Shiro no Shinigami
3 New Days Come by, parte III
Notas iniciais
Um suspiro. O som de várias canetas tendo suas pontas esfregadas contra folhas de papel em conjunto, como um grande coral cantado através da escrita de diversos alunos, parecia nostálgico. Kazi havia sido o primeiro a terminar o teste e, enquanto esperava pelo fim da aula, observava o garoto na carteira em sua frente. Havia se passado uma semana que a vida daquele humano tinha sido introduzida forçadamente ao outro lado da realidade. O lado que ele não deveria descobrir antes de ter sido morto. Que azar. Era responsabilidade dele agora. Não podia simplesmente negar o envolvimento de Jered e dizer algo como “Se vire, aprenda a viver com isso. “ Afinal parte da culpa ainda era sua. O pensamento incomodo fez com que Kazi inconscientemente apertasse o lápis entre seus dedos até que o mesmo se partisse ao meio. O estalo fez com que ele acordasse do pensamento profundo e voltasse para a vida real. Olhou o lápis partido. Um suspiro. O relógio na parede indicava mais 5 minutos até o intervalo. Não demorou para que os outros alunos finalizassem seus testes. Outro suspiro. O sino para o intervalo foi tocado. Um último e longo suspiro. Kazi levou a mão até sua bolsa para pegar algum doce, logo notando que nela não havia nenhum. “Jered. “ Murmurou, fazendo com que o outro se virasse para trás. “Tem algum doce? “ Perguntou sem olhar nos olhos do humano. Jered permaneceu em silêncio por alguns segundos, encarando o Shinigami com um olhar deprimido escrito em seu rosto. Depois de tanta coisa, ele ainda fazia tais perguntas inúteis. Esse vício em glicose iria acabar fazendo mal a ele. “Não. “ Respondeu Jered com o mínimo de interesse possível no assunto, levantando-se. “Vamos logo, é o intervalo. “ Adicionou ao ir até a porta da sala, encontrando-se com seus amigos. Kazi assistiu Jered andar até lá. Outro suspiro. Levantou-se e seguiu o pequeno grupo de amigos. Shield apenas observou o movimento deles por cima de seu livro.
Kazi sentou-se perto do grupo, observando enquanto eles conversavam entre si. Ao fim do intervalo, chamou a atenção de Jered para comentar algo. Os outros entraram no edifício antes deles. Jered notou que Kazi estava tossindo enquanto ele se aproximava. Apenas um detalhe sem muita importância. “O que foi? “ Perguntou Jered, esperando que o outro fosse o mais objetivo possível. Eles realmente não conseguiam se entender. Era como se fossem completos opostos um do outro. Kazi engoliu a saliva que tinha em sua boca, esfregando sua mão esquerda sobre seus olhos antes de falar o que precisava. “Venha comigo após as aulas, tenho que te levar a um lugar. “ Jered se irritou um pouco, respondendo bruscamente e colocando um tom rude na fala. “Vai me ajudar a ter mais problemas? “ Foi a resposta recebida por Kazi, que sentiu-a entrar por sua pele como uma facada. “Tsc. “ Estreitou seu olhar. “Apenas faça o que eu digo. “ Finalizou ao dar a volta por Jered e andar em direção à entrada. Irritante. Desde que havia conseguido seus peculiares poderes baseados nos efeitos de uma maldita planta mágica, aquele frágil humano estava agindo como um cacto. Sua carapuça espinhosa espetava Kazi com seus argumentos infantis. Mas o que poderia fazer sobre isso? Nada demais. Já tinha passado por algo parecido. Retornou logo até a sala, tomando seu assento.
As últimas aulas foram tão entediantes e cansativas quanto as primeiras. Ao fim, Kazi e Jered se levantaram ao mesmo tempo, saindo juntos da sala logo após se despedirem dos outros. Isso causou certa estranheza aos olhos daqueles que assistiram à cena. “Desde quando esses dois são amigos? “ Perguntou Taiga após Jered e Kazi terem saído. Shun deu de ombros. Enquanto guardava seus materiais, Taiga tinha certeza que receberia uma resposta de Kya, mas não foi o caso. Olhando para trás, notou que ela conversava com sua amiga, Jade. Talvez nem havia ouvido a pergunta ou sequer notado os garotos quando saíram. A pergunta, porém, não ficou sem uma resposta. “Desde o início dessa semana eles tem se falado mais. “ Respondeu Shield com um tom de curiosidade, antes de, assim como Shun, dar de ombros. “Isso não faz diferença mesmo. “ Concluiu, levantando-se. “Até amanhã. “ Despediu-se rapidamente, guardando seu pequeno livro no bolso de sua calça. Shield era, de fato, um grande leitor. Sempre devorara livros em tempos mínimos. Já estava claro que ele não estava lendo aquele livro com o intuito de termina-lo, mas sim, estuda-lo. Seja o que for que estivesse escrito lá, devia ser de muito interesse para ele.
Kazi andava poucos metros à frente de Jered. Era o mais óbvio a se fazer, já que ele, novamente, era o guia do humano até mais um local novo. Enquanto seguiam pela calçada, o silêncio permanecia. O jovem estudante observava as águas do rio que cortavam a rua ao meio perfeitamente. Parecia tudo tão calmo enquanto o céu azul refletido na água era devorado pelos olhos dele. Mais à frente, o Shinigami já havia voltado para sua forma “normal”, vestindo o sobretudo branco e carregando sua espada. Ele era a única pessoa que podia realmente vê-lo naquele instante. Jered notou que Kazi parecia dar passos fracos, como se algo estivesse tirando a vontade dele de andar ou sequer chegar a se mover. Andaram por mais algum tempo. A dificuldade para andar logo se tornou um estranho cambalear. Certo desequilíbrio fazia com que Kazi ocasionalmente se apoiasse na parede, deixando Jered um tanto preocupado com o estado dele. Não eram amigos. Mal chegavam a ser colegas. Mas para Jered, ver alguém daquele jeito era um tanto desconfortável. Talvez fosse uma pessoa boa demais. Depois de alguns metros a mais, Kazi caiu de joelhos, fazendo com que Jered apreçasse os passos para chegar até ele mais rápido. “Kazi? “ Perguntou assustado com o acontecido, puxando o loiro pelo braço direito para ajudá-lo a se levantar. Pela primeira vez, a pálida e fria criatura aceitou a gentileza do rapaz, deixando com que o mesmo o ajudasse. Apenas como apoio mesmo. Não ligava para a intenção. Realmente, essa era a que menos lhe importava. Kazi levantou e ficou parado por alguns segundos, encarando o chão. “Vamos logo. “ Disse ele em algo que mais se aproximou de um sussurro do que de qualquer outra coisa. Na outra quadra, Jered notou que os movimentos do outro se tornaram ainda mais pesados. Apoiando-se contra a porta de uma loja, Kazi usou o peso de seu corpo para empurra-la, abrindo-a, fazendo também com que um pequeno sino tocasse, indicando a entrada de um cliente. “Ah, sejam benvindos. “ Murmurou o homem atrás do balcão, sem tirar os olhos da revista que havia furtado a atenção completa de seus olhos. Não demorou muito para fechar a revista, marcando a página, e coloca-la sobre o balcão, finalmente erguendo seu olhar, iniciando assim sua segunda e inédita frase. “Como posso ajud-- “ Foi interrompido quando Kazi praticamente caiu sobre o balcão. Sua pele estava mais pálida, como se isso ainda fosse possível. Seu corpo todo suava frio, e seus olhos estavam mais mortos do que normalmente. O olhar neles não era o mesmo olhar vazio que geralmente vestia, mas sim, um olhar de certo desespero. “Na..mo.. —Ko... “ Conseguiu dizer antes de cair no chão de vez. O atendente, que por vista era também o dono da loja, abriu a gaveta à sua esquerda com uma velocidade desumana, observando que não havia nada dentro dela. “Que droga! “ Exclamou ele, correndo detrás do balcão até o fundo da loja, rasgando uma caixa de papelão e pegando algo de dentro dela, voltando rapidamente apenas para encontrar-se com Jered, que tentava levantar Kazi ou no mínimo acorda-lo. O homem suspirou, irritado com a situação em que se encontrava no que poderia ter sido uma tarde tranquila e sem preocupação alguma. “Me ajude com ele. “ Ordenou, erguendo o garoto inconsciente pelas pernas, enquanto Jered apenas acenou com a cabeça, erguendo Kazi pelo dorso. Levaram-no até uma sala no fundo da loja. Lá, entraram em outra sala à direita, aonde o deixaram. Aparentemente, aquela também era a casa do homem. Uma sala, um banheiro, algo que parecia uma cozinha, e por fim, o quarto onde deixaram com que o Shinigami descansasse. Namoko, como Kazi havia chamado, deixou alguns doces ao lado dele, assim como um copo de água. Os dois que haviam o carregado até ali retornaram até a sala anterior, deixando apenas uma fresta da porta deslizante aberta, para que pudessem cuidar o estado do menor. Namoko sentou no chão, na frente de uma pequena mesa. Aquele lugar lembrava um pouco a pequena casa de Mary, mas era, de fato, muito mais organizado e limpo. Era uma pequena casa de estilo tradicional japonês, bem iluminada, ao contrário da casa da Bruxa. Não havia um excesso de objetos para poluir a beleza clássica do local. Jered se sentou do outro lado da mesa, ficando frente-a-frente com a pessoa que acabara de encontrar. (Ele... O viu, não? Ele viu o Kazi em sua verdadeira aparência.... Deve ser outro conhecido dele.)
O som do homem limpando sua garganta assustou Jered, que foi liberto de algo que poderia se tornar uma longa corrente de pensamentos. Ele tinha que parar de ser assim. Era, no mínimo, um tanto desagradável. “Sinto muito por termos nos conhecido assim... “ Falou em um tom baixo. “Kazi... Me avisou que viria essa semana. Mas não imaginei que ele viria hoje. Meu nome é Namoko Ryu. “ Apresentou-se de forma não muito formal, esperando com que o outro fizesse o mesmo. O menor acenou com a cabeça. “Sou Utomo Jered. Você e o Kazi são... Amigos? “ Questionou com um olhar curioso, esperando que Ryu justificasse como podia ver Kazi. “Pra ser mais específico... Como exatamente você pode ver ele? “ Adicionou, desta vez deixando um espaço para que o outro tivesse a oportunidade de responder. O homem que parecia ter entre 25 e 30 anos de idade, tinha cabelos castanhos repicados e um cavanhaque de mesma cor em seu queixo, surpreendeu aquele que estava um tanto desconfiado sobre ele. Coçando sua nuca, ele riu. Pareceu meio sem jeito com as perguntas, como se não soubesse exatamente como responder. Medo de assusta-lo com alguma revelação aterrorizante? Jered se sentiu culpado. “Não precisa temer... Acho que pouca coisa me surpreende agora. “ Disse ele tentando confortar o homem mais velho. Ryu o observou por alguns instantes antes de responder. “Uhm... Como posso dizer isso? Eu... “ Fez uma pausa. “Bem. Eu meio que sou... Filho de Deus. “ Concluiu. Jered o encarava vagamente. Não havia compreendido direito. “Pera. O que? Como assim? “ Questionou mais profundamente, fazendo com que o outro novamente perdesse as palavras. Aparentemente, ele não era bom em dizer quem ou o que ele realmente era. “Eu... Meio que sou Jesus Cristo renascido. “ Súbito. Inesperado. Objetivo. As palavras de Ryu foram um tiro muito preciso perfurando o crânio de Jered e fazendo com que a massa pensante de sua cabeça escorresse para fora em diferentes tonalidades de cores. “Olha... Retiro o que disse. Eu tive uma falsa impressão quando achei que não me surpreenderia. “ Replicou, tomando as palavras do outro como verdades. Aceitá-las era uma tarefa fácil se comparada com o tanto de coisas que descobriu e teve de entender em menos de uma semana. Mas saber que ele havia renascido como diziam as profecias, morava no Japão e era dono e balconista de uma loja de jogos e CDs de música no meio da cidade seria algo um tanto difícil de digerir.
Ryu se espreguiçou, limpando o suor que estava a se formar abaixo de sua franja e coçando os olhos. “Muito bem. Acho que é minha vez de ir direto ao assunto. “ Iniciou ele, apoiando os cotovelos na mesinha e entrelaçando os próprios dedos logo à frente de seu rosto, observando Jered com um olhar muito mais sério do que antes. Sua personalidade parecia ter mudado por completo, fazendo com que aquele que se encontrava em sua frente chegasse a temer as palavras que estava prestes a ouvir. “O quanto você sabe? “ Perguntou o mais velho sem hesitar, esperando a resposta para que pudesse analisa-la por completo, sem deixar um sequer possível significado secreto escapar. Por onde começar. “Sei que Kazi é um Shinigami e que criaturas fantásticas existem. Também sei que Jesus voltou mesmo pra Terra. “ Mencionou a última parte com um olhar desconfiado que fez com que Ryu tentasse esconder uma risada breve. “Ei, Namoko-san... “ Murmurou antes que pudesse receber uma resposta que rebatesse a sua, cortando Ryu de seus pensamentos e planos. “O que exatamente houve com ele...? “ Murmurou com um tom de voz baixo, direcionando seu olhar até a fresta da porta que deixava com que ele pudesse ver o garoto desacordado. Um suspiro ecoou pela sala, novamente roubando a atenção de Jered. “Muito bem... Toukoga Kazimaru. Você sabe que ele é um Shinigami, mas.. Há muito mais por trás disso. Kazi, um dia, já foi um humano. Assim como você. Um mortal. “ Ryu pausou, levantando-se e indo até o canto que ele chamava de “cozinha” para preparar um chá. De lá, prosseguiu. “Por alguns motivos em particular, ele se tornou um Shinigami. O único humano que já se tornou um. Não entrarei em detalhes sobre isso.... Se um dia vocês se tornarem amigos, ele com certeza irá lhe contar. “ Jered suspirou ao som da palavra “amigos”, já indicando que isso seria algo quase impossível de acontecer. Os dois simplesmente não se entendiam. Os dois simplesmente não conseguiam colaborar corretamente. Mas talvez aliados poderiam ser. Enquanto a água fervia, Ryu encostou as costas em um armário como forma de apoio, cruzando os braços. “Seguinte. O corpo dele é um corpo humano. O organismo dele, como humano, foi obrigado a suportar uma alma muito diferente. Pra ser mais exato, Shinigamis são o meio-termo entre Anjos e Demônios. Assim, eles podem entrar no Paraíso se tiverem autorização. Ou.... Descer até o Inferno. Toda essa exposição para um corpo não preparado exige muito dele. Carboidrato e glicose são coisas necessárias para que o organismo dele continue trabalhando corretamente. Em outras palavras... “ Ryu virou-se para tirar a chaleira do fogão, tendo o pensamento completado por Jered: “Ele precisa ingerir uma quantidade absurda de doces todos os dias. “ Ryu sorriu com o rápido entendimento do moleque que havia acabado de conhecer. “Exatamente. “ Finalizou.
Após algum tempo em silêncio, Ryu se sentou de volta em seu lugar inicial, servindo chá para si mesmo e Jered. “Kazi vinha aqui justamente para discutir sobre a sua atual situação. “ Disse deixando Jered um tanto confuso. O mesmo, tomou um gole do chá. O sabor de erva podia ser sentido no fundo, acompanhado de um gosto suavemente doce. “Ele me contou sobre o que houve com a poção. Deixe-me explicar. “ Tomou um gole de chá. “Existem três plantas mágicas extremamente fortes e raras. Elas são as ervas de Sunlight, Starlight e Moonlight. Suas respectivas cores são vermelha, verde e azul. Sua poção deveria ter sido preparada com a erva Moonlight, mas aparentemente, foi preparada com a Starlight. Isso muda, por completo, os efeitos da mesma. Como disse, elas são muito poderosas. Seus efeitos variam muito. “ Pausou, tomando mais um gole. Dessa vez, mais longo. Jered fez o mesmo. “Pelo que Kazi comentou comigo, os ‘poderes’ que você adquiriu baseiam-se nas principais características da erva Starlight. A cor verde. Aroma de menta. E, pelo que ele me contou sobre as experiências que vocês realizaram durante a semana, até mesmo sua textura foi copiada. Aqueles acertados por essa... ‘Chama’ que você consegue manipular tem a sensação de queimação, porém o que a chama realmente faz é abrir cortes minúsculos sobre a superfície tocada. Posso comparar isso com o pó da asa de uma mariposa. “ Disse ao terminar de tomar seu chá. Jered acenou com a cabeça depois de ouvir atentamente. “Existe um jeito de reverter isso? “ Finalmente pôde perguntar o que passava em sua cabeça todos os dias. Ryu pareceu mergulhar em pensamento com sua pergunta. Levou um tempo para que pudesse responder. “Talvez. Se conseguirmos outra folha da erva Moonlight, podemos tentar com a poção correta. Não tenho certeza, mas isso pode resolver. “ Tentou colocar um pouco de esperança em suas palavras, fazendo Jered sorrir breve. “Mas. “ Levantou-se, levando consigo seu copo. “Até lá, muito pode acontecer. Sugiro que pratique essa sua nova habilidade. Aprender a utilizar isso a seu favor pode deixar as coisas um tanto mais fáceis. “ Concluiu Ryu, encerrando o assunto de vez. Jered também se levantou, mas antes que pudesse ir e deixar seu copo sobre a pia como Ryu, o som de uma porta deslizando o parou. Kazi saia do quarto com uma bala já em sua boca, ainda meio fraco. “Cristo” chamou por Ryu provocadoramente. Estava claro que não eram bem.... Amigos. O homem retornou com um sorriso sarcástico. “Eu salvei a tua vida. Seja mais respeitoso. “ Replicou friamente. “O Imperador mandou uma mensagem me convocando. Devo retornar ainda hoje para o Plano Médio. “ Disse sem interesse nas exigências daquele que já fora conhecido como salvador. Ryu acenou com a cabeça. “Vá e compre algo bem doce em algum lugar. Um milk-shake ou algo assim deve ser suficiente até de noite. Se você já consegue ficar de pé, já está bem o suficiente para ir. “ Disse sorrindo breve. Kazi agradeceu, chamando Jered para que se retirassem. Ryu, porém, chamou novamente a atenção de Jered antes que saíssem. “Me passe seu número de celular. Posso conversar contigo caso tenha dúvidas. “ Ofereceu com um sorriso. Jered não demorou muito a ditar seu número para o outro, logo também agradecendo e saindo com Kazi. Ryu os observou sair e balançou a cabeça de um lado para o outro. “Esses idiotas têm que aprender a se cuidar. “ Murmurou baixinho a si mesmo.
Os dois caminharam silenciosamente até uma lanchonete não muito longe dali. No local, acabaram por esbarrar em Kya, que estava prestes a pedir algo para comer. Kazi fez seu pedido enquanto o de Kya era preparado. Era óbvio que teve que assumir seu estado “humanizado” para ser atendido e visto pelos outros. Kazi observou que Jered havia sentado numa pequena mesa no canto e, após receber seu pedido, foi até lá. Sentou-se logo à sua frente. “Tsc. ” Notou que Jered ouvia músicas em seu pequeno reprodutor mp3. Os movimentos logo em sua frente, porém, fizeram com que Jered retirasse os fones de seu ouvido e observasse Kazi por alguns segundos. Notou que ele havia comprado um milk-shake de cor rosa. Deveria ser de morango. Estranhamente, as balas que Kazi havia devorado quase uma semana atrás eram deste mesmo sabor. Um gosto pessoal, talvez? Sem muita importância. Jered olhou os arredores atentamente, notando que não haviam muitos no local. Kya ainda se encontrava longe deles, focada em conversar com uma atendente. Relaxando um pouco, se curvou para frente. “Ei. Você havia mencionado um Imperador antes. Parte da hierarquia dos Shinigami? “ Perguntou em voz baixa, curiosamente. O Shinigami não pareceu se importar em responder. “O Imperador é o líder absoluto de todos nós. Eu sou apenas um General. “ Disse ao erguer e mostrar seu pulso direito à Jered. Nele, havia uma pequena tatuagem em preto. Se tratava do digito 02. “Sou o General de número 02. Mais cedo, recebi algumas mensagens de Yuki dizendo que o Imperador havia convocado grande parte dos oficiais para uma reunião. Generais obedecem aos Senhores. E, aparentemente, os Senhores estavam pedindo para que seus Generais comparecessem. O assunto deve ser sério. “ Explicou, abaixando a cabeça e tomando um gole do milk-shake. Haviam dois canudos. Ao menos ele havia considerado a possibilidade de oferecer um pouco da deliciosa bebida a seu colega. Talvez como agradecimento por ter o ajudado quando passara mal. Jered suspirou, acenando com a cabeça como sinal de entendimento. Apoiou o queixo em sua mão e ficou a olhar janela à fora. Mesmo com uma explicação destas, o tom de voz dele não havia mudado. Parecia que Kazi havia se forçado o quanto podia para pronunciar tantas palavras em sequência. Tanto que o fez o mais rápido que pôde, logo retornando a seu característico e denso silêncio. Fechou os olhos por um instante. Pelo som de passos, Kya deveria estar indo até eles naquele instante. Em um movimento demorado, abaixou a cabeça em direção ao canudo que o loiro havia deixado para ele, deslizando a mão que antes apoiava seu queixo até sua bochecha direita, segurando-a com certa firmeza. A estranha sensação de algo o observando de algum local extremamente próximo o incomodou. Abrindo os olhos, um susto. Por que não abrira os olhos antes de ir até o maldito canudo...? Há pouquíssimos centímetros dele, o rosto de Kazi pairava. O outro canudo estava em sua boca. Seus olhos, que não mudavam, encaravam Jered com certa frustração. O humano podia ler a horrível aura que vinha do outro, irritando-o um certo tanto. Seu olhar também mudou para um de frustração. Por que tiveram que ter se aproximado para desfrutar do milk-shake no mesmo momento? Não machucou ninguém. Mas foi um incomodo, com certeza. Kazi levou sua mão esquerda até o copo, puxando o mesmo para si, retornando suas costas para a posição ereta, confortando o balanço de seu corpo que já não estava mais tão fraco quanto antes. Jered lembrou-se da aproximação de Kya, olhando para sua direita. Tudo que viu foi uma garota corada, tremendo, quase derrubando sua bandeja. Seu olhar se tornou um de certa decepção. “De todas as pessoas que conheço, por que justamente você tinha que gostar desse tipo de coisa? “ Murmurou breve, sabendo que não receberia uma resposta da garota.
Mais cerca de cinquenta minutos foram jogados fora por meio de frases curtas entre um garoto e uma garota. Haviam alguns minutos que o copo do Shinigami estava vazio. Sua única distração era observar os amigos que conversavam alegremente. Pegou seu celular do bolso esquerdo de sua calça, abrindo-o e checando o tempo. Só assim os outros dois notaram que ele tinha tal aparelho. O relógio no canto da tela indicava que já eram 17:40. Kazi se levantou, pegando sua carteira do outro bolso. De onde ele sequer tirava dinheiro? Era meio óbvio que ele não trabalhava como os humanos. “Vou ter de me retirar agora. Tenho que ir a certo lugar. “ Disse Kazi brevemente. O olhar de Jered demonstrou que o mesmo entendera o que havia sido dito. Kazi pagou por seu milk-shake e se retirou. Alguns minutos de caminhada resultaram na chegada de Kazi em seu velho apartamento. Entrando, pôde ver que Mel o esperava no sofá. Ao seu lado se encontravam os dois demônios da luxúria. Yuki chegou após alguns segundos. Todos em seus respectivos trajes. Yuki se aproximou, cumprimentando-o. Em sua mão direita, segurava uma espada. Com sua mão livre, abriu um saquinho preso a seu cinto, pegando um estranho pó que parecia ser formado por cristais minúsculos. Soprou a pequena quantidade do pó sobre a lâmina e, em um piscar de olhos, realizou um golpe à frente de si, cortando o ar bruscamente. Logo, uma espécie de buraco se abriu no meio da sala. No mesmo local onde Yuki fizera o corte, o portal, que mais parecia um fino círculo de pura seda negra, flutuava. Sua aparência não era muito convidativa. Energia parecia pulsar por cada centímetro de sua estrutura constituída de pura matéria negra. Um reino de escuridão desconhecido pelos mortais. Kazi, entrou por primeiro, sendo seguido pelos outros. Fechar os olhos era uma das necessidades ao cruzar portais que ligavam planos diferentes, já que a distorção causada na visão daqueles que os cruzavam podia causar náuseas, dores de cabeça e até mesmo desmaios aos mais fracos. Do outro lado do portal, se encontraram já na entrada de um castelo. As noites em After eram bem escuras. Dependiam de muitas tochas para enxergar alguns metros à frente. “Afterlife”, como era popularmente chamada, se tratava de uma cidade protegida por grandiosos e poderosíssimos muros. Se tratava da Cidade Imperial, tendo ao centro do seu território o castelo habitado pelo grande Imperador Henero Sonir. O castelo servia também como área para estudo e treinamento daqueles que deveriam se tornar Shinigamis. Existiam dormitórios espalhados por toda sua extensão, onde grande parte dos soldados morava. A cidade que cercava o castelo também era conhecida como Purgatório. Moravam lá almas que aguardavam seu julgamento, esperando ansiosamente por saber se seriam encaminhadas para o Paraíso. Para Kazi e seus colegas, era apenas um cenário comum. Seu dia-a-dia. Estava um tanto enjoado daquele local. Seguiu com eles o mesmo trajeto que seguira por centenas de anos. Um corredor mal iluminado, tendo apenas um longo tapete roxo que cobria toda sua extensão, desde a porta de entrada até o salão principal onde aconteceria o encontro. As paredes haviam sido construídas com blocos de pedra. Cada pedaço parecia muito bem moldado, um trabalho de mestre. Chegando no salão, Kazi observou que grande parte dos oficiais já se encontrava lá. Parando próximo ao grupo de pessoas, esperou que o Imperador aparecesse. Havia sido uma das únicas pessoas a um dia já ter falado com o Imperador pessoalmente. Uma honra, diriam alguns. Para Kazi, o evento não foi grande coisa. Mas não podia negar que foi uma enorme mudança em sua vida. Aquela tarde.... Queria esquece-la. Teve tempo suficiente para arrepender-se daquele diálogo milhares de vezes.
Após alguns minutos, aquele que carregava o peso da coroa entrou na sala. Os cabelos brancos e lisos chegavam até seu peito. Muito bem tratados, por sinal. Um cavanhaque de mesma cor acompanhava as linhas não muito curvas de seu queixo. Um suspiro. Kazi sempre detestara o olhar daquele homem. Com seus olhos de cor roxa, Henero Sonir varreu a sala. Vendo um número de participantes muito superior ao aceitável, comandou aos guardas que fechassem as portas. A sala se encontrava, agora, isolada de todo o resto do Plano Médio. Conforme todos se ajoelharam em sintonia, Sonir sorriu. “Muito bem. Devem entender que o assunto é, de fato, urgente. Não haveria convocado os senhores até aqui caso não tivéssemos algo um tanto importante a discutir. Como sabem, nosso eterno trabalho consiste de trazer almas até este local, para que as mesmas tenham seu julgamento. “ Iniciou ele após indicar para que todos se levantassem. Kazi prestou atenção apenas às primeiras frases. Já havia comparecido à outras reuniões e sabia o quanto Sonir valorizava a explicação detalhada dos motivos da reunião acontecer. Apenas o ignorou por alguns segundos. Se preocupou mais em observar os arredores. Aquele lugar não havia mudado praticamente nada em séculos. Era sempre a mesma coisa. Tão monótono quanto o seu dono. Observando com mais cautela, Kazi reparou que Sonir carregava sua foice. Algo completamente fora do comum, pois não haviam motivos para carregar tal item consigo apenas para fazer um discurso entediante. Ou talvez aquilo não seria uma simples reunião? Lembrando bem, eles haviam sido chamados com urgência. A sala havia sido trancada. Era uma fala inteiramente privada, reservada apenas para eles. Quais eram as chances de uma execução acontecer ali? Nunca houveram casos de assassinatos ou outros tipos de crimes dentro de After, ou ao menos não que viesse em sua memória.
Sua estratégia de ignorar as longas falas deu certo, pois finalmente, Sonir começou a chegar de vez ao ponto. As próximas frases que ele estava a dizer poderiam ser de extrema importância. Ou, como geralmente, de nenhum valor. Sonir limpou a garganta e levantou seu braço esquerdo, lentamente. Com sua mão, fez sinal para que alguém entrasse na sala. “Meus caros. O nosso problema é que temos um traidor... “ Murmurou sem perder o sorriso. Atrás do Imperador, uma grande porta de madeira foi aberta. Aquela era a entrada para um dos setores de prisões. Geralmente invasores eram mantidos lá por alguns dias, mas fora isso, aquela parte do castelo se encontrava completamente inativa. Atravessando pela porta, um carrasco arrastava um garoto. Vestido nos trapos de um prisioneiro, o garoto que se encontrava algemado foi jogado aos pés do Imperador, perante todos ali presentes. Os olhos castanhos e cabelos raspados não eram estranhos a Kazi. Não, muito pelo contrário. Era um conhecido. Um conhecido próximo. Kazi, finalmente demonstrando algum tipo de emoção, olhou para sua esquerda em choque. Yuki tremia. Sua boca estava completamente aberta, mas nenhum som ousava sair da mesma. Se tratava de seu irmão mais novo. Era ele o acusado de traição, agora aos pés do Imperador. Aqueles que o conheciam estavam desnorteados, tentando buscar um mínimo de lógica no que estava a acontecer. O garoto conseguiu se colocar de joelhos. Havia claramente sido torturado por algum dos carrascos. Mas.... Qual era o motivo daquilo? Kazi colocou uma mão sobre o ombro de Yuki, voltando a olhar para frente. O garoto, ao ver o irmão, tentou berrar o mais alto que pôde. “O Imperador! Ele está desviando almas! Ele está...! “ Antes que pudesse continuar seu depoimento, Sonir já havia colocado a lâmina curvada de sua foice rente à garganta do jovem. “Sua inexistência impede que você relate qualquer crime de minha autoria. “ Murmurou ao puxar sua foice para trás, degolando o garoto. Um tumulto não demorou a se formar. Enquanto a maioria tentava entender o que estava acontecendo, Yuki se lançou contra o Imperador. Aquele era seu único familiar. O único. Kazi não demorou para também engajar em combate. Alguns dos oficiais, sem ter uma variedade de opções, escolheram por proteger a maior autoridade presente na sala. O sangue do garoto ainda estava a cobrir o chão, enlouquecendo Yukine. O Imperador era rápido. Muito rápido e forte, com toda a certeza. Com a entrada de outros Generais na batalha, foi fácil afastar Kazi e Yuki de seu alvo. Sonir limpou suas mãos ensanguentadas nas próprias roupas, indo em direção ao corredor que dava acesso a seu quarto. “Espero que tenham apreciado a execução. Agora podem voltar à suas respectivas tarefas. “ Disse friamente ao sair da sala, ignorando os gritos de ira e sofrimento de Yukine que, junto a Kazi, era arrastado para fora da sala pela guarda real.
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