaram. Muitas estavam com os olhos secos de tanto chorar. Era duro ouvir que seu corpo não te pertencia mais. Mais duro ainda era ver a calma e o sorriso frio no rosto da mulher que o dizia.
— Amanhã pela manhã – ela continuou – o imperador irá escolher algumas de vocês para se integrarem ao seu harém particular. As que ele rejeitar serão escolhidas pelos soldados de elite que estarão ao lado do grande rei. As que sobrarem serão remanejadas para os aposentos no primeiro piso e estarão a disposição dos soldados do palácio e da realeza. Não tentem fugir. Não tentem fazer nada fora do que lhes forem determinado. Vocês não possuem opções. Desobediência ou transgressão das regras não serão toleradas.
Ao final de seu curto e grosso discurso, a mulher nos direcionou para a parte de trás das equipes, onde havia uma espécie de vestiário aberto. Ali haviam kits preparados que foram entregues a cada uma de nós. Continham toalha, shampoo, sabonete e uma bata branca e lisa apenas.
Com meu kit em mãos, segui para uma das duchas. O banho não foi longo e eu estava entorpecida demais até para estar grata pela água quente. Não conseguia ainda compreender e enormidade da mudança em minha vida. Depois de todos esses anos me mantendo escondida, me mantando camuflada entre as mulheres da região eu não conseguia estar arrependida do motivo pelo qual pus tudo a perder. A cena de Ayana sendo covardemente espancada ainda estava gravada em minha mente como um filme pausado. E a raiva ainda estava aqui comigo. Talvez fosse essa raiva que não estivesse me deixando raciocinar direito.
De cabelos molhados, sem sujeira na pele e vestindo apenas uma bata branca que chegava acima da metade de minhas coxas (graças a droga da minha altura acima da média feminina) eu fui uma das últimas na fila de selecionadas que se formou. Beth, com seu sorriso frio e vestido impecável, voltou a se aproximar. Ela nos dividiu em duplas e, junto com uma loira que parecia uma boneca, fui para uma das cabines.
A partir daí minha noite se transformou num inferno feminino. Eu tive os cabelos massageados com cremes infinitos, minhas axilas, pernas e virilha foram dolorosamente depiladas a laser, juntamente com metade de minha sobrancelha, que agora estava perfeitamente delineada. Os calos das minhas mãos foram suavizados graças aos cremes, massagens e raladores especiais. Minhas unhas dos pés e das mãos acertadas e pintadas e meus dentes receberam uma sessão de clareamento químico. Sim, Victorius jamais olharia para alguém em condições como a minha antes dessa noite infernal.
Eu fiquei assustada com a dedicação das profissionais que eram todas, belíssimas. Elas sabiam que um trabalho mal feito lhes traria represálias e, portanto, capricharam em todas nós. Tudo o que fiz ao longo de todos esses anos tinha acabado de ruir de vez.
Após uma refeição leve e muito bem vinda em meu estômago vazio há horas, nós fomos encaminhadas para dormitórios temporários. A cama, de uma maciez que me era desconhecida. Os lençóis com cheiro de perfume fino. Ao fundo, uma suave música ambiente e a iluminação extremamente suave e envolvente fez meu corpo desligar quase que instantaneamente depois dessas exaustivas horas. Eu só não esperava o que viria no dia seguinte.
...
O sol mal tinha raiado quando Beth veio nos acordar. Após um café da manhã regado de frutas, leite, sucos e pães que só a realeza tinha acesso, nós fomos encaminhadas novamente para o enorme salão, que agora estava repleto de aparatos diferentes e muitas, muitas roupas. Nós fomos encaminhadas para um pequeno grupo de pessoas, cada uma de nós tinha um acompanhamento particular. Depois de me medirem em todas as partes, as mulheres do meu grupo escolheram um vestido que caía em mim como uma luva. Era de um branco puro, rendado e longo. Com sandálias nude de salto alto repletas com pedras e acessórios que combinavam, eu fui montada como se para uma festa de gala. É claro que nunca, jamais sonhei em vestir algo assim, mas, ao contrário de algumas meninas dali, meus olhos não brilhavam com aquilo. Eu não estava feliz com a produção nem as roupas, nem a comida. Tudo o que eu desejava era estar em casa, com meu irmão, a salvo do que meu futuro reservava. Foi a voz de uma das que me arrumava que me trouxe de volta.
— Querida? Está me ouvindo?
— Eu... desculpe. – respondi sem graça por não ter percebido que a mulher ruiva tentava se comunicar comigo.
— Eu perguntei qual o seu nome. – ela disse entre lábios de vermelho tão vivo que chegavam a me cegar.
— Amara. – respondi automaticamente. Se eu tivesse sido esperta, teria dado um nome falso para que ele não fosse sujamente pronunciado pelo imperador.
— Amara... – a mulher testou o som – Sim, é bonita Amara. Não gostaria de ver como você está?
Ao dizer isso uma das outras da equipe puxou um enorme espelho, que me permitiu ver o inacreditável. Eu estava muito bonita, como jamais pensei que pudesse estar. A luz refletia em meu cabelo castanho, revelando um tom de vermelho sutil nos fios extra brilhosos. Eles caíam em um volume controlado de cachos naturais até um pouco abaixo dos ombros. Uma franja grande, jogada para meu lado esquerdo estava lisa como minha raiz e chegava a tentar cachear na ponta, sem muito sucesso. Minha pele parecia um pêssego. Nos olhos, uma maquiagem marcada com tons que íam do chumbo ao branco. As bochechas coradas pelo pó e a boca com um brilho sutil em tom pêssego que combinava com minha pele levemente morena.
— Eu sabia que você iria gostar. – a ruiva disse com orgulho – Você é alta, imponente, com um corpo atlético... Você chama a atenção Amara e espero que seja suficiente para despertar o desejo no senhor. Caso contrário...
— O problema dela são os seios, Catalina! – outra das mulheres que me produziu falou – Eu disse a você que seria um problema.
Colocando as mãos em meus próprios seios sobre o vestido eu me vi perguntando rapidamente:
— O que tem eles?
— Bom... – a ruiva de nome Catalin respondeu com seu entusiasmos diminuindo consideravelmente – o imperador gosta de seios fartos e os seus... bom, são proporcionais ao seu corpo, mas não são o que ele geralmente escolhe.
Então reparei que todas elas realmente tinham um busto acentuado, muito diferente do meu.
— Bom... eu não espero ser escolhida mesmo. – falei voltando a encarar meu reflexo no espelho e fixando meu olhar no espetáculo que estava meu cabelo cacheado.
— Não diga isso! – Catalina falou em tom de repreensão – Você precisa ser escolhida... pro seu próprio bem.
— Então eu espero que Victorius goste de meus olhos castanhos. – falei sem humor enquanto via pelo espelho uma das outras escolhidas que parecia uma verdadeira modelo, com seus seios fartos sob o vestido decotado.
...
Estávamos enfileiradas em uma sala que era muito mais bonita que o salão de beleza em que passei a noite. Cada uma das mulheres escolhidas no dia anterior parecia ter sido abduzida e transformada em uma estátua decorativa. Uma mais linda que a outra e cada vez mais eu percebia que realmente não estava tanto dentro dos padrões delas. Eram em sua maioria de estatura baixa ou mediana, com curvas muito bem delineadas. A maioria com olhos claros e cabelos lisos como seda. Eu era alta, e, fora minhas pernas torneadas que estavam cobertas pelo vestido e um traseiro empinado que podia chamar a atenção, estava muito fora do padrão de beleza daquelas meninas.
Senti minha respiração começar a ficar irregular enquanto uma Beth deslumbrante ditava as regras a nossa frente, uma vez que o imperador estava vindo naquele exato momento escolher quais de nós entraríamos para ser harém particular. Eu lembrei então que só estava aqui por ter atacado um soldado e não verdadeiramente por minha aparência. Aquele comandante negro e gigante chamado Quirino tinha me feito vir aqui de propósito. Ele sabia que eu não fazia o perfil de Victorius e, segundo Beth havia falado, as que sobravam era escolhidas pelos soldados de elite. Eu sabia que ele estaria entre eles.
Minhas entranham reviraram forte quando a porta do salão se abriu para revelar um pequeno grupo de homens. Três deles se destacavam por sua farda mais escura e ausência de armas de grande porte. Eles vinham na frente e reconheci imediatamente o comandante Quirino. Com seu tamanho avantajado e sorriso felino, ele logo me encontrou entre as mulheres e sorriu. O filho da puta sorriu de verdade como se estivesse aprovando o que estava vendo. Canalha.
Mas então a figura que vinha atrás dele foi que prendeu minha atenção. Era Victorius, o grande imperador de nossas terras. Eu, que nunca o tinha visto pessoalmente, tive um choque quando vi a figura imponente que caminhava com firmeza. De altura quase tão grande quanto Quirino, Victorius parecia um príncipe saído dos livros de contos de fada. O cabelo loiro escuro estava penteado primorosamente para trás e tinha um aspecto molhado. Os olhos azuis afiados eram sagazes e ferozes. O nariz reto e um pouco grande o tornava mais altivo e o rosto continha uma boca fina com um sorriso contido. O bastardo era um galã de cinema. A roupa, uma farda branca impecável estava completa com um par de brilhantes sapatos negros. Atrás dele, o resto de sua escolta, esta altamente armada.
Nossa instrução primária era respeitar ao imperador. Manter a cabeça levemente abaixada e nunca o encarar diretamente, nunca dizer nada além do perguntado e nunca, nunca desobedecer suas ordens. Bem, isso e impressionar o cara eram basicamente o que deveríamos fazer.
Senti o coração bater forte de ansiedade quando a voz grave do imperador ressoou pelo salão.
— Sejam muito bem vindas. Eu espero que meus homens as tenham tratado com o respeito que merecem e que minha equipe tenha lhes agradado. – Filho da mãe sem vergonha, pensei. Ele prosseguiu.
— Cada vez mais você supera minhas expectativas, Beth. Todas estão muito bonitas.
— Obrigada, meu senhor. Estão a sua disposição – a vadia falou em sua voz charmosa e angelical.
Victorius então caminhou lentamente para o inicio da fila e, a cada moça, ele pedia que dissesse o nome. Cada uma delas ele olhava como que avaliando uma compra importante, ouvindo atentamente a voz e as respostas que elas, eventualmente, davam as suas perguntas.
— E você, minha querida, como se chama? – ele disse de frente pra mim, a penúltima da fila. Senti seus olhos em meu busto como a mira laser das armas de seus soldados malditos.
— Amara. – respondi firmemente, não deixando a ansiedade me atrapalhar.
— Amara... que belo nome. – ele disse enquanto olhava atentamente para o resto do meu corpo.
— Qual sua idade, Amara? – ele perguntou.
— Vinte e cinco. – respondi secamente.
— Hum... escondeu-se de mim por muito tempo, Amara.
Nessa hora eu o encarei. O filho da puta sabia o que dizia. As mulheres que estavam aqui eram mais novas que eu, algumas mal tinham completado dezoito, e ele sabia que eu tinha me escondido todo esse tempo.
— Eu quase consegui dessa vez também. – falei encarando o par de olhos azuis profundos que pairavam acima de mim e estudavam cada centímetro de meu rosto – Mas um de seus soldados espancou uma amiga indefesa e eu revidei. Estraguei meu disfarce.
Beth, ao meu lado, estava tão tensa que eu podia sentir sua energia. Ela temia minha audácia em encarar o maldito crápula e falar aquelas coisas. A essa altura, eu já tinha me decidido. Eu preferia que ele mandasse me executar de uma vez por insubordinação a ser condenada a essa vida.
Victorius, no entanto, permanecia a calma em pessoa. Era como se ele estivesse me achando divertida em certo nível.
— Aposto que essa foi você quem escolheu, Quirino. – ele disse a seu comandante sem tirar os olhos dos meus.
— Sim, Senhor. – o maldito comandante respondeu e eu senti seu olhar em mim como fogo.
Victorius sorriu e eu vi indecisão em seu olhar. Meus olhos escaparam por um segundo para os de Quirino e eu soube que aquele cara me comeria viva caso Victorius não me escolhesse e eu parasse em suas mão. Pela conversa que tiveram, Victorius não estava disposto a me executar. Eu precisava então escapar do comandante para me manter viva tempo suficiente para escapar deste lugar. Minha mente trabalhou rápido.
— Eu faço algo com minha boca que o imperador deve gostar. – falei voltando a encarar o par de olhos azuis.
Victorius deixou transparecer uma leve surpresa antes de perguntar:
— Verdade? E o que seria?
Sorrindo de maneira indecente para que sua mente imaginasse outras coisas eu finalmente respondi:
— Eu canto.
Victorius sorriu, definitivamente sorriu. Ele me encarou muito profundamente e com um brilho nos olhos que quase me tirou a pose que eu estava.
— Me desculpe, velho amigo, mas Amara é uma peça que eu faço questão de ter em minha coleção.
Meu coração parou por um segundo enquanto eu processava a informação e vi de relance o olhar raivoso de Quirino em minha direção.
— Beth, acredito que Amara será a única direcionada aos meus aposentos quando eu retornar de minha viajem, que será breve. – Victorius anunciou sem nem ao menos checar a última moça.
Antes de sair ele se aproximou de meu ouvido e sussurrou:
— Nesse dia, então, terei o prazer de ouvir sua voz e saber o que mais sua bela boca pode me oferecer.
Victorius saiu da sala apressado e eu fui imediatamente conduzida para outro lugar enquanto os soldados ficavam para trás para escolher dentre as mulheres que foram dispensadas pelo imperador.
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