Shin Sekai
4 A Chuva
Notas iniciais
– Cheguei...
Sem resposta, a garota apenas subiu as escadas devagar. Estava cansada de mais um dia de aulas, então somente seguiu para seu quarto. Fechou a porta, se livrou do uniforme e lançou-se na cama que lhe pareceu extremamente macia. Passou a mão sobre os cobertores e apreciou a boa sensação que o contato do tecido com sua pele lhe proporcionava.
“Avelãs... Eram realmente impressionantes!”
Bagunçou os cabelos tentando espantar os pensamentos. Não podia se ocupar com coisas assim. Deveria focar na escola. Manter sua bolsas de estudos não era uma coisa fácil de se realizar, mas a menina não desistiria, precisava dela para permanecer naquele colégio, e ele era sua única esperança de um futuro melhor do que os pais tiveram. Ela tinha que se agarrar a isso se quisesse continuar prosseguindo.
As lágrimas ameaçaram cair. Ela precisava de um abraço, mas nunca ousaria pedir um. Seu orgulho não a deixava. E mesmo quando sua mãe, de repente, adentrou o ambiente, ela ainda se conteve engolindo o choro.
A mulher estava completamente encharcada, mas não expressava estresse.
– Ah, minha filha, você já chegou?! Desculpe, não consegui chegar cedo. Então não teremos jantar hoje também. Mas eu trouxe isso – disse levantando uma sacola que parecia vir de um loja de conveniências – vamos comer?! – mostrou um sorriso que permanecia forte mesmo após um longo dia de trabalho.
A filha a observou com orgulho daquele rosto. Ela ainda queria chorar, mas agora seus motivos eram outros.
– Não estou com fome mãe. Não pense tanto assim no jantar, você precisa descansar as vezes sabia? E essa comida não te faz bem, eu vou preparar alguma coisa saudável – olhou para a janela e observou as gotas que caiam impetuosamente – Vá agora mesmo tomar um banho quente, tire logo essas roupas molhadas, antes que pegue um resfriado – suspirou – francamente mãe, por que não esperou a chuva estiar para voltar?
– Se eu esperasse, você jantaria sozinha. E eu não queria ficar nem mais um segundo naquele lugar chato – fez um bico.
– Como é que conseguiu um emprego com essa atitude? – a garota pôs a mão na testa e balançou a cabeça negativamente.
– Emma, você parece uma velha, tomar um banho de chuva as vezes é divertido – disse a mulher despreocupadamente.
– Pare de falar besteiras e vá se trocar imediatamente – ordenou a menina.
– Tudo bem, mamãe – disse ainda, a jovem mãe, debochadamente enquanto partia para seu quarto.
A garota deixou escapar mais um suspiro. Saiu do quarto no intuito de ir à cozinha, foi então que percebeu que ainda estava de roupas intimas e se sentiu idiota por dar sermões à sua mãe vestindo tais trajes.
–x-x-x-
Com a chegada da manhã a menina se animou. Acordou com o pé direito e estava pronta para enfrentar mais um dia. Estava decidida, faria um pedido à seus pais. Algo que ela sempre quis, mas nunca teve coragem de dizer.
Se levantou rapidamente e alcançou sua cadeira de rodas antes que sua mãe a visse de pé e a repreendesse. Saiu do quarto enfestando o corredor de energias positivas.
– Ou, pra onde vai com toda essa agitação, Nami? – perguntou o irmão mais velho que, por acaso estava sentado no chão do corredor.
A menina mostrou-lhe seu sorriso extremamente animado, até seus olhos sorriam brilhantemente. O que deixou o rapaz impressionado, fazendo-o não tirar os olhos da pequena
– vou fazer algo que deveria ter feito a muito tempo.
Ele não entendeu, mas soube que era algo importante para ela, então decidiu encorajá-la.
– Então vá com tudo – disse afagando seus cabelos – mostre o quão forte você pode ser.
– Sim – gritou a menia, depois sumiu no fim do corredor.
Ela seguiu até a cozinha. Não escutou nem sequer um ruído por lá. Não havia ninguém ali, então se dirigiu à entrada e lá estavam eles. Pode ouvir as vozes de seus pais, que pareciam estar checando a caixa de correio juntos. Eles aparentavam estar felizes.
“Ótimo, essa é minha chance” direcionou sua cadeira de rodas à eles, confiante.
– Mãe... Pai...!?
– Sim, querida? – respondeu o pai, enquanto a mãe apenas a observou.
– Eu queria pedir algo à vocês...
– Algo? – perguntou a mãe curiosa.
– Sim, eu queria começar a frequentar a escola...!
–x-x-x-
O jovem já desgastado pela manhã, saiu pela porta da frete, porém avistando sua família que discutia em frente à casa, não teve coragem de prosseguir. Ao longe, Lucca pôde ver os olhos de sua delicada irmã, que a poucos minutos estavam cheios de vida e brilho, agora imersos em lágrimas. Sentiu o coração apertar e as lembranças lhe atingiram como um turbilhão.
Pôs as mãos na cabeça e não pôde evitar se agachar. Esfregou as mãos no rosto. Não ia se entregar àquilo, não podia. Se forçou a levantar, encarou mais uma vez seus pais e a irmã. Definitivamente não podia ficar ali.
Correu até o muro lateral da casa e o pulou. Continuou correndo como se o mundo estivesse explodindo atrás dele. E as lágrimas insistiam em fugir de seus olhos. Ele as secava teimosamente, mas elas não paravam.
A chuva da noite passada havia voltado. Os dias atuais eram quentes, e a chuva forte de verão visitava aquela pequena cidade de vez em quanto.
Sentiu a água fria invadir seu uniforme escolar e continuou seguindo sem se importar. Agora seus cabelos negros molhados tampavam, quase que totalmente, sua visão. Que já estava dificultada pelas lagrimas que se instalavam persistentes em seus realçantes olhos avelãs.
De repente, se destacando no cinza que a chuva trazia àquele dia, pôde observa uma figura alta, que segurava um guarda-chuva, surgir em seu caminho. Mas era tarde demais para frear ou desviar. Inevitavelmente os dois se chocaram, provocando a queda de ambos. E o objeto que o outro tinha em mãos foi pelos ares.
– Mas que porra é essa? Olhe por onde anda pivete – o mais alto dizia – Droga, estou ensopado.
– Desculpe – Se esforçou para não demonstrar o estado deplorável em que se encontrava.
Os olhares se encontraram entres as gotas daquela violenta chuva.
– Espera ai – o dono do guarda-chuva observou melhor o rapaz encharcado que se encontrava sentado a sua frente – você não é o alunozinho novo da escola?
Lucca continuou a encará-lo em silêncio.
– É você sim, esses olhos são inconfundíveis – deu um sorriso de canto – o que está fazendo correndo por ai nessa chuva? Sua mamãe vai ficar brava se você pegar um resfriado – disse relaxadamente.
– Vai se foder – respondeu o outro enquanto se levantava.
– Você tem uma boca suja em rapazinho, sua mamãe vai ficar decepcionada se te ver falando essas coisas – disse debochadamente o loiro.
– Olha só, seu babaca, eu não tó pra brincadeiras hoje.
– Aaah, é mesmo? O bebê ficou irritadinho é?
– Qual o seu problema em?
– Eu é que pergunto – os dois estavam de pé agora, e se encaravam friamente – você tem o costume de sair mandando os outros se foderem por ai? Só fiz uma pergunta.
O jovem de cabelos negros suspirou passando a mão pelo rosto.
– Eu só não estou tendo um bom dia, ok!?
– Ah, e isso é motivo para sair insultando as pessoas?
– E o que você pode dizer? Não era exatamente isso que estava fazendo comigo agora? E também naquela vez com a coordenadora? – retrucou.
– Vou ignorar essas palavras – fechou os olhos e pôs as mãos nos bolsos – Você não pode sair por ai descontando seus problemas nos outros – continuou o discurso em seu tom despreocupado como se o que o outro disse não importasse.
– Mas o que é que você tá dizendo? – pôs os dedos nas têmporas – Eu não quero ouvir isso de você – disse dando as costas.
– Ei espera aí rapazinho, eu não terminei – disse o loiro pegando seu guarda-chuva e seguindo o mais baixo que se afastava lentamente.
–x-x-x-
Josh observava a chuva apoiado na soleira da janela. Não conseguia parar de pensar no que havia acontecido naquele dia em que conhecera a nova vizinha e em como agiu como um idiota. Ele só estava com a cabeça cheia. Queria relaxar e acabou causando mais problemas à pobre menina que já os tinha de sobra, pelo que ele pôde perceber.
“Como será que ela está agora?” pensava.
Um trovão o trouxe de volta. Ele respirou fundo, caçou o celular nos bolsos. Achando-o, encachou os fones e os pôs nos ouvidos. Escolheu uma música aleatoriamente e encostou a cabeça no vidro respingado da grande janela. A música estava alta, e antes que o distraído garoto percebesse, ele já estava viajando naquele som. Que era calmo e forte; Triste, mas ao mesmo tempo sensual.
Ele encostou a bochecha no vidro e sentiu sua algidez. A respiração do jovem o embaçou, e ele limpou-o com os dedos.
– Mas que baixo astral é esse? – disse Anna invadindo o quarto.
O garoto pulou com o susto e ela pôs-se a rir.
– Que negocio é esse de sair entrando? Não posso nem ter privacidade mais?
Anna se sentiu bem ao ouvir a voz chateada do jovem rapaz, ele parecia tão pensativo que ela havia ficado preocupada. Mas se estava brigando com a mesma daquela maneira, então estava tudo bem.
– Eu vim aqui para lembrá-lo que está atrasado para a escola, o senhor já faltou demais. Se continuar assim não conseguirá ser aprovado – fez uma pequena pausa para observar o rosto do garoto que se contorcia com a noticia – E além disso, a porta estava aberta, então não me preocupei em bater.
– Que seja. Você já pode ir, a mensagem já foi recebida.
– É mesmo? Pois não parece, o senhor ainda está sentado.
– Isso é porque não vou à escola.
– Mas eu acabei de dizer...
– Eu sei o que disse, mas eu não estou no clima de escola agora – A cortou.
– O que? – A criada se enfureceu com o modo narcisista com que o garoto pronunciava aquelas palavras – vai vestir seu uniforme agora. O senhor não está em condições nenhuma de escolher suas ações.
– Como assim? Eu sou …
– Acha mesmo que pode ir mal na escola depois de ter fugido de um evento tão importante como fez? Seus pais estão a um fio de te mandar a um reformatório.
O jovem virou o rosto. Aquilo era uma verdade inegável. Se arrastou até seu closet e pegou o uniforme.
– MAS QUE DROGA!!! – gritou para si mesmo.
– Vamos senhor Miller, a escola não pode ser tão ruim assim – disse Anna tentando encorajá-lo.
– Ah é? Então porque você não vai no meu lugar?
– Sabe que eu não posso fazer isso – agora ela ria.
O rapaz decidiu ignorá-la e se vestiu rapidamente. Pegou a mochila, o celular e os fones. Escorregou pelo corrimão da escada, escutando os gritos de Anna o repreendendo, mas não a deu atenção. Pegou um guarda-chuva em um suporte e partiu.
Seu motorista o viu correndo pelo jardim.
– Ei, senhor Miller, eu o levarei à escola.
– Não é necessário – disse o garoto ainda correndo com o guarda-chuva fechado – tire o dia de folga – sorrio gentilmente e acenou para um Baran que o observava surpreso.
– Mas senhor... – pensou em convencê-lo a entra no carro, mas sabia que seu esforço seria em vão, então apenas ficou olhando o jovem mestre que sumia em meio àquela chuva, que se acalmava lentamente.
–x-x-x-
– Que cara é essa Emma? – a menina cutucou a amiga que parecia não estar ali. A tirando de seus devaneios.
– O que...?
– Eu é que te pergunto. Onde estava? Porque aqui é que não era.
– Só estava pensando em algumas coisas.
– huuum, quem é ele? – disse a jovem com um sorriso maliciosa no rosto.
– O que? Como assim "ele"? Você só pensa em garotos, Sophia? – resmungou Emma.
– Calma – a garota não conseguia segurar o riso – eu tava só brincando, sei que você não é assim.
– Não tem graça – Para Emma realmente não tinha graça nenhuma. Ela estava preocupada com sua mãe, que não estava se sentindo muito bem pela manhã.
“aquela desmiolada, como pôde ir para casa debaixo de chuva” A menina voltou ao seu transe, não conseguia para de pensar na mãe.
Sophia, finalmente parando de sorrir, fitou uma Emma que insistia em viajar. Se perguntava o que tanto a deixava apreensiva. Ela era uma garota rica, com pais presentes e liberais, não tinha como nem imaginar os problemas que a amiga enfrentava. Mas se preocupava muito com Emma, porém a mesma nunca desabafava com ela nem nada parecido, então as vezes sentia uma certa distancia entre as duas. Isso a deixava triste.
– Ei, meninas concentrem-se na tarefa – disse o professor percebendo a distração das garotas.
– Oh, desculpe professor. Faremos isso – respondeu Emma, e começou a manusear os instrumentos à mesa.
– Ótimo – disse ele partindo.
– Odeio aula de trabalhos manuais – sussurrou Sophia de um jeito engraçado, fazendo Emma sorrir suavemente, e vendo isso, sorriu também. Se sentiu bem por poder ver o sorriso da companheira. Pena que ele durou pouco.
Não aguentou ver os olhos da menina se apagarem depois do sorriso e abraçou-a.
Um abraço confortável e cheio de boas intenções. A jovem de belos cabelos castanhos estava verdadeiramente angustiada com a situação da amiga. E Emma pode sentir isso, as aflições da menia foram dando lugar ao sentimento de amizade, e a menia a abraçou de volta.
– O que estão fazendo? – o professor havia voltado.
– Aaaah, será que não podemos nem ter um momento bonito sem ser interrompidas? – disse Sophia aborrecida.
– O que? – o professor pareceu confuso e irritado.
– Não é nada professor. Desculpe, não vai acontecer mais – Emma tentou se desculpa. Mas pareceu não funcionar.
Quando estava preparada pra levar uma bronca, a porta daquela grande sala se abriu e toda a atenção dos presentes se voltou às três figuras extremamente molhadas que adentravam o lugar.
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