Signatum II - A Gladius de Fogo Renasce
2 Capítulo 1 - Paraíso Violado
Notas iniciais
Senti o gosto do whisky em minha garganta e logo o calor proporcionado pela bebida castanho amarelada que alcançou meu estômago. A música pulsava alto em meus ouvidos e a multidão estava agitada com a chegada da estrela principal da noite. Eu não podia dizer que meus olhos não gostaram da visão da bela loira que caminhava confiante pelo palco ou pelo jeito que seus olhos brilharam levemente quando encontraram os meus. Era um efeito que eu causava nos mortais... fêmeas ou não.
Ela dançou, despindo-se lentamente no decorrer da música, e sua performance foi excelente. Eu sabia que a loira de seios fartos ganhava a vida dançando e que deixava os homens que frequentavam esta boate um pouco mais pobres a cada apresentação que fazia. Ela era poderosa e sabia disso.
Quase trinta minutos depois, a música mudou e o palco foi preenchido com diferentes mulheres que faziam um número coletivo. Eu segui com o olhar a loira que rumou para seu camarim e também estava ciente de quando ela retornou e caminhou diretamente em minha direção. Não foi uma surpresa. Mesmo nesse ambiente cheio de gente e com uma iluminação propositalmente não muito eficaz ela tinha percebido meu olhar e eu sabia que era questão de pouco tempo até que chegasse a mim.
– Você... é a primeira vez que eu vejo por aqui. – ela disse em uma voz sensual e rouca enquanto assinalava para o barman que trouxesse sua bebida.
O perfume era doce, agressivo, e combinava com seu olhar verde felino.
– Tenho certeza de que reconheceria você em qualquer lugar. – ela continuou – A propósito, me chamo Ingrid.
Lentamente girei meu corpo em sua direção, captando seu olhar com o meu. Vi o pulso dela acelerar através da artéria em seu pescoço esguio e a pulsação aumentou ainda mais quando sorri de banda.
– Gabriel. – falei, deixando meu olhar cair para seu decote.
Ingrid sorriu e eu sabia o que esta noite na Terra me reservava.
...
Sobrevoei os campos dos domínios de Miguel com um sorriso no rosto. Desde quando recuperei minhas asas, voar passou a ser uma atividade muito apreciada e da qual eu desfrutava a cada segundo.
Ouvi o farfalhar das asas dos anjos em duelo abaixo de mim e o tilintar das espadas se chocando durante os treinamentos de batalhas que serviam para aperfeiçoar os guerreiros de Miguel. Esses mesmos rostos que observavam minha suave aterrisagem foram os mesmo que, tempos atrás, tentaram me impedir de andar pelos gramados do Paraíso. Uma vez, quando eu era mortal, seu General me carregou em seus braços até aqui.
Alguns poucos pararam de duelar para me observar passar. Era a primeira vez que eu entrava nos domínios de Miguel desde aquela vez. Estive tão ocupada nos últimas semanas... aliás, nem mesmo sei se se passaram semanas, meses ou anos desde quando retornei e assumi o lugar do Arcanjo Uriel. Com as bênçãos dos três Arcanjos restantes, eu passei a liderar os Anjos da Guarda, aqueles responsáveis por guiar e ajudar aos humanos, os anjos mais próximos dos mortais.
No início foi difícil. Assumir ao lugar de um Arcanjo não é tarefa fácil, especialmente no tocante aos demais anjos. Mesmo com o anúncio feito por Miguel e Rafael, eu sabia que haveria muita resistência de alguns em aceitar esta mudança na liderança da Casta. E realmente houve. Mas, com o passar do tempo, eu descobri em alguns irmãos o desejo de seguir em frente, de seguir com a tarefa que lhes foi concedida. E eu recebi apoio e força para continuar o trabalho de Uriel. Depois de tanto tempo e finalmente me senti tranquila e segura o suficiente para deixar meu posto por algumas horas e não poderia ir a nenhum outro lugar no Paraíso, senão para junto de Miguel.
Eu o vi de longe, enquanto ainda estava deslizando no ar, e pousei distante dele apenas alguns metros. A minha volta, diversas batalhas se desenrolavam e os Anjos Guerreiros treinavam enquanto seu General os observava e corrigia seus erros.
– E essa é uma visita inesperada. – Miguel falou sem olhar para trás. Sua voz, uma carícia em minha pele. Eu podia sentir seu sorriso brincando em seus lábios.
– Você me abandonou por muito tempo, Arcanjo. – falei enquanto me aproximava de seu corpo forte e quente. Eu podia sentir sua energia mesmo de longe, o calor de Miguel que vinha até mim antes de qualquer outro sentido meu perceber sua presença.
O Arcanjo virou lentamente, desviando sua atenção da luta que antes o entretinha. Eram semanas sem vê-lo, mas pareciam apenas alguns poucos minutos. Sua pele, ainda aquele dourado acolhedor, seu corpo ainda aquela estrutura sólida como pedra. Os olhos, o dourado quente e íntimo em minha direção, aquecendo minha alma. Eu sabia que apenas algo estava diferente em Miguel e isso não estava à mostra. Havia as marcas da última batalha que ele travou... a batalha contra ele mesmo. Sob a armadura de guerreiro, na pele que cobria seu peito, havia sete marcas novas, cada uma delas sendo um pecado que ele cometeu.
Aproximei-me devagar e parei a poucos centímetros do Arcanjo, que imediatamente deslizou a mão pela minha cintura e me puxou para mais perto de si, em um abraço carinhoso e íntimo. Eu não me importei com os olhares, com os sussurros ou com nada mais a minha volta. Só o que eu via era Miguel.
– Parece que eu atrapalho o treinamento dos seus discípulos. – falei em tom baixo e divertido.
Os olhos dourados brilhando tão perto que me faziam perder o ar de meus pulmões.
– Eu não os posso culpar. Também perderia a concentração na batalha se você aparecesse ao meu lado.
Sorri diante de suas palavras e, quando dei por mim, estávamos voando para longe do campo de batalhas e aterrissando minutos depois em frente à morada do General dos Exércitos Celestiais. Meus pés mal tocaram o chão e já senti o corpo de Miguel no meu. Seu calor, sua boca e mãos em mim de um jeito possessivo e urgente. Foi aí que percebi quanto tempo estávamos separados um do outro.
Foi muito tempo depois que ele me permitiu falar e eu quase não consegui, com tanta adrenalina correndo por minhas veias.
– Senti sua falta. – Ele disse, enquanto enrolava uma mecha do meu cabelo em seus dedos.
– Eu também. – respondi sorrindo – Eu não pude mais esperar para ver você.
– Eu queria que você se estabelecesse no Refúgio das Pedras. Eu sei o quanto de resistência você enfrentaria no começo e achei que minha presença fosse atrapalhar ainda mais. – ele disse me olhando profundamente.
– Eu sei... e aprecio isso. – Falei enquanto o beijava suavemente nos lábios.
– Rafael disse que os anjos de sua casta estão muito orgulhosos de você. Todos sabem o quão especial você é. – Miguel falou com doçura.
Senti alegria no coração. Meus irmãos e colegas da Casta de Rafael, onde eu pertencia antes de tudo mudar, estariam sempre em lugar especial do meu coração.
– E Gabriel, tem notícias de suas Terras? – perguntei, relembrando daqueles cínicos olhos azuis do mais misterioso dos Arcanjos.
– Não. Eu tenho meus guerreiros espalhados por todas as castas, protegendo todos os cantos do Paraíso, mas nem mesmo eles sabem onde meu irmão se encontra. Gabriel sempre foi um mistério para nós. Mas eu acredito que esteja em mais uma de suas aventuras terrenas. Meu irmão sempre foi muito inclinado aos prazeres da carne e sempre que ele some, pode apostar que está em algum canto da Terra.
Franzi o cenho. Gabriel em absolutamente nada se parecia com um anjo... ainda mais um Arcanjo! Era arrogante, desinteressado e totalmente diferente de seus irmãos. Gabriel tinha grande poder, mas era totalmente alheio à sua tarefa como um guia para a Humanidade.
Senti os dedos de Miguel passearem pela minha sombrancelha, suavizando minha expressão.
– O que foi? – ele perguntou.
– Nada. É que Gabriel me intriga, é só. – respondi abraçando o corpo musculoso e treinado do meu Arcanjo.
– Ele intriga a todos nós.
Foi essa a última frase que ouvi de Miguel antes dele voltar a reivindicar minha boca com a sua. Foi por apenas um minuto de paz que senti seu gosto, pois ouvi um de seus guerreiros correr em nossa direção.
Miguel ficou tenso; seu corpo automaticamente em estado de alerta.
– SENHOR! ESTAMOS SENDO ATACADOS!
O guerreiro rapidamente ajudou mais dois de seus irmãos a carregarem o corpo de um anjo até nós. Era um jovem guerreiro que estava com sangue por todo o corpo devido a profundos cortes em sua carne. As asas, antes tão lindas, estavam quebras e retorcidas em suas costas.
– O que aconteceu? – Miguel perguntou ao mesmo tempo em que vi o brilho dourada de sua Gladius surgir.
– Um dos príncipes, senhor... — o jovem anjo quebrado disse com dificuldade depois de tomar uma profunda e dolorosa respiração – Ele surgiu no templo de Uriel e atacou a todos.
Meu corpo enrijeceu. O ar sumiu de meus pulmões.
– Deixem-no em um lugar seguro e convoquem todos para o Refúgio das Pedras. Avisem Rafael.
Essas foram as palavras que Miguel pronunciou instantes antes de desaparecer no ar em um brilho dourados de pura energia. Ele estava indo em direção ao Refúgio das Pedras e, sem pensar em nada mais, eu o segui.
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