Reita\'s P.O.V.

- Ai meu deus, perdi a hora!

Corria desesperado de um lado para o outro, tentando me lembrar se já tinha pegado tudo o que deveria levar para a escola, sendo assistido pelo pequeno ainda sonolento e com a camisa do uniforme ainda aberta. Parei de correr, uma torrada na boca e alguns papéis ainda em aos, começando a fechar a camisa de Taka. Ele me sorriu, ainda muito sonolento.

- É assim?

- Assim o quê? – era um pouco complicado falar com uma torrada na boca.

- Vida de casal.

Minhas mãos congelaram no último botão da camisa de Taka, olhando-o. Após alguns segundos tirei a torrada da boca, sorrindo.

- Apesar de não ter tido muito tempo de casado, acho que é assim mesmo.

Já era a terceira semana vivendo daquela maneira, ou eu acabava dormindo na casa dele ou ele vinha pra minha. Não odiamos nos dar ao luxo de sair pra passear, podíamos ser vistos e isso não seria legal. Taka aproximou-se, plantando um beijo suave nos meus lábios.

- Não estava atrasado?

- Verdade! E o senhor também está atrasado, Taka.

Ele fez um pequeno gesto de dispensa com a mão, não se importando com o horário. Verifiquei se não estava faltando nada, dando um último beijo no pequeno antes de sairmos porta à fora. Assim eram os dias; claro, a culpa ainda me corroia quando eu entrava na sala dele e avistava o pequeno sentado ao fundo. Desconfiava que ele só ficava acordado na minha aula. O resto da manhã sempre se arrastava e eu sempre esperava que ela acabasse. Parecia uma criança esperando o último sinal pra poder ir pra casa.

Já estávamos no quarteirão de casa, rindo do motivo bobo pelo qual dois garotos quase haviam brigado na hora do intervalo, quando estaquei no lugar, o riso morrendo. La estava encostada na parede ao lado da porta, calmamente, os óculos escuros protegendo os olhos da pouca claridade que vinha do céu totalmente nublado e começando a chover. Não havia mudado muito desde a última vez em eu a vira, exceto pelas roupas caras que agora vestia.

- Arashi...

Taka olhava e mim pra ela, e eu já não sabia mais o que fazer.

Ruki\'s P.O.V.

Não precisava ser muito inteligente pra somar dois mais dois e saber que aquela mulher muito bonita parada ao lado da porta de Aki era sua esposa. Ou ex-esposa. Mas mesmo sabendo disso, ainda foi ruim assistir Aki ir até a porta da sala casa sem dizer nada, destrancá-la e dar espaço pra que ela entrasse. Mordi o lábio, vendo-o entrar. Fui rumando pra minha própria casa, uma batalha acontecendo na minha mente. Deveria ir lá escutar ou deveria deixar de ser intrometido? Bom, era um problema exclusivamente deles... mas que nem por isso me deixava menos curioso.

Suspirei, jogando meu material no sofá e olhando pela janela para a casa de Aki. Grossas gotas de chuva começaram a desabar do céu, o que não melhoraria meu humor. Talvez até poderia compor uma letra, mas eu simplesmente não conseguia desviar a minha atenção da casa em frente à minha. Mil possibilidades passavam pela minha cabeça, das mais otimistas às mais pessimistas. Talvez ele estivesse gritando com ela. Talvez eles estivessem chorando abraçados. Talvez ele estivesse batendo nela. Talvez eles estivessem sem roupa. Talvez ele voltasse pra ela. Talvez ela a expulsasse de lá.

Talvez eu ficasse louco com tantas possibilidades.

Os minutos se arrastavam, e nada, nenhum movimento visível. A chuva havia aumentado, e com ela o meu desespero em saber notícias. Vinte minutos depois a porta se abriu e eu me coloquei de pé, abrindo a porta da minha própria casa, imediatamente me molhando. Mesmo que a chuva dificultasse a minha visão, ainda podia ver Aki e a mulher sob o mesmo guarda-chuva, rumando para o carro importado estacionado mais à frente da casa de Aki. Ele a ajudou a entrar no carro, tomando cuidado para que ela não se molhasse, depois afastou-se, vendo o carro ir embora, ainda parado no meio da rua.

Fui caminhando até ele, parando a poucos metros do mais velho. Aki ainda olhava para o ponto onde o carro havia desaparecido, mas eu não podia ver sua expressão. A verdade é que e estava com medo de descobrir o que eles haviam conversado lá dentro e o que e o que aconteceria a seguir. Sem perceber, comecei a dar passos para trás, até finalmente me virar e sair correndo rua abaixo. Naquele momento não queria ouvir nem meus pensamentos.

Quase tive m ataque cardíaco de susto quando senti braços me envolvendo, fazendo com que eu parasse. Ainda tentei me libertar, mas eram braços mais fortes que eu.

- Você... corre demais... e eu... já estou velho demais... pra fazer isso...

Parei de me debater ao ouvir aquela voz, sorrindo fracamente e pousando minhas mãos sobre os braços de Aki. Sem aviso, ele me virou pra eu e eu arregalei os olhos.

- Aki, estamos no meio da rua!

- Acha mesmo que alguém vai ver alguma coisa nesse temporal?

Encarei-o por alguns segundos e acabei por rir. Aki ficou me olhando, antes de me beijar com tanta vontade que parecia que eu iria derreter com a chuva. Bem, talvez eu pudesse ser um pouco mais otimista, afinal.

Continua...