Signatum II - A Gladius de Fogo Renasce
3 Capítulo 2 - Inferno - Céu - Inferno
Notas iniciais
Eu estava diante da metade infernal do portal que unia Céu e Inferno, portal que sempre fora protegido por Lúcifer, mas que agora estava desguarnecido. Olhando de longe, parecia nada mais que uma pedra grande, que um dia fora partida ao meio, mas, chegando perto, dava para sentir o poder que emanava dela.
A outra metade estava no Paraíso e somente sangue de sensitivos alfas podiam conectar as duas partes. Eu não era um sensitivo alfa, é claro, mas eu tinha o suficiente em minha espada para fazer um estrago. Não podia abrir o portal totalmente, já que isso requereria que outro sensitivo alfa derramasse seu sangue sagrado na outra metade, mas eu tinha muito sangue de Melanie comigo e muita força em minha alma. Com o assassinato dos demais Príncipes do Inferno, eu detinha imensurável poder.
Foi canalizando este poder que eu derramei o sangue poderoso da pequena anja sobre a pedra sagrada e havia sangue e poder suficientes para permitir minha saída do Inferno. Mas eu não estava indo à Terra, é claro que não... com esse poder reunido em mim eu poderia conseguir muito mais.
Uma explosão de energia e minhas moléculas estavam se desmaterializando para dentro do portal. No instante seguinte eu estava de pé em uma sala enorme, cheia de objetos entulhados em uma ordem misteriosa. Parecia a porra de um museu, com estátuas em mármore e objetos visivelmente feitos por mortais. Então aqui era a morada do Arcanjo Uriel, aquele que governava os Anjos da Guarda dos mortais. Era ele quem, uma vez, teve a guarda da outra metade do portal.
Caminhando com passos firmes segui em direção à saída. Eu destruiria o maior numero possíveis de seres celestiais até que os Arcanjos chegassem, o que não levaria muito tempo. Portanto, eu precisava correr... era muito sangue de anjo para eu saborear antes de enfrentar quem realmente eu queria matar.
...
Eu não conseguia acompanhar Miguel de maneira alguma. O rastro dourado há muito tinha se dissipado e apenas o seu poder e um traço ínfimo do seu perfume eram o que eu conseguia sentir no ar. Os músculos das minhas costas gritavam, tamanho esforço eu fazia ao bater minhas asas o mais rápido que conseguia. A respiração difícil pelo esforço e o coração apertado. Minha mente ainda não tinha conseguido processar a informação que o pupilo de Miguel havia trazido.
Eu levei o parecia uma eternidade até ver a mudança no ambiente que indicava que eu acabara de chegar ao Refúgio das Pedras. O cheiro de sangue celestial me atingiu juntamente com o odor de enxofre do Inferno, um cheiro que ainda me trazia arrepios na pele pela recordação. Então eu vi o cenário errado abaixo de mim. Não havia somente as pedras cinza e arredondadas de beleza infinita, havia sangue, havia corpos de anjos ao longo de todo o refúgio. E havia aquela presença, que me abalava a alma.
Então um flash de luz branco, dourado e negro cruzou o ar e ouvi o estrondo da luta que se desenrolava acima de mim. Era Migue, Rafael e...
– Semjaza!!! – exclamei atônita.
Eu não podia parar para processar essa informação, não dava tempo, havia anjos precisando de minha ajuda e eu iria ajudá-los.
Voando para a área onde os celestiais estavam, havia um verdadeiro caos e um banho de sangue. Muitos carregavam seus irmãos mortos e feridos nos braços, havia choro, desespero e pânico. Vi quando as tropas dos guerreiros de Miguel chegaram e tentaram se juntar à luta que decorria entre os Arcanjos e o Príncipe do Inferno, mas era como se aquela batalha fosse intocada. Havia uma energia os cercando, um campo de força invisível que os guerreiros não conseguiam ultrapassar, por mais que tentassem.
– CORRAM! CONVOQUEM OS ANJOS DE RAFAEL! PRECISAMOS CURAR OS QUE ESTÃO FERIDOS! – eu gritei para os que estavam a minha volta. Somente os anjos da cura poderiam cuidar de tantos irmãos.
Enviei os mensageiros e disse para que buscassem os Elementais, os anjos da casta de Gabriel, o único Arcanjo que ainda não estava na batalha. Seus anjos detinham o grande poder de controlar vento, a terra, o fogo e o gelo e seriam de grande ajuda contra o inimigo. Juntamente com os guerreiros de Miguel, eram os elementais quem lutavam melhor nossas batalhas.
Eu acudi o máximo de anjos que pude, transferindo parte de minha energia vital para eles acelerarem o processo de cura de seus corpos. Muitos, no entanto, estavam mortos, condenados à morte verdadeira do corpo físico e espiritual... eles haviam retornado ao Criador.
Uma grande explosão atingiu a todos os anjos e nós fomos arrastados para longe da luta, arrastados pelas pedras e pelo ar. Caos era tudo o que eu via e ouvia e não havia nada que eu pudesse fazer para aliviar a dor de tantos irmãos ao mesmo tempo. Então um jato de luz branca passou perto de mim e atingiu uma enorme pedra, que se esmigalhou em incontáveis pedaços. Voei apressada para ver o corpo de Rafael banhado em sangue, respirando com dificuldade no meio dos pedaços de rocha.
Eu o puxei para cima com esforço e prendi uma exclamação. Rafael estava derrotado. Seu corpo rasgado e quebrado em vários lugares e a sua Gladius sagrada jazia longe, a metros de distância.
Sem pensar em nada, canalizei toda minha energia para seu corpo danificado. Eu precisava curá-lo.
– Não! – ele disse entre tosses dolorosas – Você precisa ajudar Miguel.
– Eu não tenho o poder para isso, mas você tem! – respondi com clareza, mantendo a calma o máximo possível – Você precisa lutar com ele.
– Meu corpo está se recuperando, Melanie – Rafael disse enquanto tomava grande bocados de ar – Você assumiu o lugar de um Arcanjo e precisa dominar este poder para ajudar na batalha. Semjaza está mais poderoso que nunca, com as essências dos demais príncipes dentro de si... nem Miguel pode detê-lo sozinho.
Assim que Rafael terminou de falar ouvi o grito do meu arcanjo no ar. Olhei para a batalha, agora mais próxima, e vi a espada negra cravada em seu corpo.
– NÃO!! – gritei em desespero.
Sentindo uma força além de todas que já senti, explodi em direção à Semjaza de um jeito que não sabia que era capaz. Mentalizei minha Gladius e senti um peso na palma da mão que apertei com toda a força que eu tinha. Aquele aperto, de alguma forma, fez minha força aumentar ainda mais e eu passei pela barreira que afastava aos demais anjos. Cortei o campo invisível com a espada sagrada e fui direto para o demônio, que sorria doentiamente enquanto sua espada negra fazia mais que estragos físicos em Miguel.
Eu senti minha lâmina atravessar sua carne podre com dificuldade, cortando os músculos da criatura. Semjaza gritou e virou-se tão rápido que não consegui acompanhar o movimento. No segundo seguinte, a espada Negra, ainda quente com o sangue de Miguel, cortava minha carne mais uma vez. E foi quando eu me afastei que vi que a espada que estava cravada no corpo de Semjaza não era minha delicada espada, mas sim, a gladius de Uriel.
A espada que parecia feita de bronze velho era especial. Dentro dela, se passava o filme da vida humana e era deles que vinha o poder dos anjos da guarda.
Puxei a gladius de volta antes que o demônio pudesse se livrar da minha espada e voei em direção a Miguel que estava agachado sobre a pedra abaixo de nós. Meu sangue escorria vermelho vivo e quente da ferida que Semjaza tinha aberto em meu braço esquerdo e não foi antes de alcançar meu arcanjo ferido que eu vi os olhos de Semjaza brilhares para sua espada negra, agora coberta com meu sangue.
Ele cobiçou meu sangue com os olhos, meu sangue que cobria o material negro de sua espada maligna, até que algo aconteceu. A espada negra absorveu cada gota do vermelho vivo que estava sobre ela. A espada de Semjaza absorveu meu sangue e o seu dono sorriu ainda mais.
– Querida, faltava sua ilustre presença nessa festa. – Semjaza falou enquanto deslizava seu enorme corpo coberto por músculos grossos para o chão coberto de sangue divino.
– Como? – perguntei à criatura, ao mesmo tempo em que alcançava Miguel e tocava sua pele quente.
Instantaneamente, transferi minha energia de cura para seu corpo ferido, que ainda sofria a agonia do golpe desferido pelo inimigo. A espada negra de Semjaza cortava não apenas o corpo, mas também a alma.
Senti Miguel respirar melhor apenas instantes depois que o toquei. Minha cura estava surtindo efeito. Senti que Rafael estava se juntando a nós e, mesmo de longe, canalizava energia para seu irmão ferido.
– OH, mas que alegria, a família reunida para me receber! Quanta honra!
O demônio usou de sarcasmo enquanto procurava um apoio melhor para sua espada negra nas mãos. A ferida que lhe causei quase que completamente sarada. Era estranho, mas eu conseguia sentir em Semjaza as energias de Boh, Aziel e dos outros e era como se vivessem nele de alguma maneira.
– Isso mesmo, minha querida – ele falou, como que lendo meus pensamentos – Eu os tenho comigo e vocês não podem me deter agora.
– Miguel... o que faremos? – perguntei em tom baixo o suficiente para que meu Arcanjo ouvisse.
– Nós o matamos. – ele respondeu, já partindo para cima de Semjaza com todo seu poder.
A batalha foi dura. Rafael e Miguel não conseguiam deter Semjaza que parecia cada vez mais resistente. Eu sabia que o havia ajudado, sabia que meu sangue o tornava forte e que, provavelmente havia sido meu sangue que o trouxe até aqui.
Uma nova explosão de energia e os corpos dos arcanjos e o meu foram lançados para longe. Semjaza, com uma onda alarmante de energia, despejou o poder de Mammon sobre nós e sobre todos os anjos ao redor. Senti o horror da onda da morte passar por mim e vi com olhos arregalados meus irmãos serem atingidos. Eu senti a agonia e a dor de todos eles e minha alma se despedaçou. Foram as asas do meu arcanjo que me protegeram do golpe fatal. Miguel estava me rodeando com elas antes mesmo de a onda me atingir com ferocidade letal.
Muitos tentaram voar, os feridos não tiveram chance... nem mesmo os saudáveis tiveram chance. Em questão de segundos a maioria foi dizimada a nada e apenas seus corpos restaram sobre as pedras rubras.
Eu perdi minhas forças totalmente e cai sobre migalhas de rocha e sangue, saindo do abraço forte de Miguel. Vi o arcanjo descer em minha direção antes de seu corpo ser jogado longe por mais um golpe certeiro de Semjaza.
Eu não podia acreditar, não compreendia o que estávamos vivendo. Semjaza estava mais poderoso que qualquer coisa que já vi e nem Rafael nem Miguel conseguiam detê-lo. Uriel já não estava entre nós e eu não era forte o suficiente. Tudo estava perdido, então? Era isso? Esse seria o fim dos celestiais? Sem nós, Semjaza teria acesso total aos mortais e ele faria o Inferno na Terra. Semjaza seria soberano... soberano no reino de caos e horror.
– Melanie... – a voz arrastada de Rafael, meu antigo mestre, chegou até mim.
Seu corpo jazia longe, mas sua mente falava com a minha de algum jeito.
– Rafael... – pronunciei em voz alta, sabendo que ele podia me ouvir.
– Eu preciso que você voe, Melanie. – ele disse – Você precisa voar o mais rápido que conseguir.
– Voar? Para onde?
Um estrondo e vi Miguel ainda lutar com Semjaza. Meu arcanjo era o general dos exércitos celestiais e estava de pé, resistindo.
– Não posso deixa-los! – falei tentando me mover.
– Melanie – Rafael continuou e vi sua silhueta ao longe tomando forma, ficando mais uma vez de pé, com sua Gladius na mão – Você precisa chegar à morada de Uriel. A metade do portal ainda permanece lá. Você pode convocar Gabriel com o poder da Gladius de Uriel e seu sangue. Só seu sangue pode nos salvar, não há outro sensitivo alfa. Gabriel vai ser transportado pra cá imediatamente através do portal.
– Eu não sei como fazê-lo, Rafael! Não tenho o poder de Uriel! – exclamei sentindo a Gladius do anjo da guarda em minha mão direita e as dores da batalha em cada músculo de meu corpo ferido.
– Você precisa convocar Gabriel. Ele está na Terra... precisamos dele e só você pode trazê-lo de volta.
Meu olhar encontrou o de meu ex-mestre e, em seguida, o de Miguel. Ele não precisou me dizer uma palavra. Eu vi em seus olhos que ele concordava com Rafael e sabia que de alguma forma, Miguel estava a par de minha conversa com seu irmão.
Rafael então voou em uma explosão de energia e foi ao encontro de Semjaza e Miguel e eu vi minha oportunidade. Com tudo o que tinha, voei em direção à antiga morada de Uriel, onde estava a metade celestial do portal. Eu precisava convocar Gabriel para a batalha para que pudéssemos ter uma chance contra o demônio.
Alcancei o lugar que conhecia bem e corri direto para a sala que parecia um museu, a sala onde uma vez eu senti o calor da pedra sagrada. Assim que cheguei, ouvi um estrondo do lado de fora e sabia que o demônio estava atrás de mim. Ele sabia que eu iria convocar o outro arcanjo, eu precisava ser rápida. Sozinha, eu não teria chance contra Semjaza.
Passando pelas estátuas e objetos humanos da sala de Uriel, eu segui na direção do portal. Instante antes de alcançá-lo, senti o peso do corpo do demônio se chocar contra meu corpo. Eu voei e bati contra a parede oposta. Senti as asas quebrando e uma dor excruciante que me dominou.
– Sinceramente, acho que Gabriel nem quer participar desta batalha, Melanie. – Semjaza falou caminhando até mim lentamente – Sabe, ele nunca ligou muito pra esse lugar e nem essa coisa de ser Arcanjo. Não sei se ele teria motivação suficiente para lutar.
Eu me arrastei entre os destroços dos objetos quebrados. Meu sangue escorria pelas asas e pelo corte em meu braço esquerdo. Semjaza iria me liquidar a qualquer instante e eu precisava resistir, precisava convocar Gabriel a qualquer custo. Por um milésimo de segundo, a criatura perdeu o foco em mim. Ele estava mais uma vez com aquele olhar de desejo e cobiça dominado seu ser enquanto olhava fixamente meu sangue que escorria para o chão de mármore.
Foi minha oportunidade.
Eu saltei com toda minha força, apertando a gladius de Uriel firme na mão, e consegui cravar a espada sagrada bem no meio do peito de Semjaza, com uma velocidade e força que vinham de fora de mim, que vinham das vidas mortais que uma vez alimentaram a força de Uriel e que agora alimentavam minha própria alma.
O demônio berrou e senti seu corpo petrificar. Lançando minha energia de sensitiva alfa através da espada até o corpo de Semjaza, eu tentei destruir de uma vez por todas a criatura que era o mal encarnado e que somente eu poderia matar.
Seus olhos vermelhos como sangue arregalaram diante de mim e eu senti sua energia negra tentar repelir a minha. Ele era forte e estava ainda mais forte com todas as essências dos outros demônios dentro de si. Era uma batalha dura que eu teria de vencer a qualquer custo. Nossas forças eram iguais, nossas almas, conectadas por um fio invisível.
Foi quando eu vislumbrei um brilho dourado e outro branco vindos pela lateral que percebi que os Arcanjos haviam chegado. Semjaza também percebeu. Nesse ponto, tudo pareceu correr em câmera lenta e a sequência dos fatos foi sincronizada pelo destino.
Semjaza percebeu que perderia a batalha estando concentrado em mim e tentou se afastar, cortando nossa conexão. Ele reuniu o máximo de seu poder e me empurrou para trás com uma forca devastadora que afrouxou meu aperto da espada que atravessava seu peito, poucos instantes antes de as gladius de Miguel e Rafael o atingirem duramente.
Eu voei pelos ares sem rumo, sem energia e com as asas quebras, até bater forte em um dos monumentos da sala de Uriel. Assim que minhas costas sentiram o calor do objeto sobre o qual fui arremessada eu reconheci a energia do portal. Reunindo forças de onde não tinha, estiquei a mão para tocar no símbolo sagrado esculpido na pedra atrás de mim ao mesmo tempo em que Semjaza explodia em minha direção com sua espada negra nas mãos e com Miguel e Rafael cravando suas gladius em cada lado de seu corpo ferido e ensanguentado. Mesmo assim, o demônio conseguiu afundar em mim sua espada negra, que rasgou fundo minha carne. Do corpo de Semjaza, escorria o seu sangue podre e negro como o mal.
Os Arcanjos tinham afundados suas espadas no inimigo. As feridas infligidas por Miguel e Rafael eram profundas e Semjaza estava debilitado ao máximo depois de seu embate comigo. Faltava apenas mais uma gladius, a que infligiria o golpe fatal. A Gladius do Arcanjo que eu estava naquele exato e congelado momento, invocando.
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