Signatum II - A Gladius de Fogo Renasce
8 Capítulo 7 - Rastro de Sangue
Notas iniciais
Já fazia horas que Victorius havia saído de minha cela e era como se tivesse levado minha vida com ele. Eu ainda tinha dificuldade até para respirar e não conseguia sustentar o peso de meu próprio corpo. Dessa vez, ele havia retirado muito mais do que de costume e eu sabia que seria porque uma batalha importante se aproximava. Senti minha vida por um fio durante as horas que se passaram.
Simão, um dos comandantes que eram incumbidos de cuidar de mim, assistia ao meu sofrimento com um sorriso nos lábios até que houve um silvo curto que indicava que a porta da cela seria aberta e ele rapidamente se colocou em posição de defesa, com sua pistola moderna apontada para o peito do intruso.
– Abaixa isso, Simão. – a voz grave e com tom irritado do outro comandante soou pela pequena sala.
O outro soldado abaixou a arma e a devolveu ao coldre debaixo do blazer.
– O que faz aqui? Você não tinha que estar na seleção das concubinas? – Simão perguntou voltando sua atenção para seu companheiro, que era outro dos homens de confiança de Victorius que cuidava de mim.
– Parece que ele foi rápido dessa vez. Acabou por escolher uma das vadias e dispensou as outras. – Quirino falou enquanto me olhava atentamente.
– Escolheu apenas uma? Isso é inédito. – Simão falou – Como ela é?
– Ela é... diferente. – O soldado negro falou ainda com um tom amargo.
– Não é a vadia que você recrutou, ou é? – Simão pareceu divertido.
Quirino lhe lançou um olhar tão duro que foi a resposta que o outro precisava. Mudando de assunto, o comandante irritado indagou:
– Ele está mal. Não acha que devemos leva-lo para a ala hospitalar para Frank olhá-lo?
Isso era comigo. Bem nessa hora eu tive um acesso de tosse forte e sangue saiu da minha boca para todo o chão ao meu redor.
– Porra! – Quirino exclamou chegando para trás para não ter sua farda respingada de sangue – Vamos leva-lo logo! Se ele morrer, nós estamos fudidos.
– Não devemos removê-lo a essa hora do dia, você sabe! Vamos trazer Frank pra cá. – Simão falou olhando com nojo para o que saíra de minha boca.
– É? E você quer correr o risco de Frank não poder salva-lo aqui? E se precisar do aparato médico? Olha pra ele! Está morrendo! E se ele morre, nós morremos juntos porque Victorius vai nos executar sem pensar duas vezes.
Simão me olhou com ainda mais ódio e teve que concordar. Em seguida, senti os dois brutamontes se segurarem em de cada lado e, sentindo o mundo girar, eu fui arrastado por eles para fora da minha cela perpétua. Eram raríssimas as vezes em que eu saía e nunca era durante as horas do dia. Apenas uma vez por semana eu era remanejado para a cela ao lado para um banho de sol por duas horas e logo retornava a minha prisão sem acesso ao exterior. Como um rato de laboratório, eu só sabia se era dia ou noite pelas luzes que eles mantinham acesas ou apagadas a cada doze horas para manter meu relógio biológico minimamente regulado.
Eu fui arrastado pelo longo corredor e cada passo dos soldados era o inferno de dor em minhas entranhas. As feridas profundas causadas por Victorius com a espada não estavam cicatrizando e eu estava realmente fudido como nunca antes.
Eles caminhavam rápido, com passos sincronizados. Meus pés arrastavam no piso branco e liso e rastros de sangue ficavam atrás de mim. Eu sabia que a ala hospitalar era no segundo piso e eles teriam que me carregar até lá. Apesar de toda a tecnologia deles, Victorius havia sido incisivo, ao que parece, na fidelidade da arquitetura de seu palácio e esse era um grande motivo de reclamação de seus subordinados pelo o que eu podia captar. Não haviam meio rápidos e automatizados de locomoção entre os andares, apenas grandes e odiadas escadas.
É claro que eles não me levariam pelas áreas comuns, já que eu era uma coisa guardada praticamente a sete chaves pelo imperador, mas eles tinham seus caminhos secretos. E foi passando pela escadaria do terceiro piso que senti um cheiro maravilhoso e, aparentemente, o olfato era o único sentido que eu ainda mantinha intacto. Eram muitos odores misturados, na verdade, mas o que estava mais próximo me chamou muito a atenção. Era como frutas vermelhas, flores exóticas e o frescor do mar misturados.
Senti os soldados pararem e um ofego feminino de surpresa. Bom, isso era uma coisa boa porque eu não via uma mulher há meses, desde quando fiz minha última bateria de testes clínicos. Pelo menos seu cheiro eu conseguia sentir e era bom.
– O que faz aqui, mulher? – Simão perguntou exaltado, claramente preocupado em que a mulher me visse.
Foi uma bela voz que respondeu, firme, embora nervosa, não sei se pela presença dos soldado ou pela cena grotesca a sua frente.
– Esta é minha parte do palácio, senhores. Eu sugiro que mantenham seus soldados feridos longe das mulheres do rei.
– Não se preocupe Beth, nós entendemos quando temos uma intocada diante de nós. – a voz de Quirino soou forte, embora tivesse algo nela que não identifiquei. Minha mente estava muito focada naquele cheiro maravilhoso que eu estava permitindo que penetrasse minha mente para ter algo bom em que me agarrar.
– Chame suas escravas, ordene para que limpem esta bagunça. – Simão ordenou, provavelmente se referindo ao meu rastro de sangue pelo chão – O imperador ainda se encontra no palácio e se ele vir esta sujeira, alguém vai pagar caro.
Um ofego de Beth me fez perceber o pavor que sentiu ao ouvir as palavras do soldado.
– Amara, siga até a porta no final deste corredor. Vá direto pra lá e me aguarde.
Então os passos da mulher se afastaram rapidamente e os soldados retomaram sua descida comigo. O surpreendente foi que, mesmo depois da partida de Beth, o cheiro de frutas vermelhas, flores e maresia permanecia ali. Então ela não era a fonte desse odor maravilhoso que me inundava.
– Vai, mulher. – Simão falou para a tal da Amara que continuava ali, inundando meus sentidos com sua fragrância.
Senti um aperto do lado de Quirino em meu braço e senti que o corpo dele inclinava sutilmente em direção à mulher que devia ainda estar de pé perto da escadaria. Depois disso segui carregado para baixo e aquele cheiro intenso foi a única coisa que permaneceu comigo quando eu finalmente sucumbi a escuridão.
...
Saí da sala escoltada por Beth e ainda não tinha acreditado no que tinha se passado ali dentro. Alívio momentâneo se espalhou por meu corpo, mas que durou apenas o tempo necessário para eu lembrar das palavras afiadas de Victorius para mim.
– Você tem muita sorte, garota. – a voz de Beth ressoou alta ao meu lado enquanto caminhávamos para sei lá onde – Faz tempo que não vejo Victorius tão intrigado com alguém. Mas não pense que está a salvo de represálias e não tente sair da linha. Você não é diferente, não é especial e não será nada além de mais uma das mulheres que ele terá em sua cama. Não irei poupar você se me desobedecer novamente.
– Beth, me desculpe, eu não quis desrespeita-la. – falei para a mulher que caminhava com fluidez – Eu só... me protegi.
Ela então parou de andar e eu parei junto. Ela me encarou com olhos grandes e tão belamente verdes que brilhavam intensos.
– Você acha que ser escolhida por ele é algum tipo de salvação? – ela perguntou incrédula.
– Você sabe como eu vim parar aqui? – perguntei a ela.
– Eu soube. – ela disse ainda me encarando.
– Então imagina o que eu pensei quando vi o comandante lá me esperando. Eu fiz o que tinha que fazer. – falei determinada.
Beth riu brevemente antes de falar.
– Acho que você realmente não faz idéia de onde se meteu. Seria melhor você ter sido colhida por Quirino do que escolher passar uma noite com o imperador.
Ela retomou a caminhada e foi me mostrando o que cada lugar era e até onde eram meus limites nessa prisão de mármore. Depois disso eu fui direcionada a uma enorme sala que parecia um camarim antigo. Ali havia tudo quanto é tipo e estilo de vestimenta, maquiagem e tudo mais que poderia existir no universo feminino. Tudo do mais alto padrão de qualidade. Beth me deu um tempo curto para que eu trocasse minha roupa, pois não havia necessidade de eu estar com esse vestido de gala se Victorius já havia feito sua escolha.
Não importava a escolha que eu fizesse ali dentro, qualquer peça que eu vestisse seria uma bela roupa. As mulheres de Victorius eram obrigadas a estarem sempre prontas, arrumadass e impecáveis para seu senhor.
Colocando um dos vestidos mais simples e confortáveis que pude achar na imensidão de roupas e brilho, eu saí para que Beth continuasse a me explicar como eram as regras do lugar.
– Aqui é o limite até onde você pode chegar. Como você vê, não há soldados aqui nos vigiando, mas não se engane, eles sempre estão nos monitorando e se você sair dos limites, será encontrada em pouco tempo e será devidamente castigada.
Nessa hora nós vimos algo horrível. Do alto da escadaria, no limite da ala feminina, vinham dois soldados enormes carregando um homem muito ferido. Um dos soldados era Quirino, que eu reconheci imediatamente. Esse homem realmente me perseguia sem querer... fodido destino.
Apesar de seu olhar fixo em mim, foi no homem que carregavam que minha atenção se focou. Estava muito mal, com suas roupas rasgadas e dos rasgos escorria sangue tão vermelho e vivo que encharcava suas roupas e pingava no chão. O cabelo estava molhado de suor. Era negro como a noite mais escura e caía em madeixas bem formadas que cobriam-lhe a face, que estava voltada para baixo. Ele parecia esgotado ao máximo e não conseguia sustentar o peso do próprio corpo, tendo que ser carregado por aqueles soldados. Em seus pulsos, vi marcas que significavam que estivera preso por um tempo e ele me parecia magro demais para sua altura.
Naquele momento, eu senti algo que nunca senti antes na vida. No fundo da minha alma eu senti a energia vital daquele homem e soube que era especial, diferente. Eu não sabia o que me fazia ter tanta certeza disso, mas eu sentia forte e claro como o sol. Embora estivesse fatalmente debilitado, eu sentia a força de seu espírito ao redor dele. Fiquei muda pelo sentimento tão arrebatador. Lembrou-me vagamente do sentimento que tive ao ver Victorius mais cedo. Mas apenas vagamente.
– O que faz aqui, mulher? – Simão perguntou em tom exasperado e eu sabia que ele não queria que víssemos o homem que carregava.
– Esta é minha parte do palácio, senhores. Eu sugiro que mantenham seus soldados feridos longe das mulheres do rei. – Beth respondeu em seu tom controlado com a voz angelical de sempre.
– Não se preocupe Beth, nós entendemos quando temos uma intocada diante de nós. – O comandante Quirino falou para ela enquanto deixava seus olhos percorrerem meu rosto com ferocidade. Ele sabia que eu tinha feito tudo de propósito para chamar a atenção do imperador e fugir de suas garras. Eu só esperava que o termo “intocada” fosse realmente levado a sério por ele.
– Chame suas escravas, ordene para que limpem esta bagunça. – Simão ordenou referindo-se rastro de sangue que manchava o chão – O imperador ainda se encontra no palácio e se ele vir esta sujeira, alguém vai pagar caro.
Beth ofegou e eu soube que essa possibilidade lhe aterrorizava a alma.
– Amara, siga até a porta no final deste corredor. Vá direto pra lá e me aguarde. – ela ordenou enquanto já se afastava a procura de alguém para limpar o rastro vermelho.
Eu fui incapaz de seguir imediatamente a ordem de Beth e fiquei uns instantes encarando o dono de tão imponente presença.
– Vai, mulher. – Simão falou para mim antes de retomar sua caminhada.
Sentindo os olhos dos soldados em mim, eu lentamente me afastei, voltando pelo caminho que tinha feito com Beth momentos antes. Parei apenas uns poucos metros depois e ouvi atentamente os passos deles se afastarem. Provavelmente estavam indo levar o ferido para um setor de cura... ou estavam indo executá-lo. Embora isso me parecesse improvável, pois, se eles queriam executá-lo, porque se darem ao trabalho de arrastar seu corpo por aí?
Sem conter minha curiosidade a respeito do estranho homem eu fiz a coisa menos sensata de todas, que foi seguir os rastros de sangue pelas escadas. Eu julguei que poderia ver de onde ele tinha vindo e, talvez, descobrir alguma coisa de valor para ajudar aos rebeldes.
Retirando os sapatos de saltos médios e barulhentos, eu os segurei na mão enquanto seguia rapidamente pelas escadas, seguindo os constantes pingos vermelhos pelo chão branco. Eu caminhava de modo que, através das câmeras, pareceria que eu estava perdida, olhando ao redor e fingindo que estava assustada. Eu sabia que logo algum guarda chegaria, mas contava que pudesse chegar a algo informativo antes disso.
Os pingos me fizeram subir um lance de escadas e caminhar por alguns corredores estreitos que me pareceram rotas de fuga não convencionais pelo palácio. Claramente esses soldados não queriam que aquele homem fosse visto aqui dentro.
Cheguei a beira de mais um lance de escadas duplo que me levou até o quarto pavimento. Não havia guardas ali então segui as manchas que pareciam um pouco maiores aqui. Segui por dois corredores curtos antes de chegar a um longo corredor vazio. A primeira coisa que reparei naquele lugar foi que ali não havia câmeras de segurança, como as que tinham espalhadas por todo o palácio. Estranho. Vi que havia portas no final deste corredor que eram diferentes das demais portas que eu tinha visto por aqui até então. Eram portas de metal que pareciam pesadas demais para serem de um quarto comum. A porta maior ficava exatamente de frente para o corredor e tinha uma pequena fresta de vidro espesso que me permitia enxergar o interior.
Olhando para baixo, vi que era daquela porta que as gotas de sangue iniciavam. A porta não tinha maçaneta. Havia um sistema no centro da porta. Um globo que parecia de acrílico fosco e que brilhava com uma suave luz branca e tinha um pequeno visor acima. Quando encostei minha mão no globo, ele ficou vermelho e havia a inscrição “acesso negado” no painel. Ótimo, um scanner de mão completo.
Frustrada eu olhei pela pequena fresta de vidro pra o interior e tive que levantar os pés pra conseguir ver. Era definitivamente uma cela e eu prendi a respiração quando vi a quantidade de sangue que tinha nela. Havia um conjunto de quatro correntes que saíam das paredes e que estavam jogadas ao chão, manchadas também pelo sangue abundante.
– O que está fazendo aqui? – uma grave voz veio de trás, do inicio do corredor, e eu virei assustada.
Um soldado apontava sua arma a laser em minha direção e eu senti meu coração parar.
– Eu... eu... – gaguejei um pouco para dar a sensação de estar ainda mais assustada e perdida – Eu estou perdida. Estava com a senhorita Beth nas escadas e ela teve que se retirar com urgência e... eu acho que perdi o rumo. Aqui é grande demais.
O soldado me olhou com cara de poucos amigos, mas não sabia se tinha caído na minha história ou não.
– Você pode me ajudar a retornar ao harém? Era para eu estar lá. – falei fingindo inocência.
– Ao harém? Você é uma das intocadas? – o homem perguntou baixando ligeiramente sua arma.
– O grande imperador escolheu-me hoje pela manhã. – falei baixando a cabeça. Eu sabia eu o medo de represália por molestar uma intocada era maior que tudo nesses homens.
– Venha, siga-me. – ele disse com a voz ríspida.
Imediatamente, mais quatro soldados fortemente armados surgiram, mas o primeiro soldado tratou de explicar o caso. Em poucos minutos estava de volta ao terceiro pavimento e eu precisava chegar até a sala onde Beth havia pedido para que eu fosse.
– Obrigada. – falei para o soldado.
– Você pensa que me engana com essa sua história? – ele perguntou me olhando de cima a baixo – Só está viva por ser uma intocada. Não tente explorar o palácio novamente se não quiser ser morta.
Engoli seco sua afirmação e, sem mais, segui para a sala onde uma Beth furiosa me aguardava.
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