Shlimazl

6 arco-íris


Notas iniciais
Sou Amianto e é muito legal conhecer você. Espero realmente que você goste do que irá ler logo abaixo. Os nomes dos capítulos não tem relação com o conteúdo.

A macarronada estava pronta no horário certo todavia Charlie demorava mais que o comum e a maldita tv noticiava mortes locais/assaltos. Não adiantava mudar de canal, aquele horário era sempre a mesma programação policial; passei a sentir agonia desses programas desde que vim morar com um policial.

Mãe Mary nunca deixava a televisão ser ligada nas refeições, já na casa de Charlie...o aparelho era o ser mais falante e eu respeitava seu hábito porque entedia que a tevê era constantemente aberta pra sanar a ausência de sons da nossa moradia blasé. insipida. estável e estúpid...

— Teresa? — Sua voz adorável me acorda dos pensamentos e viro-me em sua direção.

— Fiquei preocupada — O tom da minha voz sai num tom queixoso maior que esperado e ele me mirou sorrindo.

O sorriso. É preciso salientar que o é o sorriso mais sincero que vejo há anos. Ainda não me acostumei com seu sorriso cordial. Covinha em seu queixo e nosso olhar aderido um ao outro. Meu coração dar pancadas contra meu peito. Tv barulhenta ouvida daqui da cozinha.

Percebo que estamos nos encarando e sorrindo mais tempo que o comum e aponto pra travessa posta na mesa:

— Fiz macarronada — Outro sorriso seu e desvio meu olhar em direção á janela. Devo lhe contar sobre a visita da sua neta em que tom?

O jantar barulhento pelo som dos talheres e nossas vozes que se entornam num único timbre sobre tópicos variados sobre a visita da sua neta, as olimpíadas e música. Descubro que ele gosta de Hank Williams, um cantor de country que pouco me interessa mas me faz querer ouvir pelo jeito apaixonado que as palavras soam na boca de Charles, e que seu gosto consistia também em eventos olímpicos.

A comida estava carregada de um molho espesso, ele elogiou minha comida e tive que acreditar, e talvez devido ao ar confortável e cúmplice que nos envolvia, me vi com a coragem de fazer um graça boba de sugar rapidamente um espaguete cheio de tempero que sujou em cheio uma parte do meu queixo.

Com um ar jovial, Charlie pôs o dedo indicador no meu queixo e ''raspou'' todo o condimento parando por uma fração de segundo sobre meu lábios e instintivamente suguei seu dedo. Ele deixa que eu chupe com uma expressão que nunca vou esquecer: narinas dilatadas e uma expressão sombria.

Encaro-o ainda com seu indicador entre meu lábios e rimos sem razão.

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Na manhã seguinte, papai desperta-me explicando que iria chegar mais tarde que o normal e resmungo sonolenta em resposta.

O dia desenrolou-se comigo tediosa sobre a cama e livros novos nas coxas. Sou uma gata preguiçosa, na luz difusa do dia dublado, a qual não precisa de mais nada além dos lenções mornos e folhas escritas.

Tenho esses momentos de preguiça total, tanque zerado, onde fico apática ,na minha. Uma não-existência maravilhosa onde esqueço que sou algo e me abandono num canto qualquer. Mamãe punha culpa na anemia natural entretanto sempre fui assim. A única diferença de mim antes e depois da leucemia é que Mamãe Mary começou a zelar por mim.

Oh, Poe Poe! ''Não fui, na infância, como os outros e nunca vi como os outros viam. Minhas paixões eu não podia tirar das fontes igual à deles; e era outro o canto, que acordava o coração de alegria. Tudo o que amei, amei sozinho''

Edgar Alan Poe é meu escritor favorito desde meu oitavo ano com um trabalho semanal que a professora de literatura organizava, naquela semana leríamos versos de ''O corvo'' na frente de toda classe e você sabe, literatura não é um material interessante pra uma turba espinhenta de pré-adolescentes entupidos de narcisismo e prepotência juvenil;acho que pra se vingar da nossa barulheira ela me escolheu entre os 21 alunos pra ler todo o poema e eu me saí suficientemente bem.

Os anos na escola foram bons nos momentos bons e ruins nos momentos ruins, éramos a pior salas todos os anos consecutivos com alunos arruaceiros-destemidos e alunas bonitas e pra ''frente''. Hoje, vejo que só fomos um bando de crianças com pais ausentes e pouca coisa dentro de casa, com muito ódio juvenil no revólver, todavia sem um alvo certo.

O câncer tirou-me do meio deles quando eu tinha quinze anos e meio que agradeço por isso porque fez Mamãe e eu sairmos do guetto e ir morar uma temporada com minha falecida vó em um bairro calmo.

A maioria dos meus colegas de classe presos ou mortos em brigas de gangue e sei que minhas amigas daquele tempo já tem filhos, não muito diferentemente do resto das garotas que se não estão prenhas, estão envolvidas com traficantes ou presas.

Quando estou muito melancólica acabo lembrando deles com nossos episódios caóticos de brigas depois da aulas, dos beijos roubados, da nossa demonstração de maturidade com piercing copiosos (ainda tenho os furos múltiplos nas minhas orelhas) enquanto vivíamos nossa vida jovem e como eu seria se tivesse permanecido naquele lugar. Metida com drogas? Namorando um traficante? Atendente de fast-food?

Esquento a comida de ontem pra papai e volto pro meu ninho.

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Acordo com o contato das mão de Charles envolvendo meu ombro desnudo, estou emocionada pra falar algo e dou um sorriso preguiçoso. Ainda era noite. Escuro demais. Gemi seu nome? Ele acende o abajur roxo do meu criado-mudo e posso mirá-lo á meia luz. Consigo ver seu rosto meio sombreado e tenho vontade de o chamar pra se deitar comigo. Uma dormida inocente, c'mon. Acho que seus olhos demoraram-se no meu seio desnudo. Estou febril. Devo dizer que estou nua? Devo dizer que acabo de perceber minha mão na minha intimidade?

Ergo meu tronco lentamente sem parar de admirá-lo e sua mão áspera se mantém em meu ombro. Sei que ele não parará de me olhar se eu continuar a olhá-lo. Sua respiração na minha face. Passo a língua entre meus lábios e toco seu queixo com um beijo morno. A mão dele desliza pelo meu ombro causando arrepios em mim até meus lençóis e cobre meus seios. Deito-me vencida pelo ar rarefeito e adormeço sem saber se aquilo foi um sonho ou realidade.