Shiro no Shinigami
4 Dark Times, parte I
Notas iniciais
Kazimaru andava de um lado ao outro logo em frente ao sofá de seu pequeno apartamento. Sua mente estava cheia demais com os acontecimentos de poucas horas atrás. Sentado no sofá, Yukine apertava as mãos contra a própria cabeça fortemente. Haviam poucos minutos de que conseguira parar de chorar. Ainda não estava claro para ele. Ainda não era algo em que podia acreditar. Apenas uma mentira. Ou pelo menos, era isso que queria. “Isso não pode estar acontecendo... “ Murmurava o homem a si mesmo. Kazi já havia se acostumado com as palavras descrentes de seu amigo. Tanto que havia dado um passo à frente, planejando um modo de tirar as coisas à limpo de vez. Cerca de 3 horas antes do momento em que se encontravam, o Imperador Shinigami, Henero Sonir, havia executado um jovem Shinigami ainda em treinamento. O ato foi realizado com uma plateia constituída por oficiais, em uma cerimônia mais do que privada. Ignorando as acusações de traição lançadas pelo Imperador meros segundos antes do golpe fatal, Kazi buscou lembrar-se do que o garoto disse. “Desviando... Almas? “ Sussurrou em tom inaudível a si mesmo. De fato, não era improvável. Almas são dinheiro. Almas são sinônimo de poder. Shinigamis não passam de carteiros trabalhando para um líder cujo cargo pode ser nomeado de banqueiro espiritual. Uma informação que não parece tão valiosa nos níveis mais baixos do Universo. Simplesmente não há lugar para todos. Apesar do Plano Médio ser consideravelmente maior do que a Terra, o único local oficialmente usado para abrigo de almas que ainda não receberam um destino certo é a capital, Afterlife. Uma única cidade reservada para bilhões de almas. Aquelas que não tem um destino certo, que nem mesmo o tempo prefere ajudar, são sacrificadas. A partir de cada alma que recebeu esse destino, centenas de moedas de prata podem ser fabricadas. Não exatamente prata, não. São apenas objetos prateados feito de um ectoplasma cristalizado que um dia já fora vivo. O que importa lá é que as moedas não respiram mais. Coisas assim poderiam ser bem chocantes para um humano. Realmente, bem chocantes.
Algumas batidas na porta, um tanto agressivas, fizeram Kazi pular de seu pensamento, parando de andar por um instante. “Temos um mandato de busca. Hanako Yukine será levado à prisão de After por tempo indeterminado pelo crime de agressão ao Imperador e desacato à autoridade. “ Disse uma voz por trás da porta. Kazi aproximou-se da mesma, abrindo-a e deixando com que dois rapazes entrassem. Vestidos à caráter, podiam ser facilmente identificados como guardas da infame prisão de After. Saindo de perto dos mesmos, Kazi se aproximou do homem que agora se encontrava em pé. “Senhor... Você sabe que não é verdade. Não pode permitir que eles me levem... “ Murmurou um tanto preocupado com as decisões rápidas de seu General. Kazi sinalizou que ficasse quieto por um instante. “Rapazes, permitam-me a ter uma palavra com ele antes que o levem. “ Disse ao dar as costas para os guardas, guiando Yuki até seu quarto. Um dos guardas, porém, o parou. “Senhor, com que autoridade irá impor ordens sobre nós? “ Replicou em um tom um tanto irritado, segurando o loiro por seu ombro direito. Kazi se virou, erguendo a manga que cobria seu pulso direito e mostrando o digito 02 que se encontrava gravado no mesmo. “Toukoga Kazimaru. General do segundo esquadrão de busca e caça Shinigami. Mas suponho que simples guardas como vocês não saberiam de tal informação, correto? “ Rebateu. “Perdão, General... “ Murmurou o guarda ao se afastar de cabeça baixa.
Yuki se sentou na cama, esperando o que Kazi pretendia dizer. “Yukine. Não se preocupe sobre o caso. Não pense sobre isso. Lutar contra eles e impedir sua prisão não está ao nosso alcance no momento. Deixe que eu cuido dessa situação. Irei analisar tudo por fora e tirar isso à limpo.... Não irei deixar com que a morte do garoto seja em vão. “ Iniciou, observando um homem que, apesar de parecer experiente na vida, agora se encontrava extremamente abalado e perdido. “Você tem certeza que consegue fazer isso sem ajuda...? A Mel pode ajudar, mas... “ Yuki foi interrompido por algo raro. Algo que acontecia, realmente, apenas algumas vezes por século. Kazi sorriu, mesmo que forçadamente, fugindo de suas convencionais expressões fechadas. Talvez para confortar o amigo. “Não se preocupe quanto a isso, Yuki. Eu terei ajuda o suficiente. Será o momento perfeito para testar as habilidades de alguém. “ Concluiu, com um tom de despreocupação em sua voz. Pelo olhar de Yuki, não havia realmente entendido o que seu General estava planejando. Kazi, por outro lado, sabia que as coisas poderiam ficar interessantes durante sua investigação. Não era uma brincadeira, não. Estava longe disso. Mas pelo menos poderia tirar proveito das oportunidades que o destino lhe oferecera, mesmo que não intencionalmente. Saindo do quarto, Yukine se entregou aos dois em pleno silêncio. Antes que eles abrissem um portal de volta, porém, olhou para trás, buscando seu velho amigo. “Deixo minhas esperanças contigo. “ Disse forçando um sorriso, logo entrando pelo portal junto aos guardas. Kazi, agora sozinho na sala, suspirou. “Não o desapontarei... “ Sussurrou.
Sem muito mais a fazer, Kazi foi até a área da cozinha, pegando uma garrafa de vinho de sua adega e abrindo-a. Depois de alguns minutos, tomando alguns goles da bebida de ótima qualidade, largou a garrafa ainda pela metade sobre a mesa de bilhar, indo até o banheiro para que pudesse deixar a tensão escorrer ralo à baixo. Despindo-se rapidamente, aproveitou alguns minutos em um banho quente. Seu apartamento não tinha uma banheira, mas ele se contentava com o chuveiro que ali estava instalado. Saindo do banho, decidiu vestir um roupão. Sabia que já era tarde. Preferia deixar seu corpo esfriar um pouco nestes trajes antes de se vestir adequadamente para que tentasse descansar. Com a toalha ao redor do pescoço, Kazi passou a andar em direção à sala, ainda esfregando o tecido macio contra os cabelos que finalmente puderam descansar dos elásticos que geralmente os prendiam. Surpreendeu-se com a presença de Mel já ali. Sentada no sofá, ela bebia um pouco de vinho direto da garrafa. Questionando si mesmo, olhou em direção à mesa de bilhar, notando que a garrafa de onde bebera anteriormente não estava mais lá. “Yo. “ Disse Mel do jeito mais animado que pôde. O clima de tensão dentre todos os Shinigamis que presenciaram a execução daquela noite estava em seu clímax. Mel, entretanto, tentava ao máximo se manter sorridente. Era óbvio para ele que ela estava machucada com o que havia acontecido. Talvez quase tanto quanto Yuki. Mas ele sabia que ficar pensando naquilo agora não deixaria as coisas melhores. E claramente, ela também sabia disso. Ao invés de sentar-se no sofá, perto de sua amiga, Kazi se sentou em uma almofada que se encontrava no chão. Sua escolha foi devido ao fato de seu cabelo ainda estar muito úmido. “Não queria abrir outra garrafa. Espero que não se importe... “ Murmurou ela, tentando quebrar o silêncio entre ambos. Sem muito resultado, Mel apenas observou seu General. Kazi, tentava focar sua atenção nas notícias que a TV em sua frente apresentava. O brilho azulado de seu visor gerava praticamente toda a luz que a sala estava recebendo no momento. O loiro foi pego de surpresa quando a moça, que também tinha cabelos dourados, se sentou atrás dele. Puxando a toalha de suas mãos, Mel passou a enxugar os cabelos de Kazi carinhosamente. Um suspiro da parte dele demonstrou que estava começando a relaxar. Talvez fosse o último instante em que poderia relaxar em um bom tempo. Apesar do longo silêncio que se formou depois disso, ambos estavam se sentindo um pouco mais confortáveis. Terminando de mexer com os cabelos do rapaz, Mel deixou a toalha de lado, o abraçando fortemente. Um ato um tanto ousado, se tratando de quem ela estava a abraçar. Mas por mais incrível que pudesse parecer, ele apenas aceitou a carícia. “Ei... Kazi. Vai ficar tudo bem, né...? “ Murmurou ela em baixo tom. A primeira vez em que demonstrara o certo vazio que sentia depois do acontecido. Kazi tardou em responder, mas fez o possível para conforta-la. “Irei me esforçar ao máximo para que fique... “ Respondeu, sem olhar para trás. Apenas sentiu a respiração um tanto tremula da garota banhar a pele de sua nuca. O nervosismo dela estava bem visível, mesmo para quem não a via. Desgrudando seus corpos lentamente e deixando com que os braços dela retornassem até sua posição natural, Kazi se virou. Encarou-a nos olhos por um instante. O olhar confuso dela aguardava uma explicação para seus atos. “Eu prometo... “ Murmurou ele para concluir de vez o assunto. Melissa não pôde fazer nada além de sorrir. Uma ação involuntária causada pelas palavras serenas do infame Shinigami de branco. Palavras que serviram de faísca para aquecer o coração da garota, que se encontrava congelado. “Está tarde... Vamos dormir um pouco. “ Murmurou ele em voz baixa, recebendo uma resposta silenciosa da moça.
Depois de uma longa e tediosa manhã de estudos, Jered decidiu por partir diretamente para casa. O fato de Kazi não ter comparecido à aula aquele dia não o incomodava. O que realmente o incomodava era que o mesmo havia simplesmente desaparecido depois de avisar que iria comparecer a uma reunião de emergência com seus oficiais. Estaria ele bem...? Mesmo que não eram amigos e se conheciam há tão pouco tempo, Jered, sendo o garoto bom e sedento por justiça que era, não podia privar a si mesmo de se importar. Ainda eram aliados, afinal de contas. Um beep. O toque irritantemente agudo que ele havia selecionado para notificar-lhe de mensagens novas em seu celular era acompanhado pela vibração do mesmo. Levando uma mão a seu bolso, pegou o diabinho barulhento, abrindo-o para conferir o que recebera. Um número que não conhecia havia deixado uma mensagem simples e rápida: “Te espero próximo ao edifício de controle daquele parque central. Saída Oeste. “
A simplicidade e objetividade da mensagem fizeram com que o garoto automaticamente pensasse naquela que havia sumido. Suspirou, tentando tomar uma decisão que parecesse correta. Voltar para casa e se trocar antes de ir encontra-lo? Não. Conhecendo o outro, dava-se pra esperar que já estivesse lá. Levaria tempo demais indo para casa agora. Além de que, se Kazi queria o ver tão rapidamente, algo deveria ter acontecido. Mas por quê? Qual o motivo de chamar um simples e fraco humano, levando em conta a vasta gama de pessoas e criaturas que aquele garoto deveria conhecer? Talvez fosse sobre seu estado espiritual e a tal erva que havia o alterado? Tantas perguntas fizeram com que Jered intrigasse a si mesmo mais do que deveria. Criar situações inexistentes em sua cabeça para justificar o pedido de Kazi não era algo realmente bom a se fazer no instante. Dando a volta, partiu em direção ao parque.
Alguns minutos de caminhada foram suficiente para chegar ao local combinado. Num banco de madeira, sentava-se o Shinigami. Seus trajes eram os de costume. Um General invisível a olhos mortais. Absolutamente indetectável. “Yo. “ Cumprimentou o garoto antes de sentar-se ao lado do menor. “Qual o motivo da pressa? E por que exatamente não foi ao colégio hoje? “ Perguntou sem quaisquer delongas. A segunda pergunta, entretanto, fora dita em tom mais baixo, enquanto ajeitava suas coisas no canto do banco. Do outro, que se sentava à sua direita, nenhuma resposta veio. Prestando mais atenção, Jered observou que ele encarava o chão. Parecia completamente perdido em pensamento. Algo devia estar o preocupando. “Ah, perdão. Disse algo...? “ Murmurou Kazi, parecendo surpreso com a presença do maior. “C-Claro, claro. O motivo de tê-lo chamado. Bem.... Estou em uma situação ruim.... Deixe-me te explicar direito. “
Quase uma hora de conversa resultou em Jered levantando do banco e indo até uma máquina de refrigerantes localizada poucos metros atrás do local onde inicialmente se sentavam, encostada em uma das paredes do tal edifício de controle que Kazi mencionara na mensagem que enviou. Colocando uma moeda na máquina, selecionou uma bebida amarga. Um gosto pessoal. Sua mente tentava se afastar da conversa de meros segundos atrás enquanto estava ali. O assunto era absurdamente pesado. Não somente a morte de um aliado e aprendiz, mas também a prisão de um amigo, irmão da vítima? Realmente, as coisas não estavam nada bem. Parando para pensar, Kazi falou por um bom tempo, quase não fazendo pausas. Sua garganta provavelmente agradeceria uma bebida também. Segurando a lata de alumínio preta em sua mão esquerda, levou outra moeda até a fresta na qual centenas de pagamentos indiretos eram feitos todos os dias. Do que será que ele gostaria? Olhando para trás, nada. O loiro nem se preocupava em observar os arredores. Jered suspirou. O edifício do qual estava próximo era, literalmente, uma casa de controle para o parque. Seu sistema elétrico era separado do resto da cidade, sendo manualmente controlado dentro da área restrita atrás das fortes portas de metal. Ali também eram mantidos os reservatórios de água que controlavam o chafariz localizado no extremo centro da praça. O local era raramente visitado, já que manutenções não eram necessárias com frequência.
Jered soltou mais um suspiro. Escolhera uma bebida similar à sua, porém doce. Levar em consideração a condição de saúde de seu colega deveria ter sido a coisa mais inutilmente bondosa que fizera o dia todo. Andou lentamente em direção ao banco. “Oe, Kazi. “ Chamou a atenção daquele que parecia absolutamente focado no pôr-do-sol. Seus olhos devoravam o brilho alaranjado que logo se esconderia atrás dos diversos prédios no horizonte. Quando o mesmo virou em direção à voz que o chamava, foi surpreso por uma lata que fora arremessada, sem muita força. Pegou-a do ar precisamente, em um movimento que pareceu ensaiado. Seus reflexos eram ótimos. Para alguém tão velho. “Sua recompensa por abrir o bico por mais de cinco minutos. “ Provocou o humano, dando um sorriso breve. Kazi acenou com a cabeça. Dessa vez, Jered se sentou à direita do outro. “Bem. Não sei se serei de grande ajuda.... Mas posso tentar. “ Disse ele, rompendo o lacre da lata. Kazi fez o mesmo. “Em troca, ajudarei a juntar os ingredientes para a poção correta. “ Murmurou o mesmo. Jered abaixou a cabeça. “Eu realmente... Só quero ter a minha vida de volta ao normal. Riscos assim não são bem o meu forte... “ Disse quase em um sussurro. Kazi aproximou a sua lata do garoto, atraindo sua atenção. Aparentemente, esperava que ele fizesse o mesmo. Jered voltou seu corpo a uma postura ereta e mais confortável para sua coluna, levando sua lata ao encontro da outra, fazendo um brinde de som estranhamente metálico. “Temos um trato. “ Disse Kazi. “A ajuda de um será recompensada pela ajuda do outro. “ Concluiu, levando a latinha até sua boca e tomando um bom gole. Jered apenas o observou, sem saber muito bem se deveria se contentar com sua aliança ou temer os possíveis riscos que correria durante os eventos que logo se iniciariam.
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