Shiro no Shinigami

2 New Days Come by, parte II


Notas iniciais
A segunda parte (de três) do Arco "New Days Come by", o prólogo de SnS. Boa leitura!

Não foi tão ruim quanto havia esperado. A manhã não demorou tanto a passar, e Jered pôde seguir livre de qualquer contato com o “mais novo aluno”, exatamente como desejava desde que havia colocado os olhos no mesmo. Ao som do toque para o intervalo, Jered rapidamente se levantou e se retirou, saindo do prédio e indo até a velha árvore, o local de costume para se reunir com seus amigos, fazendo com que os mesmos estranhassem a pressa do rapaz. Ele havia sentado no pequeno banco de pedra circular construído em torno da árvore, e sentiu-se mais aliviado ao notar que seus amigos se aproximaram e logo tomaram seus lugares. Em sua esquerda, Taiga o observava atentamente.

“Jered-kun. ” Mencionou o garoto mais alto do grupo. Certamente, um dos mais altos da classe deles. “Para quê tanta pressa? Olha, entendo que hoje é sexta, mas...” Taiga pausou, fazendo com que Jered virasse para o olhar. O garoto permaneceu em silêncio, com os lábios pouco abertos, como se tivesse o intuito de continuar a frase. (Perdido... em pensamento? Agora isso é novidade... Sempre acontece com a Kya e, até comigo mesmo.... Nunca vi ele ficar assim. O que possivelmente estaria pensando...?)

“-Ah, perdão. Estava pensando no tão falado aluno novo. O que acharam dele? ” Murmurou Taiga rapidamente mudando de assunto e desviando o olhar para tentar enxergar os outros. Jered não replicou, ficou distraído com as malditas palavras que seu amigo havia mencionado justo quando ele estava prestes a esquecer do moleque loiro que sabe-se lá o que era. Lembrou-se daquela tal primeira vez que o viu. Uma ilusão? Seus olhos o enganando? Não, com certeza era ele. Quando voltou a seus sentidos, sem sequer tentar ouvir parte da conversa que já havia começado há alguns minutos, capturou a atenção de todos com uma simples frase. “Eu já havia visto ele antes. ” Disse sem pensar muito. Realmente, ainda se sentia meio perdido, apenas falou aquilo que veio em sua cabeça, como um desabafo mental que acabou escorregando pela sua língua e deslizando para fora. Jered elevou sua mão esquerda lentamente e tapou os próprios lábios ao reparar que havia dito aquilo. Não que tenha sido ruim, mas não era realmente sua intenção. Os outros olhavam para ele em choque, talvez teria sido melhor ter mantido a boca calada. Só então, conseguiu perceber o por que. Olhando bem para Kya, viu seus olhos piscando como se tivesse levado um susto, e sua boca um tanto aberta. Havia claramente a interrompido, como se o que ela falava não fazia importância alguma ao assunto. Engoliu em seco antes de destapar sua boca e abaixar o olhar: “D-...desculpe. ” Murmurou arrependido de fazer tal coisa sem sequer perceber. Kya novamente, o encarou confusa e surpresa. “A-ah.. Não faz mal, só estou surpresa por você já conhece-lo! ” Exclamou ela sorrindo e coçando sua cabeça. Shun acenou concordando e logo relembrando o dia anterior: “Ah... Jered! Aquele seu personagem original parecia muito com ele! Ou... ERA ele? ” Disse ao garoto sentado centímetros à sua esquerda, colocando grande ênfase no final da frase e vestindo uma expressão provocativa em seu olhar. Um de seus olhares favoritos de usar quando “dialogando” com seus amigos, principalmente Taiga. Jered suspirou e olhou para frente, ignorando os olhares de todos ao responder. “Não conheço ele, apenas vi ele na rua um dia. Nada demais...” foi tudo que respondeu, pois quando preparava-se para dizer algo mais, notou que Kazimaru se sentava à cerca de 10 metros de distância deles, sozinho, perto à porta de entrada. Observando calmamente, notou que o loiro devorava balas de morango, uma atrás da outra. Embalagens vazias por toda sua volta, assim como uma grandiosa quantidade de pacotes ainda fechados próximos de si. Ele estava literalmente comendo um saco de 1kg de balas, saboreando uma por uma. Em 10 minutos de intervalo, cerca de 40% do saco já havia sido consumido. Absurdo. Doentio. Lhe faltaram palavras para descrever a cena horrivelmente doce que presenciava. Não conseguiu esconder a expressão de certo desgosto e desentendimento quanto ao que seus olhos haviam encontrado sob os fortes raios de sol daquele intervalo que nunca parecia ter um real fim. Limpou o suor de sua testa e suspirou. Quando virou-se novamente para continuar a conversar com os outros, notou que os mesmos também observavam a cena, tendo óbvias tempestades incontroláveis de pensamentos queimados pelo calor que chegava até o topo de suas cabeças apesar da proteção da árvore. Um som de passos vindo de trás deles foi como um tiro dado em um cemitério, tirando-os bruscamente do transe em que haviam se perdido. Os quatro pares de olhos curiosos tornaram-se para sua direita, observando como um aluno alto, com cabelos longos e negros passou por eles com indiferença, indo em direção ao antigo alvo da curiosidade deles. Shield ainda segurava o pequeno livro entreaberto com sua mão esquerda, tendo o dedo indicador no meio das páginas que pareciam frágeis e manchadas para que o livro não se fechasse por completo. Que livro era aquele que ele sempre estava a ler? Por quê aquilo parecia tão antigo? Ou melhor, de quando sequer era aquele livro? Que língua era aquela? Bem, não eram perguntas para se fazer agora. Shield sentou-se a cerca de 2 metros à esquerda de Kazi. Ambos pareceram não notar a presença um do outro, apesar de que era mais do que óbvio que Shield havia feito isso propositalmente. Jered mudou de opinião. Estavam, na verdade, ignorando um ao outro. Eram as figuras perfeitamente idênticas. Ambos sérios, solitários, calados.

Kazi desembalou mais uma bala, possivelmente a última daquele intervalo. Enquanto levava a mesma para sua boca, uma voz grave e monótona o fez interromper o movimento. “Nunca esperei que fosse verdade. Que patético. ” Murmurou Shield, voltando a ler seu livro. Kazi apenas virou seus olhos para o maior, sem mover qualquer outro ponto de seu corpo. “O que quer dizer com isso? ” Perguntou segundos antes de finalmente colocar a bala na boca, soltando-a suavemente sobre sua língua e pressionando-a contra o céu da boca. Shield suspirou. “Um Shinigami simplesmente passa a ser visto por humanos e, para piorar, passa a conviver com eles. ” Murmurou Shield, ainda concentrado em seu livro, não demonstrando interesse algum em suas palavras. Kazi, muito pelo contrário, foi afogado pelas mesmas. Palavras tão frias e sem valor vomitadas sem vontade alguma sobre sua pele pálida. Como elas podiam afetar tanto sua mente? Kazi permaneceu ali, imóvel, calado. Não sabia o que responder ou pensar. (Como... Ele...?) Pensou para si mesmo, tentando entender em que tipo de situação havia se metido. Shield deu um pequeno sorriso e se levantou. “Não entre no meu caminho, Shinigami. Não sei em que problemas você está envolvido, mas não se torne um para mim. ” Murmurou finalmente olhando nos olhos de Kazi por alguns segundos, antes de se retirar. Kazi poderia ter enlouquecido ali mesmo. Não fazia nem um dia que estava ali e alguém já sabia da verdade. Não, pior, sabia da verdade e poderia se tornar um grande obstáculo por causa disso. Com apenas um suspiro, Kazi tentou organizar os pensamentos que entravam em conflito dentro de sua cabeça. Decidiu não pensar nisso agora. Talvez de tarde seria melhor. Esperava não ter muito trabalho hoje.

O resto das aulas passou rapidamente, como esperado. Era normal que as últimas aulas sempre criassem a ilusão de serem mais curtas. Kazi suspirou ao olhar pela janela, apoiando o cotovelo em sua carteira e o queixo ao topo de sua mão esquerda. Em sua boca, segurava uma embalagem ainda fechada de uma bala. A última do pacote, mas não o último doce que consumiria somente aquele dia. A quantidade de doces daquela manhã seria suficiente apenas até por volta de 5h30m da tarde. Teve a atenção roubada, finalmente, pelo sino que indicava o fim das aulas, ouvindo uma enorme confusão de zíperes se abrindo e fechando, pessoas conversando entre si, rindo, se divertindo; carteiras e cadeiras se deslocando, sendo empurradas e provocando um ruído alto no chão do qual ninguém realmente parecia se importar. Se levantou após guardas os matérias que havia deixado sobre sua carteira e sai da sala pela porta dos fundos, indo diretamente escada abaixo até o térreo, onde trocou seus uwabaki por sapatos normais e, após fechar seu armário, foi embora. Indo diretamente para um parque na região central da cidade, Kazi pôde finalmente deixar seu estado de camuflagem para trás, voltando para seu traje formal de Shinigami. Ou melhor, sua própria versão da vestimenta para Generais, com um belo e longo sobretudo branco. Sentou-se no canto direito de um dos vários bancos de madeira espalhados pelo local. Com sua mão esquerda, puxou a enorme espada pelo punho e deitou-a com a lâmina sobre seu colo. Olhou seu brilho que refletia a luz do sol, assim como parte do céu azul e suas pouquíssimas nuvens. Deslizou a mão direita por sobre a espada, como se estivesse a acaricia-la ternamente. Os olhos que viam a si mesmos no reflexo da lâmina se espremeram por um segundo, como se no meio de todos os sons que banhavam o local, tivesse captado um único e específico que fosse de seu completo interesse. Em um movimento rápido, Kazi agarrou o punho da espada e saltou para frente, atravessando-a no peito de um homem que vestia um calção florido e uma camisa vermelha e larga. Os óculos de sol foram arremessados do rosto do homem com o impacto do golpe. Kazi não moveu um músculo sequer após acertar em cheio essa rápida estocada exatamente no meio de seu alvo. Os cabelos presos num rabo de cavalo atrás de sua cabeça demoraram um pouco a pararem de balançar. Ninguém na rua pareceu se importar. Ninguém na rua pareceu ver. Claro. Eram apenas humanos, e assim como eles, ele estava apenas cumprindo seus mais simples objetivos. O homem gemeu de dor por alguns segundos, conseguindo gruir algumas palavras. “Eu... Não queria ir... Embora.. ” Foi o que seus lábios desenharam quase que silenciosamente antes de seu corpo se desintegrar em minúsculos pontos luminosos, se tornando uma pequena esfera de luz do tamanho de uma bola de golfe. Kazi ergueu a espada, elevando-a por cima do ombro esquerdo e prendendo-a em algumas fivelas propícias para segurá-la que haviam nas costas de seu sobretudo. Abaixou-se então e coletou a esfera como se fosse apenas outra qualquer. Colocando-a na altura de seu olhar, observou-a por uns instantes. A essência de uma alma humana. Uma alma compactada. Apenas um item a ser coletado. Essa era sua vida há centenas de anos. Levou a esfera até uma pequena bolsa de couro presa em seu sinto, no lado direito de seu corpo. Soltou a fivela, colocou a esfera dentro e logo fechou a pequena bolsa novamente. Voltou a se sentar no banco como antes. Seria fácil notar outra alma perdida nas redondezas com tantos séculos de prática. Porém, para sua felicidade e tranquilidade, não teve mais nenhuma durante a tarde.

Seis e meia. Jered avisou a Praz que estava de saída com um grito vindo da porta de casa, fechando-a antes de se virar e seguir pela direita, em direção ao centro. Como era de costume, o início da noite de uma sexta-feira era o momento para que ele fosse até os mercados e comprasse os suplementos necessários para ambos. Eram apenas dois irmãos, não precisavam de muito. Dependendo de como havia sido a semana, nem precisavam comprar algo. Contando o dinheiro que havia em sua carteira, Jered fez uma série de cálculos matemáticos em sua mente para saber quanto dinheiro ainda restava em casa. Sob a belíssima luz do pôr-do-sol, entrou no parque central, por onde tinha que passar para chegar na pequena mercearia onde sabia que encontraria arroz barato. No caminho até lá, porém, precisou fazer uma pausa. Era apenas um dia depois e, novamente, se encontrava frente-a-frente com o maldito Shinigami vestido em branco. Paralisado, Jered preferiu dar mais atenção para a cena que assistia ao invés de ficar insultando a si mesmo por ter tomado aquele caminho em específico. Sentado em um banco, Kazi não estava completamente sozinho. Muito pelo contrário. Em sua perna direita, sentava-se uma garota. Cabelos longos cor-de-rosa, uma trança no lado direito de sua cabeça. Vestia uma calça jeans azul, uma camiseta simples amarela e sapatilhas pretas. Sentava-se virada para Kazi, observando a outra metade da cena que causava dores de cabeça em Jered. Na perna esquerda de Kazi, sentava-se outra garota. Essa, vestia um vestido verde claro com alguns babados e detalhes em branco. Com os cabelos curtos, porém também cor-de-rosa, tinha um arco com alguns spikes decorativos em seu cabelo. Ela, porém, estava claramente mais ocupada que a outra. Dava para ver que seus lábios estavam pressionados contra os de Kazi enquanto ela movia sua cabeça de tempo em tempo. Não, não só os lábios... O som meloso de salivas se misturando que vinha da direção deles indicava que suas línguas também estavam envolvidas. Jered não sabia se deveria apenas olhar aquilo ou sair dali de uma vez. Tarde demais. Com um último estalo, a conexão entre aqueles dois foi quebrada, deixando Kazi abrir seus olhos e olhar friamente em direção a Jered. O mesmo olhar que havia o mutilado horas atrás. As garotas também se viraram, curiosamente, sem sair de suas posições no colo dele. “Ora, ora... Veja só o que temos aqui... “ Murmurou a garota de cabelos curtos, com um sorriso malicioso, levando a ponta de seu indicador direito até seus lábios. Seus olhos tinham um estranho e hipnotizante formato espiralar no meio, como se houvesse algo de errado com ela. Não, toda aquela cena estava errada. Jered engoliu o que pôde do líquido que suas glândulas salivares mal conseguiam produzir. Kazi estreitou seus olhos como se algo estivesse o incomodando enquanto Jered tentava desesperadamente a voltar a ter controle de seu corpo que se encontrava em certo estado de choque.

Ambas as garotas se levantaram do colo de Kazi, parando uma ao lado da outra, enquanto o garoto se levantava. A diferença de altura entre elas era mínima, já Kazi, era um tanto mais alto que ambas. Vendo que eles se levantaram, Jered deu um passo para trás, sem muita expectativa do que estava prestes a acontecer. Observou tudo cuidadosamente, tendo a atenção presa na enorme espada nas costas de Kazi por alguns segundos. Era... isso? Iria ser morto agora? Não era culpa dele ter tido esse infeliz encontro novamente. Não era culpa dele ter que olhar nos olhos azuis e frios daquele garoto de quem não sabia nada. Espere um pouco.. Era isso. Era realmente isso. O olhar assustado de Jered logo se transformou num olhar de deboche e um tanto de irritação. O clima não ficou mais tão pesado quanto estava antes, e finalmente sua mente foi colocada de volta no lugar. “O que você quer? ” Perguntou Jered sem cerimônia alguma. Seu coração parou por um misero instante ao notar a ousadia de suas palavras apesar de quão assustado se sentira menos de 3 minutos atrás. O olhar de Kazi não mudou. Pareceu pensar um pouco e escolher as palavras para dar a resposta que julgasse mais correta. “Você vem comigo. “ Foi a resposta dele, novamente colocando um olhar de surpresa em Jered: “Garotas, tragam-no. “ Concluiu, tomando a frente deles e andando para uma direção um tanto desconhecida para Jered. A garota de cabelos curtos se aproximou dele rapidamente em alguns pulinhos, enquanto a outra, claramente mais séria, andou até ele. Cada uma delas se agarrou em um dos braços dele, puxando-o na mesma direção em que o Shinigami andava. Quem eram elas...? Ou... o que eram? Para onde sequer estavam o levando? Bem.... Havia apenas um jeito para se descobrir.

Foram cerca de 20 minutos de caminhada em pleno silêncio, até que chegaram em um prédio um tanto antigo. Um olhar crítico notava que as paredes estavam um tanto sujas e maltratadas, mas não parecia um lugar ruim. Talvez fosse por causa da idade. Não demoraram a entrar, indo até o apartamento de número 19. Kazi puxou a maçaneta, abrindo a porta que não se encontrava trancada e dando alguns passos a dentro. “Voltamos. Com um a mais. “ Disse ele colocando ênfase no fim da frase. Quando Jered e as duas garotas entraram, elas finalmente soltaram seus braços, dando a ele uma falsa impressão de liberdade. Olhando mais a frente, viu mais dois desconhecidos. Já eram quatro no mesmo dia. Um homem que aparentava ter por volta de 35 anos, vestindo um sobretudo marrom por cima de uma camisa preta, acompanhado por uma calça simples desbotada e um coturno preto. A outra pessoa, que se encontrava à direita do homem, era uma garota, bem mais baixa que ele. Aparentando cerca de 20 anos, tinha belos cabelos loiros e olhos azuis, assim como Kazi. Eram de fato um tanto parecidos... Parentes, talvez? Ela não se vestia tão formalmente como eles; e sim com roupas simples para se ficar em casa. Com uma calça curta e amarela, uma camiseta salmão um tanto longa e um olhar curioso, ela parecia tentar decidir entre dar as boas-vindas ou perguntar quem era o garoto que acompanhava Kazi.

“G-..General! O que um humano está fazendo aqui? ” Murmurou o homem com um tom de preocupação sobre a decisão de seu General. Espere... General? O moleque era um General? Quantos anos ele sequer tinha? Parecia um tanto absurdo, mas com tantas coisas estranhas acontecendo, Jered preferiu simplesmente ignorar e deixar com que a conversa fluísse entre eles, encostando-se na parede em silêncio. Aproveitou o momento para dar uma olhada ao redor do apartamento. Era pequeno e não tão sofisticado. À esquerda da porta de entrada, havia um sofá grande, de frente para um pequeno móvel que segurava uma TV. Haviam portas para dois quartos, lado a lado, e uma porta que provavelmente seria um banheiro. À direita da porta estava a cozinha. De fato, o local mais belo. Uma mesa de bilhar ocupava o centro. As bolas estavam em um canto junto com dois tacos. Atrás da mesa, estava o básico: Armários, geladeira, fogão, pia. O que chamava atenção era presença de uma adega no canto, quase cheia de garrafas de vinho. Jered imaginava se a mesa de bilhar era usada para comer, já que notou que haviam alguns banquinhos próximos dela, mas teve os pensamentos arrancados de si quando ficou claro que a conversa entre os outros havia terminado. O homem andou até estar parcialmente em frente a Jered e limpou a garganta, estendendo uma mão. “Meu nome é Hanako Yukine. “ Disse de forma simpática. Não era uma criatura antissocial como Kazimaru. Jered acenou com a cabeça e apertou sua mão. Yukine se afastou alguns passos. “Essa é Whitefang Melissa, mas pode chama-la de Mel. “ Disse indicando a garota loira com sua mão. Ela sorriu um tanto envergonhada com sua apresentação inesperada, mas claramente feliz em conhecer alguém novo. “Presumo que já conheça nosso General, Toukoga Kazimaru. “ Concluiu ele, fazendo com que Jered virasse seus olhos para ver o loiro que permanecia em pé à sua direita. Kazi acenou com a cabeça como se confirmasse o que Yukine havia dito. Kazi finalmente abriu a boca, entrando direito na casa e tirando seu sobretudo branco. “As duas garotas são Shira” disse ao apontar para a que tinha cabelos longos “...e Tenai. “ Terminou a frase, apontando para a de cabelos curtos. Ambas sorriram e acenaram para ele. “São demônios da luxúria“ adicionou Mel, erguendo um indicador ao ar “E como você deve saber, somos Shinigamis. “ Concluiu. Era muita informação para Jered, mas ele podia aguentar. Já estava começando a se acostumar com essas peculiaridades, como se isso fosse possível. Não negaria que eles lhe diziam a verdade, mas precisaria de um tempo para se acostumar com a ideia de que coisas assim realmente existiam.

Cerca de meia hora depois, Kazi observou o relógio e chamou a atenção dos outros que explicavam algumas coisas sobre a existência deles para Jered, esperando que ele colaborasse com o que estava prestes a acontecer. “Hora de irmos. “ Alertou Kazi, tirando a embalagem de um pirulito de cereja e levando-o até a própria boca. “Ir...? “ Replicou Jered confuso com a fala do General. Kazi deu alguns passos para frente. “Iremos te levar para ver uma bruxa, amiga nossa. Você é um humano. Nós não somos. A lei natural não permite que vocês nos vejam, mas por algum motivo você está conseguindo nos ver e interagir conosco. Não sabemos o que é, mas sabemos que ela pode dar um jeito nisso. “ Disse ele explicando a situação para o garoto. Jered hesitou por um instante, mas logo acenou com a cabeça. Preferia não se envolver nos negócios deles, e muito menos deixar com que o sobrenatural se tornasse parte de sua vida comum. Nascera humano, mortal, inocente. Seu ideal era continuar assim.

Logo partiram, voltando ao centro. Kazi os guiou por um beco já escuro, iluminado apenas pela pouca luz que a lua deixava deslizar por entre os prédios. Ao fim do beco, tomaram uma rota diagonal que os levou até uma pequena área aonde nada parecia existir. Yuki pegou um saquinho de seu bolso e dele, tirou uma espécie de pó, jogando-o no ar. O pó brilhou com a luz lunar e logo revelou que naquele local, onde nada parecia existir, realmente havia algo. Uma pequena casa de madeira. Parecia-se mais com um local de comércio do que com uma casa. Kazi se aproximou, batendo na porta antes de abri-la. “Estamos aqui, Mary. “ Disse ele em alto tom, para garantir que sua voz ecoasse pelo local e alertasse sua presença. O som de uma porta abrindo e fechando acompanhado do som de passos indicou que havia mais alguém no local. Após entrarem, sentaram-se ao redor de uma mesa, nessa que, apesar de ser pequena, parecia ser a sala principal. Não demorou muito para que a dona do minúsculo comércio chegasse para atendê-los. A moça ruiva vestia trajes um tanto indecentes. O vestido preto e rasgado nas bordas era muito curto, quase revelando suas roupas íntimas. Seus seios eram os maiores que Jered havia visto em toda sua vida, fazendo-o questionar o tamanho dos seios de todas as garotas que conhecia. Jered abanou a cabeça de um lado para o outro, se livrando de pensamentos idiotas. A mulher se sentou na frente deles, arrumando sua roupa antes de começar a falar. Piscou algumas vezes, olhando nos olhos de um por um com seus olhos alaranjados antes de pronunciar uma sequer palavra. “Como posso ajuda-los? “ Perguntou apoiando o queixo em sua mão direita. Kazi limpou a garganta. “Este humano, Utomo Jered, tem a estranha capacidade de nos enxergar. Semana passada lembro de você ter mencionado que conhecia uma poção de lock utilizando a erva que trouxemos para você. Acho que ela seria útil neste instante. “ Disse ele com o mesmo ar monótono que contém cada uma de suas palavras, cada uma de suas frases. Mary acenou com a cabeça, sorrindo sedutoramente. “Não irei cobrar esse serviço de vocês. Vejo que ele pode ser um problema para todo o equilíbrio. “ Murmurou ela, quase sussurrando a última parte. “Mel-chaaaaaaan, pegue as ervas pra mim, sim? “ Disse ao se levantar e ir até as prateleiras, pegando dezenas de outros ingredientes estranhos. Mel saiu da sala por um instante, voltando com um olhar de desentendimento, carregando um saquinho com ervas verdes. “Não lembro de termos pego essas... Moonlights deveriam ser azuis, não? “ Questionou, atraindo a atenção e olhar curioso de todos. Mary deu de ombros: “Faz uma semana, Mel. Julgando o tanto que essas plantas mudam, ela deve ter perdido a tonalidade azul por ficar guardada assim. “ Disse ao voltar a misturar os outros ingredientes. Levou o pote com a mistura e o saquinho com as ervas em uma sala mais à frente, fechada por cortinas roxas. Todos esperaram apreensivos, principalmente Jered. Só então ele notou que Shira e Tenai não estavam ali. Antes que pudesse perguntar sobre o sumiço delas, ouviu a voz da bela e jovem bruxa o chamar para a sala à frente. Levantou-se e seguiu em frente, passando por entre as cortinas e chegando numa sala mal iluminada por uma luz branca. Ali, Mary segurava um frasco de vidro com um líquido verde em sua mão direita. Em sua mão esquerda, segurava um isqueiro aceso logo abaixo do frasco. Após uns segundos, ela entregou o frasco a ele. “Beba. Até o fim. “ Instruiu ao garoto. Aproximando a boca do frasco de seu rosto, sentiu um leve cheiro de menta saindo do mesmo. Não poderia ser tão ruim assim. Mas mesmo assim, hesitou a beber algo do qual nem conhecia as propriedades ou ingredientes. Depois de respirar fundo, virou o frasco de uma vez, deixando a poção escorrer garganta à baixo. Terminando de toma-la, sentiu sua vista embaçar e esbranquiçar de uma vez só. Sem conseguir enxergar nada, foi guiado por ela para sentar-se na outra sala. Ali, ficou quieto, descansando por alguns minutos, até que recuperou sua visão. Abrindo os olhos, finalmente ergueu o olhar. Nada mudara. Todos ainda estavam ali. Conseguia ver tudo. “Droga...” Sussurrou, deixando todos saberem do fracasso da poção. Seus pensamentos de decepção e confusão se misturavam com a ira de saber que não tinha voltado para sua vida normal como queria. Isso o fez continuar a falar. “...é isso? Não tem mais volta?! “ Dizia claramente alterado com o resultado que contrariou suas expectativas. Mary abaixou a cabeça. “Desculpe... Pelo jeito, a poção não teve o efeito esperado... “ Disse com ar de culpa pelo acontecido. Jered mal conseguiu se controlar. “Que droga!! “ Disse ao chegar no ápice de sua ira, dando um soco na mesinha. Para a grande surpresa de todos, quando sua mão acertou a mesa de centro, uma chama de cor verde se acendeu sobre ela. A chama queimava sem machucar sua mão e tanto seus movimentos incalculáveis quanto sua cor eram extremamente atraentes ao olhar. Jered, tremendo, elevou sua mão com dificuldade até a altura dos olhos, observando a chama, tão abismado quanto os outros.

“...O que foi que eu me tornei...? “

Notas finais
Espero que tenham gostado! Fiquem atentos para a conclusão do prólogo, pois após ela, a história vai começar de verdade. Até a próxima~ (E por favor, me avisem se notarem qualquer erro de digitação ou concordância.)