Shikihime
8 VII - O Relâmpago
Denhaar
Heero acompanhava Yuna por dentro do castelo enquanto conversavam. Ambos nutriam uma natural curiosidade um pelo outro — ele lhe falava coisas sobre a guerra, Denhaar, a família real; ela de seu lado falava sobre seu mundo, a vida que levava, e ambos se surpreendiam cada vez mais com as revelações que faziam, principalmente ele que nada havia visto ainda do lugar de onde ela veio, tudo parecia ser completamente diferente das histórias contadas. Na verdade, havia até algumas semelhanças com a forma que a sociedade de Mithera se organizava.
-Então quer dizer que o seu país se chama Japão? – Ele perguntou tentando absorver as informações que recebera. – E o nome do seu mundo é Terra?
-Exatamente. – A garota respondeu – Na verdade a Terra é um planeta, e nem sequer é o único. Existem outros oito no sistema solar. – E agora a mente do rapaz parecia dar um nó, fazendo a garota coçar a cabeça, pensando em como poderia explicar de forma mais simplificada. – Bom, veja o sol – Ela apontou o astro rei através de uma janela – Nove mundos giram em torno dele, embora existam milhares de outros que nós sequer conhecemos ainda. A Terra é um desses nove.
-E Mithera também é? – Heero perguntou olhando-a com curiosidade. Yuna ficou confusa com a pergunta, se ele que vivia ali não sabia, como ela poderia saber?
-Bom... Eu não sei. – A garota agora quedou-se pensativa. Nada do conhecimento que possuía graças à escola e as notícias em seu mundo poderiam explicar a existência desse lugar tão surreal, era como uma dimensão paralela. Havia o sol iluminando o céu acima de si, o oxigênio corria em seus pulmões, a água que bebera e na qual se banhara, grama verde no chão, montanhas, árvores. Na verdade era como se estivesse na Terra, mas feito uma viagem ao passado e mesmo assim, um passado em que muito era completamente diferente do que aprendera nas aulas de história, então como seria possível? – Isso tudo é tão irreal... – Ela disse para si mesma, fazendo Heero olhá-la. – As vezes eu ainda acho que estou no meio de algum sonho maluco e que a qualquer momento eu irei acordar... – E riu um tanto desanimada, fazendo Heero ficar sem jeito desviando o olhar e indo até a janela próxima.
-As pessoas aqui costumam acreditar que tudo o que acontece em nossa vida tem algum motivo especial, e que todos os destinos no mundo estão interligados de alguma forma. – Heero lhe dizia com uma expressão longínqua.
-Você acredita nisso?
-Pra ser sincero, eu não sei... Eu não acreditava em muitas coisas até ontem, quando fui buscar você. – Disse com sinceridade, em voz baixa, parecia pensativo. Yuna o olhou com certa surpresa e aproximou-se.
-O que houve nesse momento?
-Você não se lembra de nada? – Ele perguntou voltando a sua atenção a ela. A garota desviou o olhar pensativa como se forçasse a memória a se lembrar e não tinha mais do que alguns resquícios.
-Eu não me lembro de tudo... Só de algumas imagens, mas eu não sei dizer se aconteceram ou se eu só sonhei com elas. – Ela dizia sem olhá-lo, embora fosse observada por ele. – Lembro de ter isto você no jardim perto da escola onde eu estudo... E de ter segurado a sua mão. – E então o olhou um tanto surpresa, por um momento lembrou-se que também havia algo nele lhe despertando uma sensação como uma lembrança longínqua de alguma coisa que acontecera muitos anos atrás, algo que ela não sabia se tinha ou não vivido, como um déjà vu. Heero por sua vez esperava que ela mesma pudesse lhe explicar por que ela havia chamado seu nome naquele momento sem nunca terem se visto, por que tinha o estranho sentimento de já conhece-la. Mas houve apenas o silêncio entre eles por alguns segundos enquanto se entreolhavam, até que, encabulados, se dessem conta da estranheza daqueles olhares curiosos e desviassem a atenção ao chão, sem saber o que dizer.
Naquele instante, um barulho vindo do salão lhes chamou a atenção; era o portão principal que se abria mais ao longe, dando entrada aos dois príncipes e Lune, que chegavam após terem acompanhado Frey e Dankell até a fronteira. Niccolai apareceu correndo, cruzando o recinto e jogando-se nos braços dos irmãos mais velhos, uma cena que arrancou de Yuna um sorriso. Mas qual não foi sua surpresa quando um sentimento estranho a invadiu ao observar ali, Lune, Niccolai, Ehren e Serge juntos.
Os príncipes eram idênticos um ao outro com exceção de alguns traços que marcavam a diferença de idade. Os olhos e cabelos castanhos, a expressão forte, o rosto de ângulos marcados, tudo lhes era comum. Já Niccolai era completamente diferente; os cabelos eram loiros como raios de sol, os olhos claros, a pele alva e o rosto arredondado. Talvez tivesse puxado a beleza mais delicada da mãe, pensou. Mas ainda assim não se furtava da sensação repentina de que havia algo de estranho ali, como uma barreira invisível que dividia em dois aquele quarteto.
-Um segredo... – Yuna sussurrou, fazendo Heero olhá-la sem entender.
-O que? – Perguntou, fazendo com que Yuna piscasse os olhos algumas vezes como se voltasse de algum tipo de estado hipnótico e o olhasse sem entender a pergunta.
-Hm? – Ela murmurou interrogativamente.
-Você disse alguma coisa que eu não ouvi.
-Eu disse? – A garota parecia não entender, fazendo Heero erguer uma sobrancelha, confuso. Tinha certeza que a havia ouvido dizer algo. – Acho que estava pensando alto. – A garota lhe disse, só então se dava conta de que realmente havia falado alguma coisa, mas não entendera por que teve tal pensamento. Tentava ignorar, mas somente naquele dia já era a segunda vez que tinha uma sensação estranha, como se pudesse enxergar além do que os olhos podiam ver.
-Yuna! – A voz de Lune chamou sua atenção, fazendo-a virar-se e vendo o sacerdote se aproximar a passos rápidos. Quando diante dela, segurou-a pelos ombros olhando-a seriamente. – Preciso que me diga o que viu hoje durante o almoço! – Yuna então lembrou-se da perturbadora visão que tivera mais cedo e baixou a cabeça, aquelas terríveis imagens voltaram à sua mente novamente.
-Viu? – Heero inquiriu sem entender.
-Preciso que me diga exatamente o que você viu. – Lune reafirmou.
-Do que vocês estão falando? – O rapaz estava alheio ao que acontecia, irritando-se quando Lune e Yuna novamente não lhe responderam.
-Foi... Foi só um pensamento, um sonho, as imagens eram distorcidas... – Ela dizia olhando o chão, confusa.
-Acredite ou não, há algo em você que não se pode ignorar. – O sacerdote ergueu sua fronte e a fez olhá-lo nos olhos, a expressão dela estava um pouco assustada. – Seja lá o que você viu quando olhou para Dankell, precisa me dizer. É muito importante, pode ajudar a todos nós.
-Eu... Eu vi o céu vermelho, uma batalha, pessoas morrendo... – Tais palavras fizeram Heero e Lune se surpreenderem. Foi no momento que Niccolai se aproximava acompanhada pelos irmãos. Heero desviou o olhar a eles e sorriu, sendo retribuído.
-Ehren, Serge! – O rapaz saudou os amigos, mais calorosamente Serge; tinham a mesma idade e eram amigos desde a infância.
-A senhorita Eudora ainda está aqui? – Ehren perguntou olhando curioso para Yuna.
-Eudora? – Heero não entendeu
-É, a amiga de Niccolai. – Serge a apontou com o olhar e Heero pareceu mais confuso ainda.
-...Eudora?!
-Er... É uma história meio longa, acho que agora posso lhes explicar, não posso, mestre Lune? – Niccolai perguntou, recebendo como resposta um aceno positivo do pensativo Lune. –Bom, venham comigo, eu vou lhes contar desde o começo. – E dizendo isso, Niccolai retirou-se com os irmãos. Heero olhou para Yuna.
-Não entendi nada. – O rapaz disse-lhe, mas quando ela abriu a boca para lhe explicar, Lune novamente a segurou pelos ombros e a olhou diretamente nos olhos bastante sério.
-Antes de desmaiar, você disse que o lobo havia se infiltrado entre os cordeiros, não foi isso? Quem é esse lobo, Yuna?
-Eu não sei... – A garota lhe respondeu confusa – Eu não vi o rosto...!
-Mas viu o que iria causar... – Lune desviou o olhar novamente bastante pensativo. – Você não gostou de Dankell quando o viu, não é mesmo? – E ao ouvir tal nome, Yuna novamente sentiu um calafrio, a simples lembrança dele a fazia sentir-se mal.
-Nem um pouco.
-Você sentiu algo quando olhou para ele?
-Senti... Um arrepio, uma sensação ruim. – A garota dizia exatamente as primeiras palavras que lhe vieram à cabeça. Lune arregalou levemente os olhos, não podia ser só uma simples coincidência, além do mais por que Yuna parecia começar a revelar que era de fato a pessoa da profecia, talvez não exatamente do jeito como ele esperava, mas ela tinha poder dentro de si.
-Acho que você teve uma visão do futuro... – Lune disse em voz baixa, fazendo os dois mais jovens arregalarem os olhos.
-Espera aí, ela viu uma batalha, isso quer dizer que... Denhaar vai entrar na guerra? – Heero perguntou incrédulo, Lune nada respondeu, apenas suspirou e olhou o chão. Seus pensamentos eram um mistério.
-É um aviso, devemos nos preparar e talvez possamos evitar a calamidade. – E dizendo isso, ele retirou-se.
...
O sol já começava a se por em Denhaar, deixando o ambiente daquele salão mais escurecido. Os criados aos poucos começavam a acender as tochas e candelabros que iluminariam aqueles corredores para a noite que estava chegando, enquanto os dois jovens conversavam na varanda. Heero olhava pensativo as primeiras estrelas que surgiam no céu arroxeado.
-Essas coisas de previsões não existem, foi só um sonho! – Yuna dizia em voz alta para si mesma enquanto, sentada encolhida no chão, fitava um ponto qualquer na superfície de pedra. – Por que vocês levam tão a sério esse tipo de coisa? – Heero suspirou e sentou-se também, encostando-se no parapeito daquele terraço.
-Eu também não acredito nessas coisas desse jeito, mas... Ver o estado como Lune estava me preocupa. – A garota o olhou, parecia um tanto assustada. – Você costumava ter esse tipo de coisa antes? – Só então Yuna se deu conta de que não, nunca havia sentido as coisas que estava sentindo ali naquele lugar. De fato ela sempre teve boa percepção para com as pessoas que deveria ou não confiar, mas não daquela forma, de se sentir mal na presença de alguém potencialmente perigoso, de ter os pensamentos que tinha. E agora essas imagens que viu em sua mente, tentava negar para si mesma, mas sabia que tinha sido muito mais que um devaneio ou sonho, ela estava bem lúcida. Arrepiou-se, aquilo era sem dúvida assustador. Suspirou e fechou os olhos, não queria mais falar naquele assunto, sentia-se profundamente incomodada com essa situação. Então olhou Heero ao seu lado e resolveu mudar o rumo da conversa, ao mesmo tempo em que satisfaria sua curiosidade.
-Afinal, quem é Lune?
-Lune é o líder da ordem dos sacerdotes em Denhaar, um dos mais influentes do mundo. – Ele comentou abrindo um leve sorriso. – Ele já foi a muitos países, é um bom diplomata e negociador, está sempre tentando promover a paz. Eu o conheço a minha vida inteira, mas as vezes parece que não sei nada sobre ele...
-É, ele parece ser bem misterioso. – A garota abriu um sorriso leve, dobrando os joelhos diante do corpo e apoiando os cotovelos sobre deles. – Que relação você tem com ele?
-Ele me criou depois que meu pai morreu. – O rapaz disse, deixando que seu sorriso fosse abafado por uma sombra de tristeza, fazendo Yuna olhá-lo encabulada.
-Nossa, eu sinto muito...
-Não tem problema. – O rapaz permanecia sério, mas sua voz soava calma e gentil. – Eu tinha 5 anos quando aconteceu. Como minha mãe já havia morrido também, eu fiquei sozinho no mundo e foi Lune quem me estendeu a mão. Ele me ensinou quase tudo o que eu sei, me deu um lugar pra viver. Graças a ele tive acesso ao castelo, me tornei um guarda real, fiquei amigo dos príncipes... Ele fez muito por mim e eu devo muito a ele. – Yuna sorriu ao ouvir a história. Heero falava como se fosse apenas uma boa relação de amizade e gratidão, mas ela sabia que havia muito mais sentimento ali. Ele podia parecer forte, mas aquele momento abriu na casca dele uma brecha pela qual só ela podia ser capaz de enxergar, e ela viu dentro dele muita solidão.
-Eu acho que entendo você. – A garota disse desviando o olhar ao chão, tais palavras fizeram Heero voltar seu olhar a ela.
-Entende?
-É, eu também perdi minha mãe quando era criança. Eu nem lembro direito como ela era... Mas ao menos eu tenho as fotografias que o meu pai guardou.
-Ela devia ser muito bonita. – Heero comentou reflexivamente sem prestar atenção nas próprias palavras.
-Por que acha isso? – Yuna perguntou ingênua. Só então ele pareceu se dar conta do que havia falado e do por que havia pressuposto que a mãe de Yuna era uma mulher bonita, afinal, a quem mais ela teria puxado? Instintivamente havia reparado que Yuna era uma garota bonita, mas nem ele mesmo havia percebido isso até então. O rapaz corou e olhou pro chão, completamente desconsertado. Ela não entendeu.
-Uh... Nada, eu só... Quis ser gentil. –Mentiu, falava sem olhar para ela e agradecia por ela não ter entendido o que se passara. Yuna simplesmente sorriu e voltou a falar.
-Ah, mas ela era muito bonita sim. – E olhou para o céu com pensamentos distantes, acima de si o dia ia se despedindo aos poucos. – O meu pai tem me criado desde esse incidente, mas toda essa história tornou ele protetor demais, mal me deixa sair de casa, brigamos muito por isso... – E uma leve tristeza pareceu tomar conta da garota novamente, fazendo Heero olhá-la com certa pena. Yuna era sem dúvida uma garota intrigante, toda a situação tecia em torno dela uma aura de mistério e de surpresas, estava descobrindo que ela era só uma garota comum, mas ao mesmo tempo parecia ser completamente diferente de qualquer outra. Em um único dia havia aprendido muito não só sobre ela, mas sobre coisas que jamais imaginaria que pudessem existir, além do universo ou do mundo oculto, coisas a respeito de suas próprias ideias.
-Não se preocupe, você logo vai poder vê-lo de novo. – A garota o olhou com um sorriso desanimado.
-Como você sabe?
-Bom... Uma pessoa me costuma dizer que devemos mentalizar coisas positivas e colocar toda a nossa força nesse pensamento, se acreditar nele com cada fibra do seu corpo, então tudo dará certo. — E ao ouvir tais palavras, Yuna abriu um leve sorriso, sentindo-se mais confortada. Ele a olhou com a mesma expressão, era engraçado como conseguiam se entender bem mesmo com tão pouco tempo. A lua cheia já prateava o céu daquele início de noite, iluminando os rostos daqueles dois que se entreolhavam de forma tão peculiar, mas nos olhos já havia um brilho que nem precisaria da luz do astro para se acender. Na noite anterior, Heero pensava diante da árvore que muita coisa estava para mudar com a chegada de Yuna à Mithera. Ele só não se dava conta de que essas mudanças já estavam começando a acontecer.
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Trovithera
A noite já estava alta quando Orwen se retirava do recinto, fechando a porta atrás de si e se voltando ao corredor luxuoso e parcamente iluminado por alguns candelabros adiante, mas qual não foi sua surpresa ao ser interrompido por um malicioso sorriso que se colocara em sua frente. Olhou sério a figura masculina que bloqueara seu caminho.
-Vejo que o ocupado general Orwen dispõe de bastante tempo livre para fazer longas reuniões particulares com a rainha. – O recém-chegado destilou veneno em suas palavras. Era um homem um tanto robusto, tinha rebeldes cabelos castanhos e profundos olhos escuros. O rosto tinha traços bem marcados e uma leve barba por fazer. Trajava uma capa preta e longa que encobria parcialmente a roupa que o indicava como dono de alguma patente ou título de alto calão, embora ainda inferior àquele a quem se dirigia.
-Ao contrário de você, Comandante Sirius Abrah, que parece não ter tido tempo para comparecer à convocação da rainha esta manhã. – Orwen disse-lhe sério, mantendo sua postura altiva. Embora tenha sido surpreendido, não estranhava a presença de Abrah ali, era típico dele ser sorrateiro e andar por aí sem ser notado.
-Eu estava tratando de assuntos importantes, que com certeza são do interesse da senhora. E também vim agora para dar um recado que você com certeza não terá problemas em transmitir a ela assim que possível. – Disse novamente com ironia, enquanto o outro apenas lhe olhou inquisidor. – A Rainha está precisando de um novo informante, diga-lhe que tenho a pessoa certa, e ela chegará logo com notícias de Denhaar.
-E essa pessoa é de confiança? – Orwen perguntou desconfiado.
-É de minha total confiança.
-Dizer isso não ajuda a credibilidade do candidato, Abrah. – E ao ouvir tais palavras Abrah cruzou os braços, olhando-o com ironia.
-Acha que eu colocaria os assuntos da Trovithera em perigo? – Perguntou. Orwen nada respondeu, apenas desviou o olhar e passou por ele, falando de costas.
-Amanhã entregarei o seu recado, não se preocupe. Por hora, a rainha não deseja ser incomodada em seu descanso. – E dizendo isso, ia seguir seu caminho e se retirar quando o outro novamente chamou a sua atenção.
-Claro, imagino que ela deva realmente estar precisando descansar... – Desta vez as palavras venenosas de Abrah irritaram Orwen. De repente, tudo o que o comandante viu foi a ponta da lâmina do general diretamente em sua garganta, o movimento de Orwen foi tão rápido que ele mal pôde vê-lo desembainhar a espada, Abrah sequer teve tempo de reagir. Mas mesmo acuado e sabendo que Orwen poderia tê-lo matado ali mesmo se quisesse, o sorriso cínico não saíra de seu rosto.
-O seu atrevimento ainda vai fazê-lo perder a língua. – Disse o superior em tom de aviso olhando-o com fúria nos olhos acinzentados e então guardou sua arma, antes de dar as costas e seguir seu caminho até desaparecer na penumbra.
-x-
Denhaar
Por que precisamos tropeçar e cair para poder aprender a observar o caminho pelo qual andamos? Um dia, quando envelhecermos e olharmos para trás, certamente nos lembraremos dos arroubos da mocidade que nos levaram a tantas escolhas e atos impensados. O mesmo aconteceu com nossos pais, nossos avós, e as gerações antes deles, e tem acontecido desde que o homem entende por si.
Ainda assim, os mais jovens tornam a repetir os mesmos equívocos, desafiando a experiência e os acontecimentos passados, buscando sua própria afirmação diante do mundo. A juventude é repleta de paixão em tudo o que faz, em tudo o que pensa, e muitas vezes deixa-se cegar por essa febre, esse anseio inacabável. E mesmo com todos os ensinamentos e conselhos passados pelos mais vividos, o ciclo se mantém infindavelmente, simplesmente por que o erro e o arrependimento são um fato absoluto da vida, como uma estrada espinhosa que será encontrada mais cedo ou mais tarde em alguma rota do destino que traçamos. Os mais velhos só são sábios hoje por que cometeram erros ontem, por que foram capazes de se arrepender e aprender com eles, mesmo quando são falhas capazes de afetar muitas vidas.
A figura acabava de passar facilmente a barreira de proteção montada pelos soltados nas escadarias que davam acesso à saída principal do castelo de Denhaar. Encapuzado de negro e munido de um grande bornal de suprimentos, ele seguia descendo as escadas até avistar seu cavalo amarrado na baia, um belo garanhão castanho de crina comprida. Selou o animal e prendeu sobre ele o bornal antes de montar e seguir sua cavalgada. Atravessou a galope a grandiosa cidade naquele início de madrugada e logo estava perto das muralhas. Seu agudo e peculiar assobio cortou o silêncio da noite naquela parte remota do reino e pouco depois três cavaleiros se aproximavam dele, todos portando sua armadura de combate, armas e suprimentos sobre as montarias. O cavaleiro tirou seu capuz e seu cabelos castanhos balançaram ao sabor do vento confortável daquela noite. Era Serge.
-Meu príncipe. – Os homens o saudaram desembainhando suas espadas e colocando-as diante do peito, reverenciando.
-Fico feliz que atenderam meu chamado, homens. – O jovem sorriu aos companheiros.
-Somos leais ao senhor, alteza. Estamos prontos para a missão! – Um deles disse.
-Então vamos, faremos o que deve ser feito pela justiça! – O Jovem rapaz ergueu um braço e foi acompanhado pelos demais, antes de atiçarem os cavalos e o seguirem através dos portões. Embrenharam-se pela densa floresta com um caminho certo a seguir, Serge liderava seus companheiros mais leais ao resgate da Princesa de Oran. Pensara a respeito do aviso que seu irmão e pai lhe deram e de fato um ataque frontal colocaria Denhaar sob a mira de um reino poderoso; então resolveu que tentaria agir à surdina, se infiltraria no exército inimigo que voltava pra casa com seu pequeno grupo e fugiriam com a princesa. Ele era hábil e astuto, sabia que tinha grandes chances de conseguir êxito e nesse momento o seu otimismo o blindava para a consciência de que também tinha um enorme risco de ser morto. Serge tinha um coração bondoso e uma enorme sede de justiça, porém sua imaturidade fez com que se deixasse iludir por palavras traiçoeiras, que acertaram em cheio sua necessidade de autoafirmação e seu desejo de fazer o que achava certo. Ele não tinha noção das consequências que qualquer erro em sua investida poderia proporcionar, e mais ainda, sua autoconfiança inabalável não o permitia pensar que poderia cometer um deslize.
...
O sol se elevava timidamente no céu daquele dia nublado quando o sono tranquilo da jovem era interrompido abruptamente por imagens entrecortadas que invadiam sua mente. Via um cavaleiro encapuzado que cavalgava sozinho contra uma imensa horda de inimigos ferozes. Os galopes do cavalo foram ficando cada vez mais altos e claros até se transformarem nas batidas da porta que a despertaram com certo susto daquele sonho estranho. Ela ergueu o tronco e suspirou aliviada ao finalmente acordar, embora a visão tivesse sido tão clara que ela parecia já estar acordada e presenciando-a, do mesmo jeito que acontecera no dia anterior. Por que estava tendo esses sonhos e pensamentos? Cada vez que acontecia a sensação era tão nítida que ela se sentia transportada a uma realidade paralela.
-Yuna? – A voz doce de Niccolai a chamou do lado de fora da porta, fazendo-a afastar os pensamentos.
-Entre! – Ela disse e a princesa logo adentrou o recinto, sorrindo para ela.
-Passou bem a noite? – A sacerdotisa perguntou simpática, abrindo as grandes cortinas e deixando a luz tímida daquele dia acinzentado entrar.
-Sim, mas... Tive um sonho estranho. – Yuna comentou enquanto se levantava, fazendo Niccolai olhá-la interessada.
-Sonho estranho?
-É, um cavaleiro indo enfrentar sozinho um exército... Foi aflitivo. – A garota disse sem levar muito a sério, mas a princesa aproximou-se dela enquanto a olhava com preocupação. – O que foi? – Yuna perguntou sem entender.
-Bom, sendo você quem é, não se pode ignorar os seus sonhos... Muito menos aquela visão estranha que você teve. – E ouvindo tal sentença, Yuna suspirou.
-Já disse que não tenho nada a ver com essa coisa de deusa, por favor... – A garota olhou para o chão num misto de impaciência e dúvida. Niccolai segurou-lhe a mão delicadamente.
-O fato é que o mestre Lune ficou muito preocupado com o que você viu ontem, ele acha que talvez seja um aviso para o futuro. Sabe, o mestre Lune também é capaz de ter previsões às vezes... – As palavras fizeram Yuna olhar a princesa com certa surpresa.
-Como assim?
-Bom, os sacerdotes são treinados para elevar sua capacidade espiritual e se comunicar com um plano além do nosso. Mas Lune é alguém ainda mais especial, ele elevou essa capacidade muito além de qualquer outro antes dele e por isso ele é tão respeitado. Ele ficou preocupado por que a visão que você teve aconteceu de forma semelhante as que ele já teve, e elas se concretizaram. – Yuna arregalou os olhos. Será que poderia ser possível ela ter sido capaz de ter algo como uma premonição? E se o estranho sonho que tivera e a barreira misteriosa que viu separando Niccolai de seus irmãos também pudessem ser premonições? Ao pensar nisso, quis contar a Niccolai sobre esses fatos, mas não o fez. Também queria entender o por que estava se sentindo diferente em relação às pessoas, por que sentia coisas boas e ruins de algumas delas. Nada disso havia acontecido antes em sua vida e ali, em dois dias, já fora capaz de ter tais sensações. Talvez o mistério que envolvia aquele mundo fosse muito maior do que a estranheza que o rodeava. – Bom... é melhor irmos – A loira falou, entregando a ela um vestido para que se trocasse – Lune quer apresentar você a meus pais e aos meus irmãos, desta vez oficialmente. – E riu. Yuna pegou o vestido e olhou-se no espelho, pensativa. Uma nova sensação invadiu o seu corpo, o sentimento de que algo muito sério estava para acontecer.
C.O.N.T.I.N.U.A...
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